SEMPRE-LENDO O MELHOR GRUPO DE TROCA DE LIVROS DA 
INTERNET

Onde est Teresa?


Pelo esprito Lucius 
Zibia Gasparetto 
 
1 Edio 
Dezembro-2007 
 
Centro de estudos Vida& Conscincia 
Editora Ltda.  
So Paulo-SP.



Aprendi a ler aos quatro anos de idade e, 
aos oito, muitas vezes passava horas 
sentadas, escrevendo histrias. Com a 
chegada da adolescncia, deixei esse 
comportamento de lado e s o retornei na 
forma de psicografia quando, anos 
depois, meu marido e eu, uma vez por 
semana, estudvamos os livros de Allan 
Kardec. Meu brao doa e a mo mexia 
contra minha vontade. Colocados papis e 
lpis na minha frente, comecei a escrever 
rapidamente.  
Ns freqentvamos as sesses da 
Federao Esprita e eu participava como 
mdium de incorporao, psicografava e, 
algumas vezes, utilizava o dom da 
xenoglossia (faculdade de falar ou 
escrever lnguas estranhas). Nessa 
poca, recebia contos, mensagens de 
orientao, histrias e, assim, os 
romances comearam a fluir.  
A sensibilidade se abre e vemos muitas 
coisas que no entendemos. Venho 
estudando h muitos anos e ainda no 
tenho todas as respostas. Mas sei que  
melhor disciplinarmos o emocional, 
enfrentar os medos e tomar posse de ns 
mesmos para que as energias dos outros 
no nos envolvam.  
Se conseguirmos isso e nos ligarmos aos 
espritos evoludos, a mediunidade  uma 
fonte de conhecimento, sade e lucidez.  
Estudar a vida espiritual abre as portas 
do futuro, derrotando a morte e nos 
mostrando que somos seres imortais. 
ZIBIA GASPARETTO 


LUCIUS 
 
ESSE AMIGO ESPIRITUAL, QUE VEM ME 
INSPIRANDO EM TODOS OS ROMANCES, 
TRABALHOU SEM REVELAR SEU NOME 
QUANDO EU COMECEI A PSICOGRAFAR. 
EU SENTIA SUA PRESENA, CHEGUEI A 
V-LO ALGUMAS VEZES, MAS NUNCA 
PERGUNTEI NADA. PREFIRO AS 
MANIFESTAES ESPONTNEAS. S 
QUANDO TERMINEI O LIVRO O AMOR 
VENCEU, NA LTIMA PGINA, ELE 
ASSINOU LUCIUS.  
A RESPEITO DE SUA TRAJETRIA S SEI 
QUE ELE REVELOU NO LIVRO O FIO DO 
DESTINO, EM QUE RELATA DUAS 
ENCARNAES NA TERRA: A MAIS 
ANTIGA COMO MEMBRO DO PARLAMENTO 
INGLS E A OUTRA COMO ESCRITOR E 
JUIZ NA FRANA. PARA MIM ELE TEM 
SIDO UM MESTRE. SUAS ENERGIAS SO 
PRAZEROSAS E QUANDO ELE SE 
APROXIMA, MEU PENSAMENTO TORNA-SE 
CLARO, LCIDO. SINTO-ME MUITO BEM.  
NOS PRIMEIROS TEMPOS EM QUE 
TRABALHAMOS JUNTOS, ELE COSTUMAVA 
ANDAR COMIGO E, CONFORME O LUGAR, 
AS CENAS QUE EU PRESENCIAVA ME 
ORIENTAVAM, FAZENDO-ME IR MAIS 
FUNDO NAS OBSERVAES. DEPOIS DE 
ALGUM TEMPO, ELE PASSOU A VIR 
APENAS NOS MOMENTOS DE TRABALHO.  
APRENDI MUITO, TANTO COM SEUS 
CONSELHOS QUANTO COM AS HISTRIAS 
QUE ELE ME PASSOU.  
ALGUMAS PESSOAS ME PERGUNTAM "POR 
QUE VOCʔ.  
NO SEI POR QUE ELE ME ESCOLHEU, MAS 
SINTO QUE OS LAOS QUE NOS UNEM 
SO ANTIGOS E CONTINUARO 
EXISTINDO PELA ETERNIDADE.  
ZIBIA GASPARETTO. 








PRLOGO                                                                                                      
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO 

 
Caminhando depressa pela rua solitria, 
Marlia pensava nos ltimos 
acontecimentos. A cena trgica de 
momentos antes no lhe saa da cabea.  
A noite estava escura e algumas pessoas 
caminhavam apressadas, ouvindo o rudo 
de alguns troves com receio da 
tempestade que se alinhava. Marlia, 
porm, estava mais voltada ao seu drama 
interior do que  chuva que ameaava 
cair.  
A cena de momentos antes a fizera rever 
seus dez anos de casada. Dez anos 
tentando levar adiante um 
relacionamento que desde o incio havia 
sido difcil, no pelas exigncias de Otvio 
como pelo temperamento maldoso, vendo 
em tudo e em todos ms intenes.  
Desde o nascimento de Altair, h cinco 
anos, ele havia se tornado pior, mais 
exigente, mais implicante. Apesar disso, 
Marlia tentara levar casamento adiante. 
Alimentava a esperana de que ele 
mudasse, entendesse melhor sua 
responsabilidade de famlia.  
Durante a tarde, algum colocara uma 
carta debaixo da porta de sua casa. 
Marlia a apanhara e no envelope no 
havia remetente, apenas seu nome. Abriu 
e procurou a assinatura: Um amigo! 
Comeou a ler:  
 Voc  uma boa pessoa e no precisa 
aceitar a companhia de um marido 
perverso, que no valoriza a famlia, 
entregando-se a toda sorte de vcios e 
envolvido no crime. Afaste-se dele antes 
que seja tarde. Se no acredita, v hoje  
noite, s dez horas, at o endereo abaixo 
e ter a confirmao do que estou 
afirmando. Um amigo. 
Marlia sentiu um aperto no peito. H 
muito tempo desconfiava das atividades 
de Otvio. Ele nunca comentava sobre seu 
trabalho, dizia apenas que era 
representante comercial, mas ela nunca o 
via anotando pedidos, saindo para visitar 
clientes; ainda assim, de vez em quando 
ele aparecia com dinheiro, pagava o 
aluguel sempre com atraso, comprava 
alguns alimentos, e quando ela lhe pedia 
algum dinheiro para as despesas, dizia 
que no tinha.  
Ela sabia que o que ele dizia no era 
verdade. Otvio vestia-se muito bem, saa 
quase todas as noites, voltava tarde, e se 
a via acordada ficava nervoso, brigava.  
Por esse motivo, mesmo que no 
estivesse dormindo, Marlia fingia a fim 
de evitar discusses.  
Ao ler a carta ela sentira necessidade de 
descobrir aonde ele ia quando saa  noite 
e acabar com o mistrio. Com o corao 
aos saltos, cinco minutos antes das dez 
ela chegou ao endereo indicado.  
A noite estava escura e ameaadora, mas 
toda a ateno dela estava focada na casa 
trrea que tinha diante de si.  
Nenhuma luz acesa, certamente no 
havia ningum. Fora bobagem acreditar 
em uma carta annima. Ela fora 
enganada. Em um gesto natural, 
empurrou a porta e para seu espanto, ela 
se abriu. 
Ficou alguns instantes indecisa, mas a 
curiosidade foi maior. Entrou e foi 
caminhando cautelosa, tateando as 
paredes em busca do interruptor.  
Sob uma luz fraca e amarelada apareceu 
uma sala de estar; os mveis estavam 
revolvidos, as gavetas abertas, como se 
algum chovesse estado l, procurando 
alguma coisa. Assustada, Marlia recuou, 
ia sair, quando teve sua ateno 
despertada para outra sala de onde saa 
uma luz plida. A curiosidade foi mais 
forte e ela caminhou at l.  
O que viu a fez parar estarrecida. Sob a 
luz fraca de um abajur, havia uma cama 
de casal e sobre ela um homem e uma 
mulher, ambos seminus, os lenis 
manchados de sangue e revirados.  
Marlia quis gritar, mas a voz morreu na 
garganta. Aterrorizada, sem sabre o que 
fazer, procurou o interruptor e acendeu a 
luz. Nessa hora reconheceu Otvio, a 
mulher, no muito jovem, mas bonita, era 
desconhecida.  
Marlia sentiu que ia desmaiar e reagiu, 
no podia perder os sentidos, precisava 
pedir socorro. Aproximou-se mais e 
percebeu que ambos estavam mortos.  
Horrorizada, ela respirou fundo e saiu 
correndo daquele lugar.  
Seu marido estava morto! Provavelmente 
ao lado da amante. Talvez um marido 
ofendido houvesse feito aquilo. O que 
fazer? Pedir socorro no adiantaria. Eles 
estavam mortos. Teve medo. Poderiam 
pensar que ela estivesse envolvida no 
crime. Decidiu ir embora. 
A chuva comeou cair, confundindo-se 
com as lgrimas que rolavam de seus 
olhos aflitos. De repente, um pensamento 
de medo a acometeu. E se algum a 
tivesse visto sair daquela casa? Nesse 
caso poderiam culp-la.  
Quem escrevera a carta talvez fosse o 
prprio assassino, preparando uma cilada 
para que ela parecesse culpada.  
Marlia tremia sem saber se era medo ou 
de frio, sentindo o corpo gelado, os ps 
encharcados e a gua escorrendo.  
A tempestade desabara violenta e no 
havia mais ningum na rua. Marlia, 
porm, no queria parar, com receio de 
ser vista prxima quele lugar.  
Parou no ponto do nibus onde havia uma 
pequena cobertura. Pouco depois ele 
chegou, ela subiu e notou que estava 
quase vazio.  
O cobrador olhou-a penalizado e 
murmurou qualquer comentrio que ela 
sequer ouviu. No via  hora de chegar 
em casa. Quando ia descer ouviu o 
motorista aconselh-la:  
- Tome um ch bem quente para no ficar 
doente!  
Marlia desceu e andou at sua casa, 
entrou e imediatamente foi tomar banho 
quente. Vestiu o roupo, enrolou a toalha 
nos cabelos e foi devagar at o quarto de 
Altair com o corao aos saltos.  
Abriu a porta lentamente e respirou 
aliviada. Ele dormia e Dorita, tambm. Ela 
no a vira sair, o que era bom. Voltou ao 
quarto, secou os cabelos, vestiu a 
camisola, mas no parava de tremer.  
A cena que presenciara ficara gravada em 
sua mente e ela no sabia o que fazer. 
Pensou em ligar para a polcia, mas teve 
medo. Para os pais de Otvio, nem 
pensar. Como lhes dizer que estivera na 
cena do crime e no chamara a polcia? 
Decidiu que o melhor seria esperar pelos 
acontecimentos. Ela no havia feito nada 
de mau. Ao contrrio, estava arrasada 
pela traio e pela morte do marido. Era 
uma vtima, no uma criminosa.  
Mas o fato de no falar a ningum o que 
tinha visto a deixava aflita. O que dizer 
quando a polcia viesse para dar-lhe a 
triste notcia? Suspeitaria dela? Afinal, 
uma mulher ciumenta  sempre perigosa. 
Mas apesar de haver sido trada, Marlia 
estava triste pela morte de Otvio. Era 
um aperto no peito, uma sensao de 
perda e piedade pela morte terrvel que 
ele tivera.  
Deitou-se, mas no consegui dormir. 
Ficou se revirando na cama, lutando com 
os pensamentos tumultuados e desejando 
esquecer, sem conseguir.                              
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO  

                                                       
 
CAPTULO 01                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO 
 
 
Marlia abriu os olhos assustada e olhou 
em volta. Por um instante pensou que 
nada havia acontecido e seu marido 
estivesse dormindo ao seu lado. Mas no 
havia ningum. Sentia a cabea pesada e 
o aperto no peito continuava. Havia 
pegado no sono quando o dia j estava 
amanhecendo. Olhou no relgio: sete 
horas.  
Altair j deveria estar se vestindo para ir 
 escola. Levantou-se, lavou-se, vestiu 
um robe e foi ai quarto do filho. O menino 
no queria levantar e Dorita tentava faz-
lo vestir com dificuldade.  
Marlia aproximou-se: 
- Deixe comigo. V aprontar o caf.  
Dorita saiu aliviada, e Marlia, alisando a 
cabea do menino, disse:  
- Vamos filho. Est na hora. No era hoje 
que voc ia comear a jogar no time da 
escola? 
Essas palavras soaram como uma mgica. 
Altair abriu os olhos e pulou da cama.  
- Que horas so? Estou atrasado? 
- Ainda no. Mas est em cima da hora. 
Vamos ao banheiro. Eu o ajudarei.  
Em poucos minutos Altair estava pronto 
para tomar caf. Eles desceram e foram  
copa. O cheiro de caf gostoso fez Marlia 
recordar-se que desde que recebera a 
carta no havia comido nada. Sentia o 
estmago vazio e certa fraqueza.  
Sentou-se ao lado do filho, serviu-o, e 
enquanto ele comia, ela serviu-se de caf 
com leite, apanhou um po, passou 
manteiga e comeou a comer.  
Agora mais do que nunca precisava 
sentir-se forte para enfrentar o que viria 
logo mais. 
Dorita foi levar Altair  escola, que ficava 
a alguns quarteires dali, e ela voltou ao 
quarto para se vestir. Ao abrir o guarda-
roupa viu os ternos de Otvio, alinhados 
com cuidado e teve um sobressalto. Sabia 
que ele nunca mais voltaria para casa.  
Lgrimas voltaram a seus olhos, mas ela 
enxugou-as com raiva. No podia 
fraquejar. Quando a polcia aparecesse, 
precisava fingir que no sabia de nada. 
No podia contar que estivera na cena do 
crime e no quisera dar queixa.  
Caprichou na maquiagem, tentando 
dissimular seu abatimento. Talvez no 
tenha conseguido completamente, pois 
quando Dorita voltou da escola disse 
logo:  
- A senhora est abatida. No dormiu bem 
 noite? 
- . Perdi o sono, fiquei esperando Otvio 
chegar e como ele no chegou ainda 
fiquei preocupada.  
- No deveria. Ele j fez isso vrias vezes. 
Daqui a pouco ele chega.  
-  verdade. Bobagem minha.  
Dorita suspirou, ia dizer alguma coisa, 
mas desistiu. De que adiantaria? Por 
essas e outras  que ela no ia na 
conversa de homens. Nunca aceitaria um 
marido como aquele. Certamente, deveria 
estar com outra.  
Ele foi cuidar do servio e Marlia foi 
arrumar as gavetas de Altair, que sempre 
remexia tudo e deixava bagunado.  
As horas foram passando e nenhuma 
notcia. Na hora do almoo, Dorita havia 
ido buscar Altair e de volta com o menino 
perguntou:  
- Dona Marlia, o seu Otvio ainda no 
chegou? 
- No, Dorita. Estou muito preocupada 
- Vai ver que ele teve algum negcio 
urgente e precisou viajar. J fez isso uma 
vez sem avisar.  
- , poder ser.  
O tempo foi passando, j estava 
escurecendo quando a campainha tocou. 
Marlia estremeceu. Dorita foi atender e 
pouco depois voltou, olhando com ar 
assustado.  
- Dona Marlia,  a polcia.  
Marlia empalideceu e levantou-se 
imediatamente. Foi at a sala onde dois 
policiais a esperavam.  
- Dona Marlia Marques de Oliveira? 
- Sim.  
- Precisamos conversar com a senhora em 
particular 
Altair estado ao lado me, olhando-os 
com curiosidade.  
- Dorita, leve Altair para o quarto, veja se 
ele j acabou a tarefa da escola.  
O menino no queria ir, mas um olhar 
imperioso da me o fez obedecer. Quando 
ficaram a ss, ele continuou:  
- Podem falar. 
- Seu marido se chama Otvio de 
Oliveira? 
- Sim.  
- Ele est em casa? 
- No senhor. Ele saiu ontem  noite e no 
voltou.  
- E a senhora no ficou preocupada? 
- Um pouco, mas ele costuma fazer isso e 
s vezes at viaja sem avisar.  
Os dois policiais trocaram um olhar de 
cumplicidade, e depois um deles disse:  
- Infelizmente, as notcias que trazemos 
no so boas. Seu marido est morto.  
Marlia sentiu uma tontura forte e teria 
cado se um deles no a houvesse 
amparado. Apesar de saber a verdade, de 
ter visto a cena terrvel, ao ouvir a notcia 
dita cruamente pelo policial tornou-se 
mais consciente da verdade.  
Um deles correu  cozinha, apanhou um 
copo de gua e deu-o a ela:  
- Acalme-se. Beba.  
Ela apanhou o copo com as mos trmulas 
e bebeu alguns goles. Depois perguntou 
com a voz fraca:  
- Como foi? 
- Ele foi assassinado.  
As lgrimas corriam pelas faces de Marlia 
e ela no estava fingindo. Eram 
verdadeiras. A lembrana da cena que 
presenciara no lhe saa do pensamento.  
- A senhora sabe se seu marido tinha 
brigado com algum ou tinha inimigos? 
- No. Meu marido no trazia seus amigos 
em casa e nunca me contava o que fazia 
quando saa.  
- A senhora no perguntava? 
- Sempre, porm ele ficava irritado e no 
respondia.  
- Ele foi encontrado na cama com outra 
mulher, ambos mortos. A senhora 
conhecia essa mulher? 
- No. Quando ele passava as noites fora, 
eu desconfiava. Perguntava a ele brigava. 
Dizia que ficava bebendo com os amigos e 
cuidando de negcios. Com o passar do 
tempo no perguntei mais.  
- A senhora vai precisar vir conosco para 
reconhecer o corpo 
- Agora? 
- Sim.  
- Preciso avisar os pais dele.  
- Pode nos dar o nome e endereo, ns 
faremos isso.  
Marlia tremia e eles a observavam 
calados. Ela foi at a mesinha do telefone, 
apanhou um bloco e escreveu o nome, o 
endereo e o nmero do telefone dos pais 
de Otvio, destacou a folha e entregou 
aos policias.  
- Vou subir para me trocar, no vou 
demorar.  
Eles concordaram e Marlia subiu a 
escada, sentindo as pernas trmulas, as 
mos frias, o corao apertado. Assim 
que entrou no quarto, Altair correu para 
ela indagando:  
-  verdade que o papai est morto? 
Antes que Marlia respondesse, Dorita 
entrou aflita:  
- No consegui segur-lo. Infelizmente os 
policiais falavam alto e ouvimos o que 
disseram. Eu disse ao Altair que no era 
verdade.  
Marlia abraou o menino, dizendo com 
voz que procurou tornar firme:  
-  verdade, sim. Seu pai morreu. Mas eu 
estou aqui, com voc.  
Altair tremia e perguntou:  
- Voc no vai morrer, vai? 
- No. Vamos continuar juntos: eu, voc e 
Dorita. No tenha medo.  
- Com voc eu no tenho medo de nada. 
- Isso meu filho.  
- Agora eu preciso sair com os policiais. 
Mas assim que puder estarei de volta.  
- Posso ir com voc? Tenho medo de ficar 
sozinho.  
-  melhor ficar com a Dorita. No h 
perigo de nada. Saia um pouco, meu filho, 
preciso me trocar.  
Dorita puxou-o pela mo e eles saram. 
Marlia arrumou-se o mais rpido que 
pde, apanhou a bolsa, mas quando abriu 
a porta do quarto, Altair a estava 
esperando.  
Seus olhos aflitos procuraram os dela:  
- Eu quero ir com voc, tenho medo de 
ficar aqui. 
Eles desceram e Marlia disse aos 
policiais: 
- Meu filho est muito assustado. No 
quer ficar sozinho com Dorita.  
- Pode lev-lo com a moa.  
Dorita rapidamente fechou as janelas e 
saram. Alguns vizinhos estavam olhando 
curiosos e Marlia entrou rapidamente no 
carro da polcia, puxando Altair pela mo. 
Dorita acomodou-se em seguida e os 
policiais ligaram o veculo e saram.  
Uma vez no carro, um deles esclareceu:  
- Passaremos antes no local onde est o 
corpo para fazer o reconhecimento e 
depois teremos de ir  delegacia.  
Marlia arrepiou-se ao lembrar-se da cena 
que presenciar na noite anterior, mas 
sentiu-se aliviada ao perceber que no 
estava sendo levada para l.  
Passava das nove da noite quando 
entraram em um prdio onde algumas 
pessoas entravam e saam. Os policiais 
acomodaram os trs em uma sala e se 
foram. Pouco depois voltaram e um deles 
disse:  
- A senhora vem conosco, os dois 
esperam aqui. 
Marlia sentou as pernas tremerem. Altair 
segurou o brao da me e ela, procurando 
aparentar calma, disse: 
No tenha medo. Vou  sala ao lado e 
volto logo. Fique calmo. No vai acontecer 
nada.  
Os policiais a levaram por um corredor 
mal iluminado at uma porta onde um 
homem vestindo jaleco cinzento, f-los 
entrar. Havia algumas mesas vazias e 
duas onde estavam corpos cobertos com 
lenol.  
O homem encaminhou-os para uma delas, 
pediu a Marlia que se aproximasse, 
depois levantou a ponta do lenol. Ela 
olhou o corpo procurando controlar a 
emoo.  
-  ele!- afirmou sem conter as lgrimas. - 
 meu marido Otvio.  
- Tem certeza?- indagou um dos policiais.  
- Sim.  ele.  
O homem cobriu o rosto do morto 
imediatamente, e levou-a at a outra 
mesa, pedindo que se aproximasse.  
Ela percebeu que o outro corpo que 
estava ali era da mulher e sentiu uma 
tontura forte, suas pernas bambearam.  
Um dos policias segurou seu brao com 
fora dizendo:
- Coragem.  preciso que olhe para ela e 
veja se a identifica. No sabemos quem . 
Seu marido estava com os documentos, 
mas no achamos nada dela. A senhora 
precisa nos ajudar.  
Marlia respirou fundo e depois 
respondeu:  
- Est bem. 
O homem levantou a ponta do lenol e ela 
olhou. A mulher era mais velha do que 
notara naquela noite. Em seu pescoo 
havia uma enorme gaze que cobria um 
ferimento.  
- Pode nos dizer quem  ela? 
- No. No a conheo.  
- Est certa disso? 
- Estou.  
- Est bem. Vamos embora.  
Os policiais conduziram Marlia para fora 
da sala. Ela soluava e um deles 
entregou-lhe um leno de papel que ela 
pegou, enxugou o rosto, assuou o nariz. 
Ao chegarem  porta da sala onde Altair 
estava ela parou.  
- Preciso-me controlar-disse - Meu filho 
est muito assustado. No quero que 
fique pior. 
- Ele no se envolvia muito com o 
trabalho da casa. Era D. Marlia que me 
dizia o que fazer.  
- Sei. Que dizer que ele no conversava 
com voc? 
- S s vezes, para perguntar pela D. 
Marlia, quando no a via por perto. Ele 
quase no parava em casa.  
Monteiro fez uma ligeira pausa, depois 
continuou:  
- Ele tinha muitos amigos? 
- S se tivesse na rua, porque em casa 
nunca apareceu nenhum.  
- Pelo jeito ele no era apegado  famlia.  
- No mesmo. Ele mal olhava para o filho 
e brigava quando o menino falava mais 
alto ou corria pela casa.  
- Pelo seu tom percebo que no gostava 
muito dele.  
- No  porque ele est morto que eu no 
vou dizer a verdade. Eu no gostava 
mesmo dele.  
- Por qu? Alguma vez ele a maltratou? 
- No. Ele mal me dirigia a palavra.  
porque eu via como ele tratava a D. 
Marlia. Ela sim,  uma mulher bondosa, 
boa esposa e boa me.  
- Ele tinha motivos para no trat-la 
bem? 
- De forma alguma. Como eu disse, ela 
sempre foi uma mulher muito correta e 
vivia para a famlia, enquanto ele...  
- O que tem ele? 
- Saa quase todas as noites, muitas vezes 
nem voltava para casa.  
- Por esse motivo ela brigava com ele? 
- No, pelo contrrio. Se ela lhe 
perguntasse aonde ia ou aonde tinha 
estado, ele brigava. Virava o bicho. Tanto 
que com o tempo ela no perguntou mais.  
- Seu patro trabalhava em qu? 
No sei. Ele nunca falava sobre o seu 
trabalho.  
- H alguma coisa diferente ou estranha 
que voc tenha notado nos ltimos dias? 
- No.  
- Nem na noite do crime? 
- No senhor. Seu Otvio costumava 
passar algumas noites fora e at voltava 
no fim da tarde do outro dia. Teve uma 
ocasio em que ele foi viajar e no avisou 
nada. Ficou quase trs dias sem aparecer.  
- O que voc pensava disso? 
- Bom senhor delegado, para mim quando 
um homem casado dorme fora, tem 
mulher no pedao. Pelo que sei, ele no 
estava sozinho quando foi morto.  
- Voc nunca desconfiou de nada? 
- No senhor.  
- Est bem. Pode ir. Se lembrar de mais 
alguma coisa, ainda que lhe parea 
insignificante, entre em contato comigo. 
Tudo pode nos ajudar a descobrir que 
cometeu este crime.  
Dorita deixou a sala mais tranqila. O 
delegado mostrara-se cordial e ela se 
sentira valorizada por poder desabafar e 
contar que sabia.  
- E ento, como foi?- indagou Marlia 
quando a viu.  
- Bem. Eu estava com medo, mas o 
delegado soube conversar. Eu contei o 
que sabia. Disse a verdade.  
- Fez bem.  
- O que vai acontecer agora?  tarde e 
Altair est morto de sono.  
- Perguntei quando eles co liberar o 
corpo de Otvio, estou esperando uma 
resposta.  
Nesse momento, um casal entrou na sala, 
ela em lgrimas, ele com o olhar 
assustado. Vendo-os, Marlia levantou-se:  
- Dona Emilia, viu que tragdia? 
A mulher procurou conter-se dizendo com 
a voz abafada:  
- Eu ainda no estou acreditando! Isso 
no aconteceu com meu Otavinho! 
- Infelizmente,  verdade. Eu queria que 
no houvesse acontecido-respondeu 
Marlia, tentando abraa - l.  
Ele fingiu que no viu, voltou-se para o 
marido, abraando e soluando. Marilia 
deixou cair os braos desanimados. Ela 
sabia que a sogra nunca aceitara seu 
casamento com Otvio. Sempre que podia 
procurava deixar claro o que sentia com 
relao a ela, comentando com amigos e 
parentes que Marlia no era boa o 
suficiente para seu filho, um rapaz bonito, 
cheio de qualidades e com futuro 
brilhante.
Marlia no sabia como ela chegara a essa 
concluso, uma vez que Otvio no era 
como ela dizia. Era alto, forte, mas 
intolerante, fechado e maldoso. Embora 
ficasse revoltada com o comportamento 
da sogra, que chagava a dizer ao filho o 
que pensava dela, tentando separa-los, 
ela procurava no lev-la a srio.  
Nos primeiros dias de casada, Marlia 
perguntava ao marido porque a sogra a 
tratava daquela forma. Mas ele dera de 
ombros e lhe dissera que no se 
importava com o que a me dizia e que 
ela deveria fazer o mesmo. Proibiu-a de 
voltar ao assunto.  
J Herculano, seu sogro, era menos 
implicante e ficava em volta da esposa 
fazendo-lhes todas as vontades 
elogiando-h o tempo todo, indiferente ao 
seu mau humor contumaz. Ele sempre 
conservava um sorriso nos lbios fosse 
qual fosse  situao. Mas Marlia no 
confiava muito nessa postura do sogro.  
Emlia era desagradvel, esnobe, exigia 
do marido coisas difceis de suportar. 
Certamente, ele fingia aceitar para 
acalm-la. Contudo, esse procedimento 
contribua muito para que ela ficasse mais 
insatisfeita a cada dia e se colocasse na 
postura de vtima da ignorncia dos 
outros. 
Emilia continuava chorando abraada ao 
marido, que abatido, tentava acam-la.  
Um policial apareceu e Herculano 
identificou-se e pediu informaes sobre 
a morte do filho, solicitando autorizao 
para ver o corpo.  
- O delegado vai conversar com os 
senhores.  
- Eu quero ver o corpo!- pediu Emilia com 
voz chorosa.  Ainda no acredito que ele 
esteja morto. Pode ser um engano.  
- Infelizmente, no h nenhum engano. O 
corpo foi reconhecido pela esposa.  
Emlia lanou um olhar duvidoso sobre 
Marlia que havia s sentando novamente:  
- Ela pode ter se enganado. Eu quero ver 
esse corpo.  
- A senhora diga isso ao delegado. Agora, 
sentem-se vou avis-lo que esto aqui.  
O policial afastou-se. Emilia lanou um 
olhar de repulsa para as pessoas que 
esperavam ali. Ela no desejava sentar-se 
ao lado delas.  
Mas Herculano viu que havia dois lugares 
em um banco logo depois do lugar onde 
Marlia se sentara e conduziu a esposa 
para l. Contrariada, ela sentou-se 
empertigada.  
Vinte minutos depois, o policial voltou e 
convidou-os a falar com o delegado, que 
os recebeu atencioso, convidando os a 
sentarem-se a sua frente.  
- Meu nome  Monteiro- disse- Lamento o 
que aconteceu ao filho de vocs.  
- No acredito que esteja morto. Quero 
ver o corpo.  
- O corpo j foi identificado pela esposa, 
alm do que, no local do crime, havia uma 
carteira com os documentos dele.  
Emilia teve uma crise de choro:  
- No pode ser! Meu filho, no! 
Como foi isso?- indagou Herculano triste.  
- Em uma casa que no era a dele, foram 
encontrados dois cadveres, o de seu 
filho e o de uma mulher que ainda no foi 
identificada.  
- Uma mulher? Quem poderia ser?  
indagou Emilia admirada.  
- Ainda no sabemos. Na sala da casa os 
mveis estavam revirados e no quarto, os 
corpos do casal morto na cama. Estamos 
fazendo as primeiras investigaes e 
quero fazer-lhes algumas perguntas. 
Saber mais sobre a vida de Otvio para 
tentar descobrir alguma pista do 
assassino.  
- Estamos dispostas a colaborar. - tornou 
Herculano-, mas penso que no podemos 
fazer muito.  
- Neste momento todas as informaes 
so importantes. Quero que falem tudo o 
que se lembrar a respeito dele. Seus 
hbitos, seus amigos etc.  
- Fale voc- pediu Emlia.  
- Otvio sempre foi uma pessoa discreta. 
No tinha o hbito de falar sobre sua 
vida.  
- Qual seu grau de escolaridade? 
- Otvio no gostava de estudar. Com 
muito custo conseguimos que chegasse 
ao ensino mdio.  
- Ele tinha irmos? 
Desta vez foi Emlia que respondeu:  
- Era filho nico. O que ser de mim agora 
sem ele? 
- Otvio era muito apegado  senhora? 
- Ele no era apegado a ningum - 
interveio Herculano. - Ela  que era muito 
apegada a ele, era Deus no Cu e 
Otavinho na terra.  
- Otavinho sempre foi um bom filho. Era 
calado, mas de vez em quando ia nos ver 
e dava-nos dinheiro.
- Ele trabalhava em qu? 
- Era representante comercial. Tinha um 
escritrio e at um funcionrio.  
- Quero o endereo desse escritrio.  
Os dois entreolharam-se e no 
responderam logo. Depois Herculano 
disse:  
- No sei onde fica. Ele nunca me deu o 
endereo.  
- O senhor nunca foi l? 
- No. Como eu disse, meu filho era 
discreto, no gostava de falar muito e 
quando eu perguntava, ele se irritava, 
ficava nervoso. Ento Emilia ficava 
zangada comigo.  
O delgado olhou-os srio, depois decidiu:  
- Est bem. Esta foi uma conversa 
informal. Vamos tomar algumas 
providncias e voltaremos a conversar 
oportunamente.  
- Eu quero ver meu filho!- Pediu Emilia.  
- Vou pedir que os levem at ele.  
- Quando vamos poder fazer o enterro?- 
indagou Herculano.  
- No posse ser preciso. Depois da 
autpsia e de algumas investigaes o 
corpo ser liberado. 
- Meu Deus!- gemeu Emilia nervosa. - Eles 
vo cortar o corpo do Otavinho! 
- Acalme-se, Emilia- pediu Herculano-  
de praxe.  
Os dois deixaram a sala e Herculano olhou 
em volta, procurando a nora e o neto. No 
os viu e comentou:  
- Eu queria falar com Marlia e consolar 
Altair. 
- Eu quero ver Otavinho logo e ir embora 
desde lugar horrvel o quanto antes. 
Um atendente os chamou para leva-los 
ver os corpos com a inteno de saber se 
conheciam a mulher. Os policiais no 
tinham descoberto a identidade por que 
ela fora ferida nas mos e no puderam 
colher as impresses digitais, o que 
impedira sua identificao.  
A hiptese de que eles teriam sido mortos 
por um marido trado era vivel, mas 
havia um complicador: a desordem da 
sala sugeria que estivessem procurando 
alguma coisa e que teria sido mais de um. 
O casal foi morto na cama, o que afastava 
a probabilidade de luta.  
- O senhor viu onde minha nora foi?- 
indagou Herculano ao atendente.  
- Ela estava esperando para saber quando 
o corpo seria liberado. Mas como ainda 
no sabemos, ele foi embora.  
Levados ao necrotrio, diante do corpo do 
filho, os dois choraram muito e Emilia 
comeou a passar mal.  
-  ele mesmo! At agora eu achava que 
podia no ser nosso filho! 
Herculano abraou-a, tentando acalm-la, 
mas sentia o corao oprimido e decidiu:  
- Agora vamos sair daqui. Precisamos 
tomar um pouco de ar.  
Ele a puxou pelo brao e, apesar de ela 
querer ficar, acabou cedendo.  
- Antes de ir precisam ver a mulher que 
estava com ele e dizer se a conheciam.  
Emilia no queria, mas Herculano forou-
a a olhar o rosto dela. Eles disseram que 
nunca tinham visto.  
Uma vez fora da sala o atendente disse:  
- Podem ir embora. Quando o corpo 
estiver liberado ns os avisaremos.  
Eles saram cabisbaixos, pernas trmulas, 
peito oprimido. O rosto do filho e daquela 
mulher no lhes saa do pensamento.                                                                                   
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO 

                                                                                                               
CAPTULO 02                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

                                                                                                                                      
Marlia estava sentada na copa, tendo 
um bloco de anotaes a sua frente, 
calculando o montante de sua despesa 
mensal. Mesmo fazendo muita economia 
ela no sabia como iria manter a casa.  
Precisava procurar um emprego. Havia se 
formado em letras, porm nunca tinha 
trabalhado e, alm disso, estava bastante 
desatualizada.  
Encontrara algum dinheiro na gaveta que 
Otvio costuma deixar sempre fechada e 
que ela fora forada a arrombar, mas o 
montante mal dera para as despesas do 
enterro. Seus sogros no ajudaram em 
nada, pelo contrrio, ela fora forada a 
ouvir reclamaes da sogra que pretendia 
para o filho um enterro mais luxuoso. 
Marlia suspirou triste. Ainda no se 
refizera do golpe e a cena trgica que 
presenciara naquela noite fatdica no lhe 
saa da lembrana.  
Conversar com Altair sobre o assassinato 
do pai fora-lhe doloroso. Apesar de 
insatisfeita com as atitudes do marido, 
ela o poupava diante do filho. Preferia 
que ele no soubesse dos pontos fracos 
do pai e que guardasse dele uma 
lembrana melhor. Mas o menino, muito 
inteligente, percebera os fatos e ela no 
pde evitar que ele chegasse perto da 
verdade.  
Seus pais, que moravam no interior de 
So Paulo, na cidade de Rio Preto, haviam 
comparecido ao enterro tinham ido 
embora ao dia anterior. Apesar de no 
serem ricos, haviam lhe deixado algum 
dinheiro que ela desejava economizar 
pelo menos at que comeasse a 
trabalhar.  
Conversara com Dorita sobre a 
dificuldade que teria para lhe pagar o 
salrio, mas ela lhe dissera que ficaria 
trabalhando mesmo que Marlia no lhe 
pagasse.  
- Obrigada pela confiana, mas por 
enquanto no sei o que fazer nem quando 
terei dinheiro para lhe pagar. Se desejar 
trabalhar em outro lugar, compreenderei. 
Continuaremos amigas do mesmo jeito. 
- De jeito nenhum. Estou aqui antes de 
Altair nascer e esse menino  como se 
fosse meu filho. Alm disso, adoro 
trabalhar para senhora, que vai precisar 
que eu tome conta do menino quando 
encontrar servio. Vou ficar. Estou certa 
de que juntas encontraremos uma forma 
de resolver esse problema. Eu seu que vai 
dar tudo certo.  
Marlia a abraou comovida:  
- Voc  minha amiga e eu quero que me 
trate por voc. Otvio era quem exigia 
que me tratasse de senhora e eu nunca 
concordei.  
- No sei se vou me acostumar...  
- Vai sim. Eu me sentirei melhor dessa 
forma.  
- Est bem.  
Marlia voltou s contas. O pior era o 
aluguel. Seria preciso mudar-se para uma 
casa menor e mais barata. Mas havia o 
contrato. Teria de procurar o senhorio e 
conversar com ele.  
O telefone tocou, Dorita atendeu e 
chamou-a:  
- Marlia, o Dr. Monteiro deseja falar com 
voc. 
Ela atendeu prontamente. Depois dos 
comprimentos ele disse:  
- Preciso que venha  delegacia hoje. 
Quero falar com a senhora.  
- A que horas? 
- Dentro de uma hora. Estarei esperando.  
- Aconteceu alguma coisa? Encontrou o 
assassino do meu marido? 
- Ainda no, mas encontramos uma pista.  
Uma hora depois, Marlia chegou  
delegacia. Estava curiosa. O que iria 
descobrir sobre a vida do marido? 
Dez minutos depois foi introduzida na 
sala do Dr. Monteiro que a olhou srio e 
mandou que se sentasse na frente a sua 
mesa.  
- E ento doutor, o que descobriu? 
Ele perguntou com voz firme:  
- A senhora conhecia a casa onde ocorreu 
o crime? 
- No senhor 
- Nunca esteve l? 
Marlia estremeceu e hesitou um pouco 
respondeu:  
- No... 
- Suas impresses digitas foram 
encontradas em dois cmodos da casa. 
Como explica isso? 
Marlia empalideceu. O que temia tinha 
acontecido. S lhe restava contar a 
verdade.  
- A senhora mentiu e a aconselho a no 
esconder nada porque a partir de hoje 
passa a ser suspeita de haver 
assassinado aqueles dois.  
Marlia desesperou-se:  
- No doutor. No fui eu. Tenho horror a 
sangue, nunca seria capaz de cometer 
esse crime.  
- Otvio no era bom marido. No a 
tratava bem, passava muitas noites fora, 
certamente com a amante. A senhora 
tinha srios motivos para cometer esse 
crime.  
- Mas no fui eu... Juro... S fui l por 
causa da carta annima que recebi 
naquela tarde.  
- Que carta  essa? 
- Est na minha casa, no sei quem a 
enviou, estava assinada uma amiga, 
dizia que se eu desejasse descobrir onde 
meu marido passava as noites, fosse 
naquela noite s dez horas no endereo 
escrito embaixo. No contive a 
curiosidade. H muito eu me perguntava 
isso. Tambm perguntava a Otvio, mas 
em vez de me responder, ele brigava 
comigo. 
Lgrimas desciam pelas faces de Marlia 
que torcia as mos aflitas.  
- Quando cheguei l, a casa estava s 
escuras, pensei que no houvesse 
ningum. Mas quando empurrei 
levemente a porta, ela abriu. Procurei o 
interruptor e acendi a luz. A sala estava 
revirada, as gavetas abertas, tiveram 
medo e ia me retirar quando vi que no 
cmodo da frente havia uma luz fraca. Fui 
at l, o quarto estava iluminado por um 
pequeno abajur e eu vi os dois corpos 
sobre a cama.  
Ela fez ligeira pausa, a lembrana da 
trgica cena ainda estava viva em sua 
memria. Estava difcil continuar.  
Notando o quanto ela estava nervosa, o 
delegado apanhou um copo de gua e 
deu-o a ela:  
- Beba. Acalme-se.  
Marlia apanhou o copo com as mos 
trmulas e tomou alguns goles.  
- Continue...  
Ela respirou fundo e prosseguiu:  
- Suspeitei que fosse Otvio. Eu estava 
muito assustada, mas precisava saber a 
verdade. Ento, acendi a luz aproximei-
me da cama. O que vi foi horrvel, jamais 
esquecerei. Os dois corpos em meio aos 
lenis cheios de sangue, quase desmaiei, 
foi preciso segurar-me na mesinha ao 
lado da cama para no cair. Percebi que 
estavam mortos. O medo foi tamanho que 
sa correndo. Chovia muito e fiquei 
ensopada. Tomei um nibus e fui para 
casa.  
- Porque no chamou a polcia? Eles 
poderiam ainda estar vivos e terem sido 
salvos. 
- No, doutor. O rosto deles estava 
petrificado, tenho certeza de que estavam 
mortos. Pensei em chamar a polcia, mas 
tive medo. Se estivesse vivos eu teria 
feito isso, mas do jeito que estavam, de 
nada adiantaria. A porta estava aberta e 
logo algum perceberia e avisaria a 
polcia.  
- Teve medo do qu? 
- Eu imaginei que a carta poderia ter sido 
uma armadilha do prprio assassino para 
incriminar-me. E, infelizmente.  
Monteiro passou as mos pelo queixo 
vrias vezes, um gesto que fazia sempre 
que estava pensando e no respondeu 
logo. Marlia tomou mais alguns goles de 
gua, tirou um leno da bolsa e enxugou 
as lgrimas que ainda teimavam em 
aflorar.  
- Se est dizendo a verdade, a senhora 
pode ter razo. Guardou a carta? 
- Sim. Est na minha casa.  
- Nesse caso, vou mandar algum busc-
la. Ela pode ser uma boa pista.  
- O senhor estava se referindo s minhas 
impresses digitais quando disse ao 
telefone que tinha uma pista? 
- Tambm. Mas encontramos outras: a de 
Otvio estava por toda parte, porm no 
sabemos se as outras eram da mulher.  
- O senhor j sabe quem  ela? 
- Estamos investigando. Em breve 
saberemos. A senhora no sabe mesmo 
em que seu marido trabalhava? 
- Ele se dizia representante comercial, 
mas suspeito que minta.  
- Vamos investigar suas conta bancrias.  
- Ele no tinha contas em banco. 
Costumava pagar as despesas com 
dinheiro.  
- A senhora est enganada. Ele tinha duas 
contas bancrias e suspeitamos at que 
mandava dinheiro para o exterior.  
Marlia admirou-se:  
- O senhor tem certeza? Eu nunca vi 
nenhum talo de cheques.  
- Deve haver muitas coisas que a senhora 
no sabe. Ele guardava os tales e outros 
documentos na casa onde foi assassinado. 
Tudo faz crer que seus negcios eram 
suspeitos e operava l.  
- Estou surpresa. Nunca imaginei nada 
disso. Ele pagava o aluguel com atraso e 
dizia que estava com pouco dinheiro. O 
senhor j sabe quanto ele tinha no 
banco? 
- Ainda no.  
- Eu gostaria de saber. Estou sem 
dinheiro. Tenho apenas um pouco que 
meus pais me deram depois do enterro. 
Mas no vai dar para manter a casa mais 
do qu um ms, com muita economia.  
-  melhor no contar com esse dinheiro 
por enquanto. H fortes suspeitas de que 
seu marido se envolvia em negcios 
ilcitos e enquanto no for provado o 
contrrio esse dinheiro no ser liberado.  
Marlia suspirou resignada, depois disse:  
- Estou procurado trabalho, mas como 
nunca trabalhei no est sendo fcil. 
Aceito qualquer coisa.  
Monteiro a olhava pensativo. Apesar da 
suspeita que pesava sobre ela, ele sentia 
que Marlia falava a verdade.  
- A senhora pode ir agora, mas no se 
ausente da cidade. Tem de ficar a 
disposio da polcia.  
- Est bem, doutor. Se precisar de mim, 
sabe onde me encontrar.  
Marlia deixou a delegacia pensativa. 
Vivera dez anos com um homem que lhe 
era desconhecido. No sabia em que 
trabalhava, no conhecia seus amigos 
nem os lugares que costumava 
freqentar. Como pudera aceitar uma 
coisa dessas? Porque continuara vivendo 
ao lado de um homem que a maltratava, 
que no era bom nem para o prprio 
filho? 
Quantas vezes chorava desiludida, 
aturando as grosserias de Otvio, a sua 
indiferena com Altair? H muito 
compreendera que seu amor por ele foi 
iluso. Ele, que durante o namoro 
mostrara-se educado e solcito, assim que 
se casaram foi demonstrando seu lado 
verdadeiro. Mas foi depois que Altair 
nasceu que ela teve a certeza de que o 
que sentira no foi amor. O homem que 
ela imaginava que ele fosse  que 
despertara seu interesse e a pensar que o 
amava.  
Apesar dessa certeza, Marlia no teve 
coragem de separar-se dele. As poucas 
vezes que mencionara isso, provocava 
reaes to violentas que teve medo de 
tentar. Otvio ameaava sumir para 
sempre, levando Altair, o que a deixava 
desesperada. Ela sabia que ele seria 
capaz de cumprir a ameaa.  
Agora estava livre, mas por outro lado 
precisaria trabalhar para manter as 
despesas. O dinheiro era pouco, no 
podia perder tempo.  
Marlia chamou Dorita e pediu-lhe que 
fosse comprar o jornal. O que ela fez em 
seguida. Enquanto esperava ficou se 
perguntando que tipo de servio deveria 
procurar. Ela no tinha nenhuma prtica, 
a no ser nos servios caseiros.  
Quando Dorita voltou, alguns minutos 
depois, ela  havia decidido procurar o 
que encontrasse dentro de suas 
possibilidades. Quanto poderia ganhar em 
um emprego desses? Esse era o ponto 
mais difcil. O aluguel era caro. Enquanto 
morasse naquela casa, teria de pag-lo.  
Apanhou o jornal, abriu-o sobre a mesa, 
procurando a seo de empregos, e 
comeou a ler. Os que encontraram 
exigiam experincia comprovada, o que 
ela no possua e o salrio inicial no 
cobririam o montante de suas despesas.  
Depois de ler tudo, fechou o jornal, 
desanimada. O que fazer? Mais do que 
nunca se arrependeu de no ter pensado 
nisso antes. Perdera dez anos de sua vida 
naquele casamento infeliz, com medo de 
separar-se, agentar as conseqncias e 
no ter como sustentar o filho.  
A vida a colocara exatamente na situao 
que temera e era preciso enfrent-la.  
- Se ao menos eu soubesse como! Estou 
disposta a me esforar, a fazer qualquer 
coisa, mas o qu? 
Dorita, vendo-a desanimada, aproximou-
se.  
- No desanime-disse, tentando motiv-
la. - Ns vamos encontrar um jeito.  
Marlia olhou-a triste: 
- Eu preciso encontrar trabalho, mas 
nunca trabalhei fora, assim fica difcil. 
No tenho formao profissional. No sei 
como encontrar um emprego.  
- Deus no vai nos desamparar.  
- Voc sabe do pior. O delegado me 
chamou para dizer que sou suspeita de 
ter matado Otvio e aquela mulher.  
Dorita exclamou assustada:  
- Que absurdo! De onde ele tirou essa 
idia? 
Marlia foi at a gaveta da cmoda, 
apanhou a carta annima e mostrou-a 
Dorita:  
- Por causa disto. Vou contar-lhe tudo.  
Em poucas palavras Marlia contou por 
que fora quela casa na noite do crime e o 
que vira l. E finalizou:  
- Fui ingnua. Talvez o prprio assassino 
seja o autor da carta e tenha desejado me 
envolver para livrar-se da culpa.  
- H muita gente maldosa neste mundo. 
Mas esse delegado, com a experincia 
que tem, deve ter percebido que voc 
jamais seria capaz de cometer um crime 
brbaro como aquele.  
- Eu contei ao delegado toda a verdade, 
mas no sei se ele acreditou em mim. 
Hoje mesmo vai mandar um policial 
buscar a carta. Disse que eu no posso 
sair da cidade. Como vou arranjar um em 
pego sendo suspeita de um crime? 
- As pessoas so desconfiadas. No vai 
ser fcil. Teremos de trabalhar por conta 
prpria.  
- Por conta prpria? Em qu? Com que 
capital? O delegado disse que Otvio 
tinha dinheiro no exterior. Ele acha que  
um dinheiro ganho de maneira desonesta 
e por esse motivo no vou poder receb-
lo.  
- Teremos de comear com pouco 
dinheiro, devagar. Mas para quem tem 
vontade de trabalhar, logo ele vai se 
multiplicar.  
- O dinheiro que ainda nos resta d 
apenas para comer at o fim desse ms. 
Voc no entende que no temos nada 
para comear? O que poderemos fazer? 
Dorita pensou um pouco, depois 
respondeu:  
- As pessoas gostam de comer. Vamos 
fazer coisas gostosas e vender. Um pouco 
s de dinheiro que temos, dar para 
comear.  
- Voc pensa em fazer comida para 
vender? 
- Por que no? Coisas gostosas, petiscos. 
Sei fazer coisas deliciosas com pouco 
dinheiro.  
- Ningum vai querer comprar. As 
pessoas fazem na prpria casa.  
- Qual nada. Muitas adoram comprar tudo 
pronto. Se for bem gostoso, vai vender e 
muito. Voc tem receitas muito gostosa 
de salgadinhos, doces que D. Eugnia 
ensinou. At que eu aprendi! Ns fazemos 
alguns pratos e eu saio para vencer.  
- Tenho receio de gastar dinheiro e no 
dar certo.  
- Podemos experimentar com um primeiro 
prato. Aqueles pes de queijo de D. 
Eugnia so deliciosos. Sei fazer 
direitinho.  
- Os seus ficaram iguais aos da vov, 
melhores do que os meus.  
- Ento, em vez de ficar esperando um 
emprego, vamos comear hoje mesmo. 
Ainda temos o queijo que sua me trouxe 
do interior.  
- Tudo bem, vamos experimentar. Voc 
faz? 
Apesar de no acreditar que a sugesto 
de Dorita desse certo, o entusiasmo dela 
f-la sentir-se mais animada.  
- Enquanto voc pensar em uma forma 
de embalar.  
Marlia foi para seu quarto, na gaveta da 
cmoda havia uma caixa onde ela 
guardava algumas coisas. Abriu-a e 
dentre outros objetos havia uma pea de 
fita estreita de cetim vermelho. Sorriu 
satisfeita. Ela compraria alguns saquinhos 
de papel, colocaria os pes de queijo e 
amarraria com a fita.  
Foi  cozinha, onde Dorita j comeara a 
trabalhar, e disse-lhe:  
- Vou at a papelaria comprar alguns 
saquinhos de papel. Quantos voc acha 
que sero necessrios e de que tamanho? 
Dorita pensou um pouco, depois disse:  
- Estou fazendo duas receitas de po de 
queijo do tamanho que D. Eugnia faz. 
Voc  boa nas contas.  
- Est bem.  
Marlia saiu e voltou meia hora depois, 
trazendo o que precisava. No fim da 
tarde, os pes de queijo estavam prontos 
empacotados. Dorita sorriu satisfeita:  
- Esto lindos! 
Marlia calculou todas as despesas e fez o 
preo. Depois perguntou:  
- O que vamos fazer agora para vend-
los? 
- Deixe comigo. Amanh eu vou sair 
depois do almoo e tentar vend-los.  
Apesar de Marlia no acreditar que esse 
tipo de negcio desse resultado, sentia-se 
satisfeita por ter se ocupado e esquecido 
pelo menos por algumas horas a 
insegurana daquele momento.  
No fim da tarde do dia seguinte Dorita 
voltou e colocou nas mos de Marlia 
vrias notas e algumas moedas. 
- Vendi tudo!- disse triunfante-Se tivesse 
mais teria vendido. Fui a um salo de 
beleza, perto da casa da D. Rute, estava 
lotado e vendi tudo. As pessoas gostaram 
e algumas encomendaram para prxima 
semana.  
- Que bom! No pensei que conseguisse 
to rpido.  
- A Cleide, dona do salo, disse que eu 
poderia passar l todas as tardes para 
levar salgadinhos.  
- Estou comeando a acreditar que pode 
dar certo! 
- Claro que pode. Vou experimentar 
outras receitas e vamos ter variedades.  
- Eu sei fazer algumas coisas deliciosas 
que aprendi com a minha v.  
- Eu pensei em fazer para amanh 
empadinhas de palmito. O que acha? 
- Faa isso. Eu vou ver meu livro de 
receitas e escolher algo para fazer 
tambm. Se o dinheiro que ganharmos 
no der para todas as despesas, pode ser 
suficiente para nossa alimentao.  
- Do jeito que vi hoje, se trabalharmos 
bem, pode ser suficiente para muito mais.  
As duas continuaram conversando, 
fazendo planos para o futuro. Marlia 
sentia-se encorajada e disposta a 
esforar-se ao mximo para que essa 
primeira experincia desse certo.   
                                                                                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 03                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO
 
 
Dias depois, Marlia estava atarefada, 
ajudando Dorita a fazer po de queijo. 
Haviam recebido uma encomenda grande 
de uma freguesa do salo de beleza, para 
a festa de aniversrio de seu filho que 
completaria dez anos e adorava po de 
queijo.  
O telefone tocou e Marlia atendeu:  
-  o delegado Monteiro. Preciso que voc 
venha hoje  delegacia. 
- O senhor descobriu o assassino do meu 
marido? 
- Estamos investigando. A senhora dever 
estar aqui s duas horas. 
Marlia pensou um pouco, depois 
respondeu: 
- Est bem. 
Depois que desligou o telefone ficou 
pensativa. O que o delegado queria com 
ela? 
Se no encontrou o assassino, talvez 
tivesse descoberto alguma pista. 
Olhou o relgio, eram onze horas. Teria 
tempo para ajudar Dorita mais um pouco. 
Voltou  cozinha. 
- Dorita, o delegado quer que eu v  
delegacia hoje, s duas horas. 
- Logo hoje que temos esta encomenda ... 
No d para transferir para amanh? 
- No. Ele estava com uma voz firme, 
notei que tem pressa. Ainda temos 
tempo. S vou sair  uma e meia. Vou 
explicar-lhe nossa situao e pedir-lhe 
que me libere logo. 
s duas horas da tarde, Marlia entrou na 
delegacia e foi imediatamente conduzida 
 sala do Dr. Monteiro. Depois dos 
cumprimentos, ele f-la sentar em frente 
a sua mesa. 
- O que deseja de mim?- indagou ela. 
Monteiro fixou-a srio, estudando as 
reaes do rosto dela, disse: 
- Descobrimos que  a mulher que estava 
com seu marido. Trata-se de Teresa 
Borges de Azevedo, esposa de um 
empresrio muito rico. Ela morava com a 
famlia no Rio de Janeiro. A senhora a 
conhecia? 
Marlia meneou a cabea negativamente.  
- Nunca ouvi falar nela.  
- Tem certeza? 
- Tenho. Como j lhe disse meu marido 
nunca falava de suas amizades.  
- Procure lembrar-se. Ela tinha sessenta 
anos, mais de trinta de casamento, dois 
filhos moos.  
-  estranho que essa senhora tenha 
deixado a famlia para morrer aqui, ao 
lado do meu marido. No entendo. Apesar 
de t-los visto juntos na cama, custo a 
crer que ele estivesse procurando uma 
mulher to mais velha para relacionar-se.  
- Esse fato  estranho mesmo, alm do 
que o marido acreditava que ela estivesse 
descansando na Europa. Ficou chocado. 
Veio imediatamente para So Paulo, 
reconheceu o corpo hoje pela manh. Eu 
tinha esperana de que a senhora 
pudesse me dizer alguma coisa a mais.  
- Doutor, eu j lhe disse tudo o que sabia. 
Meu marido era um homem cheio de 
mistrios.  
- Vou interrogar novamente os pais dele. 
Talvez conheam a mulher.  
- No creio. Otvio no se abria com os 
pais. Eles no se relacionavam muito 
bem.  
- Mesmo assim, vou tentar. 
- O que mais o senhor deseja de mim? 
Como sabe. Fiquei sem dinheiro, ento, 
eu e Dorita estamos fazendo quitutes 
para vender.  como pensamos 
sobreviver, uma vez que nunca trabalhei 
e no tenho experincia para conseguir 
emprego. Hoje estamos com uma 
encomenda grande e eu gostaria de 
voltar logo para casa.  
- No posso liber-la ainda. O marido de 
Teresa vai chegar dentro de meia hora, 
desejo conversar com vocs dois, juntos.  
- No sei como isso poder ajud-lo nas 
investigaes. Eu se quer o conheo! 
- Precisa colaborar com as investigaes. 
Lembre-se de que enquanto no 
encontrarmos o assassino, a senhora 
continua sendo suspeita de haver 
cometido esse crime.  
Marlia suspirou triste e respondeu:  
- Est bem, doutor. Tenho todo o 
interesse me colaborar.  
Alguns minutos depois um policial entrou 
e disse que o marido de Teresa havia 
chegado.  
- Mande-o entrar-ordenou o delegado.  
Um homem alto, forte, cabelos castanhos, 
um pouco grisalhos, bem vestido entrou. 
Tinha o rosto moreno e olhos penetrantes 
que se fixaram curiosos em Marlia.  
Depois de cumpriment-lo, Monteiro 
disse:  
- Est  D. Marlia, viva de Otvio de 
Oliveira, morto com sua esposa. 
Ele estendeu a mo que Marlia apertou e 
disse: 
- Alberto de Azevedo. 
- Marilia Marques de Oliveira. 
- Sente-se, Sr. Azevedo e diga-me: 
conhecia Otvio de Oliveira? 
- No senhor.  
- Nem sua esposa? 
Ele meneou a cabea negativamente, 
parecia emocionado e nervoso.  
- No. No consigo entender o que est 
acontecendo. Custo a crer que Teresa 
tenha tido uma relao intima com aquele 
senhor. Estvamos casados h mais de 
trinta anos e minha mulher sempre foi 
muito correta.  
- Mas  verdade. Ela foi encontrada na 
cama com Otvio, seminua. No d para 
negar este fato.  
- Mesmo assim, custo a crer. Ns temos 
dois filhos moos. Osmar de trinta e dois 
anos e Vitrio de vinte e nove. Ela sempre 
foi muito dedicada  famlia. Eu vim para 
c sem acreditar que o corpo da mulher 
assassinada fosse dela. Liguei para a 
Itlia onde ela deveria estar, mas me 
disseram que Teresa nunca estivera l. 
Isso me assustou. Mas mesmo assim, 
duvidei. Tanto que at agora no contei 
nada aos meus filhos. Nem sei como dar-
lhes essa notcia.  
- Ela viajou para a Europa sozinha? 
- Com uma amiga. Nos ltimos tempos, 
Teresa andava deprimida, os mdicos 
aconselharam que ela sasse da rotina, 
fizesse uma viagem, fosse fazer compras, 
as mulheres gostam dessas coisas... Eu 
no pude acompanh-la. Tenho negcios 
importantes em andamento e naquele 
momento no dava para viajar. 
Ento ela encontrou uma amiga dos 
tempos de faculdade que estava viva e 
concordou em ir com ela.  
- O senhor conhecia bem essa amiga? 
- No. Teresa me apresentou pouco antes 
de viajarem. Chama-se Elvira.  
-  s isso que sabe sobre ela? 
- Sim. Como eu lhe disse elas foram 
colegas de faculdade. Teresa fazia 
filosofia e Elvira, letras.  
- Precisamos encontrar essa mulher. Ela 
deve saber o que pode ter acontecido.  
provvel que essa viagem nunca tenha se 
realizado.  
- O que me diz  um absurdo. Teresa no 
ia me enganar desse jeito.  
- Ns temos fatos, no suposies. Se 
quisermos descobrir o assassino, 
precisamos investigar todas as hipteses.  
Alberto tirou um leno do bolso e 
enxugou o suor do rosto. Estava 
visivelmente nervoso e abatido.  
Marlia, que esperava ser esclarecida por 
ele, no se conteve:  
- No consigo entender. Essa senhora era 
muito mais velha do que Otvio. Se no 
tivesse visto os dois juntos naquela cama, 
seria difcil acreditar.  
Alberto fitou-a srio e indagou:  
- A senhora conhecia minha esposa? 
- No. Nunca a vi antes. No sabia sequer 
seu nome.  
Alberto virou-se para o delegado:  
- Est vendo doutor? Este caso est muito 
estranho. Eu poderia jurar que minha 
esposa nunca foi amante desse homem.  
O delegado passou a mo pela testa. De 
fato, apesar das aparncias, era mais 
misterioso do que parecera  primeira 
vista.  
Marilia remexeu-se na cadeira inquieta:  
- O senhor conseguiu alguma pista sobre 
a carta annima? 
- Por enquanto apenas suas impresses 
digitais, o que deixa apenas duas 
hipteses: ou a senhora forjou aquela 
carta ou a pessoa teria usado luvas.  
- Eu no forjei nada. Como poderia se no 
conhecia aquele endereo? Est claro que 
a pessoa usou luvas.  
- Como eu lhe disse, h duas hipteses e 
a senhora continua como suspeita.  
Marlia levantou-se indignada:  
- O senhor acha que eu, uma mulher 
franzina, poderia ter lutado  faca com os 
dois e t-los vencido? Sempre agentei a 
violncia de Otvio porque ele era mais 
forte e eu no tinha nenhuma chance. 
- Por favor, sente-se D. Marlia. Ainda no 
tenho provas definitivas.  
- para mim, quem matou os dois foi  
pessoa que escreveu aquela carta e 
desejou incriminar-me.  
Ela sentou-se novamente e Monteiro 
perguntou para Alberto:  
- O senhor sabe pelo menos o endereo 
da amiga de sua mulher? 
- No. Teresa me disse que ela morava no 
Flamengo. No me deu o endereo.  
- No desconfiou de nada? Sua esposa vai 
viajar com uma desconhecida e o senhor 
no anotou sequer seu endereo? E se 
fosse uma pessoa suspeita? 
- Minha esposa nunca se relacionou com 
pessoas suspeitas. Eu no tinha porque 
desconfiar de Elvira. Teresa era muito 
cuidadosa ao escolher suas amizades.  
Monteiro suspirou desanimado. Apesar de 
eles continuarem investigando 
meticulosamente, ainda no tinham 
encontrado nenhuma pista. Na tentativa 
de encontrar alguma coisa a mais ele 
determinou:  
- Quero os dados de seus filhos. 
- Para qu? Eles no sabem de nada.  
- Vou intim-los. Preciso do depoimento 
deles.  
- Eu ainda no tive coragem de contar-
lhes nada.  
- Faa isso o quanto antes. Os jornais de 
amanh certamente vo noticiar o nome e 
a foto de sua mulher e eles sabero de 
qualquer jeito. No d para ignorar um 
crime!  
Alberto passou a mo pelos cabelos, 
aflito. Depois disse nervoso:  
- ...no vou poder evitar. 
- O senhor deseja mais alguma coisa de 
mim? - perguntou Marlia.  
- Por que pergunta? 
- Tenho muito trabalho ainda para fazer 
hoje.  
- Pode ir, mas no saia da cidade. Posso 
precisar da sua presena.  
Marlia levantou-se apressada. O 
ambiente da delegacia a deprimia, a 
presena do vivo de Teresa tambm.  
Durante o trajeto de volta para casa, 
Marlia no conseguia esquecer as 
palavras de Alberto. Que Teresa havia 
sido amante de Otvio era evidente, mas 
desde quando isso acontecia? Alberto 
dissera a verdade? Se ele fosse o 
assassino e autor da carta annima iria 
negar que suspeitava de sua mulher. 
Deveria sentir-se muito confortvel 
ouvindo o delegado dizer claramente que 
ela, Marlia, era suspeita. A carta tivera 
essa finalidade. 
Esse pensamento deixava-a nervosa. 
Teria sido melhor que ela tivesse 
ignorado a carta, porm a curiosidade foi 
mais forte.  
Ao chegar a casa, Marlia encontrou 
Dorita atarefada com a encomenda, lavou 
as mos e tratou de ajud-la. Quando ela 
perguntou o que o delegado queria, 
Marlia disse apenas:  
- Depois que terminarmos contarei tudo 
detalhadamente. Agora quero esquecer 
esse assunto.  
As duas entregaram-se ao trabalho com 
vontade.  
Depois de dar ao delegado o nome 
completo e o endereo de seus filhos, 
Alberto deixou a delegacia. Sua cabea 
doa, estava nervoso e aflito. Parou em 
uma farmcia, comprou alguns 
comprimidos, tomou logo dois. Se ao 
menos a dor de cabea melhorasse, talvez 
ele encontrasse as palavras que 
pudessem atenuar um pouco a realidade 
para dar a notcia aos filhos.  
Mas era intil. A verdade era trgica e ele 
no conseguia raciocinar claramente. 
Parecia estar vivendo um pesadelo e dali 
a pouco iria acordar e verificar que nada 
havia acontecido.  
Chegou ao hotel e o atordoamento 
continuava. Sentou-se no quarto, 
tentando tomar coragem. Para qual dos 
dois ligaria? Pensou em falar primeiro 
com Osmar. Ele era mais equilibrado do 
que Vitrio.  
Respirou fundo, tomou coragem, ligou 
para sua empresa e pediu para chamar o 
filho. Seu corao batia descompassado e 
sua voz estava um tanto apagada quando 
ele atendeu:  
- Pai? O que aconteceu? Voc est 
doente? Sua voz est diferente.  
- As notcias no so boas e estou me 
esforando para contar a voc.  
- O que voc foi fazer em So Paulo? 
Porque saiu sem nos avisar? 
- Fui intimado pela polcia para vir 
reconhecer o corpo de uma mulher que foi 
assassinada em circunstncias 
misteriosas. Eles suspeitavam que fosse 
de sua me.  
- Que loucura  essa? Mame no est de 
frias na Europa? 
-  o que todos ns pensvamos. Mas 
quando cheguei aqui, tive a maior 
surpresa...  
A voz dele morreu na garganta e Osmar 
falou assustado:  
- Pai, fale logo, estou assustado. Voc a 
reconheceu? 
- Infelizmente. O corpo era de sua me.  
Osmar ficou silencioso por alguns 
segundos. 
Depois disse:  
- Voc deve ter se confundido. Talvez seja 
apenas parecida.  
- No, meu filho.  ela. Eu reconheci o 
corpo.  
- Custo a crer! 
- Mas  verdade. A polcia pretende 
intimar voc e seu irmo. Prepare-se para 
vir a So Paulo.  
- Mas pai, a empresa no pode ficar 
abandonada. Voc sabe que ningum tem 
competncia para ficar em meu lugar.  
- No tem como evitar. E voc ter de dar 
a notcia a Vitrio, eu no tenho coragem. 
Sabe como ele era agarrado a ela.  
- Ele vai dar trabalho. No tenho 
pacincia.  melhor voc mesmo falar 
com ele.  
- Nada disso. Faa-me esse favor. Fale 
com ele e trate de recomendar ao Incio 
que cuide de tudo na empresa durante 
sua ausncia. Vocs fazem o depoimento 
e vo embora.  
- Em vez de procurar o assassino, esse 
delegado est perdendo tempo querendo 
nos interrogar. Ns no sabemos de nada.  
- Foi o que eu disse a ele. Mas no 
consegui nada. Vocs tero de vir. Mas 
penso que podero ir logo embora. 
Quanto a mim, terei de ficar pelo menos 
at que liberem o corpo. Ento, o levarei 
ao Rio para sepult-lo.  
- Isso no parece verdade.  
- Mas . Infelizmente. Estou com muita 
dor de cabea, tomei comprimido e desejo 
me deitar para ver se passa. No se 
esquea de falar com Vitrio.  
Osmar suspirou resignado. Ele no 
suportava o modo de ser do irmo. Muitas 
vezes recriminara a me, 
responsabilizando-a pelo excesso de 
sensibilidade de Vitrio.  
Desde pequeno ela fazia diferena entre 
os dois. Com ele era mais dura, direta, 
exigente; com Vitrio tolerava suas crises 
nervosas, dizendo que ele era muito 
sensvel e precisava apoi-lo.  
Osmar muitas vezes reclamara para o pai, 
dizendo que o irmo precisava de mais 
disciplina. Acreditava que ele estava 
fingindo e que se lhe dessem uma boa 
surra sua sensibilidade acabaria.  
Mas como a me era irredutvel e seu pai 
fazia-lhe todas as vontades, ele no 
conseguia o que desejava. H muito 
tempo os dois no mantinham um bom 
relacionamento. Eles conversavam 
apenas o indispensvel.  
Teresa sentia-se triste. Gostaria que tudo 
fosse diferente, 
mas se conformara, percebendo que 
ambos eram muito diferentes e que o fato 
de no estreitarem a amizade evitava que 
os desentendimentos se repetissem como 
quando eram adolescentes. 
Osmar desligou o telefone e resolveu ir 
embora. Estava escurecendo quando 
chegou a casa. Deixou o carro na entrada 
para que o caseiro o guardasse.  
Era uma casa imensa, rodeada de rvores 
e um jardim muito bem cuidado que a 
cercava por todos os lados.  
Indiferente  beleza do lugar, Osmar 
entrou e rapidamente subiu at o quarto 
do irmo. Ao chegar diante da porta, leu o 
aviso pendurado na maaneta: "Estou 
ocupado. No bata, no entre.  
Irritado, ele arrancou o aviso e girou a 
maaneta. A porta estava trancada por 
dentro. Bateu vrias vezes, com fora, o 
que fez com que a governanta aparecesse 
e dissesse:  
- Voc no leu o aviso? 
Osmar fulminou-a com o olhar e mo 
respondeu.  
- O que deu em voc? - continuou ela, 
aproximando-se. - Seu irmo est 
fazendo meditao e no pode ser 
interrompido.  
Apesar de irritado, Osmar no se atrevia 
a reagir. Ela fora criada de sua me desde 
o tempo de solteira, ajudara a cri-los 
com bondade e firmeza, mas com Vitrio, 
ela tambm era tolerante, protegendo-o 
sempre quando ele queria brigar com o 
irmo.  
- Aconteceu uma tragdia horrvel. No 
posso esperar o Vitrio querer me 
atender.  
- O que foi? - a indagou, olhando-o 
preocupada.  
- Papai ligou contando uma histria que 
custo a acreditar. Voc sabia o que ele foi 
fazer em So Paulo? 
- Sabia.  
- Ele disse que o corpo da mulher 
assassinada era o de minha me.  
Dinda segurou-se na maaneta da porta 
para no cair. Seu rosto estava plido 
quando ela disse:  
- Era ela mesma? 
- Era. Papai no quis nem falar com 
Vitrio. Estava chocado e passando mal. O 
delegado vai nos intimar e preciso falar 
com ele j.  
A maaneta rolou e Dinda apoiou-se na 
parede. Suas pernas tremiam. Vitrio 
apareceu na fresta da porta.  
- Por que voc se fecha desse jeito? 
Aconteceu uma desgraa e ns vamos ter 
de ir a So Paulo.  
Vitrio estava plido. 
Olhou o rosto de Dinda e abraou-a com 
fora.  
- Dinda, diga que  mentira o que estou 
pensando! 
Ela chorava em seus braos e no 
conseguia falar. Osmar olhou-os com 
raiva e atirou as palavras sobre eles:  
- Mame est morta. Foi assassinada em 
So Paulo. O delegado vai nos intimar.  
bom parar com isso. Chorar no vai trazer 
mame de volta. Seja homem ao menos 
uma vez na vida.  
Ele afastou-se irritado, enquanto Dinda e 
Vitrio, abraados, continuavam 
soluando. Depois, entraram no quarto e 
fecharam  porta. Quando conseguiu 
falar, Vitrio disse:  
- Ento era isso! Eu implorei para que ela 
no fizesse aquela viagem. Eu sabia que 
se ela fosse alguma coisa terrvel 
aconteceria. Mas ela estava determinada. 
Desta vez no quis me ouvir! 
- Estava marcado para acontecer. Voc 
sentiu.  
- No me conformo. Por que ela no me 
ouviu? 
Dinda abraou-o, tentando controlar-se. 
Precisava dar fora a ele. Ficaram assim, 
abraados, sentindo uma imensa dor no 
corao.                                                                     
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


 
CAPTULO 4                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO
 
 
Eram dez horas da manh seguinte 
quando Osmar e Vitrio chegaram ao 
hotel onde o pai estava hospedado. 
Bateram  porta do quarto e Alberto 
abriu. Estava abatido e nervoso. Os dois 
rapazes o abraaram e Osmar disse:  
- E ento, como esto as coisas? 
Alberto suspirou triste e respondeu: 
- Do mesmo jeito. A polcia ainda no 
liberou o corpo. Vocs j receberam a 
intimao? 
- No. Achei melhor no esperar que ela 
chegasse. Depois, desejei ver tudo de 
perto. Ainda no acredito que esse corpo 
seja de mame. 
Vitrio, que se conservara calado, 
interveio: 
-  ela. Eu tive um pressentimento de que 
ela no deveria fazer essa viagem, 
implorei para que no fosse. Ela, porm, 
estava determinada e no quis ouvir-me. 
- L vem voc com suas loucuras. O 
assunto  srio. No  hora para voc 
fazer seu show. 
- Vitrio est certo. Aquele corpo  o dela. 
No h como duvidar. 
Alberto hesitou um pouco, depois 
continuou: 
- Vou ligar para o delegado e perguntar 
quando vocs devem se apresentar na 
delegacia. 
-  bom pai, porque preciso voltar  
empresa o mais breve possvel. Tenciono 
falar com ele o quanto antes e voltar 
ainda hoje para o Rio de Janeiro. 
Alberto ligou para a delegacia, conversou 
com Monteiro que marcou para eles 
estarem l dali uma hora. 
- Antes de ir, preciso contar-lhes o que se 
sabe sobre o crime. Apesar das 
aparncias, no creio em nada do que a 
polcia diz, mas certos fatos inexplicveis 
ferem a honra de sua me e de todos ns. 
Vitrio no se conteve: 
- Mame sempre foi uma mulher 
maravilhosa, de sentimentos nobres. 
-  o que eu penso, meu filho. Mas o fato 
existe e precisamos enfrent-lo. Ao lado 
do corpo de sua me, foi encontrado 
morto um homem, e a polcia acredita que 
ele era seu amante. 
- Isso no pode ser! Ela no se atreveria a 
fazer uma coisa dessas! - disse Osmar 
plido. 
-  mentira! - gritou Vitrio indignado. 
Alberto suspirou triste. 
- Ningum mais do que eu lamenta o que 
aconteceu. Mas como explicar o fato de 
estarem ambos, lado a lado, na cama, 
mortos? 
- Ela estava deitada na cama com outro 
homem? - perguntou Osmar indignado.  
- Sim - balbuciou Alberto com um fio de 
voz.  
- Ningum pode saber disso! - tornou 
Osmar, bastante assustado.  
- Infelizmente no pude evitar. Deve 
estar tudo relatado nos jornais de hoje. 
No tive coragem de comprar nenhum.  
- Como no? Voc precisava ter impedido 
isso de qualquer jeito.  
- Como? 
- Oferecendo dinheiro.  
- Impossvel. Os jornalistas estavam no 
necrotrio e na delegacia como ratos, 
farejando as notcias. Fotografaram tudo. 
No havia como impedi-los. Nossa 
imprensa  livre.  
Osmar no se conformava:  
-  uma vergonha, pai. Como vamos 
enfrentar nossos amigos e clientes? 
Tenho vontade de no voltar mais para 
casa.  
- Mame  inocente, tenho certeza - disse 
Vitrio.  
- Vou ficar aqui, investigar esses fatos e 
descobrir a verdade. No posso permitir 
que o nome de mame seja jogado na 
lama.  
Osmar olhou para o irmo com desprezo:  
- Eles foram encontrados juntos na cama. 
No d para duvidar. Nunca imaginei que 
mame fosse to leviana.  
- No fale assim, meu filho. Essa histria 
est mal contada. Vitrio est certo. Com 
o tempo, a polcia vai descobrir o 
assassino e inocentar Teresa.  
- Eu estou indignado. Gostaria que o cho 
me engolisse. Vou precisar de muita 
coragem para voltar ao Rio. Vou pensar 
em um jeito de vencer essa desgraa.  
Alberto olhou para Osmar angustiado. 
Apesar de confiar em Teresa, havia 
momentos em que ele tambm fraquejava 
e suspeitava de que ela de fato tivera um 
amante.  
Alberto passou a mo nos cabelos como 
que querendo espantar os maus 
pensamentos, respirou fundo em busca 
de fora para continuar e disse:  
-  melhor vocs irem para a delegacia. 
- Quanto antes eu me livrar dessa 
formalidade, melhor - considerou Osmar. 
Eles chegaram na delegacia meia hora 
antes da hora combinada, tiveram de 
esperar que Monteiro voltasse do almoo. 
- Eu quero ver o corpo da mame. 
- Pois eu prefiro no ver. Para qu? Ela j 
morreu mesmo - disse Osmar. 
- Eu preciso ver - pediu Vitrio a um 
policial que estava ao lado deles.  
- S o delegado pode autorizar - 
respondeu ele.  
Pouco depois, Monteiro chegou, eles se 
apresentaram e depois de cumpriment-
los o delegado tornou:  
- Aguardem um momento. J vou cham-
los.  
Eles sentaram-se novamente um tanto 
impacientes. Dez minutos depois, um 
policial pediu a Osmar que entrasse na 
sala.  
Vitrio insistia, queria pedir ao delegado 
para ver o corpo da me, ao que o policial 
respondeu:  
- O Dr. Monteiro pediu para entrar um de 
cada vez. Espere um pouco mais.  
Monteiro pediu que Osmar se sentasse, 
esperou que ele confirmasse os dados 
pessoais e depois comeou a interrog-lo:  
- O senhor sabia que sua me estava em 
So Paulo? 
- No. Ela saiu de casa dizendo que iria 
para a Europa com uma amiga. Pensei 
que ela estivesse l.  
- Voc conhecia Elvira? 
- Quem  essa mulher? 
- Amiga de Teresa em cuja companhia ela 
saiu de casa para essa viagem.  
- Nunca ouvi falar dela.  
- Sua me costumava ter amigas sem que 
a famlia soubesse? 
- At ento eu acreditava que no. Mas 
no conheo essa Elvira.  
- Sua me foi encontrada morta, ao lado 
de um homem, ambos na cama, em trajes 
menores. Foram mortos a golpes de faca.  
Osmar remexeu-se na cadeira e parecia 
controlado. O delegado sentiu que seria 
difcil extrair alguma coisa dele e tentou 
provoc-lo, falando com certa malcia. 
Mas ele no se alterou.  
- O senhor parece estar falando de outra 
pessoa. Minha me nunca faria uma coisa 
dessas.  
- Que outra explicao teria para esses 
fatos? 
Osmar respondeu:  
- No sei. 
Monteiro olhou fixamente nos olhos dele 
querendo penetrar-lhe os pensamentos. 
Mas Osmar no parecia tenso, o que era 
inesperado. Afinal, sua me fora 
brutalmente assassinada e estava sendo 
considerada adultera.  
- O que pensa que pode ter acontecido? 
Suspeita de algum? Algum antigo 
empregado ou conhecido da famlia? 
- Minha me sempre foi uma mulher 
disciplinada. Costumava selecionar muito 
bem suas amizades. Esse acontecimento 
nos surpreendeu muito. 
Ela saiu para umas frias na Europa, 
estava um pouco cansada, s isso. Ainda 
estou tentando aceitar o que nos 
disseram. No tenho nenhuma opinio 
sobre o fato. Alis, eu vim esperando que 
o senhor me dissesse alguma coisa que 
pudesse nos dar pelo menos uma pista 
sobre o crime. Esse  um assunto que 
compete a policia resolver.  
- Por enquanto no temos nenhuma pista. 
Estamos colhendo informaes, buscando 
os motivos do crime e os possveis 
suspeitos. O senhor no respondeu ao 
que lhe perguntei. No suspeita de 
algum, algum empregado que foi 
despedido ou algum parente insatisfeito? 
- No. Sempre fomos educados e tivemos 
bom relacionamento com as pessoas que 
trabalham ou trabalharam conosco. 
Temos poucos parentes, que residem 
longe e com os quais apenas mantemos 
relaes ocasionais.  
Monteiro suspirou. Seria intil continuar o 
interrogatrio com ele.  
Osmar tornou:  
- Eu j lhe disse tudo o que sabia. Se o 
senhor j terminou preciso ir embora. 
Pretendo voltar a minha cidade o quanto 
antes. No posso ficar tanto tempo fora 
da empresa.  
- No vai assistir ao enterro de sua me? 
- Claro que vou. Assim que o corpo for 
liberado, papai o levar para o Rio de 
Janeiro, ela ser enterrada no tmulo da 
famlia. Ele vai ficar aqui para tomar as 
providncias necessrias.  
- Eu ainda posso precisar do senhor. 
Novos fatos podero ocorrer.  
- Nesse caso, virei novamente.  
- Como era o relacionamento de seus 
pais? 
Pela primeira vez Osmar demonstrou 
alguma contrariedade. Aquele delegado 
estava sendo impertinente. Procurou 
controlar-se:  
- O que isso tem a ver com o crime? 
- Pode ter muito. E ento? 
- Eles tinham um bom relacionamento. 
Meu pai sempre foi um marido atencioso e 
presente.  
- Eles nunca discutiam? 
- No. Eles conversavam. Sempre foram 
educados e discretos.  
- No se esquea de que sua me estava 
em trajes menores ao lado de um homem 
mais novo do que seu pai. Ele pode ter 
descoberto tudo e praticado o crime.  
Osmar levantou-se indignado:  
- Apesar de tudo, meu pai no acredita 
que mame tenha sido amante daquele 
homem. Ela sempre foi uma mulher 
honesta. O senhor no pode falar assim 
dela.  
- Sente-se Sr. Osmar. No conheci sua 
me nem sua famlia para poder acreditar 
no que est dizendo. O que tenho de 
verdade so os fatos e estes falam por si.  
Osmar estava plido, esforava-se para 
controlar a raiva. O delegado sentia que 
estava conseguindo chegar onde queria. 
Continuou:  
- At prova em contrrio, Teresa era 
amante daquele homem e qualquer um de 
sua famlia est sob suspeita. 
- Isso  um absurdo. Meu pai nunca faria 
isso.  
- Um marido trado tem motivo suficiente 
para perder a cabea. Um filho moralista 
ou querendo evitar que o pai descubra 
tambm pode cometer um crime.  
- O senhor est supondo errado. Quando 
aconteceu o crime estvamos longe 
daqui. Minha me era uma mulher rica, 
gostava de jias. Pode ter sido um 
assalto.  
- No creio. Segundo os peritos eles 
foram surpreendidos na cama pelo 
assassino ou os assassinos e mortos ali 
mesmo.  
- Pode ter sido mais de um? 
- No estou certo. Mas  provvel. Tudo 
deve ter acontecido muito rpido. 
Naturalmente, eles no esperavam ser 
surpreendidos.  
Aquilo tudo parecia um pesadelo e Osmar 
no via a hora de sair dali, respirar um ar 
mais leve. O delegado continuou:  
- Por enquanto estou satisfeito. Depois de 
reconhecer o corpo pode ir. Se eu 
precisar, o intimarei novamente.  
Osmar levantou-se e saiu. Na ante-sala 
viu o irmo, olhos vermelhos, rosto 
plido. Aproximou-se dele:  
- Veja l o que vai dizer ao delegado. 
Quanto menos falar melhor.  
Vitrio no teve tempo de responder. Um 
policial aproximou-se e disse:  
- Pode vir comigo. 
Vitrio acompanhou o policial. Em 
seguida, Osmar foi abordado por outro 
que o acompanhou at o necrotrio, que 
ficava prximo a delegacia e onde estava 
o corpo. Uma vez l, disse logo:  
-  minha me. 
Estava com pressa de sair daquele lugar 
horrvel. Mas foi forado a olhar o rosto 
da mulher e dizer que a conhecia.  
O policial o dispensou depois de anotar o 
que ele dissera e Osmar voltou ao hotel.  
Vitrio entrou na sala do delegado 
ansioso: 
- Doutor, antes de qualquer coisa eu 
quero ver o corpo de minha me! 
- Sente-se rapaz. Antes, vamos conversar 
um pouco. Voc est nervoso. Quer um 
copo d gua? 
- Obrigado, no  preciso. No me 
conformo com a morte de minha me. Di 
saber que algum a matou de um modo 
to cruel.  
Vitrio a custo tentava reter as lgrimas.  
- Compreendo. Voc sentiu muito a morte 
dela.  
- Mame era tudo para mim. Custo a crer 
que ela esteja morta. Por esse motivo, 
preciso ver o corpo. Meu pai pode ter se 
confundido... Ser algum muito parecida.  
- Infelizmente, o corpo  dela. No h 
engano.  
- Nesse caso eu quero olhar para ter 
certeza.  
- Quando sair daqui poder v-lo. Antes, 
quero que me responda algumas 
perguntas.  
Depois de pedir que ele desse seus dados 
completos ao escrevente, o delegado 
continuou: 
- Como era o relacionamento de sua me 
em casa? 
- Ela era uma dona de casa perfeita. Com 
ela tudo andava sempre bem.  
- Tinha um bom relacionamento com seu 
pai? 
- Mame sempre foi muito discreta. No 
gostava de falar de seus sentimentos 
ntimos. Com papai era atenciosa, corts, 
assim como com meu irmo. Apenas 
comigo ela se permitia demonstrar seu 
afeto.  
- Por que ela fazia essa diferena? 
- Sempre tivemos muita afinidade. Eu 
tambm sempre fui muito ligado a ela. 
Como sou muito sensvel e tenho a sade 
mais delicada, talvez, por esse motivo, 
ela tenha se aproximado mais de mim.  
Monteiro olhou fixamente nos olhos de 
Vitrio como a querer penetrar em seus 
mais ntimos pensamentos. Suspeitava 
que talvez ele soubesse mais sobre 
Teresa do que os outros.  
- E com seu pai, como  o seu 
relacionamento? 
- Apenas educado. Nunca tivemos 
nenhuma afinidade. Sempre fui muito 
sensvel e ele no aceita isso. Diz sempre 
que um homem deve ser forte. Culpava 
mame por eu ser to emotivo, ela, 
porm, entendia-me. Percebia meus 
sentimentos e procurava apoiar-me.  
- Ele achava que voc era mimado? 
- Talvez. Mas isso no  verdade. Sempre 
que eu cometia um erro, ela no deixava 
passar. Conversava comigo, chamando-
me  responsabilidade. 
_ Seu pai relacionava-se bem com 
Osmar? 
_ Muito. Ele sempre foi o preferido. Os 
dois saam juntos, conversavam muito e 
Osmar fazia-lhe todas as vontades. Tanto 
que at hoje trabalham juntos.  
_ Seu irmo parece que  muito 
controlado. Apesar do que aconteceu, 
mostrou-se calmo.  
_ Ele no se emociona com facilidade. No 
sei como pode controlar-se tanto.  
_ Seu pai tambm  assim? 
_ Ele teve uma educao muito rgida. 
Minha av o criou sem agrados e foi muito 
exigente em matria de comportamento. 
Ele considera as emoes como fraqueza 
e empenha-se em domin-las. No quer 
parecer um fraco. Por esse motivo irrita-
se tanto quando expresso minhas 
emoes.  
_ Seu pai disse que nos ltimos tempos 
sua me estava com depresso. Foi por 
essa razo que ela decidiu viajar para a 
Europa com uma amiga? 
_ Eu implorei a ela que desistisse dessa 
viagem...  
_ No. Eu sentia que ela precisava de 
outras coisas.  
_ Que coisas? 
Ele notou que tinha falado demais e 
tentou dissimular;  
_ Um lugar calmo, no campo talvez, onde 
pudesse retomar a simplicidade e serenar 
a alma...  
_ Teria sido esse o motivo de ela haver 
preferido vir So Paulo a ir para a Itlia, 
conforme havia combinado? 
_ No sei o que teria feito mudar de idia. 
Quando lhe pedi que no fizesse essa 
viagem ela disse que no podia de forma 
alguma deixar de ir.  
_ O que voc temia? 
_ Eu estava com um triste 
pressentimento. De vez em quando eu 
tenho isso e quase sempre o que eu temo 
acontece. Eu sentia uma angstia muito 
grande quando pensava que ela faria essa 
viagem, mas como no posso dizer por 
qu.  
_ Esse seu pressentimento, infelizmente, 
realizou-se.  
Ela viajou em companhia de Elvira, uma 
amiga dos tempos de faculdade. Voc a 
conhece? 
_ No. Ela nunca foi a nossa casa.  
_ No achou estranho sua me de 
repente, aparecer com uma amiga e irem 
viajar juntas para a Europa? 
_ Eu estava muito angustiado e achei 
essa viagem precipitada e estranha.  
_ Por que precipitada? 
_ Porque ela s me falou nela dois dias 
antes de ir. No era esse seu costume. 
Quando viajvamos, ela costumava 
programar com antecedncia, checar 
todos os detalhes, principalmente quando 
era para sair do pas.  
_ Dessa vez ento foi diferente? 
_ Foi e isso s aumentou meu receio de 
que iria acontecer alguma coisa ruim.  
_ Voc suspeita de algum que possa ter 
cometido o crime? Um empregado 
despedido, algum insatisfeito, alguma 
pessoa que tenha se desentendido com 
ela? 
Vitrio pensou um pouco, depois 
respondeu:  
_ No. Mame sempre tratou bem nossos 
empregados, as pessoas em geral. Nunca 
soube de algum que nos odiasse a ponto 
de cometer esse crime.  
_ Por hoje chega. Estamos procurando 
pistas e por mais insignificante que possa 
lhe parecer algum acontecimento,  
melhor nos contar. Pode ser o fio da 
meada para descobrirmos tudo.  
_ No me lembro de nada.  
_ Se voc se lembrar de alguma coisa, 
pode nos ligar a qualquer hora.  
O delegado chamou um policial e pediu 
que encaminhasse Vitrio at o necrotrio 
onde estava o corpo.  
Depois, o delegado foi se encontrar como 
legista para conhecer mais detalhes sobre 
a autpsia dos corpos.  
Vitrio estava trmulo quando entrou no 
necrotrio. Indiferente ao que se passava 
com ele, o policial levou-o at onde o 
corpo estava, abriu a gaveta e Vitrio 
olhou para o rosto da mulher que estava 
l. Depois, sua voz saiu com dificuldade, 
mas ele quase gritou:  
_ Eu estava enganado! No disse? Essa 
no  minha me! 
O policial olhou-o atnito, perdeu o ar de 
indiferena que mantinha e retrucou:  
_ Vamos ver o nome: est escrito aqui, no 
carto da gaveta: Teresa Borges de 
Azevedo.  
_ Voc est enganado. Essa no  minha 
me!                                       ONDE EST 
TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

 

CAPTULO 5                                                                                                   
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



O policial olhou para Vitrio incrdulo:  
_ No pode ser! Olhe bem. Duas pessoas 
j reconheceram esse corpo.  
_ No  ela!  bem parecida, mas no  
ela!  
_ Tem certeza?  
_ Tenho.  
Ele fechou a gaveta.  
_ Vamos falar com o Dr. Monteiro - 
decidiu o policial.  
Assim que entraram na sala do delegado, 
o policial tornou:  
_ Ele no reconheceu o corpo.  
Monteiro olhou-o admirado:  
_ Como no? Seu pai e seu irmo 
disseram que  ela.  
_ Eles se enganaram.  parecida, o 
mesmo formato do rosto, mas a cor dos 
cabelos no  bem essa e as mos so 
muito diferentes. Estou aliviado. Esse 
corpo no  o de minha me. Isso 
significa que ela est viva! 
_ a sua palavra contra a dos outros dois. 
Voc olhou bem? Os documentos que a 
percia encontrou embaixo da cama, 
identificaram-na como Teresa Borges de 
Azevedo. 
_ Afirmo que aquele corpo no  de minha 
me. 
_Vamos juntos at l, voc vai olhar 
melhor.  
O delegado o acompanhou, abriu a gaveta 
e pediu que Vitrio olhasse novamente o 
corpo, insistiu para que ele o fixasse bem, 
mas ele continuou afirmando que no era 
Teresa quem estava ali.  
Doutor Monteiro coou a cabea 
pensativo, depois voltaram  delegacia, e 
ele mandou que Vitrio ficasse na sala de 
espera:  
_Sente-se, logo voltarei a chama-lo. 
Uma vez em sua sala, Monteiro pediu  
telefonista que ligasse para o pai de 
Vitrio no hotel. 
Alberto havia se deitado, tentando 
descansar na esperana de que a terrvel 
dor de cabea melhorasse. Apesar de ter 
ingerido um comprimido ela continuava o 
incomodando.  
O telefone tocou e Osmar atendeu 
prontamente.  
_ Aqui  o delegado Monteiro. Quero falar 
com o Sr. Alberto.  
_ Aqui  Osmar. Papai tomou um remdio 
para dor de cabea e est descansando. 
Pode falar comigo.  
_ Seu irmo disse que o corpo da mulher 
assassinada no  de sua me.  
_ Como no? Eu o reconheci 
perfeitamente e papai tambm.  
_ Mas ele afirma que no  ela. Nesse 
caso, vocs dois precisam voltar aqui. 
Vamos ter de desfazer essa dvida para 
poder liberar o corpo.  
Osmar sentiu vontade de desligar o 
telefone. Por que fora atender? Procurou 
esconder a irritao e respondeu:  
_ Isso  um absurdo.  bom o senhor 
saber que o que meu irmo diz no  
confivel. Ele  um desequilibrado. Ilude-
se com facilidade. No quer aceitar a 
morte de mame e imaginou que o corpo 
no  dela. Meu pai disse que a polcia 
identificou o corpo pelas impresses 
digitais.  
_ Isso no  verdade. Seu pai, com 
certeza, entendeu mal. Os peritos 
encontraram os documentos de sua me 
embaixo da cama.  
_ Isso prova que Vitrio est confuso, 
mentindo. Se ela tivesse ido para a Itlia 
conforme dissera, deveria ainda estar l, 
mas papai descobriu que ela nunca viajou 
para a Europa. No h mais dvida, 
doutor. Aquele corpo  mesmo de minha 
me.  
_ Pode ser. Mas espero vocs dois aqui 
dentro de uma hora para resolvermos 
essa pendncia. 
- Meu pai vai. Eu preciso voltar ao Rio de 
Janeiro ainda hoje. Tenho um vo 
marcado para dentro de uma hora.  
- Desmarque seu vo. Se no vier 
mandarei um policial busc-lo. S poder 
deixar a cidade quando eu autorizar.  
Osmar segurou a vontade de dizer alguns 
desaforos ao delegado, mas no fez para 
no piorar as coisas.  
- Est bem, doutor. Vou avisar papai e 
estaremos a daqui uma hora.  
Osmar desligou o telefone com dio do 
irmo. Ele tinha o dom de complicar as 
coisas. Por que no era igual a todo 
mundo.  
Foi ter com o pai, contou-lhe a novidade e 
finalizou:  
- Aquele idiota tinha que complicar tudo. 
Alberto sobressaltou-se: 
- E se ele tiver razo? E se aquele corpo 
no for mesmo de Teresa? 
- Voc no o reconheceu? 
- Sim.  
- Eu tambm. Vitrio  um visionrio, est 
metido com almas de outro mundo, vive 
iludido. Essa  mais uma iluso dele.  
- Por que faria isso? 
- Para fugir da realidade. No quer 
aceitar que mame est morta.  
Alberto passou a mo nos cabelos 
pensativa. Bem que ele gostaria que tudo 
aquilo no tivesse acontecido.  
- Voc pode ter razo. Afinal, o corpo foi 
identificado pelas impresses digitais.  
- Voc est enganado. O delegado disse 
que os peritos encontraram os 
documentos dela embaixo da cama.  
- Nesse caso est na hora de fazer a 
verificao e comprovar se  ela mesma.  
- O delegado poderia fazer isso sem nos 
incomodar. Ele me proibiu de viajar e 
quer nos ver dentro de uma hora.  
- Parece que esse pesadelo no termina 
nunca.  
- Graas ao Vitrio que inventou moda 
como sempre. 
- Seja como for, temos que ir. No vejo a 
hora que esse pesadelo acabe. Depois de 
tudo ainda teremos que transportar o 
corpo para o Rio de Janeiro para enterr-
lo.  
- Voc quer mesmo enterr-la l, em 
nosso tmulo de famlia, ao lado dos seus 
pais? 
- Claro, ela  minha esposa, tem esse 
direito.  
- No sei se tem. Afinal, ela traiu nossa 
confiana, mentiu, estava com aquele 
homem. Para mim ela no merece ficar ao 
lado dos meus avs, pessoas de bem.  
- Sua me sempre foi uma mulher de 
bem. No admito que fale assim dela.  
- Nossos amigos devem ter lido nos 
jornais o que aconteceu e certamente vo 
nos criticar por levarmos o corpo dela 
para l.  
Alberto apertou os olhos como fazia 
sempre que estava com raiva e 
respondeu:  
- Quem decide isso, sou eu. Vou enterr-
la l e pronto. Ningum tem nada com 
isso. No dou ouvidos para fofoca. No 
acredito que Teresa tenha sido amante 
daquele homem. Ela era uma mulher 
honesta.  
Osmar ia retrucar, mas mudou de idia:  
- Vamos logo. Quero resolver tudo o mais 
rpido possvel e ver se o delegado me 
libera para que eu possa viajar.  
Uma hora depois davam entrada na 
delegacia e foram logo conduzidos  
presena do delegado. Depois dos 
cumprimentos ele mandou que Vitrio 
entrasse. Assim que o viu Osmar disse 
nervoso:  
- Que idia foi essa de no reconhecer o 
corpo de mame? 
Osmar ia retrucar, mas Monteiro 
interveio:  
- No quero discusses aqui. Quem faz as 
perguntas sou eu! Sentem-se. Vamos 
conversar.  
Voltando-se para Alberto e olhando-o 
fixamente nos olhos perguntou:  
- O senhor tem certeza de que aquele 
corpo  o de Teresa? 
- Bem... parece ser ela, mas posso ter me 
enganado. Eu estava muito nervoso. 
Depois, disseram-me que a polcia j o 
havia reconhecido pelas impresses 
digitais. 
- Quem lhe disse isso? No nos foi 
possvel fazer isso porque na tentativa de 
defender-se ela aparou os golpes com as 
mos. Os dois polegares foram cortados o 
que tornou impossvel o reconhecimento 
pelas digitais.  
Alberto empalideceu. A situao era por 
demais penosa. Imaginar Teresa tivesse 
passado por tamanha agresso deixou-o 
sem palavras. Lgrimas desciam pelas 
faces de Vitrio. Osmar estremeceu, 
porm conseguiu controlar a emoo 
O delegado tentou amenizar a situao:  
- No contei esses detalhes antes para 
no deix-los impressionados. Da 
maneira como os corpos estavam, d para 
saber que o assassino estava com muita 
raiva. Se o senhor no olhou direito, 
vamos at l novamente.  
E dirigindo-se a Osmar continuou:  
- E o senhor, olhou bem aquele corpo? 
- Claro.  ela, estou certo. Meu pai ficou 
perturbado com as palavras de Vitrio. O 
senhor acha que eu no reconheceria 
minha prpria me? Claro que  ela.  
- Vamos at l para que vocs olhem 
melhor. Trata-se de um fator importante. 
Precisamos ter certeza da identidade 
dela.  
Osmar ia retrucar, mas pensou melhor e 
decidiu que s iria prorrogar o impasse. 
Com o delegado e um policial eles foram 
ao necrotrio.  
Uma vez diante da gaveta aberta fixaram 
novamente o corpo. Era chocante, 
porquanto o corpo, alm dos cortes de 
faca costurados, tinha os da autpsia que 
fora feita.  
- Vamos, olhem bem todos os detalhes.  
Osmar foi o primeiro a dizer:  
-  ela. No tenho nenhuma dvida.  
- No  - disse Vitrio. - Pai, olhe as mos 
dela. Mame tinha os dedos mais 
delicados, os punhos mais finos.  
- De fato-concordou Alberto. - O rosto  
igual ao dela, mas as mos so 
diferentes. Ser por causa da agresso 
que sofreu? 
- Nem tanto-afirmou o delegado. - 
Quando o corpo morre, geralmente volta 
a ficar com seus traos normais. 
- Estamos perdendo tempo-disse Osmar. - 
Se  o rosto dela no sei por que a 
dvida. Ela foi ferida nas mos. Isso 
justifica essa pequena diferena, que, 
alis, seus nem noto.  
Vitrio aproximou-se mais e, apontando 
para o dedo anular da mo esquerda, 
tornou:  
- Mame tinha nesse dedo a marca da 
aliana de casamento que ela nunca 
tirava. Uma vez, mostrando-me essa 
marca, brincou dizendo que esse dedo era 
mais fino por causa disso. Essa mo no 
tem nenhuma marca de anel, portanto 
essa mulher  muito parecida com 
mame, mas no  ela.  
O delegado olhou e, de fato, naquele dedo 
no havia sinal de anel. Vitrio poderia 
ter razo. Voltando-se para Alberto 
perguntou:  
- Teresa tinha alguma irm ou prima 
parecida com ela? 
- Que eu saiba no-respondeu Alberto.  
- Est vendo, doutor?-interveio Osmar- 
ela. No temos como duvidar. O rosto  
igual ao dela. Como pode ser isso? Vamos 
acabar com essa dvida de uma vez por 
todas e encerrar o assunto.  
O delegado pensou um pouco, depois 
disse:  
- Bem que eu gostaria de fazer isso. Mas 
acho prudente investigar mais um pouco. 
Vocs podem estar enganados e eu no 
posso permitir que enterrem o corpo para 
mais tarde exum-lo. Minha obrigao  
descobrir a verdade.  
- Se o senhor permitir, gostaria de trazer 
Dinda para ver o corpo.  
- Quem  Dinda? 
- A governanta de nossa casa. Ela 
trabalhava com mame desde que eram 
mocinhas. Quando ela se casou, Dinda 
veio junta. Foi ela quem nos criou.  
- Isso  um absurdo. O que pode valer a 
opinio de uma criada ignorante? Cale a 
boca Vitrio, chega de criar caso.  
- Pois eu gosto da idia-disse o delegado. 
- Tragam-na hoje mesmo. Enquanto isso, 
vocs devem ficar na cidade.  
- Hoje  impossvel, no d tempo. Depois 
ela  uma pessoa simples-disse Alberto. - 
No sei se conseguir vir at aqui 
sozinha.  
Vitrio interveio:  
- Ela  simples, mas muito inteligente. 
Estou certo de que vir sem dificuldade. 
Vamos mand-la vir de avio.  
-Muito bem. Mande vir o quanto antes. Eu 
mais do que os senhores tenho pressa em 
resolver esse caso. 
Assim que eles deixaram  delegacia, 
Osmar no conteve o mau humor:  
_Voc  um idiota mesmo. Por que tinha 
que inventar mais uma? No v que est 
atrapalhando? Acho melhor no aparecer 
mais para dar palpite na delegacia. 
Aquele delegado me parece to burro 
quanto voc.  
Vitrio no respondeu o que o irritou 
ainda mais. Ia continuar quando Alberto 
disse nervoso:  
_Chega, Osmar. A empresa pode 
sobreviver alguns dias sem voc. Ns no 
podemos enterrar aquele corpo sem ter 
certeza de que  da sua me.  
_At parece que voc esta acreditando 
nas bobagens do Vitrio.  
_Se aquele corpo no for de Teresa, vou 
tirar um grande peso do corao.  
_Agora entendo por que voc est do lado 
de Vitrio. Mas no fim ter de render-se  
verdade. No entenderam que esto 
iludidos? 
_Teresa tinha mesmo a marca da aliana 
no anular. Na mo daquela mulher no h 
nenhum sinal.  
_Ele pode ter desaparecido por causa da 
agresso.  
_Eu estou com o delegado.  preciso ter 
certeza.  
Apesar das reclamaes de Osmar, Vitrio 
ligou para Dinda, contou-lhe tudo e 
pediu-lhe para que se arrumasse e viesse 
o mais rpido possvel.  
Alberto mandou Osmar pedir a um 
funcionrio da empresa que comprasse a 
passagem para Dinda e a acompanhasse 
ao aeroporto, orientando-a. Vitrio 
encarregou-se de busc-la quando 
chegasse.  
Depois de tudo resolvido, Osmar foi para 
o quarto por que precisava fazer algumas 
ligaes de negcios. Estava to nervoso 
que no suportava olhar para o irmo.  
Vitrio, no entanto, estava sereno, 
confiante de que sua me poderia estar 
viva. Onde ela poderia estar? Se no fora 
viajar para a Europa, por que no se 
comunicava com a famlia? Essas 
perguntas sem respostas o incomodavam. 
Sentia que havia um mistrio em tudo 
isso e ele pretendia desvenda-lo.  
Algum fato muito grave teria acontecido. 
Sua me no era mulher de mistrios. Sua 
vida sempre havia sido um livro aberto. 
Alberto foi descansar e Vitrio refugiou-
se no quarto. Precisava pensar tentar 
encontrar um caminho. Esperava Dinda 
com ansiedade. Ela era uma mulher 
prtica, talvez pudesse ajud-lo a 
descobrir a verdade.  
Tirou o sapato, estirou-se na cama 
recapitulando os acontecimentos que 
comeara com a inexplicvel depresso 
de Teresa.  
Lembrou-se de tudo nos mnimos 
detalhes, at que cansado, adormeceu. 
Sonhou que estava em um lugar escuro, 
cheio de galhos secos. Vultos escuros o 
cercavam enquanto lhe diziam:  
_No adianta procura-la. Voc no vai 
encontr-la nunca mais! 
Vitrio sentiu que eles falavam de Teresa 
e reagiu:  
_Vou encontr-la. No tenho medo de 
vocs. O bem  mais forte do que tudo.  
_Desista. No vai conseguir nada! 
_Isso mesmo. Ns no vamos deixar! 
Estamos com todo o poder. Somos 
poderosos! 
_Mais pode a luz divina! Ela est ao nosso 
lado!-gritava Vitrio angustiado.  
Eles tentaram agarra-lo e Vitrio correu 
para o corpo adormecido e acordou. 
Sentou-se na cama pensativo:  
 Ento era isso! Havia uma perseguio 
espiritual contra Teresa e sua famlia". 
Mentalizando luz ao seu redor, Vitrio 
pediu ajuda aos amigos espirituais que 
sempre o visitavam. Aos poucos foi se 
acalmando.  
A situao estava difcil, porm ele estava 
amparado. 
Sentia em seu corao uma forte ligao 
com o esprito amigo que sempre o 
confortava em seus momentos difceis.  
Desde a mais tenra idade, ele via os 
espritos com tal nitidez que os confundia 
com pessoas encarnadas, s percebendo 
a diferena quando eles desapareciam 
diante de seus olhos admirados.  
A principio contara para a me o que 
estava acontecendo, porm ela, temerosa 
de que ele estivesse doente, sofrendo 
alucinaes, o levara ao mdico que o 
olhou com naturalidade, dizendo para 
Teresa que ele sofria dos nervos e 
precisava cuidar disso o quanto antes.  
Assim, ele tomava vrios remdios que 
lhe traziam mal-estar, mas as vises 
continuavam. Teresa, certa de que o filho 
tinha sade delicada, cercava-o de 
cuidados especiais, o que sempre 
provocava a raiva de Osmar, com quem 
ela era mais firme, no lhe permitindo 
fazer o mesmo que Vitrio.  
Ele passava mal por causa dos remdios e 
ela acreditava que ele fosse doente. Por 
esse motivo, era mais condescendente 
com ele, sem perceber que ele apenas 
tinha maior sensibilidade.  
Quando ele cresceu e entendeu o que se 
passava, parou de falar sobre o assunto e 
seus pais pensavam que ele havia 
melhorado com o tratamento. Assim ele 
livrou-se dos medicamentos que o 
incomodavam.  
No falando o que sentia, vivia mais 
fechado em seu mundo interior e foi se 
acostumando com as presenas de seres 
de outras dimenses; procurava evitar os 
que tinham as energias conturbadas e 
aconchegar-se queles que tinham uma 
energia melhor.  
Foi assim que certa noite ele viu o esprito 
de uma mulher, aparentando cerca de 
quarenta anos, fisionomia serena, olhos 
brilhantes e vivos, que se aproximou, 
fixando-o sria e disse:  
_Meu nome  Anal. Vim aqui para dizer-
lhe que nos conhecemos de outras vidas e 
que conforme o prometido ficarei ao seu 
lado daqui para frente, inspirando-lhe 
pensamentos bons. Chegou  hora de 
comear a trabalhar com a 
espiritualidade.  
O olhar dela penetrou nele, provocando 
uma agradvel sensao de bem-estar e 
alegria. O que o fez indagar: 
Quem voc  realmente para mim? Sinto 
uma sensao boa e uma alegria muito 
grande.  
_Um dia voc saber. O que importa  
que estamos juntos e continuamos 
amigos como sempre fomos.  
_O que  trabalhar para a 
espiritualidade? 
_ viver para o esprito de acordo com as 
leis csmicas, ensinando as pessoas a 
enxergarem a realidade.  
_Eu no conheo essas leis nem tenho 
como ensinar ningum.  
_Seu esprito conhece tudo isso e, aos 
poucos, voc se lembrar do que precisa 
para fazer o que  necessrio.  
_Mas eu no recordo de nada. Como 
saber o que  certo ou errado? 
_Esse  um conceito mundano. Ao 
reencarnar, voc esqueceu 
momentaneamente o passado, porm ele 
continua em seu inconsciente e quando 
chegar o momento, de acordo com o que 
voc escolher, voltar  tona.  
_Eu gostaria de saber muitas coisas: "Por 
que eu sou diferente das outras pessoas? 
Por que posso ver e falar com pessoas 
que j morreram? Por que posso perceber 
o pensamento das pessoas?". Isso tudo 
me confunde e assusta.  
_De hoje em diante estarei ao seu lado 
para ajud-lo, mas devo esclarecer que 
no tenho nenhum poder sobre voc. S 
posso mandar-lhe energias de 
sustentao e inspirar-lhe bons 
pensamentos. Mas as escolhas, as 
decises continuam sendo suas. Por esse 
motivo eu disse que tudo depender 
delas.  
_Voc no respondeu minhas perguntas. 
- No mundo, no existem duas pessoas 
iguais. Cada um  um, com suas 
capacidades e experincias. Voc  agora 
o resultado de suas escolhas anteriores e 
no futuro, ser apenas o que escolher 
hoje. Voc  um sensitivo. Por esse 
motivo pode ser alm dos cinco sentidos. 
Isso aconteceu porque voc desenvolveu 
sua sensibilidade em outras vidas e hoje 
possui o sexto sentido mais desenvolvido.  
- Tudo isso me assusta. Eu preferia no 
sentir nada disso e ser como todos.  
- No diga isso. A percepo de como as 
coisas , traz lucidez e fora. Estou certa 
de que voc j tem conhecimento para 
fazer com uso dessas suas faculdade. S 
precisava observar um pouco mais o 
processo, cuidar bem dos seus 
pensamentos para ficar apenas com o 
bem e no se ligar s idias negativas.  
- Eu gostaria de ser mais lcido e sentir - 
me mais forte. Por vezes as idias 
confundem-se em minha cabea e eu me 
sinto deprimido, sem foras.  
- O que confunde sua cabea so as 
crenas erradas que voc aprendeu desde 
a infncia e que destoam do 
conhecimento que seu esprito possui. 
Isso est criando um conflito entre a 
iluso aprendida e a verdade 
conquistada.  
- Eu desejo sair desse estado e encontrar 
a paz. 
- Nesse caso, precisa estudar suas 
crenas e descobrir at que ponto  
verdadeira. Eu preciso ir, mas estarei por 
perto. Pense em tudo isso e decida se 
desejar fazer o que eu lhe disse. Fique 
com a luz.  
Ela desapareceu antes que Vitrio tivesse 
tempo para responder. A partir desse dia 
ele comeou a questionar suas crenas e 
descobriu que algumas eram baseadas 
apenas em opinies de outros pensadores 
e no podiam ser aprovadas nem 
desaprovadas.  
De vez em quando Anal o procurava e 
conversavam trocando idias. Ele, aos 
poucos, foi reformulando seus conceitos 
de realidade e descobrindo que para ser 
forte, precisava acreditar em sua prpria 
fora, usando-a sempre para encoraj-lo 
e preservar em seus propsitos de 
aprender e conquistar o prprio 
equilbrio.  
Pensado no sonho que tivera, lembrou-se 
de Anal. Precisava conversar com ela e 
saber o que estava acontecendo com sua 
me. Ela era sua amiga e sempre 
conversava com ele sobre todos os 
assuntos. Por que desde que sua me 
desaparecera ela no viera para confort-
lo.  
Estava certo de que o corpo que vira no 
necrotrio no era dela, mas como 
entender o desaparecimento, a 
semelhana que ela tinha com a mulher 
morta? Teresa estava viva, como ele 
imaginava, por que no aparecera ainda, 
mesmo depois da notcia de sua morte 
estar em todos os jornais? 
Essas perguntas ficavam se resposta e 
agora havia aquele encontro no astral 
onde descobriu que havia uma 
conspirao de seres maldosos agindo 
contra sua famlia.  
Naquele momento evocou o esprito de 
Anal, com todas as foras do seu 
esprito. Ento, ouviu sua voz:  
- No momento no posso ir . Ore e confie.  
Vitrio suspirou angustiado. Precisava ser 
forte e continuar confiando no bem e na 
amizade dos amigos espirituais. Mas, 
apesar disso, as perguntas sem resposta 
continuavam em sua cabea.   
                                                                                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

 
CAPTULO 6                                                                                                    
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO        



Eram onze horas da manh seguinte 
quando Vitrio foi ao aeroporto esperar 
Dinda. Ela chegou fisionomia preocupada; 
assim que o viu, aproximou-se, 
abraando-o com fora.  
- Estou agoniada, meu filho. Como voc 
est ? 
- Angustiado com os acontecimentos. 
Vamos embora, vou lev-la direto para o 
hotel e logo iremos a delegacia. No 
caminho lhe contarei tudo. 
No txi, durante o trajeto, Vitrio contou 
tudo a ela e finalizou: 
- Sugeri ao delegado que voc viesse 
porque estou certo de que aquele corpo 
no  o de mame. Voc a conhece mais 
do que todos ns. No vai se enganar. 
- Se o corpo no for dela, onde ela est? 
Por que no se comunica conosco? Ela 
nunca fez isso antes. Pelo menos comigo, 
sempre me dizia onde estava. 
- Mas desta vez ela mentiu. No foi a 
Europa como disse. E para voc, ela falou 
aonde deveria estar? 
Dinda hesitou um pouco, depois disse: 
- No, Desta vez no disse. 
Vitrio olhou-a srio e respondeu: 
Se voc sabe de alguma coisa,  hora de 
contar. Ela pode estar em perigo e temos 
que descobrir o que aconteceu.  
- Eu no sei. Mas se aquele corpo no  
dela, ela pode estar viva e logo estar de 
volta.  
- E se tiver lhe acontecido alguma coisa 
ruim? Seus documentos foram 
encontrados debaixo da cama, na cena do 
crime. Ela esta envolvida nesta tragdia 
de qualquer forma.  
Dinda sobressaltou-se, mas no 
respondeu. Ela tambm esta muito 
assustada com os ltimos 
acontecimentos.  
Ela sabia que Teresa no estava na 
Europa como dissera para toda a famlia. 
Mas no podia dizer nada, pois lhe 
prometera sigilo. Se ela falasse, quando 
Teresa voltasse, iria repreend-la por ter 
trado sua confiana. O assunto era muito 
srio e ela jurara guardar segredo.
Chegaram ao hotel e foram para o quarto 
de Alberto que os recebeu, abraando-a 
com carinho:  
- Sinto ter de incomodar voc, fazendo-a 
viajar de avio e depor na delegacia. 
- No tenho medo de avio. Se no fosse 
pela preocupao com Teresa eu at teria 
gostado. Como o senhor est? 
Alberto suspirou triste:  
- Como posso? Esta tragdia no acaba 
nunca. Estou cansado, preocupado, 
sofrido. Espero que voc consiga nos tirar 
dessa dvida. Voc quer descansar um 
pouco antes de ir  delegacia? 
- No. Estou muito ansiosa para ver se  a 
minha ama que est l.  
- Irei com voc-disse Vitrio.  
- Eu tambm irei. Acho que Osmar no vai 
querer ir novamente.  
Ele apareceu no quarto dizendo:  
- Claro que vou. E voc, Dinda, faa o 
favor de acabar de uma vez com essa 
palhaada. Eu preciso voltar logo para 
casa. Tenho muitas coisas para fazer e 
no posso ficar aqui parado mais tempo. 
Diga logo que o corpo  de mame e 
acabaremos com isso.  
- S vou dizer que , se for verdade-
respondeu ela.  
-  ela. No seja boba. Acha que eu ia me 
enganar? Que no conheo minha me? 
- Ele quis fazer sua cabea. Mas  claro 
que est enganado.  ela, infelizmente. 
Vitrio deseja tanto que ela esteja viva 
que est se iludindo e tentando envolver 
papai.  
- Vamos embora-disse Alberto irritado.  
melhor voc ficar. J foi j deu sua 
opinio.  
- Se Vitrio vai, tambm vou. Ele tambm 
vai. Ele tambm no precisa ir. Quer 
apenas induzir vocs a dizer o que no  
ela.  
Irritado, Alberto saiu do quarto e os 
outros trs o seguiram em silncio.  
Uma vez na delegacia, o delegado os 
esperava e pediu que Dinda entrasse em 
sua sala. Os outros ficaram do lado de 
fora.  
Depois dos cumprimentos, Monteiro 
convidou-a a sentar-se, e disse:  
- Gostaria que me dissesse quando 
conheceu Teresa e desde quando trabalha 
para ela. 
- Ns ramos crianas quando minha me 
me levou na casa dela. Meu pai tinha 
morrido h poucos meses e ns 
precisvamos trabalhar para viver. 
Teresa tinha treze anos, como eu, e logo 
nos tornamos amigas. Ela era muito 
bonita e fiquei encantada desde o 
comeo. Ela era muito bonita e fiquei 
encantada desde o comeo. Fazia tudo 
para agrad-la e ficamos ntimas.  
- Tanto que quando ela casou-se com o 
Sr. Alberto, voc foi morar na casa deles.  
- Foi. Ajudei-a criar os meninos e 
continuei a fazer tudo para que minha 
menina fosse feliz. 
Algumas lgrimas brilharam nos olhos de 
Dinda e o delegado comentou:  
- Voc tornou-se o anjo da guarda de 
Teresa. 
- Eu faria tudo para que ela fosse feliz. 
- Fale-me um pouco do casamento dela. 
Como era a vida do casal, eles se davam 
bem? 
- O Sr. Alberto sempre foi muito bom e 
tratava a famlia com respeito.  
- E os rapazes? Como era o 
relacionamento de Teresa com os filhos? 
- Teresa sempre foi uma tima me. 
Dedicada, estava sempre cuidando da 
felicidade deles.  
- Os dois irmos parecem que no 
combinam.  
- Sabe como  doutor, coisas de famlia. 
Osmar sempre teve muito cime do irmo 
porque como ele  mais sensvel Teresa 
est sempre atenta com sua sade. Mas 
no h nada de mais.  
- A senhora sabe se Teresa tinha algum 
inimigo, ou parente que no gostasse 
dela? 
- No. Os parentes dela vivem distantes, 
e ela se relacionava pouco com eles.  
- Mas voc deve conhecer a Elvira, a 
colega de faculdade com quem Teresa 
disse  famlia que iria viajar para a 
Europa.  
- S a vi uma vez quando elas eram 
estudantes.  
- Pode descrever como ela era? 
- No me lembro bem. Faz muitos anos. 
Era uma moa igual a muitas estudantes e 
que eu vi com ela.  
- Isso no esclarece muita coisa. Tente 
lembrar-se.  importante.  
-  intil, doutor. No me lembro mesmo.  
- Pensei que pudesse me ajudar a 
descobrir quem cometeu este crime.  
- No tenho nenhuma idia. O que 
aconteceu me assustou muito. 
Monteiro levantou-se:  
_ Vamos ver o corpo.  
Eles saram e do lado de fora os outros 
trs que os esperavam os acompanharam 
at o necrotrio.  
Dinda estava emocionada, o corao 
apertado se perguntava se Teresa estava 
ou no morta. Logo iria saber.  
Uma vez no necrotrio, Monteiro puxou a 
gaveta, o rosto da mulher apareceu e ele 
levantou o lenol que cobria o corpo, 
olhando fixamente para o rosto de Dinda.  
Ela colocou os culos, abaixou-se, 
olhando fixamente para o corpo. Depois 
pediu:  
_ Algum pode levantar um pouco o 
corpo? Quero ver as costas.  
_ Para qu? -indagou o delegado. _  
Teresa ou no? 
_ Teresa tinha uma pequena mancha de 
nascena na curva da cintura.  
_ O corpo est rgido e congelado. No a 
reconhece pela fisionomia? - tornou o 
delegado.  
_ O rosto  parecido com ela, porm as 
mos so diferentes. Eu preciso ver a 
marca para ter certeza.  
Osmar interveio irritado: 
_ Claro que  ela! Por que voc tambm 
duvida? 
Sem dar-lhe ateno, Monteiro chamou 
dois auxiliares e pediu-lhes que virasse o 
corpo de bruos. Devidamente protegidos 
pelas roupas adequadas, eles 
obedeceram.  
_ E ento? - indagou o delegado ansioso.  
Dinda apontou um lugar na cintura e foi 
categrica:  
_ No  ela. Este corpo no tem a marca 
que Teresa tinha.  
_ Eu sei que no  ela! - exclamou Vitrio 
satisfeito.  
Osmar no se deu por vencido e interveio:  
_ Como no? Isso no tem sentido. Como 
vocs explicam o desaparecimento dela? 
Nunca existiu outra pessoa to parecida a 
ponto de nos confundir. Depois, como o 
documento de identidade dela apareceu 
junto ao corpo? 
_Isso  que eu preciso descobrir-
respondeu Monteiro. Voltando-se para 
Dinda continuou: _A senhora pode 
responder a essas perguntas? 
_No posso. S sei que esta no  ela. 
Disso estou certa.  
Monteiro coou a cabea e perguntou a 
Alberto:  
_O senhor deveria ter visto no corpo de 
sua esposa a marca a que a Dinda se 
refere.  
_Nunca notei. Teresa era uma mulher 
discreta. No gostava de tirar a roupa na 
minha frente.  
_Vamos para a outra sala conversarmos 
um pouco.  
Acomodados na sala ao lado, Osmar 
estava inconformado. No acreditava que 
estivesse enganado. Era impossvel no 
ser o corpo de Teresa.  
_Dinda sempre protegeu Vitrio. O que 
ela quer  fazer com que ele continue na 
iluso de que mame est viva. Uma 
marca no corpo que s ela sabia me 
parece uma desculpa arranjada para 
consolar Vitrio.  
_Eu nunca brincaria com um caso desses - 
protestou ela. _Estou dizendo o que 
percebi. Aquela mulher no  Teresa.  
Monteiro olhou para os quatro sentados 
diante dele sem saber o que dizer. Ocaso 
era complicado. Por um lado, Osmar 
poderia ter razo. Vitrio era muito 
apegado  me, poderia estar enganado. 
Por outro lado, Dinda era pessoa 
confivel. Dava para perceber isso pela 
maneira que se posicionava.  
Ele no acreditava que ela se prestasse a 
mentir apenas para consolar Vitrio. Mas 
isso tornava o caso muito mais difcil.  
Ele no poderia liberar aquele corpo como 
sendo o de Teresa, que poderia estar viva 
e aparecer de uma hora para outra. Isso 
lhe daria, alm do trabalho de requerer 
uma exumao, o fato de ter de admitir 
publicamente que estava enganado. 
Era um delegado muito conceituado, 
ambicionava fazer carreira e um fato 
desses certamente o deixaria 
desacreditado. Nesse momento desejou 
nunca ter sido designado para aquele 
caso.  
Mas no havia nada que ele pudesse fazer 
a no ser tentar encontrar a verdade. 
Pensou um pouco enquanto os demais 
esperavam ansiosos pela sua deciso.  
_ E ento, doutor? Vai liberar o corpo 
para o enterro? 
_ No. Diante das divergncias, ser 
melhor esperar e investigar um pouco 
mais.  
Osmar fez um gesto de desagrado e 
tornou:  
_ Doutor, entenda, no posso ficar aqui 
indefinidamente. Tenho muitas 
responsabilidades. Preciso voltar para o 
Rio o quanto antes.  
_ Compreendo. Vou liber-lo para voltar. 
Mas se eu precisar de seu depoimento, 
ter de vir novamente.  
_ Virei quando precisar. O senhor sabe 
onde moro.  s ligar. Agora, eu gostaria 
que s o fizesse quando realmente 
descobrisse alguma coisa.  
_ Eu vou descobrir a verdade, custe o que 
custar.  um ponto de honra. Estou certo 
de que logo ter notcias minhas.  
_ Dinda pode voltar comigo? Ela faz muita 
falta em casa - justificou-se Osmar.  
_ Todos podem ir para casa, desde que 
prometam vir quando eu chamar.  
- Eu quero ficar - disse Vitrio. _ Quero 
descobrir o paradeiro de mame. Se os 
documentos dela estavam aqui, pode ser 
que ela tambm esteja.  
_ Por que est pensando isso? - 
perguntou Monteiro.  
_ Se ela estivesse viva e em So Paulo, 
teria visto os jornais e certamente nos 
procurado.  
_ E se ela tiver sido seqestrada e no 
puder se comunicar? 
_ Voc est levando sua fantasia longe 
demais - disse Osmar. _Eu no disse que 
ele vive fora da realidade? 
_ Pois eu penso que esta  uma hiptese 
que poderia explicar a ausncia dela, no 
caso de estar viva. O contrrio tambm 
pode ter acontecido.  
_ Nesse caso, aquele corpo seria o dela - 
apressou-se a dizer Osmar.  
_ Eu no afasto nenhuma hiptese. Agora 
podem ir. Se algum ficar em So Paulo, 
deixe o endereo.  
Assim que saram, Osmar tornou:  
_ Vou reservar passagens para todos ns. 
Regressaremos hoje  noite. 
_ Para mim, no. Pretendo ficar aqui - 
disse Vitrio.  
_ Pra que? Quer complicar ainda mais 
este caso? - reclamou Osmar.  
_ Eu tambm vou ficar - tornou Alberto.  
_ Isso  uma loucura. Vocs no sabem 
quanto tempo esse delegado pode 
demorar a enxergar que o corpo  de 
mame.  
_ Eu no gosto de ficar em hotis - 
decidiu Alberto. _ Vitrio quer ficar. Estou 
pensando em alugar um apartamento 
para ficarmos mais  vontade.  
_ Eu posso ficar com vocs - disse Dinda. 
_ Nora pode cuidar de tudo l em casa. 
Ela  muito dedicada.  
_ Est certo. Voc fica para nos ajudar. S 
voltaremos quando desvendarmos a 
verdade.  
Osmar meneou a cabea negativamente. 
No se conformava com a deciso. Para 
ele a questo era simples e no precisava 
tanta confuso. Era s enterrar o corpo de 
sua me e terminar com esse caso to 
desagradvel.  
Ele no acreditava que ela pudesse estar 
viva. Mas por outro lado, a idia de que 
aquele corpo no fosse de Teresa 
comeava a agrad-lo. Nesse caso, sua 
me no seria adultera e ele no 
precisaria envergonhar-se diante dos 
conhecidos.  
_ Hoje mesmo vou procurar um 
apartamento para alugar - decidiu Vitrio.  
_ Faa isso meu filho. Vamos precisar de 
trs quartos.  
Uma vez no hotel, Alberto foi descansar. 
Sentia-se triste, deprimido. Aquela 
situao era desgastante. Se o corpo 
fosse de Teresa, ela seria considerada 
adultera. Mas ele a enterraria e estaria 
tudo resolvido. Se no fosse, onde ela 
estaria? Morta, sem que eles pudessem 
encontr-la? Acreditava que se ela 
estivesse viva e pudesse, teria se 
comunicado.  
De todas as formas, ela estava envolvida 
em uma tragdia e no saber a verdade 
tornava as coisas piores.  
Dinda foi descansar, enquanto Osmar se 
preparava para ir ao aeroporto. Vitrio foi 
para o quarto, sentou-se em uma 
poltrona. Apesar de acreditar que Teresa 
estivesse viva, o fato de ela no se 
comunicar com a famlia, levava-o a crer 
que estivesse impossibilitada.  
Sua prpria impotncia o atormentava. Se 
ao menos Anal aparecesse e lhe desse 
alguma orientao! 
Ela deveria saber o que tinha acontecido. 
Por que no o procurava para lhe contar? 
Talvez desejasse poup-lo de uma notcia 
ruim, porm nada seria pior do que no 
saber. Fosse o que fosse conhecer a 
verdade era prefervel.  
Suspirou triste. Desejava encontr-la, 
mas por onde comear? A polcia no 
tinha pistas, estava perdida em 
indagaes sem resposta.  
Lembrou do homem que morrera com 
aquela mulher. Talvez devesse comear 
por conhecer sua famlia. Sabia que ele 
era casado e deixara um filho pequeno.  
Imediatamente foi ao telefone, ligou para 
a delegacia e pediu para falar com 
Monteiro. Assim que ele atendeu, Vitrio 
falou do seu desejo de conhecer a viva 
do morto.  
_ Para qu? - indagou o delegado. _ Voc 
no vai encontrar nenhuma pista l.  
_ Desejo conversar com ela mesmo assim.  
_ Ser intil, mas  um direito seu. Anote 
o nome e endereo.  
Vitrio anotou tudo e saiu. Apanhou um 
txi, deu o endereo. O carro parou em 
frente  casa e ele desceu, olhando 
curioso para o lugar. Era uma rua calma, 
a casa, um sobrado com garagem, com 
pequeno jardim na frente.  
Decidido, tocou a campainha. Dorita foi 
abrir:  
_ O que deseja? 
_  aqui que mora D. Marlia Marques de 
Oliveira? 
_ .  
_ Meu nome  Vitrio Borges de Azevedo. 
Gostaria de falar com ela.  
_ Ela est ocupada. No sei se poder lhe 
atender agora.  
_ Por favor. Diga-lhe que o assunto  
muito importante.  
_ Espere um momento.  
Ela entrou e pouco depois voltou dizendo:  
_ Entre, por favor.  
Ele obedeceu e ela conduziu-o para a sala 
de estar:  
_ Sente-se e fique  vontade. Ela j vem.  
Pouco depois, Marlia entrou, olhando-o 
com curiosidade. Ele levantou-se:  
_ Desculpe a intromisso. Sei que a 
senhora estava ocupada.  
_ De fato. Estava trabalhando. Meu 
marido morreu e ficamos sem recursos. 
Voc  um dos filhos da mulher... de 
Teresa? 
_ Sou Vitrio. O filho mais novo. Vim 
conversar com a senhora sobre o que 
aconteceu.  
_ Foi uma tragdia horrvel que me 
surpreendeu muito e deixou-me sem 
cho. 
_ Posso avaliar. A senhora tem um filho 
pequeno? 
_ No me chame de senhora, por favor. 
Meu filho tem cinco anos. 
Marlia sentou-se no sof ao lado dele, 
indagando:  
_Por que voc veio me procurar? Tudo o 
que eu poderia dizer sobre o caso, contei 
ao delegado.  
_ que estou muito angustiado. Meu pai, 
meu irmo Osmar, eu e at nossa 
governanta, Dinda, viemos reconhecer o 
corpo da mulher assassinada ao lado de 
seu marido. Mas o fato  que o caso se 
complicou, porquanto, meu pai, meu 
irmo reconheceram o corpo como sendo 
de minha me, porm eu percebi que 
aquela mulher, apesar da grande 
semelhana fsica, no  minha me.  
Marlia levantou-se assustada:  
_Como pode ser? Seu pai disse ao 
delegado que era ela! 
_Por esse motivo mandamos vir  
governanta. Ela est com mame desde 
que ambas eram adolescentes. Ela 
tambm disse que no  mame.  
Marlia sentou-se novamente:  
_No sei o que lhe dizer. Como seu pai 
pde ter se enganado? 
_Pela extrema semelhana que essa 
mulher tem com mame. Mas eu notei 
que ela tinha as mos diferentes, sem a 
marca da aliana que havia no dedo 
anular. Depois, Dinda revelou que minha 
me tinha uma marca de nascena na 
parte de trs da cintura. Quando virou o 
corpo da morta, essa marca no existia.  
Marlia estava confusa. Isso fazia com que 
a identidade da morta permanecesse 
ignorada. Ento fez as perguntas naturais 
da situao e Vitrio explicou-lhe que sua 
me no tinha nenhuma pessoa parecida 
com ela na famlia, e continuava 
desaparecida.  
_Minha me  uma mulher discreta, 
honesta e nunca se prestaria a estar em 
uma situao como aquela.  
_Mas e os documentos? 
_Isso  que est me angustiando. De 
alguma forma ela est relacionada com o 
crime. Receio que esteja presa em algum 
lugar, seqestrada, talvez, e no possa se 
comunicar conosco.  
_Nesse caso, ela estaria em perigo! Mas 
se fosse um seqestro, algum teria se 
comunicado pedindo dinheiro ou algo 
assim.  
_Essa falta de noticias est me 
angustiando. Posso imaginar o sofrimento 
dela em uma situao dessas.  
Ele estava visivelmente nervoso e Marlia 
sentiu-se penalizada. 
_Acalme-se. Vai ver ela est bem, mas 
distante, em algum lugar que no d para 
se comunicar. A qualquer momento pode 
mandar notcias.  
_Bem que eu gostaria de poder acreditar 
nisso. Mas sinto que algo de ruim est 
acontecendo.  
_Voc est nervoso, imaginando o pior. 
Vou fazer um ch. Depois voltaremos a 
conversar.  
Ela foi para a cozinha, enquanto Vitrio 
recostou-se no sof, de olhos fechados, 
esforando-se para ficar calma.                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



CAPTULO 7                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


 
Dorita trouxe a bandeja com o bule de 
ch, duas xcaras, um pratinho com 
alguns pes de queijo e colocou-a sobre a 
mesa de centro.  
Marlia serviu o ch, entregou a xcara a 
Vitrio e ofereceu os pes de queijo 
dizendo:  
_ Experimente. Esto quentes.  
_ Desculpe, mas estou sem fome.  
Essa  a nossa especialidade. Estamos 
comeando e precisamos de opinies a 
respeito.  
Apesar de no estar com fome, Vitrio 
no quis ser indelicado e apanhou um. 
Marlia sentou-se na poltrona ao lado, 
serviu-se, tomou um gole de ch e fixou o 
rapaz, esperando que ele experimentasse 
o po de queijo.  
Ele comeou a comer, estava delicioso. S 
ento se lembrou de que havia dois dias 
que no comia nada, s tomava gua e 
caf.  
_ Est timo.  
_  uma receita de minha av.  
Marlia foi conversando, contando sua 
infncia no interior, em companhia dos 
pais e da av materno.  
Ouvindo-a falar, Vitrio foi tomando o 
ch, comendo mais alguns pes de queijo 
e sentindo-se mais calmo. Marlia tinha 
uma voz doce e um jeito alegre de contar 
as coisas.  
Apesar da tragdia que se abatera sobre 
sua vida e das dificuldades financeiras, 
ela se sentia livre, til, tendo se libertado 
da preocupao que Otvio lhe dava.  
Apesar de ganhar pouco vendendo os 
quitutes, sentia-se orgulhosa por poder 
se sustentar com o prprio trabalho.  
Depois que Vitrio colocou a xcara sobre 
a bandeja, Marlia tornou:  
_ O que pensa fazer para descobrir o que 
aconteceu de verdade?  
_ Ainda no sei. O delegado Monteiro no 
me parece capaz de fazer isso.  
_ Tenho a mesma opinio.  
_ Fale-me um pouco sobre seu marido. 
Como ele era em casa, no trabalho.  
Marlia suspirou pensativa, hesitou um 
pouco, depois disse:  
_ Eu tambm gostaria de saber a 
verdade. Vou contar-lhe o que sei. 
Conversando, talvez encontremos algo 
mais.  
Marlia contou tudo. Sua vida conjugal, a 
falta de carinho de Otvio com ela e 
Altair. A carta annima e a descoberta do 
crime. Finalizou: 
- Aquela cena ainda est dentro de mim. 
Ao falar sobre isso, sinto como se 
estivesse l, apavorada, vendo os dois 
naquele quarto. Nem sei como consegui 
chegar a casa.  
-Voc no chamou a policia, no pediu 
socorro? 
- O delegado tambm fez a mesma 
pergunta. Mas eu vi que ambos estavam 
mortos, tive medo que suspeitassem de 
mim e fugi. Mas como eu disse, o Dr. 
Monteiro encontrou minhas digitais e fui 
forada a contar-lhe tudo. Ele disse que 
eu era suspeita, mas penso que ele disse 
isso para intimidar-me. 
Eu possuo o corpo frgil, no teria 
condies fsicas de brigar com duas 
pessoas e vencer. Ele no acreditava de 
verdade que tenha sido eu.  
- A famlia de Otvio no sabia onde ele 
trabalhava? 
- No. Assim como ela no falava comigo 
sobre seus negcios, fazia o mesmo com 
eles. Otvio no dava dinheiro seno para 
o estritamente necessrio e reclamava 
muito por fazer isso. Mas o delegado 
descobriu que ele tinha duas contas 
bancrias com dinheiro que ficou retido 
enquanto eles investigam sua origem. Por 
tudo isso, no recebeu nada e precisei 
arranjar uma forma de ganhar alguma 
coisa.  
- Voc  uma mulher de coragem. J tinha 
trabalhado para fora alguma vez? 
- No. Meus pais so de classe mdia, 
pude estudar sem precisar trabalhar. Sou 
formada em Letras, mas me casei cedo e 
Otvio no deixou que eu exercesse 
minha profisso. Ele no gostava que eu 
sasse sozinha. Ficava muito irritado se eu 
no obedecesse. Deixou-me apenas me 
formar.  
- Compreendo.  
Dorita entrou para recolher a bandeja.  
- Desejo apresentar-lhe Dorita. Ela est 
comigo h muito tempo.  uma amiga que 
tem me ajudado muito neste momento 
incerto. Foi idia dela fazermos os pes 
de queijo. 
- Esto deliciosos.  
Dorita sorriu feliz.  
- Est mais calmo? O senhor estava muito 
abatido e nervoso quando chegou.  
- Sim, Dorita. Seu ch fez milagre e o 
apoio que estou recebendo aqui, est me 
ajudando muito. Peo-lhe, que no me 
chame de senhor.  
- Est bem. Posso me intrometer um 
pouco e fazer uma sugesto? 
_ Faa - respondeu Vitrio.  
_ Vocs querem descobrir a verdade. Ns 
no momento no temos dinheiro para 
fazer isso, mas voc pode procurar um 
bom detetive e pagar-lhe para investigar 
o caso.  
Vitrio olhou-a surpreendido:  
_  verdade! Como no pensei nisso 
antes? 
_ Voc estava nervoso e as boas idias 
aparecem s quando estamos calmos. 
_  uma grande idia. Vou fazer isso 
mesmo. Mas no conheo ningum nesta 
cidade. Eu quero o melhor detetive. Vocs 
conhecem algum? 
As duas sacudiram a cabea 
negativamente.  
_ No importa, eu vou achar. Mas seria 
bom se vocs tambm procurassem. 
Vamos nos juntar para descobrir a 
verdade.  
_ No seria justo. No temos dinheiro 
para pagar as despesas. Isso deve custar 
muito caro - objetou Marlia.  
_ No precisam pagar nada. As despesas 
correm por minha conta. O que eu quero  
que vocs me ajudem. Tenho estado 
muito perturbado. Sozinho ser mais 
difcil. Vocs precisam trabalhar e eu vou 
embora. Assim que contratar algum, 
voltarei para conversarmos e traarmos 
nossos planos.  
Vitrio despediu-se e saiu. Marlia e 
Dorita retomaram o trabalho, comentando 
sobre aquela visita. Ambas gostaram 
muito dele.  
_ Nota-se que  um rapaz bom. Ele me 
parece ter algo especial - comentou 
Dorita.  
_ Seu amor pela me  comovente. 
Desejo que ela esteja viva e que volte 
para casa s e salva.  
_ No  s o fato de ele ser ligado  me. 
Ele me parece diferente. Mais sensvel, 
sinto que podemos confiar nele.  
_ . Afinal, sou a viva do homem que foi 
morto com aquela mulher. Ele poderia ter 
se mostrado desconfiado, mas no foi o 
que me pareceu. 
_ Ele est certo de que no  a me dele 
quem foi morta com Otvio.  
_ Ser que ele no se enganou? O pai e o 
irmo reconheceram o corpo.  
_ Vai ver que  algum da famlia que 
eles no conheciam. s vezes as pessoas 
se distanciam e perdem o contato. Para 
mim foi isso.  
_ No sei. Por mais que eu pense no 
consigo entender. Por que Otvio iria se 
relacionar-se com uma mulher to mais 
velha? 
_ Um bom detetive vai descobrir. Vamos 
trabalhar, j perdemos muito tempo.  
_ Isso mesmo.  
As duas decidiram-se com prazer ao 
trabalho.  
Vitrio parou um txi e sentou-se na 
frente, ao lado do motorista. Deu o 
endereo do hotel, depois entabulou 
conversa com ele.  
_ Eu vim recentemente para So Paulo e 
no conheo bem a cidade.  
_ Eu nasci no interior, mas moro aqui h 
mais de vinte anos. Quinze dentro de um 
txi.  
_ Voc deve conhecer muita gente.  
_  verdade.  
_ Meu nome  Vitrio e o seu? 
_Ronaldo.  
_  um prazer conhec-lo. Talvez possa 
me ajudar.  
_ Em qu? 
_ Estou precisando contratar um bom 
detetive. E quero o melhor.  
Ronaldo balanou a cabea, pensativo e 
perguntou:  
_ coisa de mulher? 
_ Como assim? 
_ De traio, de adultrio. Porque se for, 
eu no vou me meter. Certa vez entrei 
nessa e acabou sobrando para mim. Jurei 
que nunca mais faria isso.  
_ No  nada disso. Minha me 
desapareceu e preciso descobrir onde ela 
est. Se voc me indicar algum, no 
mencionarei seu nome, fique sossegado.  
_ Bem, eu at conheo um muito bom. 
Mas no sei se devo indic-lo. Ele  
namorado de minha irm e eu no gosto 
de envolver minha famlia nisso.  
_ Ele  bom mesmo? 
_ No h caso que ele no desenrole.  
formado em Direito, mas sempre foi 
fascinado pela investigao.  
_ Nesse caso, vou procur-lo.  
_ Hum... No sei...  
_ Ser um grande favor que voc estar 
me fazendo. Alm do que lhe darei uma 
boa gratificao.  
_ Isso eu no posso aceitar. Mas se me 
prometer que me deixar fora disso, 
talvez... 
_ Claro. Vou procur-lo e no direi que foi 
voc quem o indicou. Acontea o que 
acontecer, no envolverei sua famlia.  
Ronaldo estava hesitante e Vitrio 
tentava convenc-lo. Quando o carro 
parou diante do hotel, finalmente ele 
concordou:  
_ Est bem. Vou dar-lhe o nmero do 
telefone dele.  
_ Muito obrigado. Disponha de mim se 
precisar de alguma coisa.  
Vitrio apanhou um carto seu e deu-o a 
Ronaldo que por sua vez escreveu um 
nome e alguns nmeros em um pedao de 
papel e entregou-o a ele. Vitrio pagou a 
corrida e despediu-se, agradecendo mais 
uma vez.  
Entrou no hotel, abriu o papel e leu o 
nome: Paulo. Decidiu ligar 
imediatamente. Subiu para o quarto e 
ligou para o nmero indicado.  
Uma voz de mulher atendeu:  
_ Escritrio de advocacia.  
_ Quero falar com o Dr. Paulo.  
_ O nome completo, por favor. 
- No sei. Um amigo me indicou e no me 
deu o sobrenome.  
- Temos dois com esse nome do 
escritrio.  
- Estou precisando dos servios dele, mas 
ainda no o conheo pessoalmente. S sei 
que ele  especializado em investigaes.  
- Ento deve ser o Dr. Paulo Rodrigues 
Maciel. Vou passar a ligao.  
Pouco depois uma voz de homem atendeu 
e Vitrio disse:  
- Estou precisando de seus servios 
profissionais. Gostaria de ir at seu 
escritrio para conversarmos.  
- Estou muito ocupado. Nesta semana no 
ser possvel atende-lo.  
- Eu no posso esperar. O caso  muito 
srio. Gostaria pelo menos de falar com 
voc e saber se pode me ajudar. Caso 
contrrio terei de procurar outra pessoa. 
Tenho urgncia. Meu nome  Vitrio 
Borges de Azevedo.  
Paulo fez silncio por alguns instantes, 
aps perguntou:  
- Voc quer falar comigo sobre o 
assassinato de Teresa Borges de 
Azevedo? Ela  sua parenta? 
- . Mas no posso falar por telefone.  
- Neste caso pode vir ao escritrio. Vou 
ver o que posso fazer.  
Vitrio pediu o endereo, desligou e 
tornou a sair. Meia hora depois estava 
entrando no prdio e notou que l havia 
muitos escritrios, a maioria de 
advogados.  
Encontrou o que procurava, entrou, deu o 
nome  recepcionista e foi conduzido a 
uma sala onde Paulo imediatamente 
levantou-se para receb-lo.  
Era um homem alto, forte, moreno, 
cabelos revoltosos, que ele tentava em 
vo manter penteados, testa larga, olhos 
castanhos, nariz reto, boca bem delineada 
e barba que apesar de bem-feita deixava 
em seu rosto uma sombra levemente 
escura. Aparentava cerca de trinta e cinco 
anos. 
Vitrio olhou-o nos olhos querendo sentir 
as energias do advogado e depois sorriu 
levemente dizendo:  
- eu liguei meia hora atrs. 
- Estava a sua espera. Eu no tinha tempo 
hoje, mas quando ouvi seu nome, senti 
que no podia deixar de atend-lo. Seu 
caso estava em todos os jornais dias atrs 
e a policia no tem pistas. Sente-se, por 
favor. Vamos conversar.  
Paulo indicou um sof e sentou-se ao lado 
dele. Mostrou interesse e, apesar de 
Vitrio o estar fixando firmemente, no 
desviou o olhar nem uma vez. Vitrio 
sentiu que podia confiar nele. Contou 
tudo minuciosamente e,  medida que 
falava, Paulo fazia anotaes. At que ele 
finalizou:  
- Foi isso. O corpo daquela mulher no  
de minha me,  s isso que eu sei. O 
resto  sem resposta. Sequer sei por onde 
comear. Mas como minha me 
desapareceu e seus documentos estavam 
no local do crime, estou aflito, 
imaginando onde estar e como.  
- Tem certeza de que no esto 
enganados? Afinal, outras pessoas de sua 
famlia reconheceram o corpo.  
- Mas Dinda tambm no o reconheceu. 
Alias, naquele corpo no havia o sinal de 
nascena que minha me tinha nas 
costas.  
- . Isso faz crer que vocs esto certos.  
- Agora que lhe contei tudo, quero saber 
voc pode me ajudar a descobrir onde 
est minha me? No sei por onde 
comear, mas estou disposto a insistir at 
saber toda a verdade.  
Paulo ficou pensativo por alguns 
instantes, depois disse:  
- Este caso me atraiu desde o comeo. 
Voc est mesmo decidido a ficar em So 
Paulo enquanto durar as investigaes? 
- Estou. Meu pai e Dinda vo ficar comigo.  
- Neste caso  bom saber que a 
investigao 
Pode demorar. De minha parte vou fazer 
tudo para que consiga encontra-la o mais 
rpido possvel, porm isso no depende 
apenas de mim. Tenho algumas pessoas 
que trabalham comigo e vo nos ajudar, 
mas o aconselho a tentar se acalmar, 
porquanto a ansiedade atrapalha muito. 
Ns vamos precisar que todos vocs se 
recordem dos acontecimentos dos ltimos 
tempos. Voc disse que sua me estava 
deprimida e decidiu viajar para Europa. 
Sabe a causa da depresso? 
- No. Ela dizia apenas que estava 
cansada, sem vontade de viver. Eu era 
alm de Dinda, a nica pessoa com a qual 
ela se abria, contava coisas da sua 
juventude etc. Quanto a essa depresso, 
cansei de indag-la sobre o motivo pelo 
qual ela sentia-se to infeliz e 
desanimada, porm ela desviava o 
assunto.  
-  evidente que tinha algum motivo. 
Voc disse que ela se relacionava bem 
com seu pai e era mais firme com seu 
irmo. Ela no se dava bem com ele? 
- Isso aconteceu porque desde muito 
pequeno eu ficava muito agitado, via 
coisas, ouvia vozes e ela achava que eu 
estava doente e precisava de mais 
aconchego.  
- Voc tem mediunidade?  
- Sou hipersensvel.  
- Pode falar abertamente sobre o assunto. 
Sou um estudioso do espiritualismo.  
- Sinto-me aliviado. Minha me me levava 
ao psiquiatra, eu tomava remdios fortes 
que me deixavam mal, nunca mais contei 
a ningum o que acontecia comigo.  
- Infelizmente, ainda a pessoas que se 
recusam a perceber essa realidade. Voc 
pode utilizar essa capacidade para evocar 
os espritos do bem, para que o ajudem a 
ficar mais calmo. Assim, talvez, possa 
lembrar-se de algum fato que nos ajude a 
encontrar o fio da meada.  
- Estou feliz de encontrar algum que 
conhece essa 
Realidade. Eu tenho uma amiga 
espiritual, chama-se Anal. Ela tem me 
ajudado sempre. Entretanto, neste caso, 
ela apenas me diz para confiar e esperar.  
- Certamente ela no pode dizer o que 
voc quer saber. Nem sempre os espritos 
tm permisso para intervir em nossa 
vida. S o fazem aqueles que ainda no 
tem  
Eles ficaram conversando durante mais 
de uma hora at que Vitrio levantou-se:  
- Desculpe ter tomado tanto o seu tempo. 
Voc  ocupado e eu estou abusando.  
- No se preocupe. Meu pessoal est 
fazendo o que  preciso. Mas quero que 
voc volte aqui amanh cedo para 
comearmos a trabalhar no caso. Esta 
noite farei um roteiro para iniciarmos as 
investigaes.  
Satisfeito, Vitrio despediu-se querendo 
j pagar pela consulta, o que Paulo no 
aceitou.  
- No precisa pagar nada. Vamos precisar 
de algum dinheiro para as primeiras 
despesas, mas s saberei quanto, depois 
de programar tudo.  
Vitrio deixou o escritrio satisfeito. Alm 
de um detetive que lhe passava 
segurana e firmeza tinha encontrado um 
amigo.  
Estava muito bom para um primeiro dia. 
Foi para o hotel. Sentiu que estava com 
fome, mas queria tomar um banho 
primeiro.  
Foi para o quarto, tomou um banho 
rpido, enxugou-se e estendeu-se na 
cama relaxar um pouco.  
De repente, sentiu um arrepio 
desagradvel pelo corpo e uma leve 
tontura. Percebeu algum no quarto. 
Apagou a luz e sentou-se, procurando 
livrar-se daquela energia ruim que o 
envolvia.  
Concentrou-se e pediu ajuda espiritual. 
Foi quando viu em um canto do quarto 
dois vultos escuros. Fechou os olhos e 
fixou-os melhor. Divisou um casal. Ele, 
olhos 
Esbugalhados; ela, olhos raivosos que 
expeliam chispas de energias escuras em 
direo de sua testa.  
Vitrio notou que ela trazia as mos e o 
pescoo sangrando, enquanto ele, o peito 
cheio de cortes, sangue e um corte na 
face.  
Ela percebeu que tinha diante de si o 
casal assassinado. Procurou reagir ao 
mal-estar que o incomodava e esforou-
se para fazer as perguntas que 
castigavam se crebro.  
Foi quando ela, olhando-o com raiva, 
disse com voz rouca e entrecortada:  
- Vocs vo me pagar por tudo. Ca na 
armadilha. Mas vou me vingar.  
- Vocs no perdem por esperar!- 
ameaou ele.  
Fazendo um esforo enorme, Vitrio 
perguntou para a mulher:  
- Quem so vocs? Onde est minha me? 
Onde arranjaram os documentos dela? 
Eles no responderam e antes que Vitrio 
pudesse dizer mais alguma, 
desapareceram, deixando uma nuvem de 
poeira escura no lugar onde estavam.  
Vitrio conseguiu reagir e vencer o torpor 
desagradvel que envolvia sua cabea, 
ficando apenas com um ligeiro enjo.  
Novas perguntas continuavam 
martelando seu crebro. Por que eles 
estavam com raiva da famlia? Que 
ligaes teriam com sua me? Por que 
juraram vingana? Ele precisava 
descobrir.  
Foi ao banheiro, lavou o rosto, os pulsos, 
enxugou-se e sentiu certa fraqueza. 
Resolveu vestir-se e descer para jantar. 
Precisava comer o quanto antes para 
repor as energias.  
Foi ao quarto do pai e soube que ele 
pedira um lanche no quarto. Ento, 
convidou Dinda para jantar com ele.  
Ambos desceram para o restaurante do 
hotel. Assim que se sentaram  mesa, ela 
comentou: 
_ Voc est com uma cara de quem viu 
fantasmas! Plido, onde andou o dia 
inteiro? 
_ Eu vi fantasmas mesmo. Pra voc posso 
contar. Em poucas palavras ele contou 
tudo, inclusive  presena dos dois 
espritos em seu quarto desejando 
vingar-se.  
Dinda ouviu com interesse. Depois 
comentou:  
_ Voc precisa rezar muito, meu filho. 
Essas almas esto revoltadas.  
_ Esto com dio de nossa famlia. Voc 
sabe me dizer por qu? 
_ Eu no! Por que deveria saber? 
_ Porque mame lhe contava seus 
segredos. Deve ter acontecido alguma 
coisa para que eles nos odeiem tanto.  
_ No sei de nada. Voc precisa 
descansar. Est imaginando demais. Tem 
de se alimentar bem e ir descansar. 
Amanh  outro dia.  
_ , amanh  outro dia.  
Ele no disse mais nada. Tratou de comer 
e depois subiu para o quarto. Mas em sua 
cabea continuavam os questionamentos 
em torno dos acontecimentos.        ONDE 
EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 8                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



Trs dias depois, Vitrio, acompanhado 
de Paulo, tocou a campainha da casa de 
Marlia. Assim que Dorita abriu a porta ele 
disse:  
_ Espero no ter vindo atrapalhar de 
novo.  
_ Seria bom que fosse verdade, mas hoje 
estamos com uma pequena encomenda 
que j foi entregue. Entrem, vou chamar 
Marlia.  
Levou-os para sala e Marlia apareceu em 
seguida, acompanhada de Altair. Vitrio 
fez as apresentaes:  
_ Marlia, Paulo advogado que est 
disposto a nos ajudar. Voc, penso que 
seja Altair.  
_ Muito prazer Dr.Paulo. Altair! 
Cumprimente o Vitrio e o Dr.Paulo.  
O menino estendeu a mo e 
cumprimentou os dois. Era um menino 
bonito, parecido com a me, porm 
estava um pouco abatido. Marlia tornou:  
_ Altair no foi  escola hoje. Est 
resfriado. Mas sentem-se, por favor. J 
conhecem minha amiga Dorita...  
Ela acenou com a cabea e retirou-se 
discretamente, levando Altair pelas mos. 
_ Voc pretendia arranjar um detetive 
particular. Mudou de idia? 
_ No, o Dr. Paulo  um advogado que se 
especializou em investigaes. Naquele 
dia em que estive aqui, pedi a uma 
pessoa que me indicasse um detetive, e 
ela me indicou o Dr. Paulo. Ele atendeu-
me no mesmo dia e concordou em nos 
ajudar. Na manh seguinte, apresentou-
me um plano para comear seu trabalho. 
Eu queria naquele mesmo dia vir at aqui, 
porm apareceu um apartamento 
mobiliado para alugar e meu pai quis 
mudar logo. Estava cansado de viver em 
um quarto de hotel. Ele est muito 
abatido, no se conforma com o que 
aconteceu. No se alimenta direito. Fez 
uma lista de nossas coisas que ele queria 
que nos mandassem e o caminho da 
nossa empresa trouxe. Eu precisei 
auxiliar na arrumao e s hoje pude vir.  
_ Voc conseguiu tudo para Paulo 
continuou: _ J iniciaram as investigao? 
_ Sim. Primeiro fui  delegacia conversar 
com Monteiro, que conheo h anos. 
Informei-me sobre os laudos e as 
impresses dele sobre o caso.  
_ Ele me parece um tanto devagar  
comentou Marlia -, at agora no 
conseguiu descobrir nada.  
_ A senhora est enganada. Monteiro  
um homem sagaz, inteligente. Mas as 
pistas so poucas.  
_ No me chame de senhora. Faz me 
sentir velha. O que foi que o delegado lhe 
disse? 
_ Ele ficou contente por eu ter entrado no 
caso. J trabalhamos juntos outras vezes. 
Eu pude ver as fotos do crime, os laudos 
da percia, as declaraes contraditrias 
dos familiares.  
_ Qual a sua concluso? 
_  cedo para isso. Vim conhec-la.  
_ Vai interrogar-me e dizer que sou 
suspeita de haver cometido o crime? 
A voz de Marlia tinha um leve tom irnico 
que no passou despercebido a Paulo, 
que respondeu:  
_ No. Voc nunca teria como cometer o 
crime, mas poderia ter sido a mandante.  
Marlia no gostou e retrucou irritada:  
_ Poderia se eu amasse meu marido 
Paulo baixou o olhar para que ela no 
percebesse o brilho satisfeito que 
apareceu em seus olhos. Baixou o tom de 
voz e tornou:  
_ Voc no se casou por amor? 
Ela arrependeu-se de suas palavras e 
tentou corrigir-se:  
_ Eu tinha dezoito anos quando me casei. 
Depois de dez anos de vida em comum a 
rotina acaba com todas as iluses.  
_ Pois eu na vejo assim. As iluses  que 
nos levam  dor. A verdade  sempre 
melhor. Voc tem uma crena 
equivocada. Acredita que a vida seja 
responsvel pelos sofrimentos. Isso  
mentira.  
Marlia tentou controlar a indignao ao 
responder com certa ironia:  
_ Voc acha que quando uma jovem se 
casa ela sabe o que est fazendo? 
Conhece como vai ser sua vida conjugal e 
seu relacionamento com o marido? O 
casamento  sempre uma aventura onde 
algumas tm sorte, outras no.  
_ Voc acha que no teve muita sorte, 
no ? 
Talvez pelas emoes dos ltimos dias, 
pela insegurana do futuro, a falta de 
dinheiro, ela no conteve as emoes: 
_ Voc acha que  bom uma jovem 
ingnua casar-se com um homem frio, 
calculista, que faz de seu trabalho um 
mistrio contnuo, que nunca conversa 
sobre o que pensa! Que d pouco dinheiro 
para a mulher, no a deixa sair de casa 
nem a leva a nenhum lugar? Que olha o 
filho como se fosse um desconhecido, no 
brinca com ele nem lhe d carinho? Que 
quando ela quer se colocar, conversar 
sobre o relacionamento ele torna-se 
violento e a espanca? 
Vitrio, a olhava admirado. Vira em 
Marlia uma doce e delicada mulher, no 
imaginava o que ela guardava no corao.  
As lgrimas corriam pelas suas faces e ela 
continuou com voz entrecortada:  
_ Pode imaginar o que eu senti ao receber 
a carta annima e acreditar que 
finalmente iria descobrir onde meu 
marido passava as noites? Quando a 
porta daquela casa que estava s escuras 
se abriu a um leve toque e a curiosidade 
fez-me entrar, e, mesmo tendo visto os 
objetos revirados, a luz acesa do abajur 
no quarto me fez caminhar at l e ver 
aquela cena horripilante que quando eu 
fecho os olhos continuo vendo como da 
primeira vez? Pode imaginar o medo que 
senti? A vontade de fugir quando acendi a 
luz do quarto e reconheci meu marido 
com o rosto plido, cheio de sangue, 
deitado naquela cama? Sai correndo, os 
troves reboavam sobre minha cabea 
tanto quanto meu corao aterrorizado, 
fazendo meu corpo tremer, enquanto a 
tempestade molhava-me e um frio imenso 
me invadia. Eu queria chegar  casa de 
qualquer jeito. Nem sei como consegui.  
Marlia se levantara, tremia e soluava 
convulsivamente.  
Paulo aproximou-se dela e abraou-a com 
carinho:  
_ Ponha para fora toda mgoa, sua 
mgoa, sua revolta, sua dor. Chore, voc 
tem motivos.  
Descansando a cabea no peito dele, 
Marlia soluou por alguns minutos, 
depois, aos poucos, foi se acalmando e 
parou de chorar. 
Paulo tirou um leno e colocou-o na mo 
dela que enxugou o rosto, separando-se 
dele e dizendo envergonhada:  
_ Desculpe. Eu no queria fazer isso.  
_ Voc precisava desabafar. Deve estar 
se sentindo aliviada  disse Paulo srio.  
Marlia suspirou e respondeu:  
_ Estou aliviada, mas envergonhada 
tambm. No costumo fazer cenas como 
esta.  
_ Eu, a, provoquei um pouco  disse 
Paulo. _ Quem lhe pede desculpas sou eu. 
Mas eu precisava, conhec-la melhor.  
Vitrio estava admirado e desejou ser 
solidrio com ela:  
_ No se preocupe, Marlia. Eu sou assim. 
Outro dia chorei aqui diante de voc e 
Dorita. No me envergonho mais. Sou 
muito sensvel e s vezes no d para 
controlar.  
Marlia entendeu a inteno dele e 
procurou sorrir.  
_ Vocs vo me dar licena. Vou lavar o 
rosto. No quero que Altair me veja 
assim. Vou subir e j volto.  
Pouco depois, Dorita entrou com uma 
bandeja onde havia caf e um prato com 
salgadinhos.  
_ Marlia os deixou sozinhos? 
_ Ela subiu, mas vai voltar logo  
respondeu Paulo.  
Dorita serviu o caf, colocou o pratinho 
sobre a mesinha e Paulo perguntou:  
_ H quanto tempo voc est com 
Marlia? 
_ Mais ou menos nove anos.  
_ Deve ter acompanhado o 
relacionamento do casal.  
Dorita olhou-o sria. Ela no iria falar 
nada do que se passara naquela casa. 
Paulo continuou:  
_ Marlia nos contou suas desiluses 
tendo se casado to jovem com um 
homem violento e ignorante que nem 
ligava para o filho.  
_ Ela contou? 
_ Toda a verdade. Emocionou-se, chorou 
muito e subiu, para lavar o rosto. No 
quer que o menino a veja de olhos 
vermelhos.  
_  de admirar. Ela no gosta de falar 
nisso. Nunca contou a ningum. Mas eu 
sei o quanto ela sofreu com esse marido. 
Para dizer a verdade, ningum merece 
morrer daquele jeito, mas eu fiquei 
contente por ele no estar mais aqui.  
_ Voc no gostava dele? 
_ nem um pouco. Um homem que fez o 
que ele fez com uma mulher sincera, boa, 
carinhosa como Marlia, merece ser 
castigado.  
_ Eles brigavam muito? 
_ No comeo, sim. Ela no se conformava 
com a maneira dele no falar aonde ia, o 
que fazia e perguntava. Ento, era a hora 
que ele ficava violento e at a agredia. 
Uma vez ela ficou com o brao roxo por 
muitos dias porque ele bateu nela com 
um cinto de couro. A, ela deixou de 
question-lo. Mal se falavam. S as coisas 
de casa.  
_ Eles dormiam no mesmo quarto? 
Relacionavam-se intimamente? 
_ Isso eu no sei. Quando ele estava em 
casa dormiam juntos na cama. O que eu 
sei  que ela tinha horror de dormir com 
ele. Muitas vezes dizia que Altair estava 
doente e ia dormir na cama dele.  
Marlia desceu as escadas. Havia se 
esforado para disfarar, mas seus olhos 
ainda estavam um pouco avermelhados.  
_ Eu estava fazendo companhia s visitas 
 explicou Dorita, sorrindo, fazendo 
meno de retirar-se.  
Marlia disse:  
_ Fique, Dorita. Para voc no tenho 
segredos. Onde est Altair? 
_ Na copa, fazendo a lio.  
_ Ento ele melhorou. 
_ Melhorou sim. Comeu um bom lanche.  
_ Que bom. Estou aliviada.  
Os dois tomaram caf, comeram os 
salgadinhos, depois Paulo levantou-se:  
_ Agora temos de ir. O caf estava 
delicioso e os salgados fizeram-me 
lembrar de vov. Ela faz umas empadas 
to boas quanto as suas.  
_ Coisas de av tm sabor diferente  
disse Dorita. Quando tiverem vontade, 
venha, experimentar nossos quitutes.  
_ Viremos  respondeu Vitrio.  
_ Vou acompanh-los at a porta  disse 
Marlia.  
_ Voltaremos quando tivermos alguma 
notcia sobre o caso  prometeu Paulo.  
_ No precisam esperar, venham quando 
quiserem. Voc disse que estou enganada 
quanto  dureza da vida. Gostaria que me 
explicasse por qu.  
Os olhos de Paulo brilham alegres, e ele 
respondeu:  
_ Voc no se esqueceu... Qualquer dia eu 
voltarei para lhe explicar melhor.  
_ Desculpe por eu ter ensopado seu 
leno. Quando voltar eu lhe devolverei 
devidamente lavado e passado. Obrigada 
por vocs terem suportado meu desabafo.  
Eles despediram-se com beijinhos na 
face. Depois daquele encontro com 
Marlia sentia que havia encontrado 
verdadeiros amigos.  
Uma vez no carro, Vitrio tornou:  
_ Outro dia quando estive aqui pensei que 
Marlia tivesse superado o assassinato do 
marido. Mas hoje...  
_ Quando chegamos, notei logo que ela  
uma pessoa bastante fechada e que no 
gosta de falar sobre seus sentimentos.  
_ No comeo me pareceu que voc estava 
sendo muito duro com ela.  
_ Eu a estava provocando para que se 
abrisse. 
_ No sei como uma mulher to delicada 
como ela pde suportar tantos anos de 
convivncia com aquele marido.  
_ O fato  que ela no se separou e se ele 
ainda estivesse vivo, continuariam juntos. 
Isso me intriga. Mas ainda saberemos por 
qu.  
_ Agora vos falar com papai. Ele est um 
pouco melhor e concordou em conversar 
com voc.  
_ Ontem, quando fui ao apartamento, j 
que seu pai preferiu deixar para falar 
comigo hoje, quis conversar com Dinda. 
Mas ela esquivou-se, dizendo que 
precisava cuidar do Sr.Alberto. Talvez 
saiba mais do que contou ao delegado.  
_ No creio. Se soubesse de algo mais 
teria me dito. Ela  assim mesmo, muito 
dedicada. Est preocupada com ele 
porque desde que veio para c tem 
estado calado, triste, inconformado e 
sentindo-se fraco, casado. O mdico veio 
examinou, ele e disse que ele est com 
depresso. Receitou um medicamento e 
estimulou-o a reagir, pediu-lhe que fosse 
andar pela manh e procurasse 
alimentar-se bem.  
Uma vez no apartamento com Vitrio, 
Dinda disse que Alberto continuava no 
mesmo. No fora andar pela manh 
conforme a recomendao do mdico, 
alimentara-se mal e continuava deitado, 
muito abatido.  
Vitrio foi falar com ele. Bateu levemente 
na porta e entrou. Alberto estava deitado, 
abriu os olhos e, vendo-o, fechou os 
novamente.  
_ Pai, Dinda disse que voc no fez o que 
o mdico pediu.  
_ Estou muito cansado. No consegui 
levantar.  
_ Voc precisa reagir. No pode entregar-
se ao desnimo. Desse jeito vai acabar 
doente de verdade.  
Alberto no respondeu. Vitrio sentou-se 
na poltrona que estava na cabeceira da 
cama e disse: 
_ Pai, o Dr.Paulo veio comigo e est 
esperando para conversar com voc! 
_ Resolva isso. No tenho vontade de 
conversar com ningum. O que eu sabia 
j falei para o delegado! 
_ Ns precisamos descobrir onde mame 
est. No podemos perder tempo.  
_ s vezes penso que voc est enganado 
e que aquele corpo  dela.  impossvel 
existir algum to parecida e ainda estar 
com os documentos dela.  
_ Eu no penso assim e contratei o 
Dr.Paulo para investigar. No vou 
descansar enquanto no descobrir o que 
realmente aconteceu.  
_ Fale com ele. Toda vez eu falo sobre o 
assunto me sinto mal.  muito difcil para 
mim.  
_ Faa um esforo, pai.  preciso. No vai 
demorar. No precisa se levantar. Sente-
se e eu vou colocar alguns travesseiros 
nas suas costas. Estou lhe pedindo! 
Alberto suspirou desanimado, mas 
concordou:  
_est bem.  
Depois de ajud-lo a sentar-se e 
acomod-lo, Vitrio chamou Paulo, que 
entrou em seguida.  
Aps os cumprimentos, Vitrio pediu que 
Paulo se sentasse na poltrona ao lado da 
cama e disse:  
_ Vou deix-los  vontade.  
_ Eu prefiro que voc fique  pediu 
Alberto.  
Mas Paulo interveio:  
_  melhor ele sair.  
Quando se viu sozinho com Alberto, Paulo 
disse:  
_ O senhor tambm tem certeza de que 
aquele corpo no  de sua esposa? 
_ Tenho minhas dvidas. H momentos 
em que penso que seja dela. So muito 
parecidas. Seria difcil existir duas 
pessoas to iguais.  
_ Se o senhor est to deprimido  
porque, apesar do que afirmam Vitrio e 
Dinda, no fundo est certo de que sua 
esposa est morta.  
_ Se ela estivesse viva, j teria nos 
procurado, a no ser...  
_ A no ser...  
_ Nada. Desde que isso tudo comeou no 
tenho tido um momento de paz. Muitas 
idias surgem em minha cabea e no sei 
no que acreditar.  
Paulo olhou firme nos olhos de Alberto e 
perguntou:  
_ Sua mulher tinha algum motivo para 
no querer voltar para casa? 
Alberto hesitou um pouco, depois 
respondeu:  
_ Nos ltimos tempos, Teresa andava 
deprimida. No tinha motivao para 
nada. E, de vez em quando, dizia que 
sentia vontade de desaparecer, sumir.  
_ Teresa no era feliz? 
Alberto estremeceu:  
_ No acredito nisso. Eu sempre fiz tudo 
por ela. Cerquei-a de luxo, carinho, bem-
estar. Ela no tinha motivo nenhum para 
ser infeliz.  
_ A que o senhor atribui  depresso 
dela? 
_ No sei. O mdico disse que poderia ser 
da idade.  
_ Como se conheceram? 
_ Faz muito tempo e isso no deve 
interessar ao caso.  
_ Interessa muito. Eu desejo conhecer a 
personalidade de Teresa, compreender 
por que ela se sentia infeliz.  
Alberto remexeu-se na cama um pouco 
irritado:  
_ Eu j disse: ela no se sentia infeliz.  
_ Mesmo assim, quero saber como se 
conheceram.  
_ Em uma festa, na casa de amigos. Foi 
amor  primeira vista. Ela era alegre, 
bonita, cheia de vida. Passei a cortej-la 
e ela, a princpio, no queria nada, mas 
depois acabou se interessando por mim e 
nos casamos.  
_ Quando foi que ela comeou a mudar? 
_ Bem, desde que nos casamos ela foi 
mudando um pouco.  natural, antes era 
solteira e no tinha uma famlia para 
cuidar. Eu sempre procurei fazer de tudo 
para que ela no tivesse de se preocupar 
com nada, cerquei-a de empregados e 
Dinda sempre fez tudo para que ela fosse 
feliz.  
_ Mas mesmo assim, ela sentiu-se 
deprimida, angustiada nos ltimos 
tempos. Ela no lhe contou os motivos? 
_ No. Mas penso que no havia nada. Ela 
adoeceu. Eu queria viajar com ela, mas 
Teresa no quis. Ela me disse que queria 
ficar longe de tudo, que s assim iria se 
refazer. Embora triste, eu respeitei sua 
vontade. Como no queria que ela fosse 
sozinha, Teresa apresentou-me Elvira. 
Elas viajaram juntas.  
_ O senhor as acompanhou ao embarque? 
_ Sim. Levei-as ao aeroporto e deixei-as 
no salo de embarque.  
_Quem mais as acompanhou ao 
embarque? 
_ Ningum. Elvira disse que era do 
interior e sua famlia no veio com ela 
para o Rio de Janeiro.  
_ Como era Elvira? 
_ Uma mulher muito fina, elegante, bem 
vestida, com vrias malas.  
_ Como era fisicamente? 
_ Alta, loura, esguia, olhos castanhos, no 
aparentava ter a mesma idade de Teresa. 
Era mais conservada.  
_  importante que se recorde dela. Essa 
mulher pode ter todas as respostas do 
que aconteceu.  
_ Eu me arrependo de haver confiado 
nela, sem querer saber seu endereo, 
conhecer sua famlia.  que ela pareceu-
me to fina, to educada que no tive 
coragem de perguntar nada. Nunca 
poderia imaginar que fosse acontecer 
alguma coisa ruim. Depois, Teresa 
conversava com ela com alegria e eu at 
pensei que sua companhia poderia ajud-
la a se recuperar. 
Paulo colocou a mo no brao de Alberto 
e disse, olhando firme em seus olhos:  
_ Eu prometo que vou descobrir toda a 
verdade. Quero que me ajude. Para isso 
precisa reagir, sair dessa cama, porque s 
quando estiver melhor  que poder se 
recordar de mais algum detalhe. Tenha 
em mente que qualquer coisa que se 
lembre, por mais insignificante que lhe 
parea, pode ser o fio da meada que 
procuramos.  
_ E voc, o que pensa de tudo isso? 
Acredita que Teresa esteja morta? 
_ Ainda no tenho uma opinio definida. 
Estou comeando a investigar. O que sei  
que o homem que foi morto naquela 
cama, alm de violento, levava vida 
suspeita.  
_ Isso me atormenta. Como Teresa 
poderia envolver-se com um homem 
daqueles? 
_ No se atormente. Ainda no temos 
certeza de nada. Pode ser que Teresa 
nunca o tenha conhecido.  
_ Mas e os documentos? 
_ Podem ter sido furtados. O que mais me 
intriga  a semelhana. Mas se no for 
Teresa, vamos descobrir quem  essa 
mulher. No se deixe abater antes da 
hora. Levante-se e cuide da sua sade. O 
senhor deve confiar que dias melhores 
viro.  
_ Obrigado pelo conforto. Vou levantar-
me, tomar um banho para ver se me sinto 
melhor.  
_ Enquanto isso vou conversar com 
Dinda, mas ficarei esperando para 
tomarmos um caf juntos. 
Paulo saiu do quarto e Vitrio o estava 
esperando do lado de fora: 
_ E ento? 
_ Ele vai se levantar, tomar um banho e 
depois tomaremos um caf juntos. Agora 
quero falar com Dinda.  
Ela estava na sala, ouviu a conversa e 
respondeu:  
_ Agora eu no posso. Vou preparar um 
bom lanche para o Sr.Alberto e um caf 
reforado.  
Paulo sorriu e respondeu:  
_ Conversaremos depois do caf.  
Dinda apressou-se a ir para a cozinha.                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 9                                                                                             
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



Osmar chegou ao escritrio da empresa 
nervoso. Refugiou-se em sua sala, 
sentou-se diante da mesa e manuseou a 
correspondncias que chegara durante os 
dias em que estivera ausente.  
Nenhuma notcia importante. O que ele 
temia no tinha se concretizado.  
Talvez seus adversrios tivessem se dado 
por satisfeito com o que fizeram e dali 
para frente no o incomodassem mais.  
Apesar do golpe sofrido, ele podia dar-se 
por feliz com o resultado alcanado. 
Pagara um favorvel.  
Podia tocar a vida para frente, sem que 
ningum desconfiasse. Seu pai estava 
adoentado, deprimido, no se interessava 
mais em controlar a empresa. Ele poderia 
fazer tudo o que sempre sonhara.  
Quando entrasse mais dinheiro, ele 
poderia pagar o que devia e assim, limpar 
o caminho para continuar seus negcios. 
Quando vendesse aquela mercadoria 
estaria rico. Muito rico. 
No haveria limites para ele. Em pouco 
tempo triplicaria o capital. Com a me 
morta, o pai ausente, e um irmo que no 
tinha tino comercial nem se interessava 
pelos negcios da famlia, ele teria 
controle de tudo.  
Se Vitrio o incomodasse, o internaria em 
uma casa de sade de onde no o 
deixaria mais sair.  
Ele no notou que alguns vultos escuros o 
abraaram, dizendo-lhe: 
- Voc merece!  o mais inteligente, o 
mais lcido o nico que sabe mandar.  
- Famlia s serve para atrapalhar. Voc 
no precisa dela...  
Embora Osmar no ouvisse as palavras, 
pensava: 
No preciso de ningum. Vou ser muito 
rico e ento terei o mundo a meus ps. 
Quero ver se Aurlia continuar 
indiferente depois que eu me tornar rico e 
poderoso!  ela quem vir arrastar-se a 
meus ps, implorar pelo sei amor.  
Nessa divagao, Osmar a imaginava em 
seus braos, louca de amor, desejando 
seus beijos, submetendo-se  sua 
vontade.  
A esse pensamento sorria enlevado. Para 
obter isso, faria qualquer coisa. Tiraria do 
seu caminho qualquer um que dificultasse 
seus planos.  
Ele era um vencedor. Nenhuma mulher 
poderia rejeit-lo como Aurlia fizera. H 
dois anos, quando ele se declarara e a 
pedira em casamento, ela rira da sua 
emoo, tripudiara sobre os seus 
sentimentos.  
Rejeitado e vingativo, ele jurara 
conquista-la de qualquer forma. Era 
questo de honra. Essa mulher to 
requestada, admirada em sociedade, 
ainda se atiraria em seus braos.  
Desde essa poca, planejara que o 
primeiro passo seria 
Conseguir o que pretendia.  
Ele no queria esperar. Tinha pressa, 
muita pressa. Ento, resolveu entrar na 
marginalidade. Depois de pesquisar, 
decidiu entrar no comrcio de drogas.  
s escondidas, relacionou-se com 
viciados, fingindo-se ser um deles e 
conheceu alguns traficantes. Procurou os 
maiores. Assim que se sentiu bem 
informado, comeou a desviar dinheiro da 
empresa para negociar drogas.  
Foi devagar. Fazia pequenos negcios. O 
pai era muito ativo, vigilante, assinava os 
cheques, participava de tudo e ele no 
tinha como fazer o que planejara 
rapidamente.  
Mas com o tempo, tendo conseguido 
aumentar os negcios da empresa de 
maneira regular, captou a confiana de 
Alberto, que dividia com ele tarefas mais 
importantes. Osmar sempre fora o filho 
preferido dele, que sonhara deixar a 
empresa para os dois filhos. Vitrio no 
se interessava e, alm disso, por ser 
hipersensvel, acreditava que o filho fosse 
doente.  
O interesse do pai pelo trabalho irritava 
Osmar, desejoso de levar os planos 
adiante. 
Cada vez que ele via Aurlia assediada 
por outros homens, alguns dos quais mais 
importantes financeiramente do que ele 
sofria crises de cimes. Como no podia 
manifestar o que sentia, recolhia-se em 
casa e repassava seus planos como forma 
de enfrentar sua raiva.  
Aurlia, linda, indiferente ao assdio 
masculino, moa culta e rica, s pensava 
em divertir-se, aproveitar sua mocidade. 
No desejava amarrar-se em um 
casamento que tiraria sua liberdade. O 
casamento dos pais e a convivncia com a 
vida formal, ausente de amor que eles 
levavam e que ela odiava , fizeram-na 
fugir desse tipo de compromisso.  
Gostava de ir s praias, cantar, danar, 
freqentar festas. 
E lugares da moda, viajar. Filha nica de 
pais condescendentes fazia sempre o que 
queria, sem se preocupar com nada que 
no fosse seu prazer de viver.  
Mesmo assim, pela sua beleza, sua 
alegria e espontaneidade, eram amadas 
por todos e sempre bem recebida onde 
aparecia; sua reputao era muito boa. 
Osmar sonhava em te s para si. Em ser 
exclusivo na vida dela. Era possessivo e 
no se conformava com a vida que ela 
levava. Imaginava que quando se 
casassem, (ele no divisava que 
conseguiria isso) ela teria de fazer tudo 
com ele queria.  
O telefone tocou e ele atendeu:  
-  voc? Por que est ligando para c? 
Eu lhe disse para nunca fazer isso.  
-  que precisamos conversar. Surgiu um 
problema.  
- Eu lhe pago para evitar problemas. Aqui 
no quero tratar do assunto.  
- Tenho urgncia em conversar com voc. 
- Est bem. Hoje mesmo vou ter com 
voc.  
- O quanto antes. Estarei esperando.  
- No ligue mais para c. 
Osmar desligou o telefone irritado. Um 
problema agora seria perigoso.  
Algum bateu e ele lembrou-se de que 
no havia destravado a porta. Foi abrir.  
- O senhor desculpe, mas est aqui o Dr. 
Nunes para tratar do caso do Anselmo. 
Era uma causa trabalhista e Nunes era 
advogado da empresa. 
- Eu tenho um compromisso importante e 
preciso sair,  
- O Dr. Nunes disse que tem urgncia. A 
audincia  amanha e o risco de a 
empresa perder  grande.  
- Ele pode entrar, mas que seja breve. 
O advogado entrou e embora Osmar 
desejasse sair 
Logo, o caso era complicado e ele 
precisou ficar mais tempo do que 
pretendia.  
S conseguiu deixar a empresa uma hora 
e meio mais tarde. Apanhou o carro, 
deixando-o no posto para lavagem. Disse 
ao atendente:  
- Capriche. Tenho um compromisso, volto 
daqui  uma hora.  
- Sim, senhor. 
Osmar parou um txi, deu o endereo e 
foi rumo ao subrbio. Quando o carro 
parou diante da casa modesta, ele desceu 
dizendo:  
- Pode esperar. No vou demorar.  
Osmar deu trs batidas, a porta abriu e 
ele entrou. Um rapaz moreno, franzino, 
cabelos revoltosos, gestos nervosos disse 
logo:  
- Puxa como voc demorou! 
- No estou a sua disposio, sou um 
homem ocupado. O que  to urgente que 
me fez largar tudo e correr at aqui Sabe 
que no gosto que nos vejam juntos.  
- Hoje era dia de visitas e eu fui at o 
sanatrio. Mas os mdicos me chamaram 
e disseram que ela no pode mais ficar l. 
Est dando muito trabalho e eles querem 
que ela v para outro lugar.  
- Isso  um absurdo. Eles que coloquem 
uma camisa de fora.  
-  melhor ir falar com o Dr. Ernesto. Eles 
se negam a fazer isso. Estou precisando 
de dinheiro. O que voc deu acabou o Jair 
est reclamando.  
Osmar pegou a carteira e deu algumas 
notas dizendo: 
- Agora s tenho isso. Amanha mesmo 
deposito mais naquela conta.  
- Est bem. 
Osmar saiu, entrou no txi, foi pegar o 
carro no posto de gasolina e voltou para a 
empresa. 
Assim que chegou, ligou para o pai. 
Precisava saber como estava  
investigao sobre o crime. Dinda 
atendeu:  
_Quero falar com papai.  
_ melhor ligar mais tarde. Ele est 
conversando com o advogado e no pode 
ser interrompido.  
_Advogado? Para que? Ns j temos um.  
Vitrio apanhou o telefone: 
_Sou eu, Osmar. Papai est ocupado.  
_Que histria  essa de advogado? Ns j 
temos um.  
_Ele  o investigador que contratei para 
descobrir onde mame esta. 
_Voc continua com essa maluquice? 
Mande-o embora. No h nada para 
investigar. Quero falar com papai agora 
mesmo.  
_O assunto  importante e no vou 
interromper. Papai no est bem de 
sade e no vou deixar que voc perturbe 
ainda mais a cabea dele. Se quiser falar 
com ele ligue daqui  uma hora.  
Vitrio desligou o telefone e Osmar fixou 
com muita raiva. Ele precisava ter 
controle de tudo e no podia permitir que 
Vitrio continuasse investigando.  
Respirou fundo e procurou controlar a 
irritao. Precisava de serenidade para 
decidir os prximos passos.  
A secretria entrou e entregou-lhe alguns 
recados anotados durante sua ausncia. 
Ele passou os olhos rapidamente e 
deteve-se em um que dizia: "Aniversrio 
de casamento do coronel Vilela s vinte 
horas". 
_Preciso me preparar. No posso perder 
essa festa. Aurlia com certeza estar l.  
Chamou a secretria e indagou se o 
presente do casal Vilela havia sido 
enviado. Havia escolhido uma dzia de 
rosas em um lindo arranjo e colocara 
dentro uma caixa de veludo com uma jia 
para a esposa do coronel.  
Sabia que agradando a esposa, teria 
atenes do coronel. Ele no escondia a 
paixo que sentia por ela. Recebera a 
informao de que tudo fora feito 
conforme pedira. Osmar tratou de fazer o 
que era urgente e depois foi para casa. 
Queria descansar e preparar-se com 
esmero para ir  festa.  
Faltavam alguns minutos para as vinte e 
um horas quando Osmar parou o carro 
diante dos portes da casa do coronel 
Vilela e, entrou na alameda principal que 
conduzia  entrada da casa. 
Assim que parou diante da porta aberta 
que dava para o saguo, um rapaz 
elegante, vestindo um terno preto, abriu 
a porta do carro dizendo:  
_Boa noite, doutor. Pode entrar, eu cuido 
do carro.  
_Obrigado.  
Osmar entrou no saguo finamente 
mobiliado; havia muitas flores e podia se 
ouvir a musica que vinha do salo de 
festas.  
O coronel Vilela e Ester, sua esposa, 
estavam no saguo e apressaram-se a 
dar-lhe as boas-vindas. Ele era alto; 
forte; moreno; olhos, cabelos e bigodes 
castanhos; aparentava cinqenta anos e 
vestia-se com sua farda de gala. No peito 
algumas medalhas. Ela era alta, magra, 
elegante e loura, demonstrava uma 
postura altiva dentro de um vestido azul-
noite. Portava algumas jias de 
brilhantes que ressaltavam mais a beleza 
do seu vestido.  
Osmar cumprimentou, desejando 
felicidades pelos vinte e cinco anos de 
casamento. Trocaram algumas palavras 
rpidas, pois vrios convidados estavam 
chegando e desejavam cumprimentar o 
casal.  
Osmar entrou no salo olhando em volta e 
sorriu satisfeito. Estava diante da melhor 
sociedade do Rio de Janeiro. Alguns 
polticos, mas Aurlia no estava.  
Ele sabia que ela costumava chegar 
sempre depois das onze, quando a festa 
estava no auge da animao. Osmar 
Cumprimentou alguns casais amigos e 
depois se deteve ao lado de Merca, a filha 
mais velha do casal Vilela:  
- Voc est linda como sempre. Fica-lhe 
muito bem esse vestido cor de prata.  
- Obrigada. Voc sabe se Vitrio vir 
Ela sabia que os dois irmos no saam 
juntos.  
- No. Ele viajou com papai.  
Mrcia ficou silenciosa pro alguns 
segundos. Havia lido os jornais, mas por 
delicadeza evitou comentar o assunto.  
- Eu no esperava que Voc viesse... Isto 
... Eu pensei que voc estivesse fora do 
Rio.  
Osmar assumiu um olhar triste. Baixou a 
cabea e respondeu:  
- Eu vim porque no poderia deixar de 
cumprimentar seus pais neste dia to 
importante para eles, e tambm para 
tentar esfriar um pouco a cabea e sair da 
angustia que tem me consumido. De nada 
adiantaria eu ficar em casa sofrendo, sem 
poder nada para solucionar o problema.  
- O momento no  prprio e no quero 
ser indelicada, mas tanto eu como minha 
famlia, sentimos muito o que lhes 
aconteceu. Eu li que a policia no tem 
certeza da identidade da mulher que foi 
morta.  
- De fato, esse  um problema difcil e a 
causa da nossa angustia. Mas mudemos 
de assunto, no quero entristec-la em 
uma noite que deve ser de alegria e 
prazer.  
alguns no disfaravam a curiosidade, 
olhando-o de forma diferente. 
Se no fosse pela vontade de ver Aurlia 
e a esperana de que o notasse um pouco 
mais, ele no teria ido. 
Pensando melhor, decidiu adotar o ar de 
vitima, fingindo estar abalado com os 
acontecimentos. Em vez de fingir que 
nada acontecera, o melhor seria falar no 
assunto, mas de forma que as pessoas 
sofressem com sua desgraa e o vissem 
como um filho vivendo a perda no 
apenas da me, mas tambm da honra.  
Os artigos dos jornais exibindo os corpos 
mortos, meio desnudos sobre a cama, no 
deixavam dvida quanto ao 
relacionamento dos dois. 
Osmar era inteligente o bastante para 
entender que ele nada valeria negar o 
fato. Mas se ele assumisse o choque, a 
dor terrvel daquele acontecimento, iria 
se tornar uma vitima, as pessoas iriam 
aconcheg-lo, tentando minimizar seu 
sofrimento.  
Tendo decidido isso, Osmar adotou um ar 
melanclico, isolou-se e percebeu que 
alguns que antes o olhavam com 
curiosidade, passaram por ele, dando-lhe 
palmadinhas nas costas, sem dizer nada, 
mas querendo demonstrar que entendiam 
sua dor e estavam solidrios. 
Osmar observava a tudo, rindo por 
dentro, pensando em como as pessoas se 
iludem facilmente. 
Aurlia chegou dentro de um vestido cor 
de mel. Seus olhos verdes contrastavam 
com o dourado de seus cabelos e 
combinavam com o colar e os brincos de 
esmeraldas que ele usava com distino.  
Ela entrou no salo ignorando o 
burburinho que se fez com sua chegada. 
Olhando em volta, dirigiu-se a Mrcia e 
abraou-a com carinho:  
- Voc est linda. 
- No tanto como voc. 
As duas se conheceram na infncia. Suas 
famlias se visitavam e desde aqueles 
tempos elas tornaram-se amigas.  
Osmar aproximou-se, olhando Aurlia 
com admirao 
- Como vai Aurlia- indagou ele, com voz 
triste. 
- Bem. No pensei v-lo aqui esta noite. 
Osmar suspirou triste e respondeu:  
-H momentos na vida em que  preciso 
superar a dor e reagir.  
Aurlia no se comoveu com o tom dele:  
_ Quando a pessoa no est bem,  
melhor ficar em casa para no incomodar 
a alegria dos outros.  
_ Pois eu vim buscar um pouco mais da 
sua alegria para tentar sobreviver.  
_ No conte comigo para isso. Eu me sinto 
muito alegre nesta noite e no divido esse 
estado com ningum. Com licena, vou 
cumprimentar alguns amigos.  
Ela afastou-se e Osmar mordeu os lbios 
com raiva. Era intolervel a maneira como 
Aurlia o tratava. Mrcia tentou suavizar:  
_ Aurlia gosta de brincar. No leve a 
srio o que ela disse. Eu estou muito 
contente por voc ter vindo.  
_ Obrigado pelo carinho. 
_ Estes dias tenho pensado muito em 
Vitrio. Quisera poder fazer alguma coisa 
para consol-lo.  
_ Ele faz muito drama e sofre mais por 
esse motivo. 
_ O que aconteceu no foi um drama para 
voc? 
Osmar retomou o ar triste que esquecera 
por alguns instantes:  
_ Foi um drama para toa nossa famlia. 
Mas enquanto eu reajo, tento disfarar a 
dor que estou sentindo, ele exagera 
porque foi sempre muito mimado.  
_ Cada um tem uma forma de encarar os 
fatos. 
Algumas pessoas chegaram para 
cumprimentar Mrcia e Osmar afastou-se. 
Sua ateno estava sobre Aurlia.  
Quem era aquele desconhecido com o 
qual ela conversava animadamente? Um 
rapaz alto, louro, corpo atltico, 
elegantemente vestido, cujos olhos azuis 
a olhavam com admirao? Ele precisava 
descobrir. Aurlia no costumava dar 
tanta ateno a um rapaz.  
Pouco depois, antes que ele pudesse 
satisfazer sua curiosidade, viu o casal 
danando, um olhando nos olhos do 
outro, e a custa controlou o cime. Teve 
vontade de ir l e arrancar Aurlia dos 
braos dele.  
Aproximou-se da dona da casa, dizendo: 
_ Parabns pela linda festa! 
_ Obrigada. Sinto muito ao que aconteceu 
com sua famlia. Fico-lhe muito grata por 
ter vindo nos cumprimentar, apesar dos 
momentos difceis que esto passando.  
Osmar baixou o olhar, fingindo tristeza. 
_ Eu no poderia deixar de vir 
cumpriment-los em nome de nossa 
famlia. Meu pai e meu irmo esto em 
So Paulo esperando a soluo do caso. 
Depois, aqui todos so nossos amigos e 
eu me sinto mais aconchegado junto a 
vocs. S no conheo aquele rapaz que 
est danando com Aurlia.  
Ela olhou o casal danando e respondeu: 
_ Aquele  o doutor Augusto Mendona, 
mdico. O pai dele  muito amigo de meu 
marido.  
_ Eu nunca o tinha visto. 
_ Nem poderia. Ele morava nos Estados 
Unidos at semana passada. Voltou ao 
Brasil para dedicar-se a pesquisas 
cientficas patrocinadas por uma 
universidade americana.  
_ Nota-se que  um moo fino e bem-
nascido. 
_ De fato. Alm de lindo ele  tudo isso e 
muito mais.  
Osmar tentou ocultar a raiva, baixando os 
olhos. A partir daquele momento, ele no 
teve mais paz.  
O casal continuava danando e 
conversando. Aurlia parecia estar muito 
bem ao lado dele, tratava-o muito 
diferente do que costumava tratar seus 
admiradores.  
Quanto mais Osmar os via juntos, mais 
pensava que precisava ultimar seus 
projetos para que no viessem a 
fracassar. 
No dia seguinte tomaria novas 
providncias a fim de conseguir o que 
desejava. No seria por causa de um 
intruso que ele iria perder Aurlia. Seria 
muito bom que esse doutorzinho no se 
metesse no seu caminho, porque ele 
estava disposto a afastar todos os 
obstculos.     ONDE EST TEREZA?  ZIBIA 
GASPARETTO



CAPTULO 10                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



Depois do caf, Dinda no saia da 
cozinha e Vitrio foi busc-la:  
_ O Dr.Paulo est esperando.  
_ Tenho que lavar esta loua. Agora no 
posso.  
Ele puxou-a pelo brao:  
_ Pode sim. A loua pode esperar.  
Dinda lanou-lhe um olhar irritado, mas 
no teve como resistir, pois, ele 
continuava segurando seu brao e 
olhando-a srio.  
_ Vai indo que eu j vou.  
_ No. S saio daqui com voc.  
_ Est bem. Eu vou.  
Ela lavou as mos, enxugou-as, tirou o 
avental e acompanhou Vitrio at a sala.  
_ Vou deix-los a ss para que possam 
conversar  vontade.  
_ Sente-se, Dinda.  
Ela obedeceu de cara fechada.  
Paulo acendeu um cigarro com calma, deu 
algumas baforadas, depois disse com voz 
suave: 
_ Voc me parece nervosa. No tenha 
receio. Estou aqui como amigo. No sou 
policial.  
_ No tenho medo da polcia. 
_ Notei que estava fugindo de mim. 
_ No estava fugindo.  que sou muito 
ocupada. Estou sozinha para dar conta de 
todo o servio e ainda cuidar do 
Sr.Alberto. No posso perder tempo com 
conversa.  
_ No vou demorar. S quero fazer-lhe 
algumas perguntas.  
_ Tudo o que eu podia dizer, j disse ao 
delegado. Eu acho que Vitrio est 
exagerando.  a polcia que 
tem de investigar quem matou aqueles 
dois.  
_ Tambm acha que o corpo da mulher 
assassinada no  de Teresa? 
_ Tenho certeza.  
_ E como explica o desaparecimento dela? 
_ Eu penso que qualquer dia desses, ela 
vai telefonar ou escrever dizendo onde 
est.  
_ No acredita que ela possa estar em 
perigo? 
_ No. Quando ela saiu para viajar estava 
cansada e deprimida. Disse-me que 
queria muito ficar s, sem ver ou falar 
com ningum.  isso que deve estar 
acontecendo e o povo fazendo tanto 
barulho.  
_ Voc a conhecia bem, sabe por que ela 
estava to triste e desanimada? 
_ Isso no sei. No costumo me envolver 
na vida ntima dos meus patres.  
_ Vitrio disse que voc era ntima dela e 
que Teresa lhe fazia confidncias. 
_ S sobre os problemas dos meninos ou 
da casa. 
_ Ele disse tambm que vocs se davam 
muito bem. 
_ Eu gosto muito de D.Teresa e esta 
famlia  como se fosse a minha. 
_ Onde est sua famlia? 
_ Meu pai morreu quando eu era menina 
e minha me me deu para os pais dela. Eu 
tinha treze anos, a mesma idade de D. 
Teresa.  
_ Vocs foram criadas juntas. Duas 
adolescentes so natural que entre vocs 
tenha se desenvolvido uma grande 
amizade. Voc faria qualquer sacrifcio 
para que sua amiga fosse feliz? 
_ Isso  verdade. Eu gostei dela desde o 
primeiro dia.  
Ela sempre me tratou bem, deixava-me 
brincar com seus brinquedos, dividia 
comigo tudo o que comia, dava-me 
vestidos novos, sapatos e me ensinava a 
falar direito. Foi ela quem insistiu para 
que eu freqentasse a mesma escola que 
ela.  
_ Ento voc tinha mesmo que gostar de 
Teresa. 
_ Eu gosto muito dela e aprendi a gostar 
dos meninos que ajudei a criar. 
Paulo ficou calado por alguns instantes, 
tirando baforadas do cigarro, depois disse 
com a voz calma: 
_  natural que voc guarde os segredos 
que ela lhe contou e no queira contar 
nada a ningum. 
Dinda fez um gesto e ia retrucar, mas 
Paulo no lhe deu tempo e continuou: 
_ Mas eu gostaria que voc soubesse que 
eu, pelas informaes que colhi na polcia, 
e por tudo que conversei com a famlia de 
Teresa, acredito seriamente que ela 
esteja correndo perigo. Acredito tambm, 
que voc sabe mais do que quer contar e 
compreendo que pense estar sendo fiel a 
sua amiga e protegendo-a, guardando 
seu segredo. Mas eu temo que, fazendo 
isso, voc a esteja prejudicando. Se ela 
estiver precisando de ajuda, e voc no 
nos contar o que sabe, pode acontecer 
algo muito grave a ela e voc ser 
responsvel.  
As palavras de Paulo a assustaram, ela 
no conseguia encobrir a inquietao e 
torcia as mos nervosamente. 
_ Deus me livre, doutor. No posso 
imaginar uma coisa dessas. 
_ No desejo assust-la, mas  bom se 
lembrar de que estamos lidando com um 
assassino cruel que matou aquele casal 
de maneira feroz e, embora voc no 
reconhea o corpo como sendo de Teresa, 
os documentos dela estavam l. Como 
pode ter acontecido isso? 
_ No sei...  balbuciou ela, continuando 
a torcer as mos.  
_ H uma ligao direta de Teresa com 
esse crime. Voc no pode ignorar esse 
detalhe. Alm do que o homem 
assassinado era ligado a traficantes 
perigosos. Essa gente mata por qualquer 
motivo.  
A essa altura, Dinda j estava chorando 
aflita: 
_ O senhor acha mesmo que D. Teresa 
pode estar em perigo? 
_ Pode. No h como negar. Por esse 
motivo  que Vitrio me contratou porque 
eu, embora no seja da polcia, sou 
advogado e gosto de investigar casos 
complicados.  
_ Acha que vai conseguir descobrir onde 
D. Teresa est e saber se ela est bem? 
_ As pistas so poucas e a situao  
difcil. Por esse motivo  que estou 
pedindo. Se voc sabe de alguma coisa,  
hora de contar pelo menos para mim, que 
serei discreto e se possvel guardarei o 
segredo, desde que no atrapalhe a 
soluo do caso.  
_ Se o senhor descobrir onde ela est e 
ela estiver bem, sem correr nenhum 
perigo, promete que no vai para a 
famlia? 
_ Voc acha justo isso? O Sr.Alberto 
doente, Vitrio aflito, Osmar nervoso. Eles 
amam Teresa.  
_ Nem todos. O Sr. Alberto deve estar 
doente de remorso e Osmar nervoso 
porque ainda no pde por a mo na 
herana da me.  
_ Os olhos de Paulo brilharam satisfeitos. 
Aos poucos ele estava fazendo Dinda 
falar. Fingiu aceitar suas palavras com 
naturalidade. 
_ Os problemas de famlia so sempre os 
mesmos.  
_ Eu no devia ter falado isso. Mas em 
casa, eu e Vitrio somos os nicos que 
compreendemos e amamos Teresa.  
_ Eu admiro voc porque apesar de saber 
tudo isso, tem se dedicado a tratar do 
Sr.Alberto com carinho. 
_ Quero dormir em paz. No sou capaz de 
maltratar nem um gatinho.  
_  por esse motivo que Vitrio gosta 
tanto de voc. 
_ E eu dele. 
_ Ainda no conheci Osmar, Vitrio me 
disse que ele tem gnio difcil. 
_ Quando quer uma coisa, no descansa 
enquanto no consegue e para isso no se 
importa de machucar os outros. 
_ Voc gosta mais de Vitrio, no ? 
_  verdade, eu deveria gostar dos dois 
igualmente, pois ajudei a cri-los desde 
que nasceram. Mas como Vitrio,  
amoroso e cordato, bom de lidar, tanto eu 
como Teresa o tratamos melhor. Osmar  
muito ciumento e odeia o irmo, diz que 
ns duas estragamos o Vitrio. Mas no 
para sermos bons com Osmar, ele  
mentiroso, maldoso, irritado, mal-
humorado, teimoso. No podemos trat-lo 
do mesmo modo.  
_ Eu concordo. Gostaria que voc 
soubesse que eu estou aqui para ajud-
los no a penas a encontrar Teresa e 
traz-la de volta s e salva, mas tambm 
para que a famlia possa se entender 
melhor. Certamente, depois do susto que 
todos passaram, se ela voltar para casa, 
eles vo ser diferentes. O Sr.Alberto ter 
chance de consertar o que fez de errado e 
Osmar de tratar melhor o irmo e a 
famlia.  
_ Ah! Isso  o que eu mais desejo. Pobre 
da minha Teresa! Ela no suportava mais 
a vida aqui em casa! Eram tantos os 
desentendimentos...  
Paulo notou que Dinda no se referia 
mais a Teresa chamando-a de senhora, 
revelando o tanto de intimidade que 
usufrua ao lado dela. Fingiu que no 
percebeu e continuou:  
_ Mas para fazer o que eu desejo, tenho 
que encontrar o assassino e ter a certeza 
de que ningum mais desta casa corre 
perigo.  
_ Como assim? O senhor acredita que 
todos ns estamos correndo perigos? 
_ No posso descartar essa hiptese por 
causa da ligao com o criminoso. A 
mulher morta  muito parecida com 
Teresa e o assassino pode ter confundido 
as duas.  
_ Teresa no tinha inimigos. J o Sr. 
Alberto...  
_ Tinha algum desafeto? 
_ Eu no quis dizer isso.  
_ J que comeou, acabe. Voc sugeriu 
que ele no se dava muito bem com as 
pessoas.  
_ Coisas de negcios. No entendo disso. 
Mas algumas vezes um homem ligava 
ameaando ele.  
_ Ameaando de qu? 
_ No sei! Mas o Sr.Alberto ficava muito 
irritado. Uma vez, logo depois de um 
telefonema desses, eu o vi limpando a 
arma que estava guardada no armrio do 
quarto.  
_ Ele costumava andar armado? 
_ No. Isso no. Por esse motivo eu 
estranhei quando naquele dia ele passou 
a tarde limpando e lustrando aquele 
revlver.  
_ O revlver continua guardado no 
mesmo lugar? 
_ Um dia eu vi que ele estava guardado 
l, do mesmo jeito.  
_ Como era o gnio do Sr.Alberto? Como 
se relacionava com a famlia? 
_ Sempre gostou mais do Osmar porque 
ele se interessou pela empresa. Vitrio  
diferente.  
_ Em qu? 
_  mais amoroso e gosta de estudar as 
coisas da vida. 
No quis seguir os negcios do pai. 
Formou-se em letras. D aulas na 
faculdade.  
_ Ele me disse que est de licena e s 
volta a trabalhar depois que tudo estiver 
esclarecido. 
_ , ele no se conforma com o que 
aconteceu. Quando vi que aquele corpo 
no era de Teresa, fiquei calma, mas 
agora, depois do que o senhor disse, 
estou angustiada.  
_ Teresa dava-se bem com o marido? 
_ Ela no se casou por amor. Depois que o 
pai dela morreu e deixou muitas dvidas, 
a me dela, D.Mary, ficou em uma 
situao difcil. Por esse motivo fez de 
tudo para que ela aceitasse o pedido de 
casamento do Sr.Alberto, rapaz rico e 
bem posicionado. Teresa no queria se 
casar, mas a me adoeceu e elas no 
tinham dinheiro para fazer o tratamento. 
Ele fez tudo para que D.Mary ficasse boa, 
colocou  disposio os melhores 
especialistas, pagou todas as despesas, 
at que ela se curou.  
Dinda fez ligeira pausa, olhos perdidos no 
passado, e continuou: 
_ Muitas coisas aconteceram naqueles 
dias. Teresa estava apaixonada por um 
jovem estudante de medicina, mas um 
dia, desiludida do seu amor, acabou 
aceitando casar-se com o Sr.Alberto para 
alegria de sua me. Quando voltaram da 
viagem de lua-de-mel, eles foram morar 
em uma linda casa e fui com eles.  
_ Por que ela de desiludiu do estudante 
de medicina? 
_ Eles se encontravam as escondidas 
porque D.Mary no queria o namoro. Dizia 
que ele era pobre e demoraria anos para 
se formar. Que ela precisava se casar com 
um homem rico que pudesse dar-lhes 
uma vida boa. Ela saa escondido! E eu 
encobria porque ela ficava muito feliz 
quando o encontrava. Eles trocavam juras 
de amor e juravam unir-se para sempre. 
Mas uma noite ela voltou chorando muito 
e disse que ele no era sincero, pois o 
surpreendeu namorando outra. 
_ Por esse motivo ela desistiu dele? 
_ Sim. Ele tentou de todas as formas 
reata - disse que podia explicar tudo, 
mas ela no o ouviu. Cheia de mgoa, 
marcou o casamento, casou-se e mudou 
de cidade. Nem sei por que estou lhe 
contando tudo isso. Esse passado est 
morto e enterrado.  
_ Alberto sabia que ela se casou estando 
apaixonada por outro? 
_ Sabia. Teresa sempre foi sincera. 
Contou tudo a ele que no se importou e 
casou-se assim mesmo.  
Dinda levantou-se 
_ Estamos aqui conversando sobre coisas 
que nada tem a ver com o seu assunto. Eu 
tenho de ver se o Sr. Alberto est 
precisando de alguma coisa.  
_ Responda-me apenas mais uma 
pergunta. Como era o relacionamento 
dela com o marido?  
Dinda sentou-se novamente:  
_ Apesar de casar sem amor, ela tornou-
se uma tima esposa, dedicada, 
atenciosa, me extremosa.  
_ Mas voc disse que ele deveria estar 
doente de remorso. Por qu? 
_ Eu falei demais.  
_ Apesar de amar muito Teresa, Alberto 
no foi feliz com ela. Uma pessoa feliz no 
comete atos dos quais venha a se 
arrepender.  
_ Ela sempre foi muito boa, tolerava as 
implicncias dele com Vitrio e suas 
escapadas com outras mulheres. 
_ Ele tinha outras mulheres? 
Dinda levantou-se de novo:  
_ Eu fui longe demais. No vou dizer mais 
nada No estou aqui para falar mal dos 
meus patres. No costumo fazer isso. 
Espero que se esquea de tudo o que eu 
lhe disse. Sou uma pessoa ignorante, mas 
de boa f. No deve confiar em minhas 
palavras. 
Paulo levantou-se, sorriu,segurou a mo 
de Dinda e beijou-a com respeito:  
_ Voc  uma mulher maravilhosa. 
Gostaria de lev-la para minha casa. Pena 
que no posso!Vou  cozinha tomar mais 
um caf.  
_ Eu trago para o senhor 
_ Nada disso. O gostoso  ir tomar na 
cozinha! Voc ainda tem um pedao 
daquele bolo de milho? 
Os lbios de Dinda abriram-se em alegre 
sorriso:  
_ Tenho sim.  
Ele acompanhou-se at a cozinha e Vitrio 
apareceu na hora em que ele saboreava o 
caf e uma generosa fatia de bolo. 
_ J vi que Dinda conquistou Voc. 
_Completamente. 
_O doutor  um homem sedutor. Com 
esse ar de bom menino consegue tudo o 
que quer.  
Eles riram. Ela ficou sria. As palavras de 
Paulo sobre os riscos que no s Teresa e 
toda a famlia poderiam estar correndo a 
deixaram angustiada. Quando Teresa 
planejava viajar para a Europa com a 
amiga, ela sabia que antes iriam para 
outro lugar e depois  que viajariam para 
a Itlia. Mas aquele crime, a mulher to 
parecida com Teresa complicara tudo.  
Paulo agradeceu o caf e despediu-se 
dela. Vitrio pediu-lhe que o 
acompanhasse at seu quarto. Estava 
ansioso para saber se ele conseguira 
alguma informao nova.  
Assim que se viram no quarto, Vitrio 
fechou a porta e indagou: 
_ E ento? Conseguiu alguma coisa? 
_ Nada de novo. Notei que ela sabe de 
alguma coisa mais, contudo no quer 
contar para no trair a confiana de sua 
me. Por esse motivo, no a apertei 
muito, prefiro primeiro ganhar sua 
confiana. Conseguido isso, estou certo 
de que ela me contar tudo o que sabe.  
_ Voc  esperto. Dinda  assim mesmo. 
Fiel, e adora mame.  
_ Ela me falou das diferenas entre voc e 
seu irmo. 
_ Ele no gosta de mim. 
_ Ela mencionou apenas que vocs 
pensam de maneira diferente. 
_  verdade. Enquanto ele  materialista, 
eu prefiro ser humanista. Mas somos 
pessoas educadas, convivemos 
normalmente, procurando evitar 
problemas.  
Paulo notou que a voz de Vitrio tremia 
um pouco ao falar do irmo. Olhando com 
naturalidade perguntou:  
_ Como seu pai v essa diferena entre 
vocs dois? 
_ Ele fica ao lado do Osmar. Tem orgulho 
dele por ser o filho mais velho e por 
assumir a direo da empresa quando ele 
precisa ausentar-se, como agora.  
_ Seu pai est muito deprimido. Ele no 
tem certeza de que aquele corpo no seja 
de Teresa.  
_ Ele sabe que no . Mas mesmo antes 
de acontecer tudo isso, ele j andava 
meio deprimido. Havia perdido o gosto de 
sair com os amigos como antigamente.  
_ Como esto os negcios da empresa? 
_ Que eu saiba, esto bem. Naquele 
tempo, talvez papai j estivesse 
comeando a ficar doente e os problemas 
que estamos enfrentando o fizeram 
piorar.  
_ Em depoimento ao delegado, seu pai 
disse que seu relacionamento com Teresa 
sempre foi muito bom. Mas se isso fosse 
verdade eles no teriam entrado em 
depresso. Se estivesse bem, teriam 
viajado juntos.  
_ Isso tambm me espanta. Mas o que sei 
 que sempre se deram bem. Nunca os vi 
brigar.  
Paulo ficou pensativo por alguns 
segundos, aps disse: 
_ Eram duas pessoas educadas, no 
demonstravam o que sentiam. 
_ De fato, meus pais condenavam 
qualquer manifestao de contrariedade, 
afirmando que era preciso no deixar 
transparecer nossos sentimentos. Diziam 
que os outros no precisam carregar 
nossos infortnios. Confesso que eu 
nunca souber fazer isso. Sou emotivo, no 
consigo esconder minhas mgoas ou 
alegrias. Isso foi causa de muitos castigos 
durante a infncia.  
_ Alguns pais acreditam que educar os 
filhos seja conter suas expanses 
emocionais.  um grande erro, porque o 
indivduo acaba colocando uma mscara 
diante dos outros, mas por dentro existe 
um vulco que pode estourar a qualquer 
minuto.  
_ O pior  que eu sempre estouro. Osmar 
se controla muito bem. Ser por isso que 
ele tornou-se to vingativo e maldoso? 
_ Talvez. Controlar o que se sente para 
manter a aparncia pode fazer muito mal. 
De alguma forma, as energias, tanto da 
alegria quanto da dor, precisam 
expressar-se. Em vez de cont-las,  
melhor tentar compreender e expressa-
las de maneira que no nos machuquem.  
_ No acredito que algum 
desentendimento grave tenha ocorrido 
entre meus pais. Eles eram casados h 
muitos anos e a rotina pode ter 
desgastado o relacionamento, 
conduzindo-os  depresso.  
_ , pode ser. Mas o desgaste natural de 
um relacionamento de tantos anos no 
deixa ningum doente. Seu pai me parece 
estar angustiado, inquieto e isso sempre 
decorre de algum motivo em que o medo 
aparece.  
_ Isso eu tambm notei. Ele no tem 
dormido bem, est inquieto, sempre com 
dores de cabea, e os remdios no tm 
dado nenhum resultado. Mas o medo dele 
pode ser pelo desaparecimento de 
mame. Eu mesmo tenho tido pesadelos, 
pensando no que poderia estar 
acontecendo com ela.  
_ Que tipo de pesadelos? 
_ Eu sonhei que estava em um lugar 
escuro e triste e l havia duas pessoas, 
parecidas com os dois que foram 
assassinados. A mulher gritava que ia se 
vingar de tudo quanto fizemos a eles.  
_ Lembra-se das palavras deles? 
_ Ela gritou: Vocs vo me pagar por 
tudo. Ca na armadilha. Mas vou me 
vingar. E ele reforou: Vocs no 
perdem por esperar. Ento, eu 
perguntei: Quem so vocs? Onde est 
minha me? Onde arranjaram os 
documentos dela?. Eles no 
responderam e desapareceram.  
_ Voc acha que esteve com os espritos 
dos assassinados? 
_ Sim. Mas no entendi o que disseram. 
Que armadilha teria sido essa? Quem 
teria armado? 
_ Termos de procurar as respostas. Mas  
bom que voc fique alerta.  
_ Eu pedi ajuda de Anal. A nica coisa 
que ouvi foi Ore e confie. Ela afirmou 
que estaria sempre ao meu lado. Por que 
ser que ela no vem para me contar o 
que aconteceu? 
_ Se ela no vem  porque no pode falar 
sobre o assunto. Os espritos evoludos 
no interferem diretamente nos assuntos 
das pessoas, a no ser que tenham 
permisso.  
_ Por que no? Tudo seria mais simples 
se eles pudessem nos contar o que 
desejamos saber.  
_ A vida tem seus prprios meios para 
resolver os problemas humanos, sempre 
visando  aprendizagem. Todos os 
desafios aparecem para ensinar alguma 
coisa que os envolvidos precisam 
aprender. Vir e contar tudo! Seria, 
impedir a aprendizagem, e atropelar os 
acontecimentos. As pessoas tm livre-
arbtrio e precisam utiliz-lo.  
Vitrio suspirou dizendo:  
_ Entendo. Nesse caso, ela poderia pelo 
menos inspirar-me boas idias.  
Paulo sorriu e seus olhos brilhavam 
alegres:  
_ Sua esperteza no convencer Anal a 
fazer isso. Somos ns que precisamos! 
Pensar, investigar, descobrir a verdade. 
Estou certo de que quando chegar  hora, 
tudo ser esclarecido.  
                                                                                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 11                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



"Na manh seguinte  festa de casa dos 
Vilela, Osmar chegou ao escritrio 
indisposto. O fato de ver Aurlia toda 
amvel com o "tal" doutor o irritara 
muito. Fora difcil controlar o desejo de 
arranc-la do lado dele. Agentou a 
insatisfao e s foi embora depois que 
Aurlia saiu acompanhada pelo mdico.  
Chegou  casa cansado, deitou-se, mas 
no conseguiu dormir logo. Revirou-se na 
cama, remoendo os momentos 
desagradveis da festa. Quando 
adormeceu, sonhou que Aurlia e o 
mdico estavam trocando beijos 
apaixonados.  
Apesar de haver dormido tarde, depois 
daquele pesadelo acordou cedo e no 
conseguiu mais dormir.  
Para tentar esquecer a noite 
desagradvel, apanhou o jornal e 
percorreu os olhos pelas manchetes. Ao 
abrir uma das pginas, na coluna social, 
viu uma foto do casal Vilela e outra de 
Aurlia ao lado do mdico. Embaixo, leu: 
'A bela Aurlia abrilhantou a festa 
acompanhada pelo Dr. Augusto 
Mendona, famoso mdico recm-
chegado dos Estados Unidos.  
Ambos sorriam e Osmar amassou o jornal 
nervoso. Isso no podia ficar assim. 
Precisava tomar algumas providncias. 
Enquanto ela no se interessava por 
ningum, ele sentia-se calmo, imaginando 
que teria tempo de conquist-la.  
Mas agora aparecera esse rival famoso e 
dava para notar que Aurlia se sentira 
atrada por ele.  
Apanhou a lista telefnica, procurou um 
nmero e ligou, assim que atenderam 
disse:  
_ Quero falar com Norberto. _ Esperou 
alguns instantes depois continuou: _ Aqui 
 o Osmar, como vai? Estou precisando 
dos seus servios.  
_ Quer que eu v encontr-lo?  
_ No. Passarei a para falar como voc 
logo mais, no fim da tarde.  
_ Hoje tenho um compromisso. Pode ser 
amanh?  
_ Tem que ser hoje.  urgente.  
_ Nesse caso darei um jeito. Pode vir. Vou 
esper-lo.  
Osmar desligou. Ele gostaria de ir 
imediatamente, mas havia uma reunio 
importante na empresa, a qual ele no 
poderia faltar.  
A secretria entrou:  
_ Est tudo pronto para a reunio. Todos 
j chegaram e esto esperando pelo 
senhor.  
Com um suspiro resignado, Osmar 
levantou-se: 
_ Est bem. 
A partir desse momento, Osmar 
mergulhou no trabalho, o que o fez 
esquecer um pouco o aborrecimento. Ele 
gostava de chefiar as pessoas no lugar do 
pai. Sentia-se  vontade, gostava de 
mandar e decidir sobre o futuro da 
empresa.  
Seu pai doente e desanimado, depois dos 
ltimos acontecimentos, com certeza no 
voltaria mais a ocupar a chefia. Ele se 
sentia dono absoluto da empresa, 
julgava-se mais inteligente e espero do 
que o pai e estava certo de que sob sua 
orientao eles iriam se tornar mais ricos.  
Passava das cinco horas quando Osmar 
parou o carro... Diante de um prdio em 
um bairro popular da cidade. Desceu e 
entrou no hall do prdio, esperou o 
elevador e se dirigiu ao sexto andar.  
Era um prdio antigo, cheio de pequenos 
escritrios. Ele saiu do elevador e parou 
diante de uma porta onde se lia: 
'Norberto Simes - detetive particular.  
Ele bateu levemente e entrou. Um homem 
baixo, negro, meio-calvo, aparentando 
cerca de quarenta anos, levantou-se da 
poltrona atrs da escrivaninha, caminhou 
at a porta sorrindo, de mo estendida, e 
disse:  
_ Como vai, Osmar? Que honra receb-lo 
em meu humilde teto.  
_ Bem, e voc? 
Norberto fez ligeira mesura e respondeu:  
_ Melhor depois que voc chegou. Sente-
se.  
Ele indicou uma cadeira em frente  
escrivaninha e voltou a sentar-se em sua 
poltrona.  
_ Em que posso servi-lo? 
_ Preciso de informaes sobre um 
sujeito.  
_ Trouxe os dados dele? 
_ S tenho alguns. Ele estava morando 
fora do Brasil, chegou h pouco tempo.  
_ Passe-me o que voc tem e eu 
descobrirei o resto. O que quer saber? 
_ Tudo que puder. Tenho pressa. Como 
sempre pagarei bem. Voc sabe.  
_ Claro.  
Osmar contou o que sabia sobre o mdico, 
descreveu como ele era fisicamente e 
mostrou a foto que cortara do jornal. 
Estava amassada, mas dava para ter uma 
idia.  
_ Comearei hoje mesmo.  
Osmar pegou a carteira, escolheu 
algumas notas e colocou-as sobre a mesa:  
_ Estas so para as primeiras despesas. 
Assim que descobrir alguma coisa, ligue-
me.
_ Deixe comigo.  
Osmar despediu-se e saiu. Estava mais 
calmo. Norberto era muito bom no s 
para investigar pessoas como para tir-
las do caminho quando era preciso.  
Em casa, Osmar sentiu-se cansado. 
Tomou um banho e mandou Nora servir o 
jantar.  
O telefone tocou e a criada o procurou:  
_ Tem na linha um advogado chamado 
Paulo, disse que  da parte do Vitrio.  
_ O que ele quer de mim? 
_ Ele disse que deseja conversar com o 
senhor.  
_ Pea para ele ligar outro dia. Estou 
cansado e com fome. No vou atend-lo 
agora.  
Nora se foi, depois voltou dizendo:  
_ Agora  o Vitrio. Ele quer falar com o 
senhor.  
_ No disse a ele que estou jantando? 
_ Disse que o senhor ia sentar-se para 
comear a jantar. Vitrio disse para 
atend-lo que no vai se demorar.  
Resmungando, Osmar apanhou o telefone 
de m vontade e disse:  
_ O que  to importante para que voc 
atrapalhe o meu jantar? Trabalhei o dia 
inteiro, estou cansado e com fome. No 
sou folgado como voc que fica o dia 
inteiro sem fazer nada.  
_ Voc no ligou mais para ns. No 
deseja saber como papai est? 
_ Sei que ele tambm est descansando 
como voc. Foi para dizer isso que me 
incomodou? 
_ No. Voc no atendeu o Dr. Paulo, 
nosso advogado que est investigando o 
paradeiro de mame. Ele ia conversar 
com voc por telefone, mas como voc 
no o atendeu, pensei melhor e ele vai 
at a procur-lo.  
_ O que ele quer de mim? Sou um homem 
ocupado, no tenho tempo a perder. 
Estou sozinho administrando uma 
empresa. Acha que tenho tempo para 
conversar? 
_ Ele vai procur-lo e papai est dizendo 
que quer que voc o atenda e lhe preste 
todas as informaes.  
_ No posso passar informaes sobre os 
nossos negcios a um desconhecido. No 
farei isso.  
_ Se no fizer ter de se entender com 
papai. Alis, ele est dizendo que se voc 
no fizer o que ele est pedindo, vai at 
a com o Dr. Paulo.  
_ Pelo jeito ele no est to mal como 
vocs dizem.  
_ Ele deseja resolver este caso o mais 
rpido possvel e saber onde mame est.  
_ Por que insistem nessa histria? Mame 
est morta e o caso deveria ser 
encerrado. Compete  polcia descobrir o 
assassino.  
_ Voc vai ou no fazer o que papai est 
mandando? 
_ Est bem. Pode mandar esse advogado 
metido a investigador. Mas diga-lhe que 
seja breve. No tenho tempo a perder.  
Osmar desligou o telefone irritado. Alm 
de todos os problemas que tinha ainda 
teria de aturar um metido que pretendia 
investigar a vida da famlia.  
No apartamento de Vitrio, assim que ele 
desligou o telefone, Paulo perguntou:  
_ Seu irmo  sempre assim intratvel? 
_ Diante dos outros ele  mais manso. 
Comigo ele  sempre assim. Mas com 
papai ele no pode.  
_ Estou curioso para conhec-lo, visitar a 
casa onde Teresa vivia tentar descobrir 
mais sobre ela.  
_ Entendo sua curiosidade, mas, para ser 
sincero, no creio que isso possa ajud-lo 
a descobrir o que nos interessa. O 
passado ns j sabemos, queremos saber 
onde ela est.  
_ Infelizmente, no temos nenhuma pista 
nesse sentido. Estou tentando descobrir 
alguma coisa que possa nos dar essa 
pista. Vocs dizem uma coisa, mas os 
fatos revelam que a verdade pode ser 
bem diferente.
_ Como assim? 
_ Vocs afirmam que seus pais se 
relacionavam bem, porm por que ambos 
estavam to depressivos nos ltimos 
tempos? 
_ Voc acredita que essa depresso pode 
ser fruto de alguma coisa ruim que teria 
acontecido entre eles? 
_  uma hiptese. Eles tinham diante da 
famlia uma atitude discreta e no 
falavam sobre seus sentimentos. Se 
acontecer alguma coisa sria entre eles, 
faria tudo para escond-la de vocs.  
_ Mas mesmo que isso tivesse acontecido, 
em que poderia esclarecer esse crime e 
suas implicaes com minha me? 
Paulo ficou pensativo durante alguns 
segundos. Depois disse srio:  
_ Eu tenho visto muitas coisas neste 
mundo e sei o quanto certas paixes 
podem transformar uma pessoa. A 
violncia extrema com que esse crime foi 
praticado, demonstra que o criminoso 
estava com muita raiva e isso ocorre 
quando as paixes obscurecem qualquer 
raciocnio.  
_ Eu j me perguntei isso inmeras vezes. 
Mas estou certo de que ningum de 
minha famlia seria capaz de tanto. Do 
jeito que voc fala d impresso de que 
est questionando se meu pai teria sido o 
autor do crime. Eu no acredito nisso. Ele 
nunca foi um homem violento ou 
vingativo.  
_ No estou sugerindo nada disso. O que 
desejo  conhecer como eram os 
sentimentos dos envolvidos nesta 
situao.  
_ Voc est achando muito difcil 
descobrir o paradeiro de minha me? 
_ No se trata disso. Em investigao, no 
se pode desprezar nenhum detalhe. O fio 
da meada pode estar onde menos se 
espera e surgir de repente, conduzindo-
nos aos fatos. No se preocupe se estou 
investigando os sentimentos de sua 
famlia. Sou discreto, isso ficar entre 
ns, acontea o que acontecer. 
Eles continuaram conversando e, aos 
poucos, Vitrio foi se acalmando. Quando 
pensava na me sentia o peito oprimido 
como se ela estivesse em perigo, 
sofrendo, querendo comunicar-se com ele 
sem conseguir.  
Ficou combinado que na manh seguinte 
Paulo viajaria para o Rio de Janeiro e 
procuraria por Osmar.  
No dia seguinte, faltando poucos minutos 
para as onze horas, Paulo foi introduzido 
na sala de Osmar.  
_ Seja breve, por favor. No disponho de 
muito tempo.  
_ Seu pai me contratou para descobrir o 
paradeiro de sua me.  
_ De novo essa histria. Eles gostam de 
sofrer. Minha me est morta e eles no 
querem se conformar.  
_ Voc acredita mesmo que aquele corpo 
seja dela? 
_ Claro. De quem mais poderia ser?  a 
cpia perfeita de minha me e que eu 
saiba no havia ningum to parecida 
com ela. No bastasse isso, h os 
documentos. Que maior prova poderia 
haver? 
_ Voc pode at estar certo, mas para a 
Justia o corpo no foi reconhecido por 
toda a famlia. Isso fez com que ela 
continue investigando e no libere o 
corpo.  
Osmar impacientou-se:  
_ E isso faz com que todos ns estejamos 
sofrendo uma situao angustiante, 
continuando a procurar por uma pessoa 
que no pode aparecer porque j est 
morta e que precisa ser enterrada o 
quanto antes para dar sossego a toda a 
famlia.  
_ Voc est muito seguro do que afirma.  
_ Estou. Voc est fazendo seu trabalho e 
com certeza deseja valorizar sua 
atividade, mas neste caso ela  intil, 
porque jamais vai conseguir desvendar 
qualquer coisa. Vitrio no aceita a perda 
de mame e fica criando uma srie de 
problemas. Dinda a vida inteira o apoiou. 
S faz o que ele quer e mais uma vez 
ficou do lado dele.
_ Mas e seu pai? Ele tem muitas dvidas.  
_ Meu pai est na hora de aposentar-se. 
Tem andado doente, e acredito que sua 
cabea j no esteja funcionando bem.  
_ Seu pai ainda no tem sessenta anos. 
Est deprimido, doente, mas continua 
lcido.  
_ No estamos aqui para conversar sobre 
os problemas de meu pai. Vitrio garante 
que voc  bom como investigador, 
embora no seja essa sua profisso. Mas 
por melhor que voc seja, duvido que 
consiga descobrir alguma coisa mais do 
que a polcia.  
Paulo sorriu levemente e respondeu:  
_ No subestime que voc no conhece 
nem se apresse a dizer que esse caso est 
resolvido. _ Fez ligeira pausa e 
perguntou: _ Qual  a especialidade desta 
empresa? 
_ Construo Civil. Estamos no mercado 
h mais de vinte e cinco anos. J 
construmos muitos prdios nesta cidade 
e prestamos servios ao governo federal.  
_ Seu pai aprecia seu interesse em ajud-
lo nos negcios da famlia. Confia em sua 
capacidade.  
Osmar ergueu ligeiramente a cabea, 
satisfeito. Nada o agradava mais do que 
ser reconhecido como um homem 
inteligente e capaz.  
_ Se eu no me esforasse para cuidar 
desta empresa, nosso patrimnio se 
perderia. Como eu disse, meu pai est 
doente e depois da morte de minha me 
certamente no vai ter mais nimo para 
cuidar de mais nada.  
_ E Vitrio? 
Os olhos de Osmar brilharam maliciosos 
quando respondeu:  
_ Est fora de cogitao. No se interessa 
pelos negcios, o que  uma sorte porque 
no tem capacidade.  
_ Por que no? Ele me parece um rapaz 
inteligente.
_ Mas no . Est sempre fora da 
realidade, pensando em coisas ilusrias e 
sem finalidade.  
_ Voc acredita mesmo que seu pai vai se 
afastar e permitir que voc assuma a 
responsabilidade pela empresa? 
_ Ele no tem outro remdio. Conheo 
esta empresa desde criana e sei como 
fazer com que ela progrida cada vez mais. 
Quanto a ele, do jeito que est, vai acabar 
incapaz para qualquer coisa.  
Paulo fixou-o nos olhos e disse srio:  
_ Ainda bem que voc est seguro e 
preparado.  
Paulo estava tocando no ponto em que 
Osmar mais gostava e por esse motivo ele 
comeou a responder com prazer. Havia 
esquecido completamente a animosidade 
com que recebera sua visita.  
_ Estou certo de que em pouco tempo 
aumentaremos nosso capital e 
ampliaremos nossos negcios.  
_ Sua me decidiu viajar porque estava 
deprimida. Voc saber por qu? 
Osmar deu de ombros:  
_ Nada importante. Ela no tinha motivos 
para estar deprimida. Era uma mulher 
rica, freqentava a mais alta sociedade 
do Rio de Janeiro, tinha uma famlia 
respeitada e um marido atencioso que lhe 
fazia todas as vontades. Esse deve ter 
sido um pretexto para viajar sem a 
companhia de meu pai.  
_ Por que ela faria isso se os dois tinham 
um bom relacionamento? 
Os olhos de Osmar brilharam rancorosos 
quando respondeu:  
_ Talvez ela tenha se metido em uma 
aventura perigosa e acabado morta 
naquela cama.  
_ Voc acredita que sua me tenha sido 
amante daquele homem? 
Osmar olhou-o com raiva e respondeu, 
com voz um tanto rouca pela emoo:
_ O que mais se poderia pensar vendo-os 
juntos, desnudos, naquela cama? 
_ Se aquele corpo  dela, no h o que 
duvidar.  
Osmar levantou-se nervoso:  
_ Este assunto est me fazendo mal. No 
sei por que aceitei conversar com voc. 
Acho que ns no temos mais nada para 
falar.  
Paulo continuou sentado e respondeu 
calmamente:  
_ Sei como voc deve estar se sentindo. O 
orgulho ferido di muito. Como era sua 
me em casa, no dia-a-dia? 
_ Preferia encerrar aqui nossa conversa. 
No h motivo para esticarmos este 
penoso assunto. Depois, tenho muito 
trabalho, no posso perder tempo.  
_ Por favor. Responda o que perguntei. _ 
Olhou-o firme nos olhos e continuou: _ 
Voc  a nica pessoa da famlia que est 
lcido o bastante para dar-me uma 
resposta confivel. Tenho de fazer meu 
trabalho e peo-lhe que no me negue 
este favor.  
Osmar endireitou-se altivo e sentou-se 
novamente:  
_ Voc est certo. Eu sou a nica pessoa 
lcida nesta famlia. Embora acredite que 
voc no vai descobrir nada porque no 
h nenhum mistrio a ser descoberto, 
para que no diga que estou de m 
vontade, vou responder.  
_ Muito obrigado.  
Osmar pensou um pouco depois disse:  
_ Minha me era uma mulher educada, 
desde cedo nos ensinou a nos 
comportarmos bem diante dos outros. 
Exigente nas regras de etiqueta e 
cumpridora dos seus deveres de me de 
famlia e de dama de sociedade.  
_ Como era sua maneira de ver a vida? Do 
que ela gostava? Costumava falar dos 
seus sentimentos? 
Osmar olhou-o surpreendido:  
_ No. Ela era perfeita. Nunca 
demonstrava insatisfao, controlava-se 
perfeitamente, como convm a uma 
senhora de sociedade. No costumava 
falar os seus sentimentos.
_ O delegado me disse que ela era mais 
apegada a Vitrio.  verdade? 
_ Ela o estragou  o que quer dizer. Por 
causa das atitudes chorosas dele, fazia-
lhe todas as vontades.  
_ No fazia o mesmo com voc? 
_ No. Eu nunca precisei disso. Sempre 
fui equilibrado e firme. Ela era mais dura 
comigo, mas hoje sei que ela fazia isso 
porque sabia que eu era capaz e no 
precisava me pendurar nela.  
_ Nesse caso voc no guarda 
ressentimento por ela ter se chegado 
mais a ele. 
O brilho de raiva reapareceu nos olhos 
dele. Mas respondeu com voz calma:  
_ No. Por outro lado, meu pai sempre me 
apoiou mais do que a Vitrio. Ele desejava 
que ambos ficssemos trabalhando na 
empresa. Mas meu irmo nunca quis o 
que foi muito bom porque ele s me 
causaria problemas.  
Paulo levantou-se sorrindo: 
_ Obrigado, Dr. Osmar, por haver dividido 
seu precioso tempo comigo e me ajudado 
a entender melhor os fatos. 
_ Espero que tenha esclarecido o que eu 
podia. Por que no desiste do caso? No 
percebe que est perdendo seu tempo e 
que no obter sucesso? No se preocupa 
com seu desempenho? Ouvi dizer que  
famoso pelo sucesso que tem obtido em 
suas investigaes. No tem medo de que 
um fracasso possa ter uma mancha em 
sua folha de servios prestados? 
_ Talvez tenha razo. Vou pensar no que 
me disse.  
Osmar sorriu satisfeito. Afastar daquele 
investigador inconveniente seria um 
alvio, principalmente naquele momento 
em que se emprenhava em grandes 
negcios que precisava ocultar. 
"Paulo deixou o escritrio de Osmar 
satisfeito. Havia conseguido mais do que 
esperava. Assim que o viu notou o quanto 
ele era vaidoso e percebeu como poderia 
conseguir alguma coisa dele.  
No lhe passou despercebido  raiva com 
que ele se referia  me e ao fato de ela 
ter tido um amante. Era o nico na famlia 
que aceitara isso sem questionar. Todos 
os outros, inclusive Dinda, haviam frisado 
que essa atitude no se coadunava com o 
perfil de Teresa.  
Osmar pareceu-lhe um homem vaidoso, 
prepotente, disposto a conseguir o que 
queria. No duvidava tambm que ele 
faria qualquer negcio para isso.  
Havia qualquer coisa em Osmar que o fez 
decidir colocar dois homens seus para 
segui-lo durante alguns dias e verificar 
como ele levava a vida.  
Seu instinto lhe dizia que deveria 
comear por ali. Pensando nisso, tratou 
logo de planejar os prximos passos.                                                                                                         
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

 

CAPTULO 12                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



"Marlia acordou cedo e animada. Apesar 
da tragdia que presenciara, esforava-se 
para no pensar mais em Otvio.  
Sentia-se livre, bem-disposta, alegre. 
Pela primeira vez, depois de muitos anos, 
sentia-se dona de si, confiante no futuro. 
O fato de perceber que poderia ganhar o 
suficiente para manter a casa com os 
quitutes que ela e Dorita faziam, deram-
lhe a certeza de que dali para frente tudo 
em sua vida correria bem.  
De fato, a freguesia tinha aumentado e 
elas estavam at pensando em contratar 
uma auxiliar para cuidar dos afazeres 
domsticos, porquanto ambas ficava o dia 
inteiro trabalhando na cozinha, sem 
tempo para mais nada.  
Pensando nisso ela foi ao quarto de Altair 
acord-lo para o colgio.  
Aproximou-se dele:  
_ Acorde, meu filho. Est quase na hora 
de ir para a escola.  
O menino remexeu-se na cama 
resmungando:  
_ No quero ir. Estou cansado." 
 Marlia colocou a mo na testa dele e 
notou que estava com febre. Preocupada 
tornou:  
_ Voc est doente. O que est sentindo? 
_ A garganta est doendo e estou com 
frio.  
_ No precisa se levantar. Vou buscar um 
remdio para baixar sua febre e ligar 
para o Dr. Davi.  
_ No quero tomar injeo! 
_ Ningum ainda falou em injeo. S vai 
tomar se for preciso.  
Ela deixou o quarto e voltou pouco depois 
com um clice e o remdio. 
_ Sente-se, Altair, tome o remdio. 
_ No gosto de remdio. Vai doer minha 
garganta.  
_ Voc precisa agentar. Ele pode evitar 
uma injeo. Beba que eu trouxe um 'tira-
gosto.  
Resmungando, o menino sentou-se, 
segurou o clice em uma mo e o gomo 
de laranja na outra. Engoliu o remdio, 
fez uma careta e chupou o 'tira-gosto.  
_ Agora se deite e descanse. Daqui a 
pouco volto para saber como se sente. 
Quer tomar seu caf com leite? 
_ Daqui a pouco eu tomo o caf com leite.  
_ Assim est melhor. Estou certa de que 
logo vai mandar embora essa dor de 
garganta. Voc  um menino valente e 
muito forte.  
Os olhos de Altair brilharam quando 
respondeu: 
_ Sou mesmo, me. Vou ficar bom. Eu 
quero sarar logo porque est doendo e 
estou com frio. Mas gostaria de continuar 
doente s um pouquinho para no ir  
escola amanh tambm.  
Marlia sentou-se na beira da cama, 
segurou a mo do menino e disse:
_ Por que isso? Voc sempre gostou de ir 
 escola. Aconteceu alguma coisa que 
voc prefere no ir? 
_ No, me. Eu gosto de escola. Mas eu 
queria ficar mais tempo em casa com 
voc.  
Marlia alisou a cabea do filho com 
carinho, deu-lhe um beijo na testa e 
respondeu: 
_ Eu tambm gostaria de ficar o dia 
inteiro com voc. Mas agora estamos ss 
ns trs e se eu no trabalhar no vamos 
ter dinheiro para manter a casa.  
_ Antes, quando eu chegava da escola 
voc ficava comigo, contava histrias, 
brincava. Agora est sempre ocupada.  
Marlia pensou um pouco, depois disse: 
_ Eu tenho uma forma de resolver isso. 
Seu pai no est mais aqui e voc  o 
homem da casa, portanto, pode ficar 
scio da nossa empresa e trabalhar 
quando chegar da escola. Vai ser muito 
divertido e, alm disso, vai comear a 
ganhar dinheiro porque,  claro, quem 
trabalha merece ser recompensado.  
O menino que havia se deitado, sentou-se 
de novo: 
_ Puxa, me, vai ser demais! Nenhum 
amigo meu trabalha e ganha seu dinheiro. 
Posso comear agora? 
_ Sua garganta est doendo e voc est 
cansado.  
_ S di um pouquinho quando eu engulo. 
_ Vamos fazer assim: depois que sua 
febre passar voc comea. Est bem? 
_ Est. No vejo a hora que essa febre 
passe.  
Marlia sorriu e respondeu: 
_ Vejo que voc vai ser um menino 
trabalhador. Mas para isso ter de estar 
bem e no deixar de fazer as lies de 
casa. Ns estamos abrindo uma empresa 
e voc ser nosso scio. Um empresrio 
tem de ser instrudo, saber fazer contas, 
ler e escrever muito bem.  
_ Eu ainda no sei fazer muitas contas, 
mas ler e escrever eu j sei. 
_ Voc tem de ir  escola para aprender 
tudo o que precisa para ser um bom 
trabalhador.  
_ Eu vou estudar muito e logo saberei at 
conta de dividir. Meu amigo que est no 
terceiro ano j sabe fazer essas contas.  
_ No tenha pressa. Voc  mais novo do 
que ele, mas estou certa de que quando 
chegar ao terceiro ano, vai fazer tudo o 
que ele faz. Agora se deite e descanse. Se 
precisar de alguma coisa, chame. Daqui a 
pouco trarei seu caf.  
Marlia desceu e foi  cozinha. Dorita j 
havia preparado o caf e disposto tudo 
quanto deveria fazer naquele dia.  
Elas estavam contentes porque, alm do 
po de queijo, as empadinhas eram muito 
procuradas. O que as animara foi que 
duas lanchonetes muito boas, onde Dorita 
levara algumas amostras, haviam feito 
encomendas grandes e a cada dia a 
procura estava sendo maior.  
Por tudo isso planejavam abrir uma 
empresa e juntar algum dinheiro para um 
dia poderem expandir o prprio negcio. 
Marlia conversou com Dorita sobre Altair 
e finalizou: 
_ Ele est sentindo falta da nossa 
companhia. Ns no temos tido tempo de 
brincar com ele.  
_ Gostei da idia de traz-lo para 
'trabalhar' conosco.  bom que ele se 
interesse logo cedo e entenda sua 
responsabilidade diante da vida. Vamos 
fazer isso de uma forma to prazerosa 
que ele vai amar 'trabalhar' aqui.  
Elas riram e ficaram trocando idias de 
como torn-lo um auxiliar na cozinha. 
Quando Marlia foi levar o caf, Altair 
sentou-se na cama dizendo: 
_ Me, estou sem febre. J posso descer e 
trabalhar? 
_ Vou medir sua temperatura. Depois 
veremos. Tome o caf com leite e vamos 
ver como est sua garganta.  
Altair segurou a caneca e tomou um gole. 
_ J melhorou _ disse contente.
Marlia mediu a temperatura e, enquanto 
ela conferia, ele indagou inquieto:  
_ E ento? 
_ A febre baixou, mas voc ainda est 
febril. E sua garganta ainda deve estar 
doendo um pouco, no ? 
_ , s um pouquinho. Mas vai passar 
logo.  
_ Meu filho, hoje  melhor voc ficar na 
cama descansando e se preparando para 
comear amanh. 
_ E a escola? 
_ Amanh voc tambm ficar em casa. 
Depois voltar  escola.  
_ Oba! Ento eu posso trabalhar amanh.  
_ Pode. Estamos precisando muito de 
ajuda. Temos muitos pedidos. Vai ser 
timo contar com voc.  
_ Eu sou muito forte e disposto a ajudar 
mesmo. 
_ Isso mesmo. Coma o po com manteiga 
e deite-se novamente. Hoje voc precisa 
descansar.  
Marlia desceu as escadas sorrindo. Faria 
tudo para ensinar Altair a trabalhar com 
dignidade e honradez. Eles teriam de 
viver do prprio trabalho e isso o ajudaria 
a enfrentar os desafios da vida.  
Havia o dinheiro no exterior que Otvio 
deixara, mas no contava com ele. A 
origem desse dinheiro era duvidosa e ela 
estava certa de que ele seria confiscado. 
Imaginava que seu marido havia se 
envolvido com criminosos e, por esse 
motivo, acabara morto.  
Com satisfao ela entregou-se ao 
trabalho. No fim da tarde as encomendas 
estavam prontas. Felizmente, o 
empregado da lanchonete viria busc-las, 
facilitando as coisas. Eles tinham uma 
perua e enquanto elas acomodavam as 
caixas com o material no veculo, Marlia 
imaginava como seria bom que pudessem 
ter um veculo para fazer entregas.  
Assim que eles se foram, Dorita disse 
contente: 
_ Foi bom terem vindo buscar. Em uma 
viagem eu no conseguiria levar tudo.  
Marlia enfiou o brao no de Dorita 
dizendo: 
_ No futuro ns tambm teremos um 
carro para fazer nossas entregas. 
Dorita olho-a admirada: 
_ Um carro, mesmo usado, custa muito 
caro. 
_ Teremos um carro novo e muito bom. 
Estou certa de que vamos conseguir.  
_ Como? 
_ Pense bem, ns trabalhamos bem, 
fazemos coisas de qualidade com muita 
higiene e alegria. O dinheiro que 
ganhamos  honesto e merecido. Por tudo 
isso ele vai se multiplicar, nosso negcio 
vai continuar crescendo e logo teremos 
tudo o que precisamos.  
_ Antes eu era mais otimista, mas agora 
voc est passando na minha frente. Eu 
nunca pensei em chegar a tanto.  
_ Por que no? Ns fazemos um produto 
bom. As pessoas saboreiam com prazer, 
elogiam, a cada dia compram mais... Se 
os pedidos aumentarem no vamos dar 
conta. Vou comear a procurar uma 
pessoa para nos ajudar.  
_ Acha que teremos como pagar o salrio 
dela? O que estamos ganhando d apenas 
para nossas despesas, isso porque 
estamos economizando.  
_ Com uma pessoa que nos ajude, estou 
certa de que poderemos produzir muito 
mais e no s pagaremos o salrio dela 
como aumentaremos nossos lucros. 
De volta  cozinha, Dorita disse contente: 
_ Voc tem razo. Podemos tentar. Hoje  
noite vou falar com D. Ana. Ela tem uma 
filha que gostaria de trabalhar. Falou 
comigo ontem, perguntou se eu sabia de 
algum lugar que estivesse precisando. 
Respondi que no, mas pensando bem, 
talvez ela fosse boa para ns.  
_ Quantos anos tem? 
_ No sei, mas  bem-disposta, alegre. 
Poderemos experimentar.  
_ Est bem. V conversar com D. Ana.  
Elas comearam a dar uma ordem na 
cozinha. 
_ Vou fazer uma boa sopa de feijo com 
macarro para ver se Altair come. Ele no 
almoou muito bem. Ele adora essa sopa.  
Disposta, Marlia colocou a panela no fogo 
e ia comear a preparar a sopa quando 
Altair desceu as escadas dizendo: 
_ Me, me, eu achei um esconderijo! 
_ Esconderijo? Do que est falando? 
Altair entrou na cozinha e parou diante 
dela:  
_ Eu levantei um pouco, estava cansado 
de ficar na cama, fui ao quartinho onde 
voc guarda coisas para procurar meu 
carrinho amarelo. Eu tropecei, 
escorreguei e bati as costas na parede. 
Ca sentado no cho. Ento ela virou e 
abriu uma porta.  um lugar apertadinho, 
mas est cheio de coisas.  
Marlia olhou para Dorita admirada: 
_ Voc sabia que existia esse lugar aqui 
em casa? 
Ela meneou a cabea negativamente:  
_ No. Altair, voc no est inventando 
essa histria? 
_ No. Acho que descobri o tesouro.  
_ Vamos l ver isso _ disse Marlia. 
As duas acompanharam Altair escada 
acima at o local e entraram no quartinho 
que por ser um tanto apertado, Otvio 
determinou que ele serviria apenas de 
despejo. 
L havia coisas que eles no utilizavam, 
mas no queriam se desfazer. Marlia 
raramente entrava l, e Dorita de vez em 
quando abria para deixar entrar um ar e 
fazer ligeira limpeza.  
Surpreendidas, elas viram que Altair 
dissera a verdade. Havia uma abertura na 
parede suficiente para passar uma 
pessoa. Aproximaram-se e viram que 
dentro havia uma pequena prateleira com 
algumas caixas. 
O lugar cheirava a mofo, mas Marlia 
susteve a respirao, entrou e apanhou 
uma das caixas. Estava pesada, porm ela 
esforou-se para tir-la de l.  
_ Ser que foi Otvio quem colocou isso 
a? _ questionou Marlia.  
_ Se no foi ele pode ser sido algum 
antes de vocs virem para c. 
_ . Est pesada. Vamos ver o que 
contm.  
Colocaram a caixa sobre uma mesa e 
abriram a tampa. Dentro havia algumas 
pastas e documentos.  
_ Vamos ver as outras _ sugeriu Dorita. 
Elas tiraram as seis caixas de papelo que 
havia e uma menor de madeira que elas 
abriram primeiro. Dentro, encontraram 
um caderno e algumas chaves.  
Marlia apanhou o caderno e abriu: 
_ So coisas de Otvio. Veja, a letra  
dele.  
Folheando esse caderno, Marlia 
continuou: 
_ So anotaes de nomes de pessoas, 
endereos e at telefones. 
_ Por que ser que ele os escondia aqui? 
_ Certamente eram negcios fora da lei 
que no podiam aparecer.  
Elas abriram as caixas e nelas havia 
anotaes, algumas em ingls, outras em 
espanhol. 
_ Aqui pode estar registrado que tipo de 
negcio Otvio tinha. Para a polcia pode 
ser a chave do crime _ considerou Marlia, 
pensativa.  
_ Voc vai avisar o delegado? 
_ Ainda no sei. Acho melhor falar antes 
com o Dr. Paulo ou com Vitrio. Eles 
podem examinar tudo isso e nos ajudar a 
decidir o que fazer. Pode ser tambm que 
no seja nada importante.  
_  pode, mas os dois sabero nos 
aconselhar.
_ Me, pensei que fosse um tesouro. No 
tem dinheiro dentro das caixas? 
_ No, filho. Mas papis podem ser mais 
importantes do que dinheiro. Vamos 
investigar.  
Eles desceram, Marlia procurou o nmero 
do telefone de Paulo e ligou: 
_ Doutor Paulo? Estou ligando porque 
aconteceu uma coisa que pode ser 
importante.  
_ O que foi? 
_ Altair por acaso encontrou um 
compartimento secreto em que Otvio 
guardava caixas com documentos. Eu e 
Dorita no sabamos que havia esse lugar 
aqui. Gostaria de mostr-los a voc e 
Vitrio. Alguns deles so em ingls e 
espanhol.  
_ Irei imediatamente. 
Ela agradeceu e desligou. 
_ Ainda bem que temos em quem confiar 
para nos ajudar _ comentou com Dorita. 
_ Tanto ele quanto Vitrio parecem gente 
boa. 
_  verdade. Volte para o quarto, Altair.  
_ Eu j melhorei. 
_ Mas se no descansar poder piorar. 
Talvez seja melhor voltar para a cama.  
_ Ah! Me!... Eu no quero ficar na cama. 
J estou bom. Eu quero ver o que eles vo 
falar do meu achado. Ainda penso que 
pode haver um tesouro l.  
_ No se preocupe Altair _ ajuntou Dorita 
_, se tiver alguma coisa de valor, 
daremos a voc. Afinal, foi voc quem 
descobriu o lugar.  
Ele obedeceu. Meia hora depois, Paulo 
chegou com Vitrio. Depois dos 
cumprimentos, acompanharam as duas 
at o local. Altair, vendo-os subir, os 
acompanhou, olhos brilhantes de 
curiosidade e prazer.  
Assim que apanhou o caderno, Paulo 
sorriu satisfeito: 
_ Isto parece uma anotao que os 
traficantes costumam fazer dos clientes 
aos quais fornecem drogas. Deve haver 
um outro com anotaes dos 
fornecedores. Temos que verificar. 
_ Quer dizer que Otvio era traficante de 
drogas? 
_ Tudo indica que sim.  
_ Apesar de desconfiar que havia alguma 
coisa errada, no pensei que se tratasse 
de drogas. 
Num gesto instintivo de proteo, ela 
abraou o filho. Estava chocada. Tinha 
verdadeiro horror desse tipo de profisso.  
_ Vamos levar essas caixas para um lugar 
onde possamos verificar tudo _ disse 
Paulo. 
_ Eu ajudo _ concordou Vitrio. _ Pode 
ser que aqui esteja o fio da meada que 
procurvamos.  
Marlia sugeriu que eles levassem tudo 
para a mesa da sala de jantar para 
procederem a verificao. 
Depois de transportarem todas as caixas 
e de verificar se no havia mais nada no 
local em que elas estavam escondidas, 
abriram a primeira e depois de examinar 
alguns documentos, Paulo considerou: 
_ Isso vai levar tempo e requer 
peritagem. 
_ Acha que deveremos conversar com o 
delegado? _ indagou Marlia.  
_ Com certeza. A polcia ter condies de 
periciar todos esses documentos melhor 
do que ns. Mas antes eu gostaria de 
analis-los em primeira mo para 
recolher algumas pistas e continuar nossa 
investigao.  
_ Voc acredita que poderemos encontrar 
alguma pista sobre o desaparecimento de 
minha me?  difcil para eu acreditar que 
ela pudesse estar ligada a essa gente.  
_ No sei o que vamos encontrar, mas de 
qualquer forma o nome de sua me est 
ligado a esse crime e a Otvio, seja ele 
traficante como parece ser ou no. 
_ Esse mistrio continua me 
atormentando. No consigo entender. 
_ Seria melhor que voc procurasse no 
se atormentar criando hipteses em sua 
cabea e sofrendo com elas. Assim, 
poderia ligar-se aos amigos espirituais 
que o auxiliam e talvez obtiver um 
resultado melhor _ aconselhou Paulo.  
Vitrio suspirou e respondeu: 
_ Voc tem razo. Preciso encontrar a 
serenidade. Eu sei que s quando 
estamos serenos e confiantes  que 
conseguimos ouvir o que nossos mentores 
espirituais dizem. O desespero s 
atrapalha.  
_ Sei que no  fcil conseguir isso neste 
momento, porm voc  uma pessoa de 
f, j teve provas de que a ajuda 
espiritual est presente em nossa vida. 
Pense um pouco. A descoberta desses 
documentos foi  maneira que eles 
encontraram de nos ajudar. Altair 
escorregou e a parede se abriu. No acha 
que os amigos espirituais nos deram esse 
empurrozinho? 
_ Paulo, sinto-me envergonhado. Eu que 
pensava ser um espiritualista convicto, 
estou falhando diante dos desafios a que 
estou sendo submetido pela vida. Vou 
reagir. Pode estar certo. De agora em 
diante vou pensar no melhor e manter a 
serenidade. Depois do que aconteceu 
hoje, s me resta confiar e acreditar que 
tudo ser resolvido.  
_ Isso mesmo. Agora se sente e vamos 
analisar o que temos aqui _ disse Paulo. 
Depois, voltando-se para Marlia, 
continuou:  
_ Vai demandar tempo.  
_ Eu sei. Gostaria de poder ajud-los _ 
respondeu ela.  
_ J ajudou muito nos chamando aqui. 
Vamos ao trabalho. Vocs duas continuem 
seus afazeres. No quero atrapalh-las.  
_ J terminamos por hoje _ respondeu 
Marlia. _ Se tiver alguma coisa que eu 
possa fazer,  s falar. Vamos Altair, para 
a cozinha.  
_ Eu queria ver se eles vo encontrar o 
tesouro. 
_ Se encontrarmos alguma coisa 
diferente, avisaremos voc _ disse Paulo.  
As duas e o menino foram para a cozinha 
e os dois mergulharam nos papis, 
procurando a ponta do mistrio que 
envolvia aquelas famlias."                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



CAPTULO 13                                                                                               
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



"O despertador tocou e Osmar acordou 
sobressaltado. A noite fora difcil 
demorara em pegar no sono e quando 
conseguiu sonhou com pessoas 
maltrapilhas e feias, cobrando-lhe contas 
de seus atos, ameaando agredi-lo. Ele 
tentara fugir, mas elas o seguiram por 
toda a parte e quando estavam para 
apanh-lo, ele acordou suando frio, 
angustiado e aflito.  
'Foi apenas um pesadelo', pensou, 
tentando minimizar o fato. Mas depois 
disso no conseguiu mais dormir com 
medo de rever as pessoas.  
Sentia o peito angustiado, oprimido, como 
se alguma coisa terrvel fosse acontecer.  
Levantou-se, apanhou o telefone e ligou 
para Nelsinho. Quando ele atendeu, disse 
irritado:  
_ Onde voc estava que demorou tanto 
para atender ao telefone?  
_ Estava dormindo. Assim que ouvi, vim 
atender.  
_ Tem alguma novidade?  
_ Tudo continua na mesma. O 
carregamento chegou bem e eles esto 
conferindo a mercadoria. 
_ Diga a eles que ainda no depositaram 
o dinheiro. Tenho pressa.  
_ Eles disseram que fariam isso hoje.  
melhor esperar. O chefe deles no goste 
que duvidem de sua palavra.  
_ Preciso falar com voc sobre outro 
assunto. No saia que dentro de meia 
hora estarei a.  
Osmar desligou e foi se arrumar para sair. 
Em seu peito a angstia continuava e ele 
apressou-se. Precisava ter certeza de que 
tudo continuava bem.  
Desceu, engoliu uma xcara de caf puro 
e saiu. Apanhou o carro e rumou para o 
subrbio. Parou diante da casa de 
Nelsinho, desceu e bateu vrias vezes na 
porta.  
Pouco depois, Nelsinho abriu, disfarando 
a cara de sono e o desconforto por ter de 
levantar to cedo. Ele estivera ocupado 
at quase a madrugada e adorava dormir 
at tarde.  
Depois do bom-dia resmungado de parte 
a parte, Nelsinho tornou: 
_ O que o trouxe aqui to cedo? 
_ Estou preocupado com a mulher no 
sanatrio. Voc tem ido l saber como ela 
est? 
_ Fui naquele dia que liguei para o seu 
escritrio.  
_ Como ela estava? 
_ Do jeito que voc pediu. Eles continuam 
fazendo tudo direitinho.  
_ Mas voc disse que ela estava dando 
trabalho. 
_ Estava porque o remdio no fazia mais 
tanto efeito. Mas eles disseram que iam 
aumentar a dose e acho que fizeram 
porque no se queixaram mais.  
Osmar pensou um pouco, depois disse: 
_ Vamos at l. Quero ver isso de perto. 
No podemos facilitar. J chega aquela 
cochilada que est nos custando caro.  
_ Eu no tive culpa. Eles desconfiaram de 
ns e no cumpriram o prometido. 
_ E agora ficamos nas mos deles. J 
pensou o que pode acontecer se ela falar 
o que sabe? 
_ Do jeito que ela est no conseguir 
lembrar-se de nada, que dir falar.  
Conversando, foram para o carro, 
entraram e Osmar deu a partida. 
Passava das dez horas quando pararam 
diante de um prdio em que se lia a 
inscrio: 'Sanatrio da Paz'. 
Desceram do carro e entraram. No 
saguo, Nelsinho procurou a atendente:  
_ Preciso falar com o Dr. Ernesto.  
_ Um momento. Vou ver se ele pode 
atender.  
Pegou o telefone, conversou, depois 
disse: 
_ Podem entrar. Primeira porta  
esquerda.  
Os dois caminharam pelo corredor at 
encontrar a porta; bateram levemente. 
_ Como vai, Dr. Osmar? 
_ Preocupado, Ernesto.  
_ Sentem-se. No h motivo para 
preocupao. Tudo est sob controle.  
_ No sei. Sinto que alguma coisa est 
para acontecer. Como est ela? 
_ Dormindo. Como sabe, fomos forados a 
aumentar a dose da medicao; depois 
disso, ela no nos incomodou mais.  
_ Leve-me at l. Quero v-la.  
_ No confia em minha palavra? 
_ No se trata disso, Ernesto. Vendo-a, 
saberei que tudo est bem.  
_ Antes, desejo fazer-lhe uma pergunta: 
At quando pretende mant-la aqui?.  
_ At quando meus problemas estiverem 
solucionados. 
_ Concordei em atend-lo, mas no posso 
ficar com ela indefinidamente. Isso pode 
me causar problemas.  
_ Pensei que a quantia de dinheiro que 
lhe paguei e a que envio de vez em 
quando cobrisse todos os seus medos. 
_ Voc tem sido muito generoso. Se no 
fosse aquele crime, ela poderia ficar aqui 
o quanto quisesse.  
_ J lhe disse que no tive nada a ver com 
aquele crime. Jamais teria feito negcios 
com aquela gente se soubesse que iriam 
chegar a tanto. Voc sabe que sou homem 
de palavra. Eles duvidaram disso.  
Ernesto coou a cabea, indeciso. Aquele 
dinheiro fora muito bem-vindo, mas a 
morte de duas pessoas o assustava 
demais. Embora Osmar afirmasse que no 
tivera nada a ver, ele no conseguia 
acreditar.  
Sabia que Osmar mantinha negcios com 
o homem que foi assassinado, s no 
entendia como a me de Osmar fora 
morta com ele. 
_ Voc acha que fui culpado daquele 
crime? Acha que eu seria capaz de 
mandar matar minha me? 
_ Voc est certo de que o corpo 
encontrado  o mesmo o dela? 
_ Claro que estou. Eu mesmo fui 
reconhec-lo.  
_  que as demais pessoas de sua famlia 
disseram o contrrio. 
_ Esto iludidos. De tanto desejar que no 
fosse verdade, viram coisas que no 
existem.  
_ Seja como for, essa mulher chegou aqui 
num dia prximo quele crime. Ela deve 
ter alguma coisa a ver com esse fato.  
_ Voc est enganado. Ela  uma mulher 
que sabe demais sobre meus negcios e 
eu a trouxe aqui para ver se ela esquece 
o que sabe. S isso.  
_ Quando passar o efeito dos remdios, 
ela poder dar com a lngua nos dentes.  
isso que me preocupa. No desejo ver o 
nome do hospital metido nisso. 
_ Ela se esquecer de tudo depende de 
voc. Deve haver drogas que a faam no 
se lembrar mais do passado.  
Pelos olhos do mdico passou um brilho 
diferente, mas ele disse apenas: 
_ Eu sei que tem. Mas no posso aplicar 
nela. Seria contra a medicina.  
_ Lembre-se de que posso fazer valer a 
pena. Dentro em breve vou receber uma 
boa quantia e certamente saberei 
reconhecer seus servios.  
_ Vou pensar. 
_ Agora desejo v-la. 
Doutor Ernesto levantou-se: 
_ Venham comigo. 
Os trs caminharam pelos corredores, 
subiram um lance de escada at que o 
mdico parou diante de uma das portas. 
Abriu e convidou:  
_ Vamos entrar.  
O quarto era pequeno e a veneziana da 
janela estava fechada. Havia uma cama 
hospitalar, uma mesa de cabeceira e um 
suporte de soro.  
Deitada de costas havia uma mulher 
magra, de cabelos castanho-claros sobre 
os ombros, branca, pele delicada, um 
tanto plida, olhos fechados, os braos 
estendidos para fora da coberta. 
Aparentava mais de cinqenta anos.  
_ Est vendo? _ disse Ernesto. _ Ela 
dorme tranqila.  
_ Espero que ela continue assim _ 
respondeu Osmar. 
_ Vai continuar. Vamos sair.  
Eles saram e poucos minutos depois 
deixaram o hospital. Osmar estava 
satisfeito. Aquela mulher nunca poderia 
contar como descobrira tudo.  
Depois de deixar Nelsinho em casa, 
Osmar foi para a empresa. 
Sentou-se diante de sua mesa, mas no 
estava em condies de trabalhar. A 
angstia continuava e ele fechou os olhos 
inquieto. 
As lembranas o incomodavam e o medo 
roubava toda sua calma.  
Havia conhecido Otvio desde que se 
interessara em negociar drogas. Ele 
queria enriquecer logo, no desejava 
esperar o progresso lento da empresa do 
pai. Tinha pressa em conquistar poder e 
em seu entender o dinheiro farto lhe 
proporcionaria tudo, inclusive o amor de 
Aurlia.  
Conhecia Nelsinho desde a adolescncia. 
Ele vendia drogas aos alunos do colgio 
em que estudava. Nunca desejara 
experimentar nenhuma delas. Mas cedo 
percebera o quanto poderia lucrar nesse 
negcio.  
J adulto e formado, quando decidiu 
entrar no negcio, procurou Nelsinho e 
por meio dele fez os primeiros contatos 
com alguns traficantes. Inteligente e 
determinado, aos poucos conseguiram 
seu lugar entre eles, mostrando 
capacidade, respeitando suas regras e 
negociando com cada um o espao de 
atuao.  
H dois anos conhecera Otvio, um 
intermedirio de dois grandes 
exportadores. Era o que ele queria. Seu 
capital no era grande, mas, nesse ramo, 
ele estava se multiplicando rapidamente. 
Tudo corria bem.  
Certa tarde recebeu o recado de que 
Otvio iria ao Rio de Janeiro e o estaria 
esperando na casa de Nelsinho. 
Nesse encontro, Otvio lhe dissera que 
tinha em mos um negcio espetacular. 
_ Ningum sabe. Trouxe para voc em 
primeira mo.  
_ Do que se trata? 
_  um negcio grande, rendoso,  pegar 
ou largar. Mas  preciso resolver rpido. 
Hoje de manh fui procurado pelo 
companheiro do Argola. Ele foi preso esta 
madrugada. No vai sair to cedo.  
_ E da? 
_ Bem, o Arlindo procurou-me e disse que 
o Argola comprou uma mercadoria barata 
e de boa qualidade. Arlindo recebeu tudo, 
guardou em sua casa, e o Argola ia buscar 
esta noite, mas como ele foi preso; o 
Arlindo est com medo. Quer livrar-se da 
mercadoria o quanto antes. Faz por 
qualquer preo. Eu no tenho como 
retirar tudo. Sei que voc tem.  
_ Tem certeza de que  de boa qualidade? 
_ Tenho. Ele me deu uma amostra.  
_ Tem certeza de que a polcia no sabe 
nada sobre ela? 
_ Tenho. A polcia est mais preocupada 
com um carregamento que apreenderam 
h um ms. Sobre essa, eles no sabem 
de nada.  
_ Nesse caso, vou mandar retir-la e 
levar para nosso depsito. 
_ Mas antes quero cinqenta por cento do 
lucro. 
_ S se voc pagar a metade. 
_ No tenho capital. Afinal, essa 
informao vale muito. Eu poderia ter 
procurado outros.  
Eles discutiram os detalhes e finalmente 
acertaram o negcio. Osmar mandou 
buscar a mercadoria e ficou de mandar o 
dinheiro depois de conferir a remessa.  
Otvio foi embora e Osmar fez o que 
haviam combinado. Naquela noite, ao 
chegar a casa, encontrou a me 
atarefada, fazendo as malas. Ficou 
sabendo que ela partiria no dia seguinte 
para a Europa em companhia de uma 
amiga.  
Estranhou. Procurou o pai.  
_  verdade que mame vai para a Europa 
sem voc? 
_ . Ela est precisando descansar. Tem 
andado deprimida, cansada. Acho que  a 
idade.  
_ Mas por que voc no a acompanha 
como sempre? 
_ No quero deixar os negcios.  
_ Eu posso tomar conta de tudo. 
Aproveite, v com ela. 
_ No. Ela quer ir com uma amiga dos 
tempos de faculdade. Concordei. Afinal, 
no tenho vontade de viajar neste 
momento.  
Ele tentou convencer o pai que ele 
deveria ir tambm. Para ele convinha 
muito que o pai se afastasse durante 
algum tempo. Assim ele estaria mais livre 
para fazer o que desejava.  
Na manh seguinte, ele foi ter com a me: 
_ Quando voc vai? 
_ Amanh  noite.  
_ Desejo-lhe uma boa viagem, mas ainda 
acho que deveria levar o papai. Ele tem 
andado desanimado, penso que uma 
viagem lhe faria bem.  
_ Se ele desejar viajar, que v sozinho. 
Eu, nesta viagem, desejo me recuperar. 
Ficar s comigo mesma.  
_ Mas voc vai com uma amiga... 
_ Vou. Faz muitos anos que ns no nos 
encontrvamos. Vai ser bom revivermos 
nossos tempos de juventude. Eu preciso 
de alegria. Elvira vai me ajudar a 
reencontrar o prazer de viver.  
Foi quando Vitrio apareceu e, vendo-a 
na arrumao, disse triste: 
_ Me... Eu preferia que no fizesse essa 
viagem.  
Teresa sorriu levemente: 
_ Eu preciso ir. Voc vai ficar bem.  
Vitrio segurou a mo dela e respondeu: 
_ Estou com um mau pressentimento. 
Algo me diz que voc no deve viajar 
agora.  
_ L vem voc com suas idiotices _ 
interveio Osmar. _ No d ouvidos a ele.  
_ Eu sinto que voc no deve ir. Por 
favor, desista dessa viagem. Fique perto 
de ns.  
Ao rever essa cena, Osmar pensou: 
'Dessa vez Vitrio estava certo. Teria sido 
melhor mesmo que ela no tivesse ido'. 
Mas Teresa estava irredutvel. Na hora 
combinada, Alberto acompanhou-a at o 
embarque e o Vitrio, angustiado, 
recolheu-se ao quarto.  
Para Osmar teria sido mesmo melhor que 
o pai tivesse ido viajar. Talvez assim 
tivesse podido evitar o que aconteceu.  
Mais tarde, Osmar encontrou-se com 
Nelsinho e foram at o depsito conferir a 
qualidade da mercadoria. Ficou satisfeito. 
A compra fora mesmo muito boa.  
Ele contava poder tirar dinheiro da 
empresa para juntar ao que j possua e 
pagar a dvida. Mas quando chegou  
empresa, no dia seguinte, soube que o pai 
tinha comprado uma quantidade enorme 
de material e havia pagado metade  
vista.  
Inconformado, foi conversar com ele: 
_ Pai, voc no podia ter feito esse 
negcio. Ficamos sem nenhuma reserva.  
_ Sei o que estou fazendo. Era um timo 
negcio, preo muito bom e eu no podia 
perder. Dentro de pouco tempo teremos 
recebido o dobro ou mais.  
_ Mas ns temos compromissos, contas a 
pagar. O que faremos sem dinheiro em 
caixa? 
_ Voc est reclamando sem razo. Antes 
de fechar eu verifiquei tudo o que temos 
de pagar neste ms. Vai dar e sobrar.  
Osmar ficou nervoso. Ele contava com 
esse dinheiro para acertar o negcio que 
fizera. Sabia que como de praxe, eles s 
faziam negcios  vista. Era receber, ver 
a qualidade e pagar.  
Pela primeira vez desde que se metera 
nesse negcio sentiu medo. Sabia que 
eles no eram de brincadeira. Por muito 
menos eram capazes de matar.  
Sua cabea doa, e ele tentava encontrar 
uma sada. Naquele mesmo dia recebeu 
um recado marcando um encontro para 
pagar o dinheiro.
Desesperado saiu da empresa, procurou 
um telefone pblico e ligou para Otvio.  
_ Preciso conversar com voc. 
_ Recebeu meu recado? 
_ Recebi, mas estou com um problema. 
No tenho toda a quantia.  
_ Como voc fez um negcio desses sem 
ter o dinheiro? Sabe o que isso significa? 
_ Sei. Por esse motivo estou ligando para 
voc. Quero que diga ao Arlindo que hoje 
vou mandar uma parte e que logo 
mandarei o restante.  
_ No posso dizer isso a ele! Vai pensar 
que o estou enganando.  
_ Mas  verdade! 
_ Voc est dizendo, mas eu no sei se  
mesmo. Pode ser que voc esteja me 
passando  perna.  
_ Eu nunca faria isso. Sou de palavra. S 
preciso de mais alguns dias.  
_ Faa um emprstimo, faa qualquer 
coisa, mas no me diga que no vai 
pagar. 
_ Ele quer receber ainda hoje, porm no 
tenho todo o dinheiro. 
_ Voc me colocou em uma grande 
enrascada. Isso no vai prestar. Se eu 
soubesse que no teria confiado em voc.  
_ Voc no pode me emprestar o que 
falta? Eu devolverei logo.  
_ O qu? Meu dinheiro est todo aplicado. 
No posso tirar de uma hora para outra. 
Voc vai ter de dar um jeito.  
Osmar remexeu-se na cadeira inquieto. 
Recordar esses momentos aumentava sua 
angstia.  
Naquele dia ele procurara soluo sem 
conseguir. O jeito era dar o que tinha e 
pedir tempo para pagar o restante. No 
havia sada.
Resignado, procurou Arlindo levando o 
dinheiro que possua. Ele o esperava 
ansioso e assim que o viu disse:  
_ Eu vou me mandar, s estava 
esperando voc chegar. Preciso sair daqui 
o quanto antes. Soube que o Argola est 
sendo pressionado e pode dar com a 
lngua nos dentes. Manda logo a bolada 
que eu tiro minha parte e entrego o 
restante ao fornecedor.  
Osmar entregou o envelope com o 
dinheiro. Arlindo abriu, contou depois 
disse:  
_ E o restante? 
_ Eu tinha todo o dinheiro na empresa, 
mas meu pai fez uma compra grande e o 
retirou.  
Arlindo fechou a fisionomia e Osmar 
continuou sem dar-lhe tempo para dizer 
nada: 
_ No se preocupe. Tenho dinheiro para 
receber, dentro de um ou dois dias 
pagarei o restante.  
_ O que voc pensa que eu sou? Algum 
idiota? No quero pr em risco minha 
pele. Se eu aparecer l sem todo o 
dinheiro eles vo pensar que eu estou 
mentindo. Alm do mais preciso viajar 
urgente, conto com minha parte. No. De 
forma alguma, no posso aceitar isso. 
Voc precisa dar um jeito.  
_ No tenho como. Quando Otvio me 
procurou, eu fechei o negcio porque 
contava em tirar a diferena da empresa. 
No esperava que meu pai fosse fazer o 
que fez.  
_ Isso  problema seu. Eu no tenho 
tempo para esperar. Vou embora ainda 
hoje. Se no puder dar o que falta ter de 
entender-se com eles.  
_ Voc precisa me ajudar.  por pouco 
tempo.  
_ No posso. Dei minha palavra de que o 
negcio era quente, sempre fui confivel.  
Osmar empalideceu. Sabia que os 
fornecedores daquela mercadoria eram 
grandes traficantes, cujas regras eram 
duras e era muito perigoso desrespeit-
las.  
_ Nesse caso,  melhor eu devolver a 
mercadoria.
_ O qu? Voc que me complicar com a 
polcia? De forma alguma posso aceitar 
receb-la de volta. Depois, ns somos 
pessoas honestas, no crianas que 
podem ser enganadas com facilidade. 
Voc no sabe com quem est metido.  
_ O pior  que eu sei. Estou sendo o mais 
honesto possvel. Se vocs no podem 
esperar mais alguns dias para receber o 
restante,  melhor levarem a mercadoria 
de volta.  
_ Vamos fazer o seguinte: espero at 
amanh.  s o que consigo fazer. Se voc 
no trouxer o restante do dinheiro, terei 
de contar a verdade aos fornecedores.  
_  muito pouco tempo! No vai dar para 
arrumar todo o dinheiro.  
_ Eu vou sair daqui agora, ficar na casa 
de um amigo. Mas amanh, nesta mesma 
hora, virei aqui esperar pelo dinheiro. Se 
no trouxer, terei de contar a verdade.  
Osmar deixou a casa de Arlindo muito 
assustado. Em to pouco tempo como 
poderia conseguir tanto dinheiro? 
Voltou para casa tentando encontrar uma 
soluo sem conseguir.  
Naquela noite no conseguiu dormir. 
Revirou-se na cama angustiado, mas 
quando pegou no sono viu-se perseguido 
por vultos negros que o queriam agredir.  
Enquanto recordava esses fatos, Osmar 
tentava descobrir de onde vinha essa 
sensao de medo e de mau 
pressentimento."                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

 

CAPTULO 14                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


Pressionado pelas lembranas, Osmar 
continuava tentando colocar as idias em 
ordem para poder programar os prximos 
passos.  
Depois daquele encontro com Arlindo, os 
acontecimentos se precipitaram. Ele foi 
preso naquela mesma noite e Osmar 
sentiu-se acuado. Certamente, Otvio 
informaria os fornecedores que ele no 
cumprira o prometido, o que era falta 
grave.  
Ele havia recebido o dinheiro da ltima 
partida de mercadoria que negociara, 
mas seu montante no era suficiente para 
pagar tudo o que devia.  
Tentou falar com Otvio, mas ele atendia 
ao telefone. Foi quando comeou a 
receber telefonemas annimos com 
ameaas, chamando-o de traidor, de 
desonesto, de sem palavra.  
Assustado, ele sabia de onde vinham 
esses telefonemas, mas ainda no tinha 
conseguido todo dinheiro e, para seu 
desespero, Otavio no atendia seus 
chamados.  
Mesmo sem ter o restante, na noite 
seguinte Osmar foi ao encontro de 
Nelsinho. Ele precisava fazer alguma 
coisa. 
 Contou-lhe o que estava acontecendo e 
finalizou:  
- Estamos encrencados. Temos de 
encontrar uma sada com urgncia.  
- Foi voc quem fez negcio. Eu no tenho 
nada com isso. S ajudo na distribuio.  
- Voc acha que eles vo querer s a 
mim? Como  ingnuo! Est metido nisso 
tanto quanto eu.  
- Nesse caso, vou me mandar. No vou 
esperar a bomba estourar.  
- Voc no vai me deixar sozinho nisso. 
Depois, no adianta fugir. Eles tm 
esquema perfeito e a essa altura j 
devem saber de tudo a nosso respeito.  
- Isso pode estar na mo do Nivaldo. Ele 
morre de inveja de ns porque no 
consegue nos vencer.  
- Ele  caf pequeno. Esquea isso. Temos 
coisa mais importante para pensar.  
Juntos, tentaram encontrar uma sada, 
porm a nica que resolveria seria 
arranjar o dinheiro imediatamente, o que 
no era possvel. 
- Vou procurar me esconder durante 
alguns dias- disse Nelsinho. 
- Eu no tenho como.
O telefone tocou e os dois se 
sobressaltaram. Nelsinho atendeu:  
_ Al. Sim, sou eu.  
_ Quero falar com o vagabundo que est 
com voc. 
_ Quem? 
_ Eu sei que ele est a. Passa logo o fone 
para ele.  
Nelsinho estendeu o aparelho para 
Osmar: 
_  para voc. 
Osmar sentiu o corao bater mais forte. 
Nervoso, atendeu:  
_ Al. Quem est falando? 
_ No interessa. Voc est marcado. 
Ningum pode brincar com o Gil.  
Gil Duarte era o nome do chefe dos 
traficantes, dono da mercadoria que ele 
comprara. Osmar respirou fundo e 
respondeu:  
_ No estou brincando. Sou homem srio. 
Se for por causa do dinheiro daquela 
mercadoria, no precisa se preocupar. 
Dentro de um ou dois dias levarei para 
vocs.  
_ Voc no est falando srio. No 
podemos correr o risco de esperar esse 
tempo. Depois, voc sabia as condies 
do negcio. Fechou-se, tem de pagar do 
jeito combinado.  
_ Eu vou pagar. S que preciso de mais 
alguns dias.  
_ O mximo que podemos esperar  at 
amanh ao meio-dia. Vou ligar para lhe 
dizer onde deve levar o dinheiro.  
Osmar desligou suando frio. Ele sabia que 
no conseguiria ter o dinheiro at o 
horrio previsto.  
Deixou Nelsinho e foi para casa. Sua 
cabea doa e ele no conseguia 
encontrar uma soluo. Passava da meia-
noite quando o telefone do seu quarto 
tocou.  
_ Al. Sou eu.  
_ Ns temos aqui duas pessoas que voc 
conhece muito. Teresa e Elvira. Se no 
arranjar o dinheiro, vamos acabar com 
elas.  
Osmar deu um pulo assustado. 
_  mentira. Minha me est na Europa. 
Voc est querendo me pressionar.  
_ Eu posso provar. 
_ Como? 
_ V at o endereo que vou lhe dar e 
encontrar as provas de que precisa.  
_ Diga para eu anotar. 
O homem passou o endereo, depois 
desligou. Osmar passou as mos nos 
cabelos, tentando se acalmar. Iss no 
podia ser verdade. Sua me em poder 
daqueles bandidos o deixava 
aterrorizado.
Procurar a polcia seria como denunciar 
sua ligao com os traficantes. Precisava 
saber se eles realmente tinham Teresa 
em seu poder.  
Isso poderia ser apenas uma maneira de 
atrai-lo para uma cilada. Mas e se Teresa 
estivesse mesmo com eles, no ir, seria 
deix-la  merc deles e, o que o 
incomodava mais, tornaria clara sua 
participao nos negcios com os 
traficantes.  
Vencendo o medo, Osmar decidiu 
verificar. Foi. O endereo ficava na 
periferia de um subrbio. O lugar estava 
deserto quela hora da noite. Ele parou o 
carro diante da casa modesta, olhando 
em volta receoso.  
A casa estava s escuras e no havia sinal 
de vida. Osmar no desceu do carro, 
estava pronto para fugir se fosse preciso. 
Esperou alguns minutos, mas vendo que 
no aparecia ningum, ligou o carro 
disposto a ir embora.  
Ento, a porta da casa se abriu e uma 
mulher saiu quase correndo. A porta 
fechou-se novamente. Osmar no a 
conhecia, mas ela aproximou-se dizendo 
agitada:  
_ Por favor! Ajude-me! 
Vendo que ela no carregava bolsa nem 
arma, Osmar abriu o vidro do carro e 
perguntou:  
_ Quem  a senhora? 
_ Sou Elvira. A amiga da Teresa.  
Osmar abriu a porta e disse nervoso: 
_ Elvira? Entre, conte-me o que est 
acontecendo? Onde est minha me? 
Ela entrou no carro dizendo aflita:  
_ Vamos embora. Vou contar-lhe tudo.  
_ Minha me no est com voc? 
_ No. Eles me trouxeram aqui sozinha. 
Ela ficou em outro lugar.  
Osmar ligou o carro e saram. Depois de 
alguns minutos ele perguntou:  
_ Quem estava com voc naquela casa? 
_ Dois homens. Eles nos prenderam dias 
atrs. 
_ Meu pai as levou para o aeroporto e viu 
vocs embarcarem. Como pode ser isso? 
_ Ns no embarcamos. Seu pai se 
despediu quando entramos na rea de 
embarque, ns esperamos um pouco e 
samos.  
_ No estou entendendo. Vocs no iam 
para a Itlia? 
_ No. Ela fingiu isso, mas sua idia era 
outra.  
_ Como assim? Por que ela no disse a 
verdade? 
_ Esse  um assunto dela e no estou 
autorizada a lhe contar.  
_ Voc vai ter de contar. A vida dela est 
ameaada.  
_ Eu tambm acho. Ns temos de ir  
polcia.  
_ Nada de polcia. Isso pode colocar a 
vida dela em risco. Mas fale, por que 
vocs desistiram da viagem? 
_ Ns no desistimos de viajar. Apenas 
programamos ir para outro lugar.  
_ Por que tanto segredo? Por que mame 
no disse para onde iriam? 
_ Esse  um assunto dela. Depois voc 
pergunta a ela. Eu no posso entrar nisso. 
Ela tinha programado ir para So Paulo e 
foi o que fizemos. L, quando samos do 
aeroporto com nossas bagagens  
procura de um txi, fomos seguidas por 
dois homens que em determinado 
momento se aproximaram, apontaram-
nos suas armas e nos obrigaram a entrar 
no carro.  
_ Voc conhecia esses homens? 
_ No. Um era mal encarado, o outro 
tinha uma aparncia melhor. Eles nos 
ameaaram e nos levaram para uma casa 
em um bairro afastado. L nos amarraram 
e havia um outro que parecia ser o chefe, 
ele nos disse que ficaramos presas at 
que voc pagasse o que lhe devia.  
_ Eu? 
_ . Ele quis nos assustar e disse que 
voc traficava drogas, estava devendo e 
no queria pagar. Se voc no trouxesse 
o dinheiro, eles nos matariam. Teresa 
ficou indignada, disse que isso no era 
verdade, mas eles responderam que ela 
no sabia o que voc fazia na empresa da 
famlia.
_ Eles estavam mentindo. Ela acreditou? 
_ Teresa chorou muito, mas ele insistiu 
tanto, que ns duas acabamos por 
acreditar. Teresa no se conformava por 
voc ter entrado nesse caminho. No 
parava de chorar.  
Ela fez ligeira pausa e depois continuou: 
_ Esta noite, eles me colocaram no carro e 
me levaram para aquela casa. No caminho 
me disseram que era para lhe contar o 
que estava acontecendo e que se no 
arranjasse o dinheiro at amanh ao 
meio-dia, eles matariam sua me.  
Elvira soluava aflita e Osmar no sabia o 
que fazer. 
_ Apesar de tudo, eu ainda acho que ns 
deveramos procurar a polcia e tentar 
salvar a vida de Teresa. 
_ Procurar a polcia seria o mesmo que 
mat-la. Temos de pensar em outro jeito.  
_ Voc pode pedir o dinheiro a seu pai. 
Ele no vai se negar a dar.  
_ Papai no pode saber o que est 
acontecendo. Temos de arranjar uma 
soluo sem a polcia.  
_ O tempo passa depressa. Logo o dia 
estar amanhecendo e chegar  hora de 
levar o dinheiro.  
Osmar mal ouvia o que Elvira estava 
dizendo. Em sua cabea estava o receio 
de que ela viesse a contar o que 
descobrira sobre suas atividades. No 
podia lev-la para sua casa, nem para um 
hotel. Temia que ela fosse  polcia pedir 
ajuda.  
Tinha que lev-la para um lugar onde ela 
ficasse escondida e no pudesse dar com 
a lngua nos dentes. Lembrou-se do Dr. 
Ernesto que tinha um sanatrio de 
doentes mentais. Havia prestado a ele 
alguns favores e agora chegara o 
momento de cobrar sua dvida.  
Quando estava chegando ao sanatrio, 
Osmar disse:
_ Estou preocupado, voc no parece 
bem, est nervosa, agitada. Voc conhece 
algum nesta cidade? 
_ No sei nem onde estou.  
_ No Rio de Janeiro. 
_ Pensei que ainda estivesse em So 
Paulo. No conheo ningum aqui a no 
ser seu pai.  
_ Voc vive com sua famlia? 
_ No. Meu marido morreu e no tive 
filhos. Moro sozinha e no tenho outros 
parentes. Encontrei sua me e ela 
convidou-me para ser sua dama de 
companhia. Aceitei.  
_ Depois do que passou, voc est 
precisando de cuidados mdicos. Por isso 
eu a trouxe a este hospital, que  de um 
amigo meu. Ele vai ajud-la a se acalmar.  
_ Eu no quero ficar em um hospital. 
Estou preocupada com Teresa. Eu no sei 
onde ela est. Eles vedaram nossos olhos 
e eu nem sabia que estava vindo para o 
Rio de Janeiro.  
_ Voc no vai ficar no hospital. S fazer 
um exame, verificar se est tudo bem e 
descansar. O dia est amanhecendo e eu 
preciso ir para ver se consigo o dinheiro. 
Voc pode ficar aqui e, amanh, depois 
que eu resolver tudo, voltarei para busc-
la e veremos o que fazer.  
Osmar parecia mais calmo e Elvira aceitou 
fazer o que ele queria. O Dr. Ernesto no 
se encontrava no local, mas seu 
assistente atendeu Osmar:  
_ A fora est uma mulher muito 
desequilibrada, no fala coisa com coisa. 
No d para entender, diz que foi 
seqestrada, perseguida, est com mania 
de perseguio. No dorme  noite, por 
esse motivo eu a trouxe aqui. Gostaria 
que voc a atendesse e lhe desse algum 
remdio para dormir. Pela manh, falarei 
com o Dr. Ernesto e pedirei que a 
examine. Ela precisa descansar e a famlia 
dela tambm.  
_ Deixe comigo, Dr. Osmar. Vou trat-la 
com carinho. Ela vai dormir como um 
anjo.
Osmar despediu-se de Elvira e saiu. Dela 
estava livre, pelo menos por alguns dias. 
O que aconteceria se ele no arranjasse o 
dinheiro? 
Nem queria pensar nisso, mas, por outro 
lado, se conseguisse esse dinheiro, teria 
dado um golpe de mestre. Ganharia muito 
mais e poderia fazer sua independncia. 
O problema era que isso seria impossvel 
em to pouco tempo.  
O dia havia amanhecido e ele foi para 
casa. Tomou um banho, vestiu-se e 
mesmo sem apetite tomou um reforado 
caf da manh e foi para a empresa.  
Uma vez l, mergulhou nos extratos 
bancrios, nas aplicaes, consultou o 
fluxo de caixa, mas esses documentos lhe 
mostraram que no havia mais o que 
extrair da empresa. 
Seu pai tinha raspado o fundo do tacho 
para fazer aquela desastrada compra que 
ocasionara todo o seu drama. 
Uma onda de raiva o acometeu e ele teve 
vontade de brigar com o pai. Tentou 
acalmar-se e no demonstrar seu 
nervosismo.  
Alberto mostrava-se radiante com aquele 
negcio que tinha feito, calculando os 
ganhos que teriam, o que proporcionaria 
 empresa maiores possibilidades de 
investimentos e mais folga com relao 
aos pagamentos futuros. 
Osmar no tinha como falar no assunto e 
precisou engolir sua raiva, seu desespero 
e sua insatisfao. 
Apesar de seu esforo, Alberto notou que 
ele no estava bem e perguntou: 
_ O que voc tem? Parece nervoso. 
Aconteceu alguma coisa? 
_ No aconteceu nada. Eu estou muito 
bem.  
_ Ser por causa da notcia que saiu no 
jornal de ontem? 
_ Que notcia? 
_ Aurlia em boa companhia. Voc no 
viu? 
_ No.  
Alberto apanhou o jornal, encontrou o 
que procurava e mostrou a ele dizendo: 
_ Ela est namorando firme. Falam at em 
casamento.  
Osmar apanhou o jornal irritado. A foto 
mostrava Aurlia e um moo, abraados e 
sorridentes. Ele leu a legenda: 'A linda e 
charmosa Aurlia Saldanha e seu 
namorado na festa dos Alves de Mello. O 
casal no se larga. Tudo indica que esse 
namoro  para valer.  
_ O melhor que voc tem a fazer  
esquecer de vez essa mulher, uma vez 
que ela no corresponde ao que voc 
sente por ela. 
Osmar teve vontade de bater no pai, 
jogar toda sua raiva sobre ele, a custo 
conteve-se. Engolindo a raiva respondeu 
com a voz trmula:  
_  isso que eu vou fazer.  
Alberto sorriu satisfeito. Achava o filho 
um rapaz bonito, bom e de futuro. No 
entendia como uma mulher pudesse 
rejeit-lo.  
Osmar respirou fundo e tentou colocar a 
ateno no trabalho, mas no conseguiu. 
Ele no pretendia desistir de Aurlia, mas 
o caso dela precisava esperar.  
As horas estavam passando sem que ele 
encontrasse uma soluo para o seu 
problema. 
Eram onze horas quando o telefone tocou 
e Osmar atendeu: 
_ Al, sim, sou eu. 
_ Voc tem apenas mais uma hora para 
entregar o dinheiro. Anote o lugar e a 
maneira de fazer isso.  
_ Eu ainda no consegui arranjar tudo. 
Vou levar o que tenho.  
_ Se no conseguir, ela vai pagar. O 
problema  seu.  
_ Minha me no sabe dos meus negcios 
e no pode pagar por mim. Por favor, no 
faa nada a ela. D-me a indicao de 
como fazer que vou ver se consigo.
O homem passou os detalhes e Osmar 
anotou tudo. Suas mos tremiam e, 
naquele momento, ele se arrependeu 
amargamente de ter entrado nesse 
negcio. Mas era tarde demais. No tinha 
como recuar.  
Apesar de tudo, estava decidido a fazer 
uma ltima tentativa. Seu dinheiro no 
estava em banco. Ele o guardava em um 
esconderijo, em casa mesmo. Tinha parte 
em dlares e em moeda nacional, mas 
como era dinheiro ilcito, no podia 
aparecer oficialmente.  
Depois, os negcios eram feitos em 
dinheiro vivo e ele podia precisar valer-se 
dele de uma hora para outra. 
Apanhou uma pasta, colocou o dinheiro, 
tendo conferido o montante e, mais uma 
vez, percebeu que ainda faltava uma 
quarta parte do que precisava. 
Cinco minutos antes da hora marcada, ele 
parou o carro no local combinado. 
Tratava-se de uma praa e ele percebeu 
logo o homem sentado em um dos bancos 
lendo um jornal.  
Reconheceu um dos homens de Otvio. 
Era a ele que deveria entregar a pasta 
com o dinheiro sem dizer nada e ir 
embora. Depois de conferir, eles 
libertariam Teresa.  
Osmar cumpriu tudo conforme o 
combinado, mas suas pernas tremiam. 
Havia escrito uma carta e colocado junto 
com o dinheiro, pedindo que esperassem 
mais alguns dias, que libertassem sua 
me, jurando pagar tudo.  
Depois ele foi para a empresa. Seu 
estmago estava embrulhado, no 
conseguiu almoar. Tomou um usque 
para relaxar e tentou se acalmar.  
Sabia que teria uma resposta. Se eles 
aceitassem esperar um pouco mais, no 
fariam nada contra Teresa, porm 
continuariam mantendo-a presa, caso 
contrrio, talvez at acabassem com ela.  
A esse pensamento Osmar estremecia 
nervoso. Era possvel at que no se 
dessem por satisfeitos apenas com isso e 
atentassem tambm contra a vida dele. 
Se eles a matassem, certamente o caso 
estaria nas mos da polcia. O que ele 
faria para escapar de uma investigao 
dessas? Sua participao nos 
acontecimentos viria  tona. Isso para ele 
seria pior at do que a morte.  
Aquela tarde custou a passar e Osmar no 
conseguia pensar em outra coisa. Fingiu 
estar trabalhando, at tentou, mas sua 
cabea estava confusa e perturbada.  
A noite chegou e ele no teve nenhuma 
notcia. No saber o que estava 
acontecendo, deixava-o inquieto, irritado 
e nervoso.  
Durante o jantar, resolveu comer alguma 
coisa. Seu estmago doa e ele estava se 
sentindo enfraquecido.  
Procurou reagir e comeu um pouco de 
tudo. Alberto estava alegre e conversador 
naquela noite e Osmar fez o possvel para 
no demonstrar seu desespero.  
Em certo momento, Alberto fixou-o, 
dizendo: 
_ Noto que voc est se esforando para 
parecer bem. Mas no est.  
_ Confesso que aquela foto de Aurlia me 
tirou do srio. 
_ Eu sei, meu filho. Mesmo reagindo, voc 
no consegue esquecer. Uma desiluso 
amorosa  muito penosa, mesmo. Mas 
tudo passa. Estou certo de que logo 
esquecer, encontrar outra mulher que o 
valorize e acabar rindo quando se 
recordar desses momentos.  
_  o que desejo, pai. 
Dinda apareceu e Alberto perguntou: 
_ Vitrio no vai mesmo jantar? 
_ No, senhor. Ele anda muito triste pela 
falta de D. Teresa. Quase no tem se 
alimentado.  
_ Esse menino no pode ficar sem comer. 
Precisa deixar essas manias de meditao 
e de ficar fechado naquele quarto falando 
com as paredes _ respondeu Alberto.  
_ Eu vivo falando isso. Voc precisa usar 
sua autoridade para que ele procure 
outro trabalho e deixe essas manias _ 
rebateu Osmar.
_ Qualquer dia vou obrig-lo a ir 
trabalhar na empresa. Assim ficar sob 
nossos olhos.  
_ De modo algum _ protestou Osmar, 
irritado. _ Ele s iria nos dar trabalho. 
No gosta de nada. Ficaria l, fechado na 
sala, meditando, e nada o faria 
interessar-se pelo trabalho.  
_ Do jeito que vocs falam at parece que 
Vitrio  preguioso _ interveio Dinda. _ 
Vitrio  muito trabalhador, mas gosta de 
outras coisas. Cada um  como  as 
pessoas no so iguais.  
_ Voc e mame gostam de ficar mimando 
Vitrio. Por esse motivo ele  to folgado.  
Osmar precisava jogar sua raiva, sua 
impotncia diante dos fatos sobre algum 
e o irmo sempre foi para ele motivo de 
rancor. 
_ Vamos mudar de assunto _ disse 
Alberto. _ Vamos jantar em paz.  
Osmar concordou, mas, para ele, naquela 
noite no havia nenhuma possibilidade de 
ficar em paz."  
                                                                                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

CAPTULO 15                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


"Osmar continuou se recordando. 
Lembrou-se de que trs dias depois, 
quando entrou na empresa, apanhou o 
jornal que a secretria como de costume 
colocara sobre a mesa e comeou a 
folhe-lo. At aquele dia no obtivera 
nenhuma notcia sobre o dinheiro pago 
aos traficantes, o que o enchia de 
esperana de que os seqestradores de 
Teresa houvessem aceitado esperar pelo 
restante do dinheiro.  
Continuando a folhear o jornal 
estremeceu assustado. Um crime havia 
sido cometido em So Paulo. Um casal 
fora assassinado na cama em condies 
misteriosas. O homem morto era Otvio 
de Oliveira cuja foto estava estampada na 
matria.  
Osmar sentiu uma tontura, levantou-se, 
apanhou um copo de gua e tomou, 
tentando acalmar-se. Respirou fundo e 
leu a matria.  
A mulher morta era de identidade 
desconhecida e tinha a idade de Teresa, o 
que o fez pensar que, de fato, ela havia 
sido assassinada.  
A custo conseguiu controlar-se. O terror 
tomou conta dele. Tentou reagir. A 
mulher morta que estava na cama com 
Otvio certamente seria sua amante e 
no podia ser Teresa.
Otvio havia sido o intermedirio do seu 
negcio e fora punido por no ter levado 
o dinheiro. Se essa hiptese se 
confirmasse eles poderiam ter feito o 
mesmo com sua me e, talvez, h essa 
hora j estivessem  procura dele.  
Como saber a verdade? Otvio tinha 
vrios negcios e poderia ter sido 
assassinado por outros motivos. Aflito, 
Osmar no tinha como encontrar a 
resposta.  
O telefone tocou, ele atendeu, era 
Nelsinho: 
_ J leu os jornais de hoje? 
_ J. Eu disse para voc no ligar para 
empresa.  
_ Se for o que estou pensando, estamos 
correndo srio risco. 
_ Depois passarei em sua casa e 
conversaremos. Pelo telefone, no.  
_ Estou nervoso. Desligue o telefone e 
venha at aqui agora.  
_ No posso sair agora. Irei ao fim da 
tarde.  
_ Pode ser muito tarde. 
Osmar sentiu medo, mas controlou-se. 
_ Irei assim que meu pai chegar na 
empresa. Estamos esperando uma 
entrega de mercadoria e no posso sair 
pelo menos at ele chegar.  
Ele tambm tinha urgncia em conversar 
com Nelsinho, talvez ele conhecesse 
algum que pudesse colher informaes. 
Pensou em recorrer a Norberto, mas ao 
mesmo tempo no queria que ele 
soubesse detalhes dos seus negcios.  
Geralmente o contratava para alguns 
servios, mas achava perigoso que ele 
soubesse muito sobre sua vida. 
Assim que desligou o telefone, chamou a 
secretria e disse: 
_ Meu pai j deveria ter chegado. Eu 
tenho um negcio urgente para resolver, 
mas no posso deixar a empresa 
enquanto ele no chegar. Ligue para casa 
e pergunte se ele vai demorar. 
_ No ser preciso. O Dr. Alberto recebeu 
um chamado de So Paulo, pediu que eu 
reservasse uma passagem e h essa hora 
j deve ter chegado l.  
_ Para So Paulo? O que ele foi fazer l? 
_ Ele no disse.  
_ Sabe quando volta? 
_ No. Penso que ele no saiba, porque 
ficou de ligar assim que tivesse uma 
posio.  
Osmar procurou controlar a 
contrariedade. Por que seu pai teimava 
em continuar dirigindo a empresa? Era 
hora de ele aposentar-se e deixar tudo 
em suas mos.  
A presena dele estava atrapalhando seus 
negcios. Quando ele voltasse, trataria de 
convenc-lo a afastar-se definitivamente 
da empresa.  
Passava das duas horas da tarde quando 
ele conseguiu sair e procurar Nelsinho no 
novo endereo. Encontrou-o fechando 
uma mala e perguntou nervoso:  
_ Aonde voc vai? 
_ Vou me mandar. A qualquer hora eles 
podem pintar aqui e eu pretendo estar 
muito longe.  
_ De novo? Voc est se precipitando. 
Pode ser que esse crime no tenha nada a 
ver com nossos negcios.  
_ No quero esperar para descobrir. 
Minha intuio est me dizendo para 
sumir.  
_ Onde voc pensa ir? Acha que no iro 
a seu encontro onde estiver? 
_ Sei me esconder e no vou ficar 
esperando eles me encontrarem. Quer 
saber? Aconselho voc a fazer o mesmo. 
Com esse povo no d para brincar. Por 
muito menos j vi um deles acabar com o 
Juvenal. Lembra-se dele? 
_ Aquele cara que tinha o rosto cheio de 
marcas? 
_ Esse mesmo. O apelido dele era Juvenal 
Bexiguento. Um tiro certeiro na cabea e 
ele j era. No disse um a. Eu escapei 
porque estava escondido, s observando. 
Ainda quer esperar?
Osmar passou as mos nos cabelos e 
disse aflito:  
_ O pior  que no temos como nos 
informar. Eles no me ligaram mais, as 
ameaas pararam, cheguei a pensar que 
tivessem aceitado minha proposta.  
_ A morte de Otvio  uma boa resposta. 
No h o que duvidar. Otvio trabalhava 
com eles h algum tempo. Haviam feito 
vrios negcios juntos.  
_ Essa gente no confia em ningum. 
Hoje o esto paparicando porque voc 
est sendo til, amanh o estaro tirando 
do caminho por achar que voc no serve 
mais.  
_ Voc no deveria ter dado todo aquele 
dinheiro a eles. Agora ficamos sem 
recursos para fugir. Eu tenho algumas 
economias, mas vou ter de batalhar para 
conseguir viver. Talvez voc possa me 
arranjar mais algum.  
Osmar meneou a cabea negativamente. 
_ Eu dei tudo o que tinha na esperana de 
que eles aceitassem. 
Nelsinho fechou a mala e tornou: 
_ Vou desaparecer. Voc no pode fazer 
nada, no vou esperar.  
Osmar insistiu para que ele no fosse 
embora, mas foi intil. Nelsinho estava 
decidido. Apanhou a mala, fechou a casa 
e despediu-se de Osmar.  
_ Como vou saber de voc? No tenho 
onde ligar.  
_ Pode deixar que eu ligo para voc. No 
sei ainda onde vou ficar.  
_ No ligue para a empresa. 
_ Vou ligar para sua casa,  noite. Adeus.  
Ele se foi e Osmar entrou no carro e 
voltou para a empresa. Por que tudo 
estava dando errado para ele? 
Aurlia se comprometendo com aquele 
rapaz, seu pai viajando para So Paulo 
sem lhe dizer para qu... Nelsinho o 
abandonando na hora em que mais 
precisava de apoio.
Uma onda de angstia o acometeu ao 
pensar que sua me poderia estar morta 
ou correndo risco de morte, sem que ele 
pudesse fazer nada.  
Sua cabea doa e ele tentava acalmar-se 
em vo. Alguns vultos escuros o 
envolviam e Osmar sentia arrepios 
percorrer-lhe o corpo.  
Um deles aproximou-se dizendo em seu 
ouvido: 
_ No tenha medo. Ns o estamos 
protegendo. Eles no vo lhe fazer mal.  
Outro se aproximou e disse: 
_ Enquanto voc fizer o que ns 
queremos, nada de mau vai lhe 
acontecer. No se preocupe, ns 
tiraremos do seu caminho todos os que 
desejarem prejudic-lo.  
Osmar no registrou as palavras, mas 
reagiu pensando: 
'Eu sou forte. Ningum vai me fazer mal. 
Nunca tive medo de nada. No sou um 
covarde. ' 
Os vultos o abraaram satisfeitos: 
_ Isso mesmo. Voc  forte e ns estamos 
juntos.  
Aos poucos, Osmar foi se acalmando. Ele 
estava se fazendo de fraco. Era forte, 
sempre havia conseguido tudo o que 
queria.  
Pensou em conversar com Norberto e 
contratar dois ou trs homens que 
cuidassem de sua segurana. Afinal, ele 
tinha como se defender e enfrentar 
fossem quem fosse.  
No ia se esconder como Nelsinho. No 
seria um covarde.  
Esses pensamentos o acalmaram e ele 
voltou  empresa. Finalmente conseguiu 
trabalhar. No fim da tarde, porm, 
recebeu um telefonema de Alberto, 
contando o que fora fazer em So Paulo e 
dando a notcia de que Teresa havia sido 
assassinada.  
Ela era a mulher encontrada na cama, 
morta ao lado de Otvio. A custo, Osmar 
conseguiu controlar seu desespero e 
fingir que no sabia de nada.  
Alm de ter de ir a So Paulo reconhecer 
o corpo, ainda teria de dar a notcia a 
Vitrio. Desligou o telefone e foi para 
casa. 
O que aconteceu depois passou pela sua 
mente como um filme. Os traficantes no 
o procuraram mais, dando-se por 
satisfeitos com a morte de Otvio e de 
Teresa.  
Norberto investigara a vida do Dr. 
Augusto Mendona e o que descobrira 
deixou Osmar com mais raiva. O mdico 
era de tima famlia, rico e muito 
estimado por onde passava.  
Alm de tudo, era um homem simples, 
alegre e como se isso no bastasse, 
prestava servio como voluntrio em um 
hospital pobre da periferia. 
Osmar desejava armar uma cilada para 
desmoraliz-lo de alguma forma, a fim de 
que Aurlia o desprezasse e o 
abandonasse. 
Mas estava difcil. Osmar sabia que 
precisava programar muito bem o golpe 
para que no fracassasse.  
Teria de ser alguma coisa muito forte, 
algo que destrusse aquela aurola de 
heri que o mdico possua. 
Para conseguir o que desejava, contratou 
Norberto para observ-lo, conhecer seus 
hbitos e poder programar como afast-lo 
de Aurlia. 
Enquanto Osmar mergulhava nas 
lembranas do passado, naquele 
momento em So Paulo, Paulo, em seu 
escritrio esperava a chegada de Wagner, 
seu auxiliar, a quem mandara investigar a 
vida de Osmar. 
Na vspera, Wagner tinha lhe telefonado 
dizendo: 
_ Estou voltando esta noite. Tenho 
notcias muito importantes para voc.  
_ Vou esper-lo amanh cedo.  melhor 
conversarmos pessoalmente.  
Paulo e Vitrio tinham examinado os 
documentos encontrados na casa de 
Marlia e chegado  concluso de que 
eram reveladores. Por esse motivo, Paulo 
os entregara ao delegado, que ficou 
radiante com a descoberta. 
Finalmente uma boa pista. Certamente 
haveria nomes, ainda que incompletos 
que poderiam conduzi-lo ao encontro do 
assassino.  
A opinio dos peritos estava dividida. 
Havia quem achasse que fora apenas uma 
pessoa que cometera o crime, enquanto 
outros no descartavam a possibilidade 
de terem sido duas ou at trs.  
Para Paulo, o que estava claro pela 
brutalidade e violncia com que fora feito, 
 que mesmo que o motivo fosse por 
questes de dinheiro e poder, uma vez 
que havia traficantes de drogas 
envolvidos, havia muito dio no 
assassino. Paulo suspeitava que fosse um 
caso de vingana.  
Ao ouvir algumas batidas na porta, Paulo 
foi abrir, Wagner entrou e, depois dos 
cumprimentos, sentaram-se um diante do 
outro. Paulo perguntou:  
_ O que tem para me dizer? 
Wagner tirou da pasta alguns papis e 
respondeu:  
_ Aqui esto os relatrios minuciosos dos 
dias em que o seguimos.  
Paulo apanhou os relatrios. 
_ Vou ler depois. Voc disse que tinha 
notcias importantes. Relate-me o que 
descobriu.  
_ No primeiro dia em que o segui, ele foi 
at o subrbio conversar com um 'tal' de 
Nelsinho. Descobrimos que ele  um 
traficante conhecido por operar em 
pequenos negcios. Mas tem lastro com 
pessoas importantes desse meio, o que 
faz crer que nos ltimos tempos ele tenha 
se relacionado com gente mais 
importante.  
_ Continue. 
_ Nesse dia, os dois saram juntos e foram 
at um hospital de doentes mentais. 
Mandei Mrio entrar e tentar descobrir o 
que os dois foram fazer l... Com jeito, ele 
conseguiu saber por uma auxiliar de 
enfermagem que Osmar tem uma 
paciente internada l.  
_ Descobriu quem ?
_ No. O importante  que essa paciente 
est sob a orientao direta do dono do 
hospital e que apenas uma enfermeira 
pode cuidar dela. Mandei o Mrio ver se 
descobria mais alguma coisa sobre essa 
mulher. Voc sabe que ele  sempre 
muito bem-visto pelas mulheres e tem um 
jeito especial para lidar com elas. 
Conseguiu um encontro com a assistente 
fora do hospital, mas nem assim pde 
saber mais alguma coisa.  
_ Temos de investigar esse hospital. 
Tenho a sensao de que  para ir por a.  
_ Foi o que pensei. Tanto que deixei o 
Mrio l para ficar de olho. O nome do 
hospital, do mdico, ao qual ele pertence 
consta no relatrio.  
_ Bom, porque vou pedir para o Dr. 
Monteiro investigar. Qual a sua impresso 
sobre o Dr. Osmar? 
_ Voc acertou na mosca quando pensou 
em investigar a vida dele.  um 
empresrio, goza de uma boa posio 
social e financeira, seu pai, o Dr. Alberto, 
 muito respeitado no mercado onde 
atua. Mas Osmar, embora seja um homem 
de gosto requintado, freqente a alta 
sociedade do Rio de Janeiro, tem um lado 
marginal, uma vez que  ligado a pessoas 
suspeitas.  
_ Como Nelsinho? 
_ Sim. Ele foi procurar um detetive 
particular chamado Norberto e segundo 
descobrimos, trata-se de pessoa que 
aceita negcios duvidosos e no merece 
confiana. Isso mostra que Osmar anda 
metido em assuntos pouco convencionais 
para sua posio social.  
_ Vamos continuar investigando. 
Paulo apanhou os relatrios e leu-os, 
enquanto Wagner esperava calado. 
Quando terminou, comentou:  
_ Bom trabalho.  
_ Vai precisar de mim por hoje? Tem uma 
pessoa que eu gostaria de visitar.  
Paulo sorriu:
_ No. Descanse hoje. Vou pensar nos 
prximos passos. Assim que eu tiver 
decidido algo, falo com voc.  
Wagner saiu e Paulo ficou pensativo. 
Seria melhor no contar nada para 
Vitrio. Ele era muito sensvel e talvez 
no conseguisse esconder essa histria 
do pai.  
Por enquanto, preferia manter sigilo para 
no atrapalhar as investigaes. 
O telefone tocou e ele atendeu: 
_ Paulo,  Monteiro. 
_ Como vai? 
_ Bem. Estou ligando para dizer que voc 
estava certo em relao queles 
documentos encontrados na casa de 
Otvio. Trata-se mesmo de trfico de 
drogas. Otvio era mesmo traficante.  
_ Havia alguns nomes nesses papis? 
_ Sim. Apesar de no mencionarem os 
sobrenomes, conseguimos identificar 
alguns. Finalmente temos o motivo do 
crime. Desentendimentos e vingana.  
_ Sim, tudo isso e algo mais. 
_ Como assim? 
_ Suspeito que haja tambm alguma coisa 
emocional, vingana sim, mas no apenas 
pela questo das drogas.  
Monteiro ficou calado durante alguns 
segundos, depois respondeu: 
_ Em que se baseia para chegar a essa 
concluso? 
_  apenas uma suspeita. Vou analisar 
melhor os fatos e quando tiver algo mais 
slido vou trocar idias com voc.  
_ Estarei esperando. Enquanto isso, meu 
pessoal est investigando.  
Paulo desligou e leu novamente os 
relatrios que Wagner trouxera. Quanto 
mais lia, mais acreditava que Osmar, de 
alguma forma, estava envolvido naquele 
crime.  
A secretria avisou que Vitrio havia 
chegado e queria falar com ele. 
_ Mande-o entrar.  
Pouco depois, Vitrio entrou e, depois dos 
cumprimentos, disse: 
_ Marlia me telefonou dizendo que 
recebeu outra carta annima e est com 
medo. Pediu que fssemos at l.  
_ Claro. Vamos.  
Meia hora depois, eles chegaram na casa 
de Marlia e a encontraram muito 
assustada. A carta havia sido colocada 
debaixo da porta como a anterior.  
Paulo tirou do bolso uma pequena pina e 
explicou: 
_ No vamos tocar nela. Pode ter 
impresses digitais.  
_ Eu a peguei e abri _ confessou Marlia, 
preocupada. 
_ Eu tambm a segurei _ disse Dorita. 
_ Se acontecer novamente, no toquem 
em nada e me avisem. 
Ainda segurando a carta com a pina ele 
leu: 
'Voc no devia ter entregado aqueles 
papis  polcia. Isso vai lhe custar muito 
caro. ' 
No estava assinada. 
_ Eu fiz mal em entregar aquelas caixas. 
Estou sendo ameaada por causa disso _ 
queixou-se Marlia.  
_ No tenha medo. Ns saberemos 
defend-la. No vai acontecer nada. _ 
Respondeu Paulo, continuando: _ Eu 
preciso de um saco plstico para colocar o 
documento.  
Dorita correu at a cozinha e voltou 
trazendo o que ele pediu. Paulo colocou 
cuidadosamente a carta dentro dele, 
fechou e colocou-o no bolso. Depois, 
aproximou-se de Marlia, que estava 
plida, segurou sua mo e disse:  
_ Voc  uma mulher corajosa e vai 
superar isso.  
_  a mesma pessoa que escreveu a outra 
carta. Tenho certeza. Se soubesse como 
me arrependo de ter ido quela casa... _ 
Fez ligeira pausa e continuou: _ Ns 
somos duas mulheres e uma criana nesta 
casa. No temos como nos defender. Se 
eu tivesse dinheiro me mudaria para 
longe, onde pudssemos esquecer tudo 
isso e ningum pudessem nos fazer mal. 
Olhos marejados, Marlia esforava-se 
para conter as lgrimas que, teimosas, 
despontavam e comeavam a descer 
pelas suas faces.  
Paulo abraou-a delicadamente: 
_ Tenha calma. Ns a protegeremos. 
Falarei com Monteiro, colocaremos 
vigilncia vinte e quatro horas.  
_ Eu no deixei Altair ir  escola. Tive 
medo. Ele  minha nica riqueza. Temo 
por ele.  
Em sua mente a trgica cena do crime 
que presenciara estava presente, 
fazendo-a estremecer. 
Altair entrara na sala e Marlia esforou-
se para controlar-se. 
_ Me, o que aconteceu? Est chorando 
por causa daquela carta? 
Marlia tentou sorrir.  
_ No, meu filho. No h perigo. Estamos 
protegidos. O Dr. Paulo e o Dr. Monteiro 
vo nos proteger. Nada vai nos acontecer.  
_ Isso mesmo Altair _ interveio Paulo, 
que tirara os braos que colocara em 
volta de Marlia. _ No tenha medo.  
O ambiente estava tenso e Dorita tentou 
fazer alguma coisa: 
_ Vamos todos tomar um lanche? Est na 
hora. Vou fazer um ch e temos um bolo 
delicioso que Marlia fez hoje. Uma receita 
nova est maravilhosa.  
_ Isso mesmo _ tornou Marlia. _ Vamos 
tomar um ch com bolo, assim vocs me 
diro se ele est bom mesmo.  
Eles foram para a copa, Dorita arrumou a 
mesa e dentro de alguns minutos eles 
estavam sentados tomando ch e 
experimentando o bolo. 
Marlia esforava-se para parecer calma, 
mas Paulo sentia o quanto ela estava 
apavorada. Naquele instante sentiu um 
calor no peito e uma vontade muito forte 
de abra-la e proteg-la contra todos os 
perigos.                                                                                                         
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 16                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


Depois que deixaram  casa de Marlia, 
Vitrio foi para a casa e Paulo decidiu 
passar na delegacia.  
Com o delegado, Paulo examinou melhor 
a carta. Resolveram entreg-la a um 
departamento para exame pericial.  
Sentado diante de Monteiro, Paulo 
indagou:  
_ O que voc pensa dessa carta?  
_ Pode ser uma boa pista, acredito que 
tenha sido escrita pelo assassino. Mas por 
outro lado, duvido que ele tenha deixado 
algum rastro. Deve ter se prevenido.  
_  o que penso. Mas, tambm, sabemos 
que o mais precavido dos assassinos pode 
ter um deslize.  
_ Contamos com isso _ disse Monteiro 
sorrindo.  
Ele estava satisfeito por ter a ajuda de 
Paulo. Respeitava-o por sua inteligncia e 
pela folha de servios prestados  polcia.  
Pouco tempo depois, um policial apareceu 
com a carta dizendo:  
_ No encontramos nada.  
_ Eu temia isso _ respondeu Monteiro.
_ Marlia ficou assustada. Eu prometi que 
iramos proteg-la _ disse Paulo.  
_ Voc sabe que no temos homens 
disponveis. H muito trabalho e pouca 
gente. Eu tambm estou preocupado com 
eles. Duas mulheres e uma criana so 
alvos fceis para um bandido como esse. 
Se voc puder nos ajudar, seria muito 
bom.  
_ Vou ver o que posso fazer. Se for 
preciso, eu mesmo ficarei na casa dela de 
vigia.  
_ Faa isso. Se notar qualquer sinal 
suspeito, avise-me que mandarei meu 
pessoal verificar.  
Paulo deixou a delegacia pensando o que 
poderia fazer para proteger Marlia. 
Decidiu passar na casa de Vitrio para 
trocar idias.  
Vendo-o chegar, Vitrio admirou-se: 
_ Voc? Aconteceu mais alguma coisa? 
_ No. Ns precisamos conversar. Estive 
com o delegado e ele no dispe de 
recursos para vigiar a casa de Marlia 
vinte e quatro horas como seria 
necessrio. Talvez voc possa nos ajudar.  
_ Pode contar comigo. Estou sem fazer 
nada, esperando notcias, sem saber onde 
est minha me, se est viva, se corre 
perigo...  
_ Os dois que trabalham comigo esto 
ocupados e no momento no posso dispor 
deles. Eu pensei em ficar na casa de 
Marlia para proteg-los, mas precisaria 
de mais algum para ajudar-me.  
_ Eu gostaria de fazer isso.  
_ Est bem. J conversei com o Monteiro 
que aprovou minha idia, uma vez que 
no tm policiais suficientes em seu 
departamento para fazer isso. Vai ficar  
nossa disposio para o caso de notarmos 
alguma coisa suspeita.  
_ Voc me diz o que deverei fazer. 
_ Vou passar em meu escritrio, dar 
algumas instrues a Dris, passar em 
casa e ir para a casa de Marlia, onde 
pretendo ficar por alguns dias.  
_ Quer que eu v com voc? 
_ No  preciso. Amanh cedo voc vai ao 
meu encontro na casa de Marlia. Juntos, 
vamos programar os prximos passos. O 
que no podemos  deix-los sozinhos.  
_ Est bem. Amanh logo cedo estarei l.  
Paulo saiu para tomar as providncias e 
Vitrio sentou-se na sala pensativo. 
Sentia-se triste pensando no pai 
deprimido e na me desaparecida.  
Dinda aproximou-se dizendo: 
_ Tristeza no vai resolver nossos 
problemas. Seu pai j est doente e eu 
no quero que voc tambm fique. Onde 
est sua f? Onde est sua confiana na 
vida? 
Vitrio olhou-a srio e respondeu:  
_ Est difcil. Nunca pensei passar por um 
problema desses.  
_ Eu tambm fiquei triste, mas hoje 
quando acordei, pensei: a tristeza s vai 
me fazer mal e no vai solucionar nossos 
problemas. Lembrei-me de uma frase que 
li tempos atrs: na vida o que voc 
planta, colhe. Se eu plantar tristeza, vou 
colher tristeza. Ento, decidi reagir. 
Pensar no bem. Acreditar que Teresa est 
viva e vai voltar. Que esses momentos 
difceis vo passar e tudo voltar ao 
normal. Pensando assim eu me senti 
muito melhor.  
Vitrio sorriu e respondeu: 
_ Como sempre voc tem razo. Para 
atrair coisas boas  preciso acreditar que 
elas viro. Vou me esforar para me 
lembrar de mame bem-disposta, alegre. 
Mandar para ela energias boas. Essa  a 
maneira certa de ajud-la.  
_ Isso mesmo.  o que estou fazendo. 
Seria bom que o Dr. Alberto fizesse o 
mesmo. Tentei conversar com ele, anim-
lo, mas ele no me deu ouvidos. 
_ Vou v-lo e ver o que posso fazer.  
Vitrio foi ver o pai e encontrou-o 
estirado no sof, pensativo e triste. 
Percebeu o quanto ele estava abatido. Se 
continuasse assim seu estado poderia 
agravar-se.  
Aproximou-se, sentou-se ao seu lado e 
perguntou: 
_ Est melhor, pai? 
Alberto abriu os olhos e respondeu:  
_ Estou na mesma. O tempo no passa e 
estou cansado de me culpar por haver 
concordado que sua me viajasse sem 
mim.  
_ Voc no tem culpa de nada. Nunca 
poderia imaginar que ela iria desaparecer 
dessa forma.  
_ s vezes me pergunto se estamos 
certos. Se aquele corpo no  mesmo o 
dela.  
_ No , pai. Tenho certeza.  
_ A dvida me atormenta. 
_ Mame nunca iria para a cama com 
aquele homem. No lhe basta isso para 
saber que no  ela? 
_ s vezes nem eu mesmo sei se estou 
raciocinando ou enlouquecendo. No me 
conformo com o que aconteceu.  
_ Um dia saberemos a verdade. Por 
enquanto, temos de aguardar. Paulo 
continua investigando. Encontramos os 
documentos na casa de Marlia, a polcia 
est pesquisando tudo. Hoje Marlia 
recebeu outra carta annima.  
Alberto abriu os olhos, endireitou-se no 
sof e pareceu mais desperto: 
_ Outra carta annima? Seria da mesma 
pessoa que lhe mandou a primeira? 
_ Tudo indica que sim. A carta a estava 
ameaando por ter entregado aqueles 
documentos  polcia.  
_ Talvez tivesse sido melhor que ela no o 
tivesse feito. 
_ No diga isso. Qualquer pista  
importante para desvendar esse crime e 
descobrir o paradeiro de mame.  
_ O que vocs pensam fazer agora? 
_ Paulo vai proteger Marlia e eu vou 
ajud-lo. 
_  melhor no se envolver, pode ser 
perigoso.  
_ J estamos envolvidos, pai. E, quanto 
antes descobrirmos o assassino, melhor. 
A vida de mame pode estar dependendo 
disso.  
Alberto meneou a cabea negativamente. 
_ No sei... Eu gostaria de encerrar esse 
assunto para poder ficar em paz.  
_ S conseguiremos ter paz quando tudo 
estiver esclarecido. Eu preciso que voc 
nos ajude.  
_ Eu?! Velho, doente? Minha vida acabou. 
No sou mais capaz de fazer nada. At a 
empresa que sempre me impulsionou 
para frente, agora perdeu a razo de ser. 
No sinto mais vontade de viver.  
_ Voc est enganado. Sua maneira de 
pensar est agravando nosso problema.  
_ Como assim? 
_ S pensando no mal, no pior, voc est 
atraindo energias negativas em nossa 
vida e dificultando os bons resultados.  
Alberto abriu a boca, ia dizer alguma 
coisa, mas mudou de idia, 
permanecendo em silncio. 
Vitrio continuou: 
_ Quando voc d fora a pensamentos 
tristes, pensando no mal, est atraindo 
mais mal para sua vida. 
_ Do jeito que voc fala parece que sou 
culpado pelo que aconteceu. 
_ No foi isso que eu disse. Ns estamos 
atravessando momentos difceis e se 
ficarmos mergulhados no mal estar 
dificultando ainda mais nossos 
problemas. Voc acredita que a sua vida 
acabou que no h mais sada. Esse 
pensamento o est enfraquecendo, 
deixando-o doente e frgil. Nem parece o 
homem forte, cheio de vigor que 
construiu uma empresa slida, um nome 
respeitado.  
_ Depois do que aconteceu nunca mais 
nosso nome ser respeitado. As pessoas 
so maldosas e acreditam que Teresa me 
traiu com aquele homem. 
_ Voc sabe que isso no  verdade. No 
era ela quem estava naquela cama. 
Mame seria incapaz de fazer uma coisa 
dessas. Dizendo isso voc est dando 
fora aos maledicentes e atirando sobre 
mame uma culpa que ela no tem.  
Alberto suspirou, tentou sorrir e 
respondeu: 
_ Desculpe. Mesmo sabendo que ela no 
me amava, sei que Teresa nunca faria 
isso. Era uma mulher honesta. Esta 
situao est me enlouquecendo.  
_  por esse motivo que deve reagir, 
procurar encontrar a paz interior. S 
assim encontrar foras para superar 
esta situao. Pense voc no sabe o que 
aconteceu. No pode sentir culpa por algo 
que no est claro.  
_  difcil. No sei como reagir.  
_ Use a imaginao. Pense que ela no 
morreu que um dia vai voltar e explicar o 
que aconteceu. Ento, sim, voc vai poder 
formar uma opinio. Enquanto isso 
procure se acalmar e pensar no melhor.  
_ Voc fala isso com uma certeza! 
_ Tudo passa, meu pai. Dias melhores 
viro. Agora faa um esforo, vamos 
andar um pouco. Dinda j fez o jantar e 
hoje voc vai comer na mesa, comigo. 
Chega de ficar fechado no quarto. Vamos.  
Alberto ia objetar, mas Vitrio o segurou 
pelo brao, obrigando-o a levantar-se. 
Foram caminhando devagar at a sala de 
jantar, onde a mesa estava posta para 
um. Vendo-os chegar, Dinda apressou-se 
a providenciar mais um lugar.  
Depois de acomodar o pai, Vitrio sentou-
se tambm e logo a Dinda colocou a 
sopeira fumegante sobre a mesa. 
Vitrio serviu o pai e comeou a 
conversar sobre vrios assuntos com 
desenvoltura e Alberto, sentindo o 
carinho do filho, olhava-o como se o 
estivesse vendo pela primeira vez.
Sempre o relegara a segundo plano, 
julgando-o menos inteligente do que 
Osmar, mas agora que ele estava 
mostrando um pouco mais sua maneira de 
ser, Alberto percebeu satisfeito que 
Vitrio era muito melhor do que julgara. 
Esse pensamento o alegrou, fazendo-o 
sentir-se mais animado.  
Vitrio sentia-se diferente. Mais sereno 
disposto e com um carinho muito grande 
pelo pai, como jamais sentira. Sempre o 
julgara um mercenrio s pensando em 
dinheiro, sem tempo para outros 
assuntos.  
Mas naquela noite havia alguma coisa 
diferente no ar. De repente, Vitrio sentiu 
que as coisas poderiam mudar para 
melhor e percebeu o quanto era intil e 
pernicioso alimentar pensamentos 
negativos.  
O que ele no viu era que havia outros 
espritos naquela sala. Quando trs 
espritos iluminados entraram na sala, l 
estavam dois espritos de pssima 
aparncia que, ao verem a luz dos recm-
chegados, encolheram-se em um canto 
assustados.  
Enquanto o esprito de Anal aproximava-
se de Vitrio, transmitindo-lhe 
pensamentos elevados de confiana e de 
f, os dois de luz dirigiram-se aos outros 
dois espritos temerosos: 
_ Queremos conversar com vocs. Chega 
de sofrimento.  hora de perdoar e de 
procurar viver em paz.  
_ No posso perdoar meu assassino. No 
adianta vir com essa conversa. O que 
vocs querem  defender aquele infeliz. 
Por que no vai castig-lo pelo que fez? 
_ No estamos aqui para punir ningum. 
Isso compete  Justia divina. Queremos 
evitar maiores sofrimentos para vocs.  
_ No acredito nisso _ respondeu a 
mulher. _ Ca numa armadilha. No 
merecia morrer daquele jeito.  
_ Meu nome  Cssio. No se recorda de 
mim, Otvio? 
O esprito de Otvio o fixou e depois 
gritou nervoso: 
_ Voc deve ter sado dos infernos para 
me atormentar. Voc fala em perdo, mas 
veio se vingar de mim.  
_ No  verdade. H muito eu o perdoei. 
Vim em misso de paz.  
_ Eu no quero seu perdo. 
_ Vocs no podem ficar aqui. Devem 
seguir o novo caminho. Deixar as coisas 
da Terra.  
_ Eu no posso _ gritou Otvio. _ Eles 
esto devassando todos os meus papis. 
Aquela louca de Marlia os entregou  
polcia. Ela no podia me trair dessa 
forma.  
_ Sua vida na Terra acabou. No adianta 
se revoltar. O melhor  seguir adiante.  
_ Eu no vou. Daqui eu no saio.  
_ Vocs no podem mais ficar aqui. 
_ Vou ficar at conseguir o que quero. 
_ Teresa me enganou _ disse a mulher 
com os olhos brilhantes de dio. _ Ela j 
comeou a pagar, mas eu quero mais.  
Cssio estendeu as mos em direo a 
eles e comeou a orar. De suas mos 
comearam a sair raios de luz azul-claros 
brilhante e o casal encolheu-se ainda 
mais.  
_ Vo embora, deixem esta famlia em 
paz. 
Os dois tremiam como que aoitados por 
um vento forte e Otvio gritou: 
_ Ns vamos embora, mas voltaremos. 
Os dois desapareceram, enquanto os 
outros dois uniram-se a Anal, 
transmitindo energias positivas a Vitrio, 
Alberto e Dinda. 
Ficaram assim por alguns instantes, 
depois Anal beijou a testa de Vitrio 
dizendo: 
_ Reaja. Voc pode. Agora temos de ir. 
Fiquem com Deus.  
Foi nesse momento que Vitrio viu o 
esprito de Anal e seus companheiros e 
entendeu o que estava acontecendo. Em 
pensamento agradeceu a eles pela ajuda.
Terminando o jantar, Alberto comentou:  
_ Estou me sentindo melhor. Foi bom eu 
ter me levantado.  
Vitrio sorriu e respondeu: 
_ Isso mesmo, pai. De hoje em diante 
prometa que voc vai reagir e se esforar 
para manter o otimismo.  
_ No sei se vou conseguir. 
_ Pelo menos no alimente o pessimismo. 
J ser o bastante.  
Um pouco distante dali, os espritos de 
Otvio e de sua companheira esperavam. 
Eles pretendiam voltar  casa de Vitrio 
assim que os espritos que os expulsaram 
fossem embora.  
_ Por que no voltamos  casa de Marlia? 
_ indagou a mulher. _ Seria menos 
perigoso. Aqueles homens so perigosos. 
Voc sabia que eles podem nos prender e 
nos obrigar a segui-los? 
_ Bobagem. Eles no tm tanto poder 
assim.  
_ Pois eu acho que tm. Na casa de 
Marlia estaremos seguros. Ningum vai 
nos atrapalhar.  
_ No gosto de ficar l. Faz-me lembrar o 
que perdi.  
_ O que voc espera ficando na casa de 
Vitrio? 
_ Meu primeiro ajuste de contas ser com 
Osmar. Aquele safado vai me pagar. Por 
causa dele acabamos daquele jeito.  
_ Mas o assassino no foi ele. 
_ Eu sei. Mas ele deu chance a que o Gil 
Duarte nos descobrisse e fizesse o que 
fez.  
_ Eu nunca deveria ter ido no lugar de 
Teresa. 
_ Ela lhe pagou muito bem. 
_ De que adiantou? No vou poder colocar 
a mo no dinheiro.  
_ Veja, Renata, eles j foram embora. 
Vamos voltar.
Os dois aproximaram-se do apartamento 
de Alberto e tentaram entrar, mas no 
conseguiram. Havia algo como uma 
barreira. Eles tentaram, mas no 
puderam passar.  
_ E agora? _ indagou Renata.  
_ Vamos at a minha casa. 
_ Voc no tem mais casa. 
_ A casa de Marlia, voc entendeu. 
Quando os dois entraram e se 
aproximaram, Marlia e Dorita estavam na 
cozinha trabalhando. 
Dorita comentou: 
_ De repente me bateu um cansao... 
Estou sentindo um peso...  
_ O que  isso, Dorita? Ontem 
trabalhamos muito mais e voc no se 
queixou.  
_  mesmo. Mas agora comecei a sentir 
dores no corpo e uma presso na cabea.  
_ Vou fazer um ch de cidreira. Vai se 
sentir melhor.  
A campainha tocou, Marlia foi abrir e 
perguntou: 
_ Quem ? 
_ Pode abrir. Sou eu, Paulo.  
Ela abriu imediatamente. 
_ Paulo! Voc voltou, tem alguma 
novidade? 
_ Sim. Estive conversando com o Dr. 
Monteiro e decidimos que eu vou ficar 
alguns dias aqui com vocs para proteg-
los.  
_ Ficar aqui? 
_ Sim. No se preocupe. Eu fico em 
qualquer lugar.  
_ Voc ficar aqui  uma boa notcia. Ns 
estvamos com muito medo. Ainda agora 
tive receio de abrir a porta.  
_ Fez bem. Precisamos ter cuidado. Mais 
tarde vou dar-lhes algumas informaes 
sobre os cuidados que deveremos tomar.  
Paulo entrou, Altair correu para abra-
lo. 
_ Voc vai ficar aqui? Que bom. Pode ficar 
no meu quarto.  
Paulo sorriu e respondeu:
_ Eu vim para vigiar enquanto vocs 
dormem. No posso ficar no quarto.  
_ Mas voc no pode ficar sem dormir _ 
tornou Marlia. 
_ Vitrio vir amanh cedo. Ele ficar 
durante o dia e eu  noite. Resolvi ficar o 
tempo todo aqui porque no quero deixar 
Vitrio sozinho. Ele no tem experincia 
para tomar providncias se notar algo 
suspeito. Durante o dia se precisar de 
alguma coisa ele me chamar e farei o 
que for preciso.  
_ Que bom _ comentou Dorita que se 
aproximara. 
_ Voc j jantou? _ indagou Marlia.  
_ No quero dar trabalho. Tomei um 
lanche reforado antes de vir.  
_ No vai fazer cerimnia, no ? _ 
brincou Dorita.  
_ Claro que no _ respondeu ele. 
_ Ns ainda no samos da cozinha e 
comemos muito bem. Colocar mais um 
prato ou dois na mesa no vai fazer 
diferena _ explicou Dorita.  
_ Isso mesmo. Assim nossa cozinha vai 
ficar mais animada _ disse Marlia.  
Depois, Marlia fez um ch de erva-
cidreira e levou uma xcara para Paulo, 
dizendo: 
_ Obrigada pelo que est fazendo por ns. 
_  minha obrigao. 
Marlia fixou-se nos olhos de Paulo e 
respondeu com carinho: 
_  muito mais do que obrigao.  uma 
prova de amizade que eu nunca 
esquecerei. Voc no sabe o bem que 
est nos fazendo.  
Os olhos dela brilhavam midos e Paulo 
sentiu-se comovido. 
_ Vocs podem contar comigo sempre. Se 
continuarem me tratando assim, no vou 
querer ir mais embora _ brincou, 
tentando disfarar a emoo.  
O esprito de Otvio, que observava, disse 
irritado:
_ Este infeliz no tinha nada que invadir 
minha casa e ainda cantar minha mulher.  
Renata riu e comentou: 
_ O que voc esperava? Que ela ia lhe ser 
fiel? No v como os olhos dela brilham? 
_ Cale a boca. Em mulher minha ningum 
pe a mo.  
_ Agora voc est morto e morto no 
pode fazer nada para impedir. 
_ Se ele continuar assim voc vai ver se 
eu posso ou no. 
De repente, Paulo sentiu uma onda 
desagradvel e pensou: 
'Tem esprito perturbado por perto. Logo 
mais vou me ligar com meus amigos 
espirituais. ' 
_ Cuidado que ele sentiu nossa presena 
_ comentou Renata. 
_ Eu no tenho medo de nada. Voc tem 
andado muito fraca para o meu gosto.  
Renata deu de ombros e foi ficar em um 
canto pensativa. J tinha problemas 
demais para envolver-se nos de Otvio.  
Paulo tomou o ch, depois se sentou na 
sala e ligou-se aos espritos amigos que o 
acompanhavam. Logo sentiu uma energia 
suave e agradvel no ambiente. Ficou 
concentrado durante mais alguns 
minutos, agradecendo a ajuda dos 
amigos.  
Enquanto isso, Otvio e Renata olhavam 
admirados para a barreira que se formara 
entre Paulo e eles, tornando-o imune s 
suas energias negativas.                                        
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 17                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO
 
 
Teresa acordou um pouco assustada e 
olhou em volta, querendo se recordar por 
que no estava dormindo em sua cama 
como de costume.  
Em seguida, lembrou-se e passou as mos 
nos cabelos, angustiada. O que estaria 
acontecendo com os seus? Como estariam 
enfrentando os acontecimentos?  
Do jeito que as coisas estavam, ela no 
tinha como entrar em contato com eles e 
esclarecer tudo. Se fizesse isso, logo seria 
descoberta e sua vida no valeria nada.  
Bem que Vitrio lhe pedira para no 
viajar. Mas na ocasio ela no teve como 
evitar aquela viagem. Coagida como 
estava, no lhe restava outro recurso 
seno enfrentar e tentar resolver.  
Nunca imaginara que a paixo tivera 
cinco anos depois do casamento pudesse 
transformar sua vida, tantos anos depois 
de haver renunciado a ela, em um 
inferno.  
Casara-se com Alberto satisfazendo a 
vontade de sua me que ficara viva e 
sem recursos. Seu pai tivera insucesso 
nos negcios e lhes deixara dividas que, 
depois de pagas, consumiram todo o 
patrimnio delas.  
Alberto era jovem, elegante, boa 
aparncia, embora.
No fosse o tipo de homem que Teresa 
apreciava, mas apaixonara-se por ela e 
fizera todos os esforos para conquist-
la.  
Aos poucos , Teresa fora sentindo 
envaidecida, amada e protegida por um 
homem rico, que a colocava acima de 
tudo e todos, assim acabou concordando 
com o casamento. 
At ento, ele tivera alguns namorados, 
uma paixo na juventude que a 
desiludira, fazendo-a reconhecer em 
Alberto as qualidades essenciais para 
uma vida calma e feliz. Nunca sentira 
amor por ningum. Casou-se com Alberto, 
imaginando que amor fosse  amizade e o 
respeito que ele parecia ter por ela.  
Sua me sempre dizia que o verdadeiro 
amor no existia, era apenas uma 
fantasia da adolescncia. Que o mais 
importante era um bom partido para lhe 
proporcionar uma vida tranqila e 
respeitvel.  
Depois do casamento, Teresa deu-se 
conta dos cimes de Alberto sentia e 
antes no deixava transparecer, mas que 
se revelou quando ela, bonita e j mais 
mulher, despertava admirao nos 
homens por onde passava.  
Teresa nunca lhe dera motivo para ter 
cimes, mas ela no tolerava perceber os 
olhares de admirao que ela despertava. 
Por esse motivo, os desentendimentos 
com ele comearam.  
Foi em uma festa em casa de amigos que 
ela conheceu Antero, trinta e dois anos, 
alto, elegante, moreno, olhos verdes e 
penetrantes que fizeram bater seu 
corao desde que eles encontraram os 
seus.  
Uma atrao irresistvel brotou entre os 
dois. A principio, Teresa tentou resistir, 
mas, assediada por ele de forma 
insistente, acabou sucumbindo.  
Inteligente e apaixonada, Teresa usou de 
vrios subterfgios para encontra-se com 
Antero sem que ningum percebesse. Ela 
imaginou que com o tempo essa paixo,
Como a anterior, iria embora sem 
comprometer sua relao familiar.  
Disposta a usufruir enquanto durasse, 
no se sentia culpada por trair o marido. 
No seu entender, ela nunca o amara, 
deixara-se amar por ele sem nunca se 
entregar de corao. Por esse motivo, no 
o estava traindo.  
por mais de trs anos relacionou-se com 
Antero de forma vibrante e apaixonada. 
Quanto mais estavam juntos mais 
desejavam ficar. Ele, solteiro, insistia 
para que Teresa deixasse o marido para 
ficarem juntos, porm ela se recusava a 
abandonar os filhos, porque sabia que, 
vingativo e ciumento, Alberti jamais os 
deixaria ficar com ela ao lado de outro 
homem. 
Depois, havia a sociedade, o falatrio, os 
nomes de famlia, e Teresa temia 
enfrentar as conseqncias. 
At o dia em que Antero lhe disse que no 
desejava mas viver assim. Para ele era 
difcil despedir-se e pensar que ela iria 
para os braos do marido a quem 
pertencia por direito.  
As brigas entre os amantes comearam a 
tumultuar o relacionamento. Antero 
comeou a afastar-se, at que certo dia 
contou-lhe que seus pais insistiam para 
que ele se casasse com a filha de um 
amigo da famlia.  
Teresa sabia que Eunice, h muito tempo, 
era apaixonada por Antero. Estava 
sempre nos mesmos lugares que ele e 
no raro era com ela com que ele danava 
ou conversava. Ele dizia para Teresa que 
fazia isso a fim de despistar, porquanto 
seus pais estranhavam que ele no sasse 
com nenhuma mulher e ficavam 
perguntando o porqu.  
Num encontro ele comunicou que iria ficar 
noivo de Eunice e no voltaria mais v-la. 
Eunice era uma boa moa, amava-o e ele 
estava cansado de viver escondendo seus 
sentimentos. Depois, pensava em 
construir uma famlia, desejava filhos e 
no queria comear a vida conjugal tendo 
outra.
Foi difcil para Teresa se afastar de 
Antero, principalmente por que as 
famlias freqentavam os mesmos lugares 
e a presena dele com Eunice e fazia 
sofrer muito.  
O casamento foi anunciado e Teresa 
sofreu ainda mais. Quando faltavam trs 
dias para a data do casamento, Antero 
comunicou-se com ela pedindo para ir ao 
seu encontro.  
Vendo-se, atiraram-se um nos braos do 
outro, beijando-se com desespero. 
- No quero que voc se case com outra- 
Reclamou Teresa 
- Antes de fazer isso, vim fazer a ltima 
tentativa. Eu sinto muito sua falta. Se 
voc quiser, podemos ir embora juntos, 
deixar tudo e todos e viver em outro 
lugar. Podemos ir para o exterior, 
deixamos uma carta explicando nossos 
motivos. Esperamos o tempo passar e 
quando a poeira assentar voltamos.  
Teresa olhou-o com amor. Ir embora com 
ele era o que ela mais desejava na vida. 
Mas pensou nos meninos quem amava 
muito, no que eles pensariam dela por t-
los abandonado e fugido com outro e 
tremeu angustiada.  
Ela sentou que no poderia fazer isso. Foi 
com tristes que se recusou a fugir com 
Antero. Esse foi o ltimo encontro dos 
dois.  
A partir desse dia no se falaram mais. 
Ele casou-se com Eunice, teve uma filha, 
Aurlia, que cresceu e tornou-se uma 
linda mulher, muito requisitada na 
sociedade.  
Teresa continuou ao lado do marido e 
cada dia mais se afastava dele. Nos 
ltimos anos Alberto tambm foi se 
afastando dela, que se sentiu aliviada. 
Sabia que ele saa com outras mulheres, 
mas no se importava. Apesar disso, ele 
continuava ciumento e eles se 
desentendiam.  
Certo dia recebeu um telefonema de um 
desconhecimento dizendo que precisava 
marcar um encontro para falar de um 
assunto que era do seu interesse.
Teresa se recusou:  
- No marco encontros com estranhos- 
respondeu. 
- Trata-se de um assunto muito 
importante.  melhor me atender.  
- Fale com meu marido. 
- Quando souber do que se trata, 
certamente no vai querer que eu fale 
com ele. 
- Como assim? 
- Quero falar com a senhora sobre Antero.  
Teresa estremeceu assustada, tentou 
dissimular:  
- Que Antero? No sei de ningum com 
esse nome.  
- Sabe sim. Eu tenho o endereo de um 
apartamento em Copacabana onde vocs 
costumavam se encontrar.  
Teresa no consegui responder de pronto. 
O homem continuou:  
- Eu tenho alguns bilhetes trocados entre 
a senhora e ele, bem como algumas fotos 
comprometedoras. Ainda quer que eu 
ligue para seu marido? 
- No... No. Como  que voc tem tudo 
isso? 
- Isso no lhe interessa agora. Eu tenho e 
estou disposto a lhe entregar,  claro, 
com uma recompensa.  
- No acredito que voc tem tudo o que 
diz. 
- Vamos marcar o encontro e eu lhe 
mostrarei. 
Teresa hesitou um pouco, depois disse: 
- Est bem. Quando? 
- Eu moro no Rio. Estou de passagem. 
Ter de ser hoje ou amanh.  
- Quando voc quer para me entregar 
tudo isso? 
- Duzentos mil reais 
-  muito dinheiro. 
- A mercadoria vale. A senhora traz o 
dinheiro e eu lhe entregarei tudo.  
- Antes quero ver o que voc tem. 
- Eu no posso esperar. Preciso ir embora 
logo.
- Vamos marcar hoje  tarde e se o que 
diz for verdade, vou lhe entregar o 
dinheiro amanh.  
Combinaram o local do encontro e a hora. 
Ele no quis dar o nome nem descrever 
sua aparncia, afirmando que saberia 
encontr-la.  
Teresa desligou o telefone muito nervosa. 
Nunca imaginou que depois de tanto 
tempo aquela histria pudesse trazer-lhe 
problemas. Os bilhetes cheios de amor 
que havia trocado com Antero, as fotos 
que ele tirara dos dois que ela vira, mas 
nunca levara nenhuma para casa com 
medo de ser descoberta, eram um 
material que destrua sua vida familiar 
que tanto se sacrificara para manter.  
Seus filhos nunca poderiam saber o que 
ela fizera no passado. Sempre passara 
para eles a figura da mulher sria, 
dedicada ao lar, austera at. O que 
pensariam quando soubessem a verdade? 
Isso no poderia acontecer. Mas o preo 
era elevado. Como arranjar tanto dinheiro 
sem recorrer a Alberto? 
Pensou eu suas jias.
Durante tantos anos de casamento 
possua. Alberto costumava presente-la 
sempre com lindas jias. Poderiam 
vender algumas sem que ele desse falta.  
Na mesma tarde, Teresa foi ao encontro 
marcado, em uma confeitaria. Sentada 
em uma mesa, conforme o combinado, ela 
esperou.  
Pouco depois, um homem alto, forte, 
moreno, boa aparncia, aproximou-se e, 
depois de cumpriment-la, sentou-se a 
seu lado. 
Sem dizer uma palavra, ele tirou do bolso 
uma foto e mostrou-se. Teresa 
estremeceu. Ela e Antero, juntos na 
intimidade. Lembrava-se perfeitamente 
quando e onde ela fora tirada. Depois, 
juntou um dos bilhetes amorosos que ela 
escrevera. No havia como duvidar.  
- Est certo. Vou pagar o que me pede. S 
preciso de um pouco de tempo.
- No posso esperar. Preciso ir embora.  
- Deve compreender que no tenho como 
arranjar todo esse dinheiro de um dia 
para o outro. No posso pedir a meu 
marido. Pretendo vender algumas jias, 
mas no sei se consigo to depressa.  
- Nesse caso, terei de oferecer a seu 
marido. Estou certo de que ele pagaria 
to depressa.  
- Talvez. Mas peo-lhe que me de alguns 
dias. Irei levar o dinheiro onde voc 
quiser.  
- Preciso ir embora. Tenho negcios em 
So Paulo e de l irei para outro lugar.  
- D-me uma semana e eu levarei o 
dinheiro a So Paulo, no endereo que 
voc quiser. 
Ele pensou um pouco e depois disse: 
- Se a senhora pensar em ir a polcia, vai 
se arrepender. Tenho amigos que estaro 
alerta e qualquer passo eu saberei.  
Ele passou um numero de telefone para 
onde ela deveria ligar, marcou o dia e a 
hora e depois de tudo combinado, 
despediu-se. 
Naquela noite Teresa no conseguiu 
conciliar o sono. Sua cabea atormentada 
no a deixava em paz. Ora recordava-se 
de Antero, dos momentos de amor que 
ainda fazia vibrar seu corao, ora temia 
pelo destino que aquelas fotos e cartas 
poderiam ter se no conseguisse pagar o 
preo.  
Se ela no arrumasse o dinheiro, o 
chantagista certamente procuraria 
Alberto e ele, com certeza, no se negaria 
a pagar o que ele pedisse para ter acesso 
aquele material. 
No dia seguinte acordou cedo e pensou 
como encontrar um comprador para as 
jias. No conhecia nenhum agiota e 
sequer sabia quanto elas poderiam valer.  
As horas foram passando e Teresa no 
sabia o que fazer.
Procurou anncios nos jornais, na lista 
telefnica, mas no encontrou nada.  
 tarde teve idia de ir a uma joalheria 
para fazer uma avaliao e, quem sabe, 
descobrir onde poderia vend-las. 
Carregando uma bolsa com as jias, que 
imaginava render a quantia desejada, foi 
a uma lojas de jias e descobriu que elas 
cobriam o montante que ela precisava e, 
ainda, sobraria algum dinheiro. 
Conseguiu o endereo de um lugar que 
negociava jias usadas.  
Satisfeita, Teresa procurou o endereo . 
No era uma loja aberta e ela tocou a 
campainha. Uma moa veio abrir e Teresa 
achou o rosto familiar.  
- Entre Senhora. Sente-se. O Sr. Jonathan 
saiu, mas deve voltar logo. Desejava uma 
gua ou caf? 
- No, obrigada. Eu preciso vender 
algumas jias e na joalheria onde fui 
avali-las me deram este endereo.  
- Veio ao lugar certo. Mas quem faz o 
negcio  meu patro. Ele no deve 
demorar. Desculpe, no quero ser 
indiscreta, mas por acaso seu nome  
Teresa? 
-Sim.  
A moa sorriu satisfeita e continuou: 
- No se recorda de mim? 
- Seu rosto  muito familiar, mas no sei 
onde.  
- Sou Elvira. Ns fomos colegas de 
faculdade.  
Teresa levantou-se , fixando-a bem: 
- Elvira!  voc mesma! Como no me 
lembrei? 
- J se passaram mais de trinta anos e eu 
mudei muito. J voc continua linda como 
sempre. Parece que o tempo no passou.  
- Mas passou sim. Por onde tem andado 
que nunca mais nos vimos? Voc morava 
em So Paulo e veio ao Rio apenas para 
cursar a faculdade...  
- De fato, naquele tempo eu morava em 
So Paulo, mas depois que me casei fui 
morar em Campinas. 
- Como vai sua me?
- Infelizmente, ela morreu. Meu marido 
tambm faleceu em um acidente de carro 
e eu fiquei s. No tive filhos. Voltei para 
So Paulo, passei um tempo difcil, at 
que tive a oportunidade de trabalhar para 
o Sr. Jonathan. Ele tem outra loja em So 
Paulo e quando abriu esta aqui, no Rio, 
convidou-me para trabalhar para ele. 
Como no tenho famlia, aceitei.  
Elas continuaram conversando, 
recordando os tempos de faculdade at a 
chegada do Sr. Jonathan. As jias de 
Teresa eram de primeirssima qualidade e 
depois de examin-las cuidadosamente, 
ele fez o preo.  
Como ele desejava receber em dinheiro, 
ele pediu-lhe que voltasse na tarde no dia 
seguinte para busc-lo. 
Na tarde seguinte, quando Teresa chegou 
para buscar o dinheiro, j era fim de 
expediente e Elvira se preparava para 
sair. 
Teresa ofereceu-se para lev-la em casa, 
o que ela aceitou de bom grado. No 
trajeto, convidou-a para tomar um lanche 
em uma confeitaria. Queria conversar 
sobre um assunto muito importante. 
Elvira aceitou.  
 que depois de T-la encontrado na 
tarde anterior, Teresa pensou em recorrer 
a ela para traar seu plano. Elas haviam 
sido inseparveis nos tempos de 
estudante davam-se muito bem. Teresa 
sabia que ela era confivel.  
Assim que se sentaram na confeitaria, 
Teresa contou-lhe seu problema e por que 
estava vendendo as jias. Depois, exps 
seu plano.  
Teresa queria que Elvira fosse trabalhar 
com ela como dama de companhia. Diria 
para a famlia que estava estressada e 
tiraria frias. Iriam a Europa.  
Mas, em vez disso, viajaram a So Paulo 
primeiro, entregariam o dinheiro, ela 
queimaria as provas do seu deslize e 
depois as duas iriam para a Itlia, 
tranqilas, usufruir uma viagem 
maravilhosa. 
Elvira aceitou,encantada. Ela no 
conhecia a Europa.
Rapidamente eles as levaram ao 
estacionamento e as obrigaram a entrar 
em um carro, onde j havia outro homem 
na direo.  
- Vamos embora, rpido - ordenou um 
deles. 
O carro saiu e as duas, muito assustadas, 
nem pensaram em reagir. Os quatro 
foram sentados no banco detrs. Os 
bandidos vendaram os olhos delas e um 
deles disse ameaadoramente:  
- Se tentarem alguma coisa, eu atiro. No 
quero nem um pio.  
Quanto tempo durou aquela viagem elas 
no conseguiram avaliar. Parecia que no 
terminava nunca e, ao mesmo tempo, elas 
no queriam chegar a lugar nenhum, com 
medo de que eles as matassem.  
Finalmente o carro parou e elas foram 
obrigadas a descer. Ainda de olhos 
vendados, foram levadas a uma casa em 
que havia mais pessoas, mas elas no 
conseguiram saber quantas.  
Depois de subirem alguns lances de 
escada e andarem um pouco, eles tiraram 
suas vendas, fizeram-nas entrar em uma 
sala e saram, fechando a porta por fora. 
As duas entreolharam-se nervosas. 
Teresa foi a primeira a falar:  
- So bandidos. Fomos assaltadas. Estou 
com a bolsa, mas o dinheiro todo est em 
uma das malas. Estou perdida. No vou 
poder pagar e Alberto descobrir tudo.  
- Calma. Pode ser que no encontrem o 
dinheiro. Voc colocou-o naquele fundo 
falso.  
Algum tempo depois, elas ouviram 
passos, a porta se abriu e os dois homens 
entraram, carregando as bagagens e 
deixando tudo em um canto. Em seguida, 
saram, fechando novamente a porta pelo 
lado de fora.  
As duas correram ansiosas para verificar 
se as malas haviam sido arrombadas, mas 
as fechaduras intactas mostravam que 
eles no haviam tocado em nada.
As duas entreolharam-se intrigadas. Por 
que eles as haviam raptado se no era 
para roubar? 
O tempo comeou a passar e elas 
continuavam presas naquele quarto sem 
que ningum aparecesse. J era noite 
quando finalmente dois homens 
apareceram, e elas viram que no eram 
os mesmos que as haviam seqestrado.  
Um deles, homem muito bem vestido, de 
meia-idade, dirigiu-se a elas, com meio 
sorriso, dizendo: 
- Desculpe a forma de traz-las at aqui. 
Sou pessoa educada e jamais maltratarei 
uma mulher. Se fizerem tudo o que 
desejo, nada vai lhes acontecer. Ficaro 
aqui durante alguns dias e depois vamos 
devolv-las ss e salvas, se tudo sair 
como esperamos.  
Teresa animou-se a perguntar: 
- Quem  o senhor? Por que nos trouxe 
aqui? 
- Voc no me conhece. O motivo de 
traz-las aqui, saber no devido tempo. 
Obedeam as ordens e tudo acabar bem. 
Esse  o meu desejo, no entanto, tudo vai 
depender de como se comportarem.  
A um gesto dele, o seu companheiro 
colocou sobre a mesa alguns pacotes e 
garrafas de gua. Depois saram fechando 
novamente a porta por fora.  
- Isto  muito estranho - disse Elvira. - 
Eles no esto interessados em nossos 
pertences. O que mais pode ser? 
- No tenho a menor idia. Isto no faz 
sentido. O que ser que eles querem de 
ns? 
Elas foram abrir os pacotes. Havia po, 
frios, frutas e biscoitos. Elas estavam sem 
fome. Sentaram-se na beira de uma das 
camas, tentando encontrar uma 
explicao.  
Mas naquela noite, depois de se 
alimentarem, Teresa, deitada, lembrou-se 
das palavras de Vitrio:  
"Me, eu preferia que no fizesse essa 
viagem. Estou com mau pressentimento. 
Algo me diz que voc no deve viajar 
agora.  
Antes tivesse atendido seu pedido.                                                           
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO        


CAPTULO 18                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

"O dia ainda no tinha amanhecido 
totalmente quando Teresa levantou-se, 
aproximou-se de Elvira, que estava 
estendida na outra cama, e disse:  
- No consigo dormir. Temos de fugir 
daqui. 
- Se tentarmos isso, eles vo nos matar. 
- No podemos ficar de braos cruzados. 
Precisamos tentar descobrir onde 
estamos e saber se eles vo ficar na casa 
o tempo todo. 
Ela caminhou at a porta e girou a 
maaneta. Na mesma hora ouviu um rudo 
e uma voz gritou: 
- No adianta. A porta no vai abrir. 
- Preciso de ajuda. Estou com uma dor de 
cabea horrvel e no consigo dormir. 
Voc poderia arranjar-me um 
comprimido? Eu pago o que quiser. 
Depois de alguns minutos de silncio, a 
chave girou e a porta abriu. Um homem 
que elas ainda no tinham visto, 
apareceu, e Teresa colocou a mo na 
testa, fingindo estar muito mal. 
-  meu turno de vigia. No posso sair 
daqui. 
- Mas est doendo muito. Eu sofro de 
enxaqueca e quando fico nervosa ela 
ataca.
Desta vez parece que vou ficar louca. Por 
favor, arranje-me um remdio.  
Ele olhou-a hesitante, depois disse: 
- No posso sair daqui, mas vou ver se 
mando algum arrumar isso. 
- Obrigada. Voc no se arrepender.  
Meia hora depois ele abriu a porta 
novamente, entrou e disse: 
- Aqui est o que eu consegui arranjar. 
Espero que a ajude.  
Teresa, fingindo mal-estar, apanhou o 
envelope de comprimidos e disse: 
- Espere um pouco. 
Apanhou a bolsa, tirou uma nota da 
carteira e deu-a a ele, que segurou o 
dinheiro e respondeu: 
- No precisava. 
- Fao questo. Voc foi muito bom para 
mim. Eu nunca esqueo de retribuir as 
pessoas que me ajudam.  
Ele fechou a porta de novo e Elvira 
perguntou: 
- O que voc pensa em conseguir com 
isso? 
- Ganhar a confiana dele e descobrir o 
que desejamos saber.  
Ao meio-dia, um outro homem trouxe 
uma bandeja com o almoo. Pela 
embalagem em papel alumnio elas 
perceberam que a comida havia sido 
comprada, mas no havia nada escrito.  
Teresa abriu e convidou: 
- Vamos comer, Elvira. Precisamos nos 
manter fortes. Tenho esperana de 
podermos escapar daqui.  
Depois que elas almoaram, o homem que 
parecia comandar o grupo reapareceu, 
segurando uma pasta de couro. 
Perguntou se haviam almoado bem, se a 
comida estava ao gosto delas e depois 
sentou, pedindo que elas tambm se 
sentassem em volta da mesa.
Elas sentaram-se e esperaram. Ele 
comeou, dirigindo-se a Teresa:  
- Voc vai escrever uma carta que eu vou 
lhe ditar. 
- Para quem e para qu? - indagou 
Teresa.  
- Para seu filho Osmar. 
Teresa sobressaltou-se: 
- Por isso voc nos seqestrou? Para 
pedir dinheiro a meu filho? 
Os olhos dele brilharam rancorosos 
quando respondeu:  
- Eu no sou um chantagista. Sou um 
homem de negcios que seu filho passou 
para trs. Ele me deve muito dinheiro e 
precisa pagar.  
Teresa abriu a boca e fechou-a, sem 
encontrar palavras para responder. Ela 
tinha o filho em conta de uma pessoa 
equilibrada, bem-comportada, sem 
grandes arroubos. Como ele poderia 
dever muito dinheiro a algum? 
Quando se recuperou um pouco do susto 
ela tornou:  
- Se meu filho est lhe devendo, por que 
no nos procurou de maneira civilizada? 
Meu marido  um homem de bem, tenho 
certeza de que ele no sabe dessa dvida 
porque se soubesse no deixaria Osmar 
passar por uma coisa dessas.  
- H muitas coisas que tanto a senhora 
como seu marido ignoram sobre seu filho. 
Os negcios que ns temos no podem 
ser declarados oficialmente. So feitos 
sob palavra. Ns somos homens de 
palavra. Quando um no cumpre, temos 
nossos prprios modos de fazer a 
cobrana.  
Teresa empalideceu. A descoberta de que 
Osmar se dedicava a negcios ilcitos 
feriu fundo seus princpios de 
honestidade e de bom comportamento.  
De pronto ela no encontrou nada para 
responder. O homem entregou-lhe uma 
caneta, um bloco e disse:  
- Escreva o que vou lhe ditar.
Com a mo trmula, ela segurou a caneta 
e percebeu que no lhe restava 
alternativa, seno obedecer.  
- Escreva: 
"Osmar, 
Fui seqestrada. Se voc no mandar o 
dinheiro que deve, eles vo me matar 
com Elvira. Estou com muito medo. 
Teresa". 
Ela escreveu, ele apanhou o bilhete e 
Teresa objetou: 
- Ele no vai acreditar. Pensa que eu 
estou na Europa.  
O homem pensou um pouco, depois 
colocou a carta dentro de um envelope e 
respondeu: 
- . Pode ser que ele no acredite. Voc, 
Elvira, vai levar o bilhete.  
- Eu?! 
- Sim. Vou combinar um encontro com ele 
e um dos meus homens a levar at ele. 
Voc entregar a carta pessoalmente. 
Assim, ele vai acreditar.  
E, voltando-se para Teresa, continuou: 
- Eu quero seus documentos. Assim ele 
no duvidar.  
Teresa entregou sua identidade. Ele saiu 
e aps alguns minutos voltou levando 
Elvira pelo brao. Teresa, embora muito 
assustada, sentou certo alvio em saber 
que Elvira falaria com Osmar que, 
certamente, arranjaria o dinheiro e tudo 
estaria resolvido.  
Mas por outro lado, Teresa no podia 
esperar muito. Ela havia prometido 
entregar o dinheiro para reaver o 
material que a preocupava e se no o 
fizesse dentro do prazo estipulado, 
certamente o chantagista procuraria 
Alberto para tentar negociar. Isso no 
poderia acontecer de forma alguma. Seria 
o fim de seu casamento, do respeito dos 
filhos, de tudo.  
O tempo foi passando e Teresa, inquieta, 
andava de um lado para o outro. Ela 
precisava encontrar uma forma de sair 
dali, no s porque seu prazo para 
entregar o dinheiro estava acabando 
como tambm pelo receio de que Osmar 
no conseguisse arranjar o dinheiro.
Ele no teria coragem de pedir ao pai 
porque para isso teria de explicar muito 
bem o que andara fazendo. Ela no sabia 
o montante da dvida, mas presumia que 
devia ser uma grande quantia. Se ele no 
conseguisse esse dinheiro, sua vida 
estaria correndo riscos.  
Depois, aquele homem se apresentara a 
ela sem disfarce e isso poderia fazer com 
que apesar de tudo ele a matasse para 
impedir que ela o reconhecesse na 
polcia. 
Aos poucos foi elaborando um plano para 
fugir. Ela apanhou os comprimidos para 
dor de cabea e com o cabo da faca os 
amassou, colocando-os no copo. O que ela 
precisava agora era conseguir alguma 
bebida forte.  
Na hora em que o rapaz entrou trazendo o 
jantar, ela procurou conversar. 
- Aqueles comprimidos que voc me 
trouxe ajudaram, mas ainda no passou 
completamente. Estou muito nervosa. 
Voc no teria alguma coisa mais forte do 
que esse refrigerante? Tenho certeza de 
que se passar meu nervosismo, a dor vai 
ceder.  
- A comida est a.  s o que eu posso 
fazer.  
Teresa colocou a mo sobre o brao dele 
dizendo: 
- Tenha piedade de mim. Eu poderia ser 
sua me! Ajude-me a agentar esses 
momentos to difceis.  
Ele hesitou e ela continuou: 
- Voc me parece um rapaz de bom 
corao. Ela tirou um anel de brilhantes 
do dedo e estendeu-o a ele dizendo:  
- Se me trouxer uma bebida, eu lhe darei 
de presente este anel de brilhantes. 
Os olhos dele brilharam, mas ele 
respondeu: 
- Ns no podemos aceitar presentes de 
ningum. 
- Ningum precisa saber. Vamos, pegue.  
Ele hesitou, depois pegou o anel, 
olhando-o com olhos brilhantes de cobia.
- V, fique com ele e me traga alguma 
bebida. Eu sei que voc deve ter em 
algum lugar.  
Ele guardou o anel no bolso, saiu e alguns 
minutos depois voltou com uma garrafa 
de usque. 
- No posso deixar a garrafa toda. 
Teresa apanhou a garrafa e colocou a 
bebida em uma caneca, tomou alguns 
goles, simulando estar saboreando com 
prazer, depois segurou a garrafa dizendo: 
- Eu no gosto de beber sozinha. Voc vai 
beber uma dose comigo.  
Ele, que estava com a boca seca, 
concordou: 
- Est bem. S uma dose.  
Ela colocou a bebida no copo onde 
estavam os comprimidos e notou que se 
dissolveram rapidamente. A obscuridade 
da sala no deixou o rapaz notar nada.  
Teresa fez um brinde: 
- Meu filho vai mandar o dinheiro e tudo 
vai se resolver da melhor maneira. Assim, 
depois que eu for embora daqui, no 
esquecerei a sua boa vontade. Como eu 
disse, nunca esqueo quem me presta um 
favor.  
Ela alou a caneca, tocou o copo dele e 
ambos tomaram. Depois, ele segurou a 
garrafa dizendo:  
- No conte a ningum que eu lhe trouxe 
bebida. 
- Os outros no viram voc pegar a 
garrafa? 
- No. Eu estou sozinho na casa.  
Teresa baixou o olhar para que ele no 
visse sua satisfao. Depois que ele saiu, 
ela abriu os pacotes e tratou de se 
alimentar. Queria estar bem-disposta 
para fugir.  
Uma hora depois, ela decidiu que estava 
na hora da segunda etapa do seu plano. 
Foi at a porta girou a maaneta, mas o 
rapaz no disse nada.  
"Est na hora!", pensou ela. 
Apanhou sua frasqueira, tirou tudo de 
dentro, colocou o pacote de dinheiro, 
segurou a bolsa e colocou tudo perto da 
porta. Depois comeou a forar a 
fechadura.
Estava difcil. Pegou um grampo de 
cabelo e com ele tentou abrir a porta. 
Afinal, conseguiu. Entreabriu a porta 
lentamente e logo deparou com o rapaz 
dormindo na cadeira, cabea apoiada na 
parede, pernas estendidas.  
Apanhou suas coisas e saiu lentamente. 
Ele dissera a verdade, a casa estava 
vazia. Em pouco tempo, ganhou a rua. 
Olhou em volta, no sabia onde estava  
nica certeza que tinha era de que 
precisava fugir dali o mais rpido 
possvel.  
Caminhou quase correndo e, ouvindo 
barulho de carro, procurou encontrar 
lugar mais movimentado. Viu um nibus 
escrito Praa Joo Mendes, fez sinal e 
subiu.  
Passou os olhos sobre os passageiros e 
sentou-se perto da janela. Precisava 
respirar. Abriu o vidro, aspirando o ar 
com alvio.  
Tinha vontade de perguntar ao cobrador 
onde estava , mas teve medo. No queria 
chamar ateno. Ela conhecia um pouco 
de So Paulo. Sabia que essa praa ficava 
no centro da cidade e resolveu ir at l.  
Durante o trajeto pensava no que fazer. 
No podia ligar para o marido, ele 
imaginava que ela estivesse fora do pas. 
Pensou em falar com Osmar, mas 
desistiu. Se ele continuasse pensando que 
ela estava em poder dos seqestradores 
faria tudo para arranjar o dinheiro e 
assim acabaria livre dessa dvida.  
Aqueles homens eram perigosos e, se ele 
no pagasse, ela temia que fizessem coisa 
pior. Decidiu aguardar os acontecimentos. 
Procuraria um hotel modesto para no 
chamar a ateno e esperaria at que 
tudo estivesse resolvido.  
Talvez Alberto no precisasse saber nada 
a respeito dos negcios ilcitos do filho. 
Ele teria um grande desgosto e nos 
ltimos tempos sua sade no estava 
bem.  
Passava das vinte e trs horas e ela 
resolveu caminhar e entrar no primeiro 
hotel que encontrasse. Entrou em um 
prximo  praa e na hora de fazer a ficha 
lembrou-se de que no tinha documento.
Apanhou o passaporte, justificando que 
havia sido roubada e hospedou-se.  
Estava exausta, mas aliviada. No dia 
seguinte tentaria ligar para o endereo do 
chantagista. Tomou um banho, deitou-se 
e logo pegou no sono.  
Na manh seguinte, Teresa acordou cedo, 
vestiu-se, tomou caf e ligou para o 
nmero de contato do chantagista. 
Ningum atendeu. Ela saiu para dar umas 
voltas, comprou algumas roupas, um guia 
da cidade e voltou ao hotel.  
Quando chegou na portaria, o porteiro 
olhou-a admirado e disse: 
- A senhora saiu de novo? O almoo no 
estava bom? 
- Como assim? 
- Faz menos de dois minutos eu abri a 
porta, a senhora tomou o elevador e disse 
que ia almoar.  
- Sa cedo e estou voltando agora. 
- No pode ser. , estou notando que a 
roupa est diferente. Mas h uma 
hspede que  igualzinha a senhora.  
seu parente? 
- No. No tenho parentes nesta cidade.  
- Desculpe, mas a semelhana  
impressionante. A senhora no tem 
nenhuma irm gmea? 
- No. Voc est impressionado. Vou subir 
e almoar.  
Teresa foi ao refeitrio, curiosa. Decidiu 
almoar e depois tornar a ligar para 
Otvio, o chantagista.  
Ao entrar no salo procurou a mulher com 
o olhar e surpreendeu-se. De fato, havia 
grande semelhana entre ela e a mulher 
descrita pelo porteiro. Os cabelos eram 
diferentes, o corpo mais rolio, Teresa era 
magra e h outra um pouco mais cheia. 
Mas o rosto era muito parecido.  
Ela aproximou-se da mesa dizendo 
admirada: 
- Bom dia. Sou hspede do hotel, o 
porteiro me confundiu com a senhora. De 
fato, ns somos muito parecidas.  
A mulher levantou os olhos, fixou-a e 
respondeu: 
- A senhora  igual minha me! Que 
estranho!
As duas comearam a falar nomes de 
parentes e nada as fazia pensar que 
tinham alguma ligao familiar.  
- Se veio almoar, sente-se, faa-me 
companhia. 
Teresa sentou-se e continuaram 
conversando. A mulher contou que havia 
chegado da Espanha no dia anterior, para 
onde se mudara por ocasio de seu 
casamento h mais de vinte anos. Havia 
se divorciado por ter surpreendido o 
marido em adultrio e, desiludida, estava 
voltando ao Brasil para recomear a vida.  
- Meu nome  Renata. 
- Eu sou Teresa. 
- No conheo ningum nesta cidade. 
Alguns amigos que deixei aqui, no sei 
onde esto. Preciso trabalhar para viver, 
porquanto meu marido no era rico e o 
que consegui com o divrcio no d para 
manter o mesmo padro de vida a que 
estou habituada.  
Pela cabea de Teresa passou um 
pensamento louco. 
Ela estava com receio de ir entregar o 
dinheiro ao chantagista. Ela pretendia 
esconder-se em um lugar discreto para 
esperar que Osmar resolvesse seu caso. 
Enquanto isso no a acontecesse estaria 
correndo srio risco.  
Estava certa de que, tendo descoberto 
sua fuga, eles fariam de tudo para 
encontr-la, alm do que estava 
fragilizada e com medo de procurar o 
chantagista. 
Enquanto amadurecia a idia que passara 
pela sua cabea, Teresa preparou o prato 
e voltou  mesa. Durante o almoo 
conversou com Renata, falando de sua 
vida familiar, da empresa do marido e 
quando chegou  sobremesa ela 
perguntou:  
- Voc disse que precisa trabalhar, em 
qu? 
- Antes de casar eu era secretria, mas 
depois do casamento nunca mais 
trabalhei. Meu marido no queria. Estou 
desatualizada. Por esse motivo aceitarei o 
que aparecer. Sou pessoa discreta e sem 
medo do trabalho.  
- Eu gostaria de ajud-la. Talvez meu 
marido possa lhe oferecer um emprego 
em nossa empresa.
Voc se incomodaria de mudar-se para o 
Rio de Janeiro? 
- De forma alguma. Nada me prende a 
esta cidade. Vim para c porque foi aqui 
que me casei, mas meus pais morreram e 
no tenho filhos. Quanto aos tios, amigos, 
conhecidos, eu perdi contato.  
Os olhos de Renata brilhavam alegres. A 
perspectiva de encontrar um emprego a 
enchia de esperana.  
Teresa baixou os olhos, demonstrando 
tristeza. 
- O que foi? - indagou Renata. - Voc 
ficou triste de repente.  
Teresa olhou para os lados, depois baixou 
a voz: 
- Voc  capaz de guardar um segredo? 
- Claro. Pode falar sem receio.  
- Minha famlia no sabe que estou em 
So Paulo. Meu marido e meus dois filhos 
acreditam que eu esteja na Itlia com 
uma amiga. Ser que posso me abrir com 
voc? 
- Sim. Pode confiar.  
- Nesse caso, vou falar. 
Sublinhando as palavras, Teresa contou 
tudo a respeito de sua paixo por Antero 
e a chantagem da qual estava sendo 
vtima. E finalizou:  
- Eu estou arrependida. Era jovem e 
inexperiente. Se fosse hoje no teria feito 
nada disso. Amo meu marido,  um 
homem bom e no merece ser trado. 
Meus filhos tm de mim um conceito 
ilibado. Como ficariam sabendo dessa 
ndoa em meu passado?  
- Como ser que esse chantagista ficou 
sabendo? 
- No sei. Eles tm fotos e bilhetes que 
me incriminam. Estou com medo de ir ao 
encontro dele entregar o dinheiro. Voc 
poderia fazer isso? Eu lhe pagarei uma 
boa quantia.  
- No sei... acha que no tem perigo? 
- Acho. Voc  muito parecida comigo e 
ele no desconfiaria. Enquanto isso eu me 
livraria desse encargo desagradvel. Fico 
enjoada s em pensar em ter de enfrentar 
esse sujeito.
Voc me prestaria um grande favor, eu 
lhe darei dez mil reais. Depois, voc vai 
comigo para a Europa e voltaremos como 
se nada houvesse acontecido.  
- Voc disse que viajou com uma amiga. 
Como me apresentaria? 
- Arranjarei uma desculpa qualquer. 
Como est seu passaporte? 
- Em ordem. Acabei de chegar da 
Espanha.  
- Voc aceita minha proposta? 
Renata pensou um pouco, depois 
respondeu:  
- Aceito. Se voc garante que depois de 
tudo vai me conseguir um emprego...  
- Meu marido gosta de me agradar. No 
vai deixar de atender a um pedido meu.  
- Ento est combinado. Quando preciso 
levar o dinheiro? 
- Amanh se esgota o prazo. Vou ligar 
para um telefone que me foi dado para 
pedir o endereo do lugar.  
Depois que terminaram de comer, Teresa 
levou Renata a seus aposentos e ligou 
para o nmero indicado. 
Uma voz de homem atendeu: 
- Al. 
- Sou a pessoa que est esperando. Quero 
saber o endereo de onde deverei retirar 
a mercadoria e pagar.  
Ele deu um endereo, ela anotou. Depois, 
ele recomendou:  
- No fale a ningum nem aparea 
acompanhada. 
Se fizer isso, estar colocando sua 
segurana em risco. 
- Pode deixar. Irei sozinha.  
- Chegue s dezenove horas em ponto. 
- Estarei l. 
Teresa desligou, depois disse: 
- Vou arrumar o pacote do dinheiro bem 
como dar algum para suas despesas. 
Agora so quinze horas, temos algum 
tempo. Vamos conversar.  
Elas acomodaram- se no sof e Teresa 
comeou a falar da empresa do marido, 
do seus filhos, enquanto Renata relatava 
sua desiluso no casamento, sua 
frustrao por no ter filhos, as traies 
do marido, mulherengo e indisciplinado. 
Uma hora antes das dezenove , Teresa 
entregou a Renata a frasqueira com o 
pacote de dinheiro e depois de contar 
tudo disse: 
- Eu a acompanho at o local. Fico 
esperando do lado de fora. Voc entrega, 
ele confere voc apanha o material e sai. 
Quanto menos falar, melhor. Depois, 
vamos embora.  
Elas saram, tomaram o txi, deram o 
endereo. Faltavam cinco minutos para as 
dezenove horas quando o carro parou em 
frente  casa que estava s escuras.  
- Parece que no h ningum- comentou 
Renata. 
- V. Certamente ele est sendo discreto.  
Renata segurou a frasqueira com firmeza, 
embora suas pernas estivessem tremendo 
um pouco. Caminhou para a casa e 
procurou a campainha, no encontrou. 
Quando bateu na porta, a mesma abriu e 
ela olhou assustada para Teresa, que fez 
um gesto para que ela entrasse.  
Ela entrou e fechou a porta. Alguns 
segundos depois um carro parou atrs do 
txi que Teresa estava a trs homens 
desceram, dirigindo-se a casa. 
Apavorada, ela reconheceu os homens 
que a tinham seqestrado.  
Na tentativa de passar despercebida, ela 
havia comprado um xale que quando saa 
 rua colocava na cabea. 
Imediatamente, colocou o xale e pediu ao 
motorista:  
- Vamos sair daqui e esperar mais 
adiante. 
Ele obedeceu e parou na esquina mais 
prxima. Teresa viu pelo vidro traseiro 
que eles entraram na casa onde minutos 
antes Renata tinha entrado.  
Ela ficou dividida. Assustada, desejava 
sair dali o quanto antes, mas ao tempo 
no tinha coragem de deixar Renata  
merc daqueles bandidos.                                              
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO 
 


CAPTULO 19                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


O dia j havia amanhecido quando o 
chefe dos seqestradores e dois homens 
voltaram a casa onde Teresa estava 
detida. A porta de entrada entreaberta os 
fez desconfiar de algo errado. 
Imediatamente eles puxaram o revlver.  
Com cuidado entraram na casa e tiveram 
a surpresa de no encontraram ningum. 
O vigia, tendo descoberto a fuga de 
Teresa, tinha fugido com medo do 
castigo.  
- Eu mato aquele desgraado- disse o 
chefe, nervoso esmurrado a mesa que 
ainda continha os restos do jantar de 
Teresa.  
- Ser que ele fugiu com ela?- indagou 
um  
- No. Ela era muito velha para ele- Disse 
outro. 
- Calem-se. Vocs todos so uns idiotas. 
No servem para nada. 
- Vou pegar o carro e dar uma volta. Eles 
foram a p, pode ser que estejam por 
perto. 
- No vai adiantar, h essa hora ela deve 
estar longe. 
Ele pensou um pouco, depois disse: 
- Chamem o Otero para vir aqui 
imediatamente. 
Os dois saram apressados. Meia hora 
depois voltaram, trazendo um homem 
atarracado, de meia-idade, sorriso fcil, 
olhos inquietos e traioeiros. Ele entrou. 
- Assim que eu gosto. Voc veio rpido. 
- Chamado do Gil para mim  sagrado. 
- Vocs dois podem sair. Sente-se, Otero. 
Ela obedeceu e Gil continuou: 
- H dois dias quando voc veio dar conta 
de sua campana com Otvio, suspeitava 
que ele estivesse armando uma grande 
jogada. Era partida de mercadoria que ele 
comprou e no pagou? 
- No era, chefe. Ele est envolvido com 
uma dama e parece que vai entrar muito 
dinheiro. 
- Como assim? 
- Ele est pressionando uma dama da 
sociedade uma tal Teresa Borges de 
Azevedo. Pelas conversas que ouvi, ele 
conseguiu provas de que ela traiu o 
marido e est pedindo muito dinheiro por 
essas provas. 
- Bem se v que traste se contenta com 
migalhas. Ele devia mais  estar na 
cobrana do pagamento daquela 
mercadoria que ele intermediou, dizendo 
que o cara era de palavra e ia pagar tudo 
na entrega. Faz tempo que estou de olho 
nele. 
- Desde que ele botou os olhos em D. 
Anita. 
Gil deu um soco sobre a mesa, irritado. 
- Esse cara me tira do srio e qualquer dia 
desses vai se ver comigo. 
Otero tossiu, hesitou, pigarreou e Gil 
interveio? 
- Voc est rodeando. Conheo seu jeito. 
O que quer me dizer? 
-  que eu vi quando ele saiu e foi at a 
loja de D. Anita, falar com ela.  
- Ele fez isso? 
- Fez mais. Segurou a mo dela e beijou-
a, dizendo que ela era muito linda e 
merecia coisa melhora do que estar 
esperando por voc.
Ele vai se ver comigo - ameaou Gil, 
tentando conter a raiva.  
- Eu ouvi quando ele a convidou para 
jantar naquela noite. 
Os olhos de Gil brilhavam furiosos: 
- E ela, o que respondeu? 
- Ela sorriu, fez um jeito dengoso e ele 
continuou segurando a mo dela. Depois 
disse que no podia aceitar, mas quem 
sabe um dia, ela iria jantar com ele.  
- Desgraada! Ela que nem tente sair com 
aquele traste. Farei picadinho dos dois. 
Voc volta l e fique de olho. Se eles 
combinarem algum encontro, avise-me.  
- Voc sabe que ele tem uma casa onde 
trata dos negcios. L tambm se 
encontra com mulheres. O danado  
mulherengo como ele s. Quando ele 
pediu a D. Anita para ir jantar com ele, 
deu o endereo daquela casa.  para l 
que ele planeja ir com ela.  
- Volte l agora mesmo e fique 
observando. Se ouvir qualquer coisa 
suspeita, avise-me.  
Otero saiu satisfeito. Ele sabia que Gil era 
ciumento e estava muito apaixonado por 
Anita. Fazer esse jogo para ele era muito 
rendoso, porquanto Gil lhe pagava bem. 
Depois, o prestgio era grande entre os 
demais que disputavam a ateno dele no 
grupo.  
Naquela noite mesmo, ele voltou  casa 
de Otvio e ficou espreitando. Mas ele 
no saiu. No dia seguinte, ele deixou a 
casa depois do almoo e Otero o seguiu 
at a casa onde fazia seus negcios 
ilcitos.  
Ele tinha colocado uma escuta no telefone 
daquela casa e  tarde, quando Teresa 
ligou para entregar o dinheiro, ele ouviu 
os dois marcarem o encontro para s 
dezenove horas. 
Imediatamente, ele ligou para Gil e deu a 
notcia, finalizando:
- Era voz de mulher e eu no sei quem era 
porque ela no deu o nome.  
-  ela! Eu sei que . Isso no vai ficar 
assim...  
- Vou ver se consigo descobrir o nome da 
mulher. 
- Eu vou de qualquer jeito. Este cara est 
me tirando do srio. Primeiro, colocando-
me numa roubada com a mercadoria. 
Depois, cantando minha mulher. Vou tirar 
satisfaes de uma vez por todas.  
Assim que desligou o telefone, Gil teve a 
idia de escrever uma carta annima e 
mandar colocar debaixo da porta da casa 
de Otvio. Sua mulher precisava saber 
como ele era safado.  
Escreveu o bilhete, tomando cuidado para 
no ser identificado, limpando 
cuidadosamente para no deixar suas 
digitais. Depois foi pessoalmente  casa 
de Otvio e colocou a carta debaixo da 
porta.  
Se tudo sasse como ele esperava, ela 
estaria l e surpreenderia o marido com a 
outra. 
Cinco minutos antes das dezenove horas, 
Gil chegou na casa onde Otvio 
costumava ir e percebeu que a casa 
estava s escuras. 
- O safado preparou tudo para uma noite 
de amor. 
Otero aproximou-se dele dizendo:  
- Faz alguns minutos que a mulher 
entrou. 
- Viu se era minha mulher? 
- No vi o rosto. Ela saiu de um txi e 
entrou muito rapidamente. Parecia que 
estava com medo.  
Gil respirou fundo, tentando controlar a 
raiva. Depois disse: vocs dois fiquem do 
lado de fora vigiando. Otero vai comigo. 
Eu vou entrar. Se precisar de vocs eu 
dou o toque de costume.  
Gil empurrou a porta e entrou na sala sem 
fazer rudo. Viu Otvio sentado em frente 
a uma mesa tendo um mao de notas a 
sua frente. A mulher estava em p, ao 
lado dele.
"No  Anita", pensou Gil, aliviado.  
J ia se retirar quando a mulher virou o 
rosto e ele reconheceu: 
-  Teresa!  a mulher que Otvio est 
chantageando. Ela no vai me escapar.  
Ele caminhou at eles dizendo: 
- Voc vai me explicar que dinheiro  
esse? 
Otvio levantou-se assustado e vendo Gil 
disse:  
-  um dinheiro meu. Voc no tem nada 
com isso.  
Gil pegou Otvio pelo colarinho, dizendo 
irritado: 
- Eu prendi essa mulher para garantir o 
pagamento daquela mercadoria e voc 
deve ter negociado com ela nas minhas 
costas. 
Renata olhava o homem que estava perto 
da porta impedindo a passagem. 
Apavorada, ela pensava em fugir.  
- Voc est enganado. Eu nem sabia que 
ela estava em seu poder.  
- No tente me enganar. Ela  a me 
daquele safado do Osmar. Foi voc que a 
ajudou a fugir. O que voc fez com o 
homem que estava tomando conta dela? 
Gil, furioso, sacudia Otvio que em vo 
tentava explicar que no fizera nada 
daquilo.  
Renata tentou passar do lado de Otero 
para fugir. Gil notou, empurrou-a e ela 
caiu. Quando tentou levantar-se, Gil deu-
lhe forte soco no queixo e ela rolou 
desacordada.  
- Agora vou tratar de voc. Esse dinheiro 
 meu por conta do que vocs me devem.  
- Esse dinheiro  meu. Voc no vai lev-
lo.  
Otvio puxou uma faca e enterrou-a no 
brao de Gil que sentiu uma dor aguda e 
soltou a arma. Otvio correu para 
apanh-la, mas Gil atirou-se sobre ele, 
tirou a faca de sua mo e enterrou-a no 
peito dele vrias vezes, at v-lo 
estirado, sem vida.  
Depois, examinou a ferida no antebrao; 
o sangue escorria. Foi at a porta e 
chamou os homens, dizendo:
- O desgraado me feriu. Tragam a 
maleta.  
Um deles foi at o carro e voltou com uma 
valise. L havia material de pronto-
socorro. O homem fez um curativo para 
estancar o sangue e disse:  
- No foi muito fundo. 
Renata, estendida no cho, comeou a se 
mexer. 
- Chefe, essa mulher  aquela que fugiu? 
- perguntou um deles.  
- . 
Renata abriu os olhos e sentou-se no 
cho, olhando-os apavorada. O corpo de 
Otvio estava sangrando e ela sentiu-se 
atordoada.  
- O que vamos fazer com ela? - indagou 
um.  
- Apagar. Ela no pode sair daqui para 
contar o que viu. Depois, desafiou-nos, 
tem de pagar.  
Renata ouviu e estendeu as mos, 
dizendo aflita: 
- Deixem-me sair daqui. Eu no sou quem 
vocs esto pensando. No fugi de vocs. 
Esto enganados.  
Gil apanhou a faca, entregou a um deles e 
disse: 
- Faa o servio sem barulho para no 
atrair ateno, enquanto isso, eu ajunto o 
dinheiro e decido o que vamos fazer com 
os corpos. 
Enquanto Gil friamente recolhia o dinheiro 
que se espalhara pelo cho, o homem 
segurou a faca e avanou em Renata, que 
estendeu as mos, tentando impedir que 
ele se aproximasse. 
Depois Gil olhou os dois corpos 
estendidos no cho e resolveu: 
- Logo mais, a mulher deste safado deve 
chegar aqui. Vamos arrumar a cena.  
Calmamente, Gil mandou tirar a roupa dos 
dois e colocar os corpos na cama. Depois 
tiraram do bolso os documentos de 
Teresa e jogou-os embaixo da cama.  
Enquanto eles faziam tudo isso, ao redor 
estavam alguns espritos trevosos, 
satisfeitos com os acontecimentos.
- Eles tiveram o que mereciam - disse um.  
- Estamos vingados - ajuntou outro. 
Sem que eles notassem, a alguma 
distncia, o esprito de Anal e de um 
rapaz, observavam tristemente. 
Naquele momento, o rapaz disse entre 
lgrimas: 
- Eu tentei evitar, mas eles no me 
ouviram. 
Abraando-o com carinho, Anal 
respondeu: 
- Eles escolheram o prprio caminho. S 
podemos aguardar que eles despertem 
para o bem. Enquanto escolherem o mal, 
nada poderemos fazer.  
Os quatro homens saram da casa, 
deixando a porta encostada. 
Teresa mandara o txi virar a esquina e 
eles viram quando os homens saram. 
O motorista aconselhou: 
-  melhor irmos embora. Isso no est 
me cheirando bem. Aqueles homens 
parecem marginais.  
- No posso deixar minha amiga sozinha. 
Ela foi s entregar uma encomenda. 
Vamos esperar mais um pouco. Mas 
Renata no voltava.  
- Eu vou at a casa ver o que aconteceu. 
Fique esperando aqui.  
Ela desceu, caminhou at a casa, 
encostou o ouvido na porta, mas no 
ouviu nada. Depois, abriu e entrou. Foi 
caminhando no escuro at o quarto onde 
o abajur estava aceso. A cena que viu 
quase a fez desmaiar. Renata estava 
morta ao lado daquele homem.  
Mesmo apavorada como estava, Teresa 
lembrou-se dos documentos que viera 
buscar. Precisava encontr-los. Onde 
estariam? Voltou  sala, abriu algumas 
gavetas, mas no encontrou nada. Olhou 
em volta e teve medo. Precisava sair dali 
o quanto antes. Sem pensar em mais 
nada saiu correndo, deixando a porta da 
entrada encostada.
Sentia as pernas trmulas e o corao 
descompassado. Esforou-se para manter 
a calma. Respirou fundo, foi at o txi e 
disse ao motorista:  
- Vamos embora. Minha amiga j foi em 
companhia de outra pessoa. Podemos ir.  
De volta ao hotel, Teresa no podia 
esquecer a cena terrvel que presenciara. 
Ela sabia que Renata morrera em seu 
lugar. Era ela quem deveria estar ali, 
naquela cama, com aquele homem.  
Ela precisava desaparecer. O que 
aconteceria se eles soubessem que ela 
continuava viva? Certamente a 
procurariam para mat-la como fizeram 
com a infeliz Renata, que pagara um 
preo muito alto por ser parecida com ela.  
Por outro lado, a situao a 
impossibilitava que voltasse para a casa. 
Agora mais do que nunca precisava 
esconder-se. Felizmente, tinha o dinheiro 
que reservara para viajar, o que 
possibilitaria que ela se escondesse por 
algum tempo.  
No conseguiu dormir naquela noite. 
Quando estava pegando no sono, 
acordava sobressaltada e a cena do crime 
reaparecia diante de seus olhos.  
Assim que amanheceu, Teresa tomou um 
banho, esperou a hora do caf, desceu, 
tomou uma xcara de leite, voltou ao 
quarto, apanhou uma lista telefnica e 
procurou alguns hotis modestos em um 
bairro afastado. 
Selecionou alguns, ligou para informar-se 
e anotou tudo. Depois, apanhou a bolsa 
de Renata que ficara no txi quando ela 
entrou na casa de Otvio carregando a 
frasqueira. Abriu e viu que todos os 
documentos estavam l, inclusive os 
passaportes. Olhando as fotos ela pensou 
em usar a identidade dela, at que as 
coisas se esclarecessem, era s mudar o 
penteado e daria para passar.  
Foi ao quarto de Renata, arrumou todas 
as coisas dela, pagou a conta e deixou o 
hotel. 
Naquele mesmo dia, instalou-se em um 
hotel modesto, prximo ao aeroporto.
Deitada no quarto, Teresa pensava nos 
acontecimentos, angustiada. Quando a 
polcia entrasse naquela casa e 
encontrasse os dois corpos sobre a cama, 
pensaria que eles tinham tido um 
encontro de amor.  
Seu nome sairia nos jornais, seria dada 
como morta e sua memria estaria 
manchada. Como sua famlia reagiria 
diante da notcia? 
Gostaria de procur-los, relatar o que 
acontecera, dizer que continuava viva e 
que nunca se relacionara com aquele 
homem.  
Mas para isso, teria de procurar a polcia, 
contar a verdade. Diante da famlia teria 
de confessar o erro do passado que fizera 
tudo para esconder. No seria pior? Alm 
disso, confessar tudo no iria prejudicar 
ainda mais Osmar? 
Era possvel que julgando que a tivessem 
matado, eles se dessem por satisfeitos 
com o castigo que acreditavam ter 
impingido a Osmar e o deixassem em paz.  
Teresa tinha esperana de que o filho, 
pensando que ela estivesse morta, 
vitimada pelos traficantes, sentisse culpa, 
resolvesse mudar e desistisse desse triste 
comrcio. E se a polcia encontrasse os 
documentos que a comprometiam? Teria 
sido intil todo seu esforo em preservar-
se. Sua famlia saberia de tudo. O que ela 
tanto quisera evitar acontecera, e a 
infeliz Renata pagara com a vida por ter 
ido em seu lugar.  
Ela estava sem sada. Se aparecesse, 
fatalmente agravaria as coisas tanto para 
si como para sua famlia. Mas por outro 
lado, pensar que nunca mais poderia 
voltar para casa, para os filhos e que 
seria desprezada por eles era-lhe 
insuportvel.  
As ltimas emoes a deixaram deprimida 
e cansada. Estava em um beco sem sada. 
Teria de esperar que as coisas mudassem, 
que a polcia prendesse os assassinos 
para poder aparecer e contar a verdade. 
Isso lhe parecia muito distante. Aqueles 
homens eram bandidos experientes.
Ela sabia que Renata nunca se deitaria 
com aquele homem. Eles armaram aquela 
cena para despistar a polcia ou at para 
ferir ainda mais a honra de Osmar.  
Apesar de cansada, Teresa no conseguia 
dormir. Sentou-se na cama pensando no 
que fazer. Chegou  concluso de que no 
podia se entregar, precisava reagir 
cuidar-se para no adoecer.  
Mesmo sem fome resolveu descer e comer 
alguma coisa. No havia se alimentado 
durante o dia inteiro. O hotel no tinha 
restaurante, apenas uma lanchonete 
simples.  
Teresa sentou-se em uma das mesas, 
pediu um refresco e um cachorro quente. 
A sala era pequena e havia algumas 
pessoas comendo.  
Ela estava pouco  vontade, usava um 
vestido de Renata que tinha um gosto 
diferente do seu, mais alegre e colorido. 
Precisava habituar-se, uma vez que 
pretendia passar-se por ela, alm do que, 
suas roupas haviam ficado na casa dos 
traficantes.  
Estava comendo seu sanduche quando 
sua ateno foi despertada pelo aparelho 
de TV que estava no alto em um canto da 
sala. 
Um homem falava sobre um crime 
misterioso que havia acontecido na noite 
anterior dando o endereo da casa e o 
nome de Otvio de Oliveira. Dizia que a 
polcia estava investigando a identidade 
da mulher.  
O po parou na garganta de Teresa, que 
tomou o refresco, procurando controlar-
se. Eles prometeram voltar com novas 
notcias sobre o crime.  
A custo Teresa conseguiu comer todo o 
lanche. Depois, voltou ao quarto 
pensando no que vira.  
Se os traficantes descobrissem que 
tinham matado a mulher errada, sua vida 
estaria em perigo. Angustiada, ela decidiu 
que procuraria um salo de beleza para 
fazer com que seus cabelos ficassem mais 
parecidos com os de Renata.
Dias depois, Teresa foi ao salo de beleza, 
levando a foto de Renata e pediu para 
que seus cabelos voltassem a ser como 
eram naquele tempo.  
Quando saiu de l, estava mais parecida 
com Renata. Passou por uma banca de 
jornal e teve sua ateno despertada pelo 
seu retrato na primeira pgina, ao lado de 
Otvio. Comprou um exemplar e foi para o 
hotel.  
Ao entrar, algumas pessoas a olharam 
admiradas e a moa que atendia na 
lanchonete disse: 
- A senhora viu o jornal de hoje? 
Aparentando naturalidade, Teresa 
respondeu:  
- Comprei, mas ainda no li. 
- A mulher que mataram  muito parecida 
com a senhora.  seu parente? 
Teresa abriu o jornal, olhou a foto e 
respondeu com naturalidade:  
- De fato, tem alguma semelhana. Mas 
no  de minha famlia, graas a Deus.  
Teresa foi para o quarto, nervosa. E se, 
apesar da semelhana, a polcia 
descobrisse que aquele corpo no era o 
dela? 
Decidiu procurar uma casa no subrbio, o 
mais barato que pudesse achar para 
esconder-se. Dois dias depois, encontrou, 
pagou dois meses adiantados e instalou-
se.  
A casa possua quarto, sala, cozinha e 
banheiro. Era muito antiga, mas estava 
mobiliada. Os mveis eram baratos e 
estavam velhos, porm Teresa a alugou 
assim mesmo.  
No estava em condies de exigir nada. 
No dia seguinte compraria algumas coisas 
que a tornassem mais habitvel.  
Os dias foram passando e Teresa s saa 
para comprar alimentos e jornais.
Assim ficou sabendo das dvidas quanto 
a sua morte e isso a fez ficar mais reclusa 
do que estava.  
Comprava livros no sebo e procurava 
passar o tempo. Fazia mais de um ms 
que o crime acontecera e a polcia no 
encontrara o criminoso.  
Teresa pensava no motorista do txi que 
as levara at a casa onde acontecera o 
crime. No encontrou meno a ele em 
nenhum jornal. Ele sabia que aquele lugar 
era perigoso e chegara a mencionar isso 
naquela noite. Vendo o noticirio, por que 
no foi  polcia? Estaria com medo de se 
envolver? 
Havia dias, acordava e ficava 
rememorando o que tinha acontecido. 
Fazia isso procurando enxergar alguma 
coisa que ainda no havia visto buscando 
uma sada para a situao dolorosa em 
que se encontrava.  
A soluo demorava, e Teresa pensava no 
que faria quando o dinheiro acabasse. 
Precisava encontrar uma forma de ganhar 
algum. Mas como? No podia procurar um 
emprego. Alm de ser perigoso, em sua 
idade no conseguiria.  
Lembrou-se de que havia estudado vrias 
artes e era boa pintora. Talvez pudesse 
pintar alguma coisa simples e vender.  
Naquele mesmo dia saiu, comprou 
algumas telas pequenas, tinta e pincis e 
comeou a pintar. Logo, sentiu que essa 
atividade fez-lhe muito bem. Enquanto 
pintava esquecia de tudo, absorta e 
descontrada.  
Vendo-a entretida naquele trabalho, o 
esprito de Anal, que estava ao seu lado, 
sorriu satisfeita.  
Teresa estava comeando h recuperar 
um pouco o equilbrio que perdera desde 
que recebera a ameaa de Otvio pela 
primeira vez.                                                        
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

CAPTULO 20                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


O telefone tocou, Paulo atendeu e 
reconheceu a voz do delegado.  
- Como vai Monteiro? 
- Como sempre. Tenho novidades. Voc 
pode vir at aqui? 
- Posso. Estarei a dentro de quinze 
minutos.  
Fazia dois dias que Paulo se instalara na 
casa de Marlia e at aquele instante tudo 
estava bem. Olhou o relgio, eram dez 
horas. Foi at a cozinha onde Vitrio se 
deliciava com um ch e uma generosa 
fatia de bolo, conversando com Marlia e 
Dorita.  
- Monteiro pediu para eu ir at a 
delegacia. Disse que tem novidades. No 
vou demorar.  
- Voc ainda no dormiu - tornou Marlia. 
- Estou bem. Dormirei quando voltar.  
Desde que se instalara na casa, tanto 
Marlia como Dorita o tratavam com 
carinho e ateno. 
Ele se preparou para sair e Marlia 
acompanhou-o at a porta. 
- Estou curiosa para saber o que ele 
descobriu. 
- Eu tambm. Logo saberemos.
- No vejo a hora que ele descubra e 
prenda os assassinos. S assim 
poderemos viver em paz.  
- A eu irei embora e no as incomodarei 
mais.  
Marlia colocou a mo no brao dele 
dizendo sria: 
- No diga isso. Eu gostaria que voc 
nunca mais nos deixasse.  
Um brilho emotivo passou pelos olhos 
dele que sorriu e disse: 
- Pois eu tambm gostaria de poder ficar 
aqui. 
- Altair adora conversar com voc. 
- Vocs me fazem sentir em casa. Voltarei 
o mais rpido que puder.  
Ele saiu, apanhou o carro e dirigiu-se  
delegacia. Uma vez l, entrou e foi direto 
 sala de Monteiro.  
- E ento, o que descobriu? 
- Aquela pista que voc me deu  quente. 
Descobrimos que o filho de Alberto est 
mesmo metido com traficantes de drogas.  
- Ento ele tinha ligao com Otvio? 
- Sim. Os peritos encontraram o nome 
dele e o nmero de telefone naqueles 
documentos. No s isso, eles 
conversaram diversas vezes nos dias que 
antecederam o crime. Parece que 
estamos achando o fio da meada.  
- Esse crime foi cometido por bandidos 
experientes. 
- Mais de um. E como voc desconfiava, 
eles no foram mortos naquela cama. A 
cena foi forjada para nos confundir.  
- Eu vi os sinais de luta na sala. Foi l que 
eles foram mortos.  
- Isso mesmo. E tem mais. Osmar e 
Nelsinho foram naquela clnica visitar 
uma mulher que eles tinham internado 
um dia antes do crime.  
Paulo levantou da cadeira: 
- Voc sabe quem  ela? 
- No. Mas vamos descobrir. Vou fazer 
uma diligncia at aquele hospital no Rio 
de Janeiro e chamei-o para nos 
acompanhar.
- Voc acha que pode ser Teresa? 
- No sei. Mas no custa verificar. 
Tambm Elvira, a amiga de Teresa 
desapareceu. Pode ser uma das duas.  
Eles se prepararam para sair com mais 
dois policiais. No carro, durante o trajeto, 
Paulo indagou:  
- Por que ser que Osmar internou essa 
mulher exatamente um ou dois dias antes 
do crime? 
- Tambm estou intrigado. Se ela for 
Teresa ser fcil reconhecer, porm se for 
Elvira ns no teremos como.  
Uma vez no hospital, eles entraram e 
Monteiro dirigiu-se  secretria. 
Identificou-se e disse:  
- Recebemos uma denncia que vocs 
mantm aqui uma paciente que foi 
internada pelo Dr. Osmar Borges de 
Azevedo, contra a vontade dela. 
A secretria levantou-se assustada: 
-  um absurdo, doutor! 
- Quero ver essa paciente - exigiu 
Monteiro.  
- No sei do que est falando - respondeu 
a secretria. - Vou chamar o responsvel 
pelo hospital: o Dr. Ernesto.  
Ela fez meno de sair, mas o delegado a 
impediu: 
- Chame-o pelo telefone. 
Com as mos trmulas ela obedeceu e em 
alguns minutos o mdico apareceu. O 
delegado renovou o pedido para ver a 
mulher e o mdico respondeu:  
- No ser adequado conduzi-los ao 
quarto dela neste momento. Trata-se de 
uma paciente em estado grave, precisou 
ser sedada.  
- Desejo ver a ficha de internao - disse 
o delegado. 
A um sinal do mdico, a secretria 
apanhou uma ficha no arquivo e 
apresentou-a. 
Monteiro leu: Maria de Souza. Endereo, 
idade, estado civil, ignorados.  
- Essa mulher estava passando mal em 
frente a empresa do Dr. Osmar que ficou 
penalizado.
Ela estava fora de si, apresentando sinais 
de demncia. Ele ento a trouxe a este 
hospital para tratamento e est 
procurando encontrar pessoas da famlia 
dela. At agora no conseguiu nada.  
- Leve-nos ao quarto dela. Precisamos v-
la.  
- Ela est sedada, como eu disse. No 
vale a pena ir at l.  
- Quem decide isso sou eu - rebateu 
Monteiro. - Leve-nos at l.  
Tentando esconder a preocupao, 
Ernesto levou-os ao quarto de Elvira. 
Abriu a porta e enquanto os dois policiais 
ficavam do lado de fora, Monteiro e Paulo 
entraram com o mdico.  
Viram logo que no era Teresa. Ela estava 
debilitada e plida.  
- Ela parece mal - comentou Paulo. 
- No est - respondeu o mdico. - A 
palidez  porque est sedada.  
Monteiro chamou um dos homens e disse: 
- Tire uma foto dela bem de perto. 
- Para qu? - indagou o mdico.  
- Vou levar para a delegacia e ver se 
descubro sua identidade. Assim, 
poderemos avisar a famlia.  
- Claro - disse o mdico. - Mas pode ver 
que aqui ela est sendo muito bem 
tratada.  
Monteiro no respondeu. Depois de tirar a 
foto, eles saram e se despediram.  
Na rua, Monteiro deu algum dinheiro a um 
dos policiais e disse: 
- Voc, fique aqui vigiando e se observar 
qualquer movimento suspeito nos avise, 
entrarei em contato com a delegacia local 
para agir. Ns vamos descobrir se essa 
mulher  quem eu estou pensando.
- Eu tambm tenho a mesma suspeita - 
tornou Paulo. - Vamos embora.  
Os trs saram, enquanto o policial 
escondeu-se e ficou observando. 
- Vamos voltar para So Paulo, procurar 
Alberto - decidiu Monteiro. 
O carro saiu e quando chegaram a So 
Paulo, apesar de cansados, foram ao 
apartamento de Alberto. 
Tocaram a campainha e Dinda 
surpreendeu-se: 
- Doutor delegado, a essa hora! 
Aconteceu alguma coisa? 
- Sim. Precisamos conversar com o Dr. 
Alberto.  
Eles entraram e a essa altura a foto 
rpida j tinha sido revelada. 
Alberto estava sentado na sala, lendo. 
Quando no conseguia dormir, o que lhe 
acontecia com freqncia nos ltimos 
tempos, levantava-se e procurava alguma 
atividade que o distrasse.  
Vendo-os entrar, levantou-se e 
cumprimentou-os. Depois disse ansioso:  
- Ento doutor, tem alguma novidade? 
Monteiro segurou a foto e mostrou-a a 
Alberto, perguntando:  
- Reconhece esta mulher? 
Alberto fixou-a, dizendo admirado:  
- Sim.  Elvira, a amiga que viajou com 
Teresa. Ela tambm est morta? 
- No. Est apenas sedada em um 
hospital.  
- Sedada? Como assim, o que aconteceu? 
Ela sabe o que aconteceu com Teresa? 
- Como eu disse, ela est sedada em um 
hospital. Foi seu filho Osmar quem fez a 
internao.  
- Osmar?! No entendo. Ele no a 
conhecia! 
- Tem certeza disso? Ele a internou e est 
custeando as despesas dela.
Alberto deixou-se cair no sof, levando a 
mo na testa, como que querendo clarear 
o pensamento.  
- Isso no  possvel. Ele no faria isso 
sem nos dizer nada. Ademais, ele no a 
conhecia.  
- Ainda no sabemos as razes de ele t-
la internado naquele hospital - tornou 
Monteiro. 
- Vou ligar para ele e perguntar. 
- No faa isso. Por enquanto temos de 
manter sigilo nas investigaes.  
- Vou falar com ele.  meu filho. Tem que 
explicar como conheceu essa mulher.  
- Prometa que no vai fazer isso - repetiu 
o delegado. - Pode estragar nossas 
investigaes. Prometo que assim que 
souber de tudo lhe contarei.  
- Est bem. Vou aguardar com 
impacincia.  
- Fique calmo - interveio Paulo -, estamos 
muito perto de descobrir o que aconteceu 
a sua esposa. 
Depois de certificar-se de que Alberto no 
telefonaria para Osmar, eles deixaram o 
apartamento. 
- Vou providenciar para tirar aquela 
mulher de l o quanto antes. Penso que 
depois de amanh teremos tudo o que 
precisamos. Levaremos uma ambulncia e 
a transferiremos para outro hospital aqui 
em So Paulo, onde ela far todos os 
exames e trataremos da sua volta ao 
normal. Levaremos autorizao judicial e 
uma viatura. Quero fazer essa visita 
pessoalmente.  
- E se o mdico for cmplice de Osmar, 
avis-lo e ele, nesse meio tempo, tir-la 
de l? - indagou Paulo.  
- Para evitar isso deixei um homem 
vigiando. Vamos voltar  delegacia e 
fazer o que  preciso. No temos tempo a 
perder.  
J era tarde e eles estavam cansados. 
Monteiro encarregou Paulo de fazer o 
pedido de um mandato ao juiz na manh 
seguinte, enquanto ele providenciaria 
tudo para voltar ao hospital e retirar 
Elvira.
Paulo foi para a casa de Marlia e contou 
as novidades. Vitrio ficou esperanoso 
de descobrir notcias da me.  
- Arranje algum para tomar conta delas. 
Eu quero ir com vocs. No vou suportar 
ficar esperando.  
- Vou ver o que posso fazer. 
Na manh seguinte, Paulo acordou cedo e 
foi para seu escritrio fazer a petio 
para o juiz. Depois, foi para a delegacia 
onde Monteiro tambm j tinha 
conseguido a ambulncia e estava se 
preparando para iniciar a diligncia.  
Paulo falou com Monteiro que Vitrio 
queria ir junto, porm o delegado 
respondeu: 
- No adianta ele ir agora. Elvira est 
inconsciente e no poder nos dizer nada. 
Quando ela j estiver recuperada 
prometo que o chamarei para ouvir o que 
ela tem a nos dizer.  
Quando Paulo ligou para dar a notcia a 
Vitrio, ele entendeu que o delegado 
estava certo. 
Tudo pronto, eram onze horas quando a 
diligncia deixou a delegacia. A 
ambulncia com o mdico, uma 
enfermeira e duas viaturas. Em uma delas 
estavam Paulo e o delegado.  
Passava das dezesseis horas quando o 
policial que ficara no hospital ligou para 
Monteiro dizendo: 
- Nelsinho acabou de entrar no hospital. 
Estava sozinho, mas parecia apressado.  
- Fique preparado. Estamos chegando. 
Dentro de mais uma hora estaremos a.  
Assim que chegaram na frente do hospital 
eles pararam. O policial que ficara 
vigiando aproximou-se. Monteiro 
perguntou:  
- Alguma novidade? 
- No. Nelsinho continua l dentro. No vi 
nenhum movimento suspeito.  
O delegado colocou dois homens na 
entrada de servio vigiando.
- No deixem nenhuma ambulncia sair e 
me avisem se isso acontecer.  
Dentro do hospital, na sala do Dr. 
Ernesto, Nelsinho estava sentado, 
nervoso, conversando com ele. 
- Bem que eu disse ao Osmar para dar um 
jeito nela. 
Ele demorou demais. 
- Essa histria est cheirando mal. No 
posso manchar a reputao do hospital. 
Osmar precisa tirar logo essa mulher 
daqui. Por que ele no veio pessoalmente 
cuidar disso? 
- Ele disse que se aparecer aqui vai 
complicar mais o caso. Encarregou-me de 
resolver tudo.  
- Eu posso coloc-la em uma ambulncia, 
mas preciso mand-la para algum lugar. 
Nem isso ele arranjou? 
- Ns podemos abandon-la bem longe 
daqui, em um lugar deserto.  
- No posso correr esse risco. Ela no est 
em condies de andar. Pode morrer caso 
no tenha cuidados especiais.  
- Isso seria um alvio. Bem que eu disse 
ao Osmar para resolver logo, mas ele 
ficou esperando no sei o qu.  
- Vou tir-la daqui e lev-la para sua casa 
antes que a polcia volte. 
- No faa isso, pode despertar suspeitas. 
No quero nada com a polcia.  
Ernesto levantou-se irritado: 
- Este caso est indo longe demais. Vou 
mand-la para sua casa e pronto. Voc e 
Osmar que resolvam o caso.  
Nelsinho levantou-se, ia protestar quando 
ambos ouviram batidas na porta. 
- Entre - disse o mdico. 
A secretria apareceu, mas no chegou a 
falar porque o delegado Monteiro passou 
 frente, apresentando um papel ao 
mdico e dizendo: 
- Vim buscar aquela paciente. Tenho 
autorizao judicial.
A partir de agora ela est sob minha 
responsabilidade.  
Nelsinho quis sair, mas foi impedido pelo 
policial que estava perto da porta. 
- Deixe-me passar - disse Nelsinho -, no 
tenho nada com isso. 
- Quem decide se tem ou no sou eu - 
tornou Monteiro com voz firme. - Voc 
est detido para averiguaes.  
O Dr. Ernesto tentava encobrir o 
nervosismo. Quis segurar o papel que o 
delegado lhe estendia, mas ele no o 
deixou peg-lo.  
- Leia, doutor. Ns j identificamos a 
paciente. Trata-se de Elvira, amiga de 
Teresa Borges de Azevedo, me de Osmar 
Borges de Azevedo que desapareceu com 
ela. O senhor ser intimado a prestar 
declaraes para explicar por que a 
manteve aqui, dopada. Segundo sabemos 
essa senhora nunca teve nenhuma 
doena mental e o senhor e seu hospital 
ter muito que explicar.  
- Eu posso explicar tudo j. Sou apenas 
um mdico. No conhecia essa mulher, 
acreditei nas informaes que nos deram.  
- O senhor ter tempo de se lembrar bem 
dos detalhes e nos contar tudo o que 
sabe. Mas agora tenho pressa de retirar a 
paciente. - Voltando-se para os policiais 
continuou: - Chamem os enfermeiros para 
busc-la.  
Monteiro, antes de entrar, tinha chamado 
uma das viaturas e deu ordem a um dos 
policiais para que levasse Nelsinho. 
Depois, o Dr. Ernesto levou-os at Elvira e 
os enfermeiros a transportaram at a 
ambulncia que partiu em seguida, sob 
escolta de uma viatura. 
O mdico aproximou-se do delegado 
dizendo: 
- Agora que j cumpriu seu mandato, 
pode conceder-me alguns minutos em 
particular? 
Monteiro fixou-o srio:
Tenho pressa. No posso esperar.  
- Vou ser rpido. Vamos a minha sala.  
Monteiro o acompanhou em silncio. 
Entraram na sala e Ernesto fechou a porta 
dizendo em voz baixa:  
- Doutor, peo-lhe que esquea a nossa 
participao nesta triste histria. Meu 
hospital tem boa reputao e no pode 
ser envolvido.  
- O senhor deveria ter pensado melhor 
antes de se envolver em uma situao to 
nebulosa. 
- Tem razo, mas eu fiquei com pena da 
pobre mulher. Depois, conheo o Dr. 
Osmar como um empresrio de bem e 
nunca imaginei que ele pudesse fazer 
algo errado.  
Monteiro sorriu quando respondeu: 
- Por favor, doutor, assim o senhor 
subestima minha inteligncia. 
- Esquea o nome do hospital e saberei 
ser reconhecido. Posso melhorar muito 
seu padro de vida.  
O rosto de Monteiro ruborizou-se 
indignado. Controlou a raiva e respondeu 
firme:  
- Se continuar nesse tom, dar-lhe-ei voz 
de priso e terei certeza de que  
cmplice de Osmar. 
- Por favor. No se ofenda. Eu pensei 
apenas em livrar meu hospital dessa 
confuso.  
- O senhor e seu hospital j esto em uma 
grande confuso, a nica forma de ter 
algo a seu favor  contar a verdade  
policia. Pense nisso. Passe bem, doutor.  
Monteiro saiu e o mdico sentou-se, 
colocando a mo na testa e procurando 
encontrar uma sada. 
Entrando na viatura ao lado de Paulo, 
Monteiro disse satisfeito: 
- Tudo est caminhando bem. S nos 
resta esperar que Elvira recobre a 
conscincia e possa nos contar a verdade.  
Nada mais tendo de fazer ali, eles 
viajaram imediatamente de volta a So 
Paulo.
Paulo ficou na companhia deles at a 
internao de Elvira em outro hospital e 
ouvir a opinio do mdico que a 
examinara cuidadosamente.  
- Ela est muito enfraquecida. Primeiro, 
vamos fortalec-la bem, e depois faz-la 
voltar  conscincia devagar.  
- O senhor acha que ela vai se recuperar 
completamente? - indagou Monteiro, 
preocupado.  
- Penso que pode demorar um pouco, mas 
no me parece que ela tenha alguma 
doena grave. Vamos ver como reage aos 
medicamentos.  
- Ela est sob meus cuidados e ter 
vigilncia durante vinte e quatro horas. 
No pode receber visitar em hiptese 
alguma. Ela  testemunha importante no 
crime que lhe falei e sua vida corre 
perigo.  
- Vou designar duas enfermeiras de 
minha confiana para cuidar dela e no 
permitir que ningum mais se aproxime. 
- Faa isso doutor. Se eu precisar 
substituir um dos meus homens avisarei 
com antecedncia.  
Eles saram e Paulo voltou  delegacia 
para apanhar o carro que ficara l. 
Era madrugada quando Paulo voltou para 
casa. Estava cansado, mas contente. 
Quando Elvira recobrasse a conscincia 
muitas coisas seriam esclarecidas.  
A casa estava escura, mas Vitrio, que 
tinha ficado l ansioso para esperar a 
volta de Paulo, abriu a porta. Ele entrou e 
Vitrio no se conteve:  
- E ento, o que aconteceu? 
Paulo ia responder, mas teve a ateno 
voltada para Marlia e Dorita que se 
aproximaram.  
Vitrio estava angustiado, ansioso. 
- Conte-nos como foi - pediu. 
- Antes vou trazer alguma coisa para 
Paulo. Ele est abatido, no dormiu e 
penso que nem comeu - tornou Dorita.  
- De fato, no tive tempo mesmo.
- Vamos para a cozinha - decidiu Marlia. - 
L, enquanto tratamos de Paulo, ele nos 
contar tudo.  
Logo Paulo estava sentado ao redor da 
mesa tendo na sua frente uma poro de 
salgadinhos e um copo de refresco. 
Enquanto comia com apetite, ele contou 
em detalhes o que se passara. E finalizou:  
- O mdico safado ainda tentou subornar 
o delegado, mas pela reao dele 
percebeu logo que ia se dar mal. Fazer 
isso logo com Monteiro, policial honesto e 
srio.  
- Estou angustiado - disse Vitrio. - S 
meu pai conheceu a Elvira, ns dois nunca 
a vimos. Como ela pode ter sido levada a 
esse hospital pelo Osmar? Tem certeza de 
que foi ele mesmo quem a internou? 
- O mdico citou nome e sobrenome. 
Depois eu sabia da ligao de Osmar com 
esse tal de Nelsinho. Eu nunca lhes disse, 
mas tive intuio e coloquei meu 
assistente para seguir Osmar. Senti que 
era para ir por ali. E assim, descobrimos a 
ligao dele com esse sujeito que no 
pertence ao meio de vocs e cuja fama 
no  das melhores.  
Paulo fez ligeira pausa, olhou em volta e, 
vendo que todos o olhavam atentos, 
continuou: 
-  bom que vocs saibam que a polcia 
encontrou ligao de Osmar com os 
traficantes que trabalhavam com Otvio. 
Vitrio no se conteve: 
- Ele sempre foi maldoso, mas eu no 
esperava uma coisa dessas. Papai vai 
sofrer muito quando descobrir.  
- Vocs precisam ser fortes. A verdade vai 
aparecer e ela pode ser dura. Por 
enquanto, voc pode poupar seu pai, 
esperar um pouco mais para contar-lhe 
certos detalhes.  
- Quando Elvira acordar, saberemos onde 
est minha me. Eu acredito que ela 
esteja viva.  
- Quanto a isso ainda  cedo para ter 
certeza.
Osmar envolveu-se com traficantes 
perigosos e essa gente mata facilmente. 
Mas penso que podemos ter esperana.  
Vitrio pensou um pouco, depois disse: 
- Se mame tivesse morrido, seu esprito 
j teria me avisado. Mas no tive 
nenhuma notcia, o que pode significar 
que ela esteja viva e por uma razo que 
desconhecemos, no pode aparecer.  
- A vida tem seus mistrios e s os revela 
na hora adequada - disse Paulo -, mas 
algo me diz que estamos no caminho 
certo e logo saberemos de tudo.  
Todos concordaram e uma nova 
esperana aqueceu o corao de Vitrio. 
                                                                                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 21                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


"Conversaram durante mais algum 
tempo. Paulo se alimentou bem, sentiu 
sono e disse:  
- Eu vou dormir um pouco. 
- V mesmo - concordou Vitrio. - Vou 
avisar papai e passarei o resto da noite 
aqui. 
- Voc no precisa passar a noite. Se eu 
descansar umas duas horas ficarei bem e 
voc poder ir. 
- Eu posso ficar - considerou Vitrio. - 
Papai est bem e voc pode descansar em 
paz. Se eu notar qualquer coisa diferente, 
irei cham-lo. 
Paulo concordou e foi para o quarto de 
Altair. Deitou-se. Estava muito cansado e 
adormeceu em seguida. 
Enquanto as duas mulheres trocavam 
idias sobre os novos acontecimentos, 
Vitrio sentou-se em um canto da sala 
pensativo. 
Muitas perguntas sobre os fatos surgiam 
em sua mente e por mais que tentasse ele 
no conseguia entender o que levara o 
irmo a envolver-se com traficantes. 
Ao pensar nisso sentia arrepios e um 
pressentimento ruim o envolvia. Era 
provvel que sua me estivesse pagando 
pelas loucuras que Osmar cometera.
A possibilidade de ela ter sido presa por 
traficantes e at de ter sido morta voltou 
a incomod-lo.  
Por que o esprito de Anal no aparecia 
para ajud-lo? Sempre que ele ficava 
deprimido por causa dos 
desentendimentos com Osmar ela 
comparecia para confort-lo, 
estimulando-o a manter a calma.  
Agora, diante de um assunto to srio, 
por que ela no vinha? 
Na penumbra da sala, Vitrio pensou nela 
com carinho, rogando que o ajudasse. 
Nesse momento ele notou duas sombras 
escuras o envolvendo.  
Fechou os olhos, sentiu a presena de 
dois espritos e percebeu logo que 
estavam mal. Concentrou-se mais neles e 
reconheceu o casal que fora assassinado. 
Estavam com pssima aparncia, 
mostrando os ferimentos que lhes tiraram 
a vida e mantendo na fisionomia horrvel 
expresso.  
Na mesma hora Vitrio sentiu forte mal-
estar. Dores pelo corpo, uma sensao de 
fraqueza e o estmago enjoado.  
Vendo que estavam sendo notados, a 
mulher aproximou-se de Vitrio gritando 
com raiva: 
- Voc est querendo proteger aquela 
malvada. Mas ela vai pagar por tudo o 
que me fez! 
Vitrio esforou-se para controlar o mal-
estar e respondeu em pensamento:  
- De quem voc est falando? 
- De Teresa. Ela se aproveitou de mim. 
Mandou-me para a morte. Eu que queria 
comear uma nova vida e estava cheia de 
esperana! Ela armou a cilada e eles me 
mataram. Era ela quem deveria estar l! 
Ela garantiu que no tinha perigo e eu 
acreditei. Ofereceu-me emprego, 
amizade, mas era mentira. Fez isso para 
se livrar de tudo.  
- No entendo do que est falando. 
- Eu paguei pelo crime que ela cometeu 
anos atrs. Ela me usou para safar-se.
Vitrio continuou no entendendo, mas 
sentiu que ela sabia o que tinha 
acontecido com sua me. Precisava 
aproveitar faz-la falar mais e descobrir o 
que pudesse.  
Naquele momento, o homem empurrou-a 
dizendo: 
- Deixe disso. Ele no vai fazer nada por 
ns. Ao contrrio, est aqui em minha 
casa, no sei fazendo o qu, sem me pedir 
licena.  
Vitrio ouviu e percebeu que estava 
diante do marido de Marlia. Antes que 
tentasse responder, o esprito de Otvio 
aproximou-se, dizendo:  
- Vocs esto se metendo onde no 
devem. V embora e leve aquele 
intrometido que est dormindo aqui. No 
quero ningum em minha casa. Diga-lhe 
que saia logo, antes que eu mesmo o 
enxote. Eu vi que ele anda de olho em 
minha mulher. Se ele continuar, vai se ver 
comigo.  
Antes que Vitrio pudesse responder, 
Otvio segurou o brao da mulher e 
desapareceram. 
- O que est acontecendo comigo? - 
perguntou Vitrio. - Como fui me ligar a 
esses espritos sofredores? Por que Anal 
me abandonou quando eu mais preciso? 
Aflito, deixou-se ficar recostado no sof, 
deprimido, triste. Alguns minutos depois, 
levantou-se e foi telefonar para o pai, 
avisando que no iria para casa.  
Altair tinha ido dormir, Marlia e Dorita, 
depois de colocarem tudo em ordem na 
cozinha, foram ter com Vitrio e logo 
notaram o quanto ele estava abatido. 
- Voc parece triste - arriscou Dorita. - 
Logo agora que as coisas esto 
melhorando...  
- Isso mesmo - concordou Marlia. - 
Estamos perto de saber o paradeiro de 
sua me.  
- Paulo no se mostrou to confiante. 
- Ele est sendo cauteloso. Prefere 
esperar para ter certeza.  
Vitrio fixou Marlia e disse: 
- Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Faa.  
- Seu marido era um homem violento? 
- Sim. Para conversar com ele eu ficava 
sempre escolhendo as palavras para no 
irrit-lo. Por qu? 
- Por nada. Eu estava pensando e fiquei 
curioso.  
- Ns vamos nos recolher - tornou Marlia. 
- Voc deseja mais alguma coisa? Um ch, 
um caf? 
- No, obrigado. Estou bem.  
Elas despediram-se e foram para o 
quarto. Vitrio sentou-se novamente, 
revivendo aquele encontro inusitado, 
tentando lembrar-se de cada palavra que 
haviam conversado na tentativa de 
entender o que estava oculto.  
Passava da trs da madrugada quando 
Paulo entrou na sala e aproximou-se de 
Vitrio. 
- Pensei que voc fosse dormir at de 
manh. 
- No. Acordei e no consegui conciliar o 
sono. Estou remoendo os fatos em busca 
de mais alguma coisa que nos esclarea.  
Vitrio passou a mo nos cabelos: 
- Foi o que fiquei fazendo at agora. 
- E qual foi sua concluso? 
- Logo depois que voc foi dormir, eu vim 
para c e aconteceu uma coisa inesperada 
que me deixou ainda mais confusa.  
- O que foi? 
Vitrio contou que vira o casal 
assassinado, o que eles tinham dito e 
finalizou:  
- A mulher era mesmo muito parecida 
com minha me, estava com raiva dela e 
falando em vingana. Disse que caiu em 
uma cilada e morreu no lugar dela.  
- Isso faz sentido, uma vez que o corpo 
encontrado era parecido com sua me, 
mas no era o dela. 
- No entendo, minha me saiu para 
viajar pela Europa. Como poderia ter-se 
envolvido com essa mulher? Ela nunca 
falou que conhecia alguma mulher 
parecida com ela.
- Voc pode no ter entendido bem. Ela 
estava perturbada e voc tambm pode 
no ter captado tudo.  
- Estava muito claro. Eu ouvi muito bem o 
que eles disseram. Otvio o ameaou, 
quer que v embora, disse que voc est 
interessado em Marlia. Fala nela como se 
ainda fossem casados.  
Paulo sentou-se ao lado dele no sof e 
considerou: 
- Nesse ponto ele est certo. Marlia  
uma mulher especial. Eu seria o homem 
mais feliz do mundo se ela se 
interessasse por mim.  
Vitrio sorriu: 
- Quer dizer que ele no se enganou? 
Voc est mesmo interessado nela? 
Paulo ficou srio, pensou um pouco e 
respondeu:  
- Estou. Nunca uma mulher mexeu tanto 
comigo. Perto dela me sinto motivado, 
feliz.  
- Ele acertou mesmo! Voc no tinha uma 
namorada? 
- Tinha, mas desisti. Descobri que no a 
amava como ela merecia.  
- Hum! Voc est mesmo apaixonado! 
- Talvez. Mas isso no  para voc ficar 
repetindo. Algum pode ouvir.  
- Um dia ela vai ter de saber. 
- Ainda no. Antes, preciso descobrir o 
que ela sente por mim. s vezes noto que 
ela me olha com carinho, mas isso pode 
ser apenas gratido, amizade por eu a 
estar ajudando. No quero que ela se 
ligue a mim apenas para ser grata.  
- Est certo. Vou prestar ateno e ver se 
descubro o que ela sente por voc.  
Paulo sorriu e respondeu: 
- Parece que voc est torcendo por ns. 
- Estou mesmo. Eu nunca me interessei de 
verdade por mulher nenhuma, mas se um 
dia isso acontecer no a deixarei escapar.
Paulo olhou-o srio:  
- Voc anda triste. A presena de uma 
mulher em sua vida traria motivao e 
alegria.  
- Enquanto esse pesadelo no acabar, no 
terei paz. 
- Entendo. Ns estamos nos esforando 
para resolver essa charada, mas, acima 
de tudo, precisamos confiar na vida. Voc 
 um espiritualista como eu, acredito que 
a vida tem seus prprios caminhos e 
trabalha sempre em nosso favor.  
- Nos ltimos tempos tenho at duvidado 
disso. O esprito de Anal me abandonou 
justamente no momento em que eu mais 
preciso de apoio.  
- O fato de ela no ter se comunicado nem 
lhe dito nada sobre o que aconteceu no 
significa que ela no o esteja ajudando 
como sempre fez. Pode ser que ela se cale 
porque no tem condies de dizer nada.  
- Eu pensei que os espritos iluminados 
como ela soubessem de tudo e sempre 
pudessem nos esclarecer. 
- Nem sempre eles sabem tudo porque 
muitas coisas dependem do livre-arbtrio 
das pessoas envolvidas e de fatores 
alheios  sua vontade, mas mesmo que 
ela saiba a verdade nem sempre tem 
permisso para intervir. 
- Ela podia pelo menos aparecer, 
confortar-me. 
- Em vez de reclamar que ela no 
aparece, no seria mais sensato tentar 
entender por que esses fatos esto 
acontecendo com voc? O que a vida 
pretende ensinar-lhe com essa situao? 
- Isso no tem sentido. Como eu poderia 
entender e responder a essa pergunta se 
est perdido, sem saber o que fazer? 
- Todos os desafios que aparecem em 
nosso caminho trazem um recado da vida. 
 assim que ela conversa conosco. Para 
encontrar essa resposta voc ter de 
refletir, buscar, perceber como esses 
fatos esto mexendo com seus 
sentimentos.
 notando o que mudou em voc que vai 
encontrar essa resposta.  
- De fato, eu no sou mais o mesmo. A 
angstia de perder minha me, que 
representava at pouco tempo a minha 
prpria segurana, faz-me sentir sozinho, 
abandonado. Tambm, meu 
relacionamento com meu pai mudou. 
Antes eu o imaginava uma pessoa 
egosta, indiferente, sempre preocupado 
com dinheiro, mas hoje percebo que ele  
um homem sensvel que nos ama e 
embora no tenha sido o marido ideal que 
eu gostaria para minha me, a ama de 
verdade. Para mim, ele tornou-se mais 
humano, mais gente. Sinto mais amor e 
respeito por ele e mais vontade de ajud-
lo a superar esses momentos de angstia 
que vivemos.  
Vitrio fez uma pausa, olhos marejados, o 
pensamento voltado aos prprios 
sentimentos. 
Vendo que ele se calou, Paulo tornou: 
- Viu quantas coisas voc aprendeu com 
essa situao? Pense: quantas outras 
ainda ter de aprender para que a vida 
lhe traga momentos melhores? 
- Voc tem razo. Eu mudei. No sou mais 
aquele rapaz voltado apenas aos meus 
problemas, sentindo-me sozinho no meio 
da famlia. Pela primeira vez senti a fora 
dos sentimentos que nos une e percebi 
que no estou sozinho, embora o 
problema de minha me continue sem 
soluo. Ainda h pouco eu estava 
preocupado com Osmar, um irmo com o 
qual eu nunca me entendi e que sempre 
fez tudo para me humilhar e botar para 
baixo. Eu deixei a revolta de lado e 
quando penso no envolvimento dele com 
marginais sinto-me angustiado. Se eu no 
tivesse sido to intolerante, ele poderia 
ter se tornado mais meu amigo e talvez 
eu pudesse evitar que ele escolhesse esse 
caminho.  
- No se culpe. Ele escolheu o prprio 
caminho e ter de pagar o preo. Mas 
voc  um rapaz de bons sentimentos e 
daqui para frente saber relacionar-se 
melhor com os seus.
- Certamente. Quantas coisas eu faria se 
pudesse ter novamente minha famlia em 
paz. Eu saberia valorizar essa 
convivncia, procuraria ser menos 
mimado e mais interessado em criar ao 
redor de mim um ambiente melhor, onde 
no houvesse desentendimentos nem 
rancor.  
Paulo colocou a mo no brao de Vitrio 
num gesto de apoio e respondeu: 
- Tudo o que aconteceu o fez amadurecer. 
Voc tornou-se adulto, com mais vontade 
de viver melhor. Por esse motivo, sinto 
que no vai demorar em esclarecermos 
todos esses fatos. Eu sei que quando as 
pessoas aprendem o que vida deseja, o 
desafio acaba e tudo volta ao normal.  
- Eu estava angustiado, deprimido, mas 
conversar com voc fez com que eu me 
sentisse melhor. Estou aliviado e mais 
otimista.  
- Isso mesmo. No d fora aos 
pensamentos negativos que 
enfraquecem, deprimem e abrem nossas 
defesas para que espritos sofredores nos 
envolvam, contaminando nossas energias 
com suas perturbaes.  
- Anal falou-me sobre isso, mas eu 
alimentei o medo, a insegurana, atra 
essas presenas desagradveis e fiquei 
pior. 
- Claro.  que as energias perturbadas 
que eles tm somaram-se s suas, 
agravando seu mal-estar.  
- Foi muito ruim. Eu senti aumentar 
minha angstia, meu medo.  
- Voc acreditou que eles pudessem 
fazer-lhe algum mal. Isso no  verdade, 
um esprito desencarnado s poder 
prejudic-lo se voc baixar sua energia e 
tornar-se vulnervel a eles. Caso 
contrrio, no conseguiro nada.  
-  difcil manter sempre o pensamento 
otimista. Principalmente quando estamos 
passando por problemas to graves.  
- Concordo. Quando sentir que atraiu 
esses espritos sofredores, reaja,pense 
que foi voc quem abriu espao para o 
assdio deles e sendo assim pode mand-
los embora. Se fizer isso com firmeza, vai 
melhorar na hora.  
- No  fcil. Quando voc diz isso, parece 
que uma voz me diz que  mentira. Que 
no tenho competncia para fazer isso. 
Que sou um fraco.  
- Essa voz vem do seu subconsciente, 
indica que voc tem um padro de 
pensamento que o faz crer que  um 
fraco. No d importncia a essa voz, 
pense que no  verdade e afirme que 
voc  forte e capaz. Assim ela vai se 
calar.  
- Onde voc aprendeu todas essas coisas? 
- Estudando os fatos da vida, 
experimentando para saber o que 
funciona.  
- Talvez voc tenha razo, mas eu no 
saberia como comear. Confesso que me 
encontro perdido.  
-  fcil. Preste ateno nas suas 
atitudes, depois analise o resultado do 
seu comportamento. Se esse resultado for 
bom, indica que voc est no caminho 
certo. Mas se for desagradvel, saiba que 
precisa observar melhor e descobrir a 
crena que determinou essa atitude. 
Assim descobrir a causa do seu 
insucesso. Basta modific-la e obter um 
resultado melhor.  
- Olhando assim at parece simples.  
- As coisas verdadeiras so simples. Ns  
que costumamos complicar tudo com 
nossa cabea indisciplinada. H algum 
tempo eu descobri isso e adotei esse 
sistema. Garanto, minha vida tornou-se 
muito melhor.  
- De fato, nossa cabea  mesmo muito 
louca. s vezes passam por ela 
pensamentos que nos espantam.  
- O bom  que ns temos condies de 
controlar isso e mudar a sintonia. Trocar 
os pensamentos ilusrios, 
desequilibrados por outros mais reais e 
possveis.  
Os dois continuaram conversando 
animados at o dia clarear e Marlia 
aparecer e surpreend-los.
- Bom dia! Em vez de um anjo da guarda, 
agora temos dois.  
Dorita entrou na sala e, vendo-os, disse 
logo: 
- Ainda bem que podemos contar com 
vocs! Vou j para a cozinha preparar um 
caf reforado.  
- Era isso que estava faltando! - 
comentou Paulo.  
-  mesmo. A conversa estava boa, mas 
agora ficou melhor - reforou Vitrio.  
- Voc no dormiu? - perguntou Marlia, 
dirigindo-se a Paulo.  
- Dormi, mas acordei cedo e ficamos 
conversando. Vitrio passou a noite 
acordado.  
Sempre rindo e conversando, eles foram 
para a cozinha esperar pelo caf. Em 
quanto Dorita preparava as guloseimas, 
os dois ajudavam Marlia a arrumar a 
mesa.  
A cena era agradvel e Marlia disse: 
- Eu estou feliz por ter vocs dois aqui 
conosco logo de manh. Comear o dia 
assim traz alegria e bem-estar.  
Paulo aproximou-se de Marlia e, 
olhando-a nos olhos, respondeu: 
- Contar com o carinho de vocs no 
comeo do dia  bom demais. Vou sentir 
falta quando tiver de ir embora.  
- Voc no precisa ir embora. Pode ficar o 
tempo que quiser - respondeu Marlia.  
- Voc gostaria que eu ficasse? 
Os olhos dela brilharam quando 
respondeu:  
- Gostaria muito. - Um pouco corada 
continuou: - Vocs trouxeram mais vida a 
esta casa.  
Vitrio sorriu e interveio: 
- Agradeo por me colocar nesse 
contexto, sabe que pode contar comigo 
sempre, mas noto que Paulo est muito 
integrado a vocs, se pudesse mudaria 
para c e no iria mais embora. 
Dorita, notando o embarao de Marlia, 
colocou o bule de caf sobre a mesa 
dizendo:
- Sentem-se, vamos tomar caf antes que 
esfrie.  
Depois do caf, Vitrio despediu-se e 
voltou para casa. 
Encontrou o pai lendo os jornais na sala. 
- Ainda bem que chegou - disse Alberto. - 
Estou preocupado com Osmar. H dois 
dias estou ligando e no consigo falar 
com ele.  
Vitrio sentiu um aperto no peito, mas 
no deixou transparecer a preocupao: 
- Ele deve estar muito ocupado. Voc 
deve estar fazendo falta na empresa.  
- Ainda ontem, quando o mdico veio ver-
me, perguntei se estava em condies de 
voltar ao trabalho. Ele aconselhou-me a 
esperar mais um pouco.  
- Voc disse que ficaria aqui at 
descobrirmos o paradeiro de mame. 
- Eu disse, mas as investigaes esto 
lentas, no h nenhuma novidade. Estou 
pensando que seria melhor voltar para a 
casa. Sinto-me um pouco melhor e no 
agento ficar aqui, sem fazer nada.  
- Tenha mais um pouco de pacincia. 
Paulo me disse que os peritos 
examinaram os documentos encontrados 
na casa de Otvio e est esperanoso.  
- No estou sabendo de nada. Ele 
descobriu alguma coisa nova? 
- Parece que sim, mas no contou o qu, 
para no atrapalhar as investigaes.  
- H pouco liguei para Osmar e ele ainda 
no tinha chegado na empresa. Liguei 
para casa e Nora me disse que ele saiu 
muito cedo nem tomou caf. Onde ter 
ido? 
Por que at essa hora no est na 
empresa? 
- Talvez ele tenha ido visitar algum 
cliente, ou falar com os engenheiros de 
alguma obra.  
- Ele no costuma fazer isso. Daqui a 
pouco vou ligar novamente.
- Procure se acalmar. Pode fazer mal a 
sua sade. Logo ele vai ligar e explicar 
tudo.  
- , pode ser... Osmar sempre foi muito 
dedicado  empresa. Estou impaciente, 
cansado de ficar aqui parado.  
- Se continuar reagindo, cuidando melhor 
da sade, logo vai estar bem e poder 
voltar  empresa. Eu ficarei aqui 
acompanhando as investigaes e 
mandando notcias.  
-  isso mesmo o que farei. No posso me 
entregar ao desnimo. Voltar a trabalhar 
ser para mim um santo remdio.  
Vitrio sorriu e assentiu com a cabea, 
mas sentia um aperto no peito, 
imaginando o que seu pai faria quando 
soubesse que Osmar havia se ligado a 
bandidos e se tornado um traficante de 
drogas.
                                                                                                                       
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

CAPTULO 22                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


"Dois dias depois, s dez horas da manh, 
Marilia bateu na porta do quarto em que 
Paulo dormia:  
- Paulo, acorde. O Dr. Monteiro est no 
telefone, quer falar com voc, disse que  
urgente. 
- J vou - respondeu ele, tentando reagir 
ao sono. 
Levantou-se de um salto e atendeu ao 
telefone: 
- Al. 
- Paulo, o mdico avisou que Elvira est 
em condies de falar. Voc quer ir 
comigo? 
- Quero. Dentro de quinze minutos estarei 
a. 
Lavou-se rapidamente, vestiu-se e foi  
cozinha, onde Vitrio e as duas mulheres 
conversavam. 
- Bom dia. 
- Sente-se e tome caf - convidou Dorita. 
- No vou nem sentar. Preciso de um caf 
para espantar o sono. O Dr. Monteiro est 
a minha espera para irmos ver Elvira. 
Parece que ela est melhor e j pode 
conversar. 
- Eu vou com voc - disse Vitrio. - Ela 
pode nos dizer se mame est viva ou 
no. 
- Vou pedir ao Wagner para vir ficar aqui.
- Coma pelo menos uma fatia deste bolo. 
Est quente e gostoso - sugeriu Dorita.  
- Est bem. Comerei uma fatia, mesmo 
porque os bolos que voc faz so 
irrecusveis. Enquanto voc coloca no 
prato, vou falar com o Wagner.  
Ele foi telefonar, voltou alguns minutos 
depois: 
- Ele estar aqui dentro de dez minutos. 
Enquanto isso terei tempo para tomar o 
caf. Liguei para o delegado e em vez de 
irmos  delegacia, iremos encontr-los no 
hospital. Assim teremos mais alguns 
minutos.  
Wagner chegou e os dois saram rumo ao 
hospital. Chegaram antes do delegado e 
ficaram esperando por ele no saguo.  
Monteiro chegou com dois policiais e 
depois dos cumprimentos, disse a Vitrio: 
- Logo imaginei que voc tambm viria. 
- Estou ansioso para saber o que ela tem 
a dizer. 
- Ns vamos entrar no quarto, o mdico 
disse que ela est muito nervosa. Tanto 
que ele ficar junto durante nossa 
conversa. Talvez seja melhor eu entrar 
sozinho.  
- Por favor, doutor. Permita que eu entre.  
- Ns no sabemos o que ela tem para 
contar. No sei se voc ter calma 
suficiente para conter-se. O mdico disse 
que a situao dela ainda  delicada. Ela 
vai ter de rever os fatos e isso ser 
penoso.  
- Eu prometo que ficarei calado e 
acontea o que acontecer, vou me 
controlar. 
- Est bem. Mas quem faz as perguntas 
aqui sou eu. A menor interferncia sua, o 
colocarei para fora do quarto. Entendido? 
Vitrio concordou e eles foram ao 
encontro do mdico que os acompanhou 
ao quarto de Elvira.  
Entraram e encontraram-na sentada, 
recostada nos travesseiros a espera 
deles. O mdico aproximou-se pela lateral 
da cama e Monteiro o acompanhou. Os 
outros dois ficaram mais atrs.
Os dois policiais ficaram na porta, do lado 
de fora.  
- Este  o Dr. Monteiro, delegado - disse o 
mdico. - Foi ele quem a libertou daquele 
sanatrio e a trouxe para c.  
Elvira estendeu a mo, dizendo 
emocionada: 
- Obrigada, doutor. No sabe o bem que 
me fez.  
- No fiz mais do que minha obrigao. 
Quem descobriu onde a senhora estava 
foi o Dr. Paulo - respondeu ele, 
designando o advogado.  
- Fico feliz vendo que se sente melhor - 
disse Paulo sorrindo. 
Elvira fixou Vitrio e respondeu: 
- Esse moo parece com o filho de Teresa. 
 ele? 
Monteiro interveio:  
-  ele, sim. Ele quer saber o paradeiro da 
me.  
Elvira suspirou triste: 
- Os senhores ainda no sabem onde ela 
est? 
- Contamos com a senhora para descobrir 
o que aconteceu. At agora no tivemos 
notcias dela.  
- Que horror! Eles ainda no a libertaram! 
Vai ver que o Osmar no pagou o resgate.  
Vitrio no conseguiu controlar a 
ansiedade e ia falar, mas calou-se a um 
sinal de Monteiro. 
- A senhora vai nos contar tudo o que 
aconteceu. Vou chamar meu auxiliar para 
tomar seu depoimento.  
A um sinal do delegado, Paulo saiu e 
pouco depois voltou, acompanhado de um 
dos policiais que ligou um pequeno 
gravador. 
Monteiro iniciou o interrogatrio: 
- Segundo sabemos, a senhora foi 
convidada por Teresa para acompanh-la 
a uma viagem para a Europa. O Dr. 
Alberto as acompanhou ao aeroporto e 
garantiu que vocs entraram na sala de 
embarque.  
Elvira torcia as mos, aflita.
Ela no queria contar por que tinham ido 
a So Paulo e o delegado, notando que 
ela hesitava, disse srio:  
- A senhora no deve esconder nada 
porque isso pode significar a vida de 
Teresa. Ela no apareceu at agora.  
Elvira suspirou, engoliu em seco, depois 
disse: 
- Teresa tem um segredo que eu no devo 
revelar. 
- Um casal foi morto de maneira cruel e os 
documentos de Teresa foram encontrados 
no local do crime. A mulher assassinada 
era muito parecida com Teresa, tanto que 
o Osmar, o filho, reconheceu o corpo 
como sendo dela, mas Vitrio e a 
governanta provaram que no era ela.  
- Um crime! Tem certeza de que no era 
ela mesma? 
- Parece que no. Eu esperava que a 
senhora nos contasse quem  essa mulher 
to parecida com ela.  
- No sei. No conheo nenhuma mulher 
parecida com ela.  
Notando que Elvira estava assustada, o 
delegado tornou: 
- Est bem. Agora conte tudo o que 
aconteceu depois que o Dr. Alberto as 
deixou no aeroporto. Pelo jeito vocs no 
embarcaram naquele dia.  
- No. Teresa tinha um segredo, mas eu 
no posso revelar.  
- No precisa dizer o que era, conte 
apenas os fatos.  
- Bem, ns nos encontramos por acaso, 
depois de muitos anos. Fomos colegas de 
faculdade. Conversamos e ela contou que 
seu segredo guardado h muitos anos 
tinha sido descoberto por um homem que 
queria dinheiro para no contar ao Dr. 
Alberto. Ela estava deprimida, nervosa, 
aflita e, sabendo que eu sou sozinha, 
convidou-me para ser sua dama de 
companhia e viajarmos juntas.  
Ela fez ligeira pausa, notando que todos a 
ouviam atentos, continuou: 
- Ela tinha conseguido o dinheiro exigido 
pelo homem e queria entreg-lo em troca 
de algumas cartas que a comprometiam.
Assim que o Dr. Alberto nos deixou na 
sala de embarque do aeroporto, 
esperamos algum tempo, depois samos e 
fomos ao balco de passagens, alegamos 
estar passando mal e as trocamos para 
alguns dias depois. Compramos 
passagens para So Paulo, onde 
desembarcamos naquele mesmo dia. 
Quando samos do aeroporto, alguns 
homens armados nos abordaram e nos 
obrigaram a entrar em um carro com toda 
a nossa bagagem.  
- Foi assalto? - indagou Monteiro.  
- Foi seqestro. Percebemos isso quando 
vimos que eles no tocaram em nossas 
bagagens nem em nosso dinheiro. Teresa 
estava com muito dinheiro. Para a viagem 
e para o pagamento do homem.  
- Continue - pediu o delegado. 
- Colocaram capuz em nossas cabeas. 
Estvamos apavoradas, levaram-nos para 
uma casa e tiraram os capuzes. Mais 
tarde apareceu um homem bem vestido e 
vimos logo que era o chefe. Tratou-nos 
com respeito, disse que no iria nos fazer 
mal se fizssemos o que ele mandasse. 
Claro que concordamos.  
Ela parou novamente, olhos perdidos nas 
lembranas. Depois de alguns segundos, 
respirou fundo e continuou:  
- No dia seguinte, depois de nos terem 
servido um almoo, ele apareceu e 
perguntou se tnhamos almoado bem, se 
faltava alguma coisa. Dissemos que no, 
ento ele estendeu um papel para Teresa, 
um bloco e caneta, mandando que ela 
escrevesse uma carta para Osmar.  
- Era pedido de resgate? 
- No, doutor. Ele dizia que Osmar lhe 
devia muito dinheiro e no conseguira 
pagar, ele nos prendera at que ele 
saldasse essa dvida. Ainda disse que era 
homem de palavra e que para ele no 
precisava de papel, que quando algum 
no cumpria o que prometera ele matava.
Teresa ficou aterrorizada por descobrir 
que Osmar tinha se metido com aqueles 
bandidos, fazendo negcios ilegais. 
Percebemos que estvamos lidando com 
pessoas perigosas. Ela escreveu a carta. 
Teresa disse que Osmar no ia acreditar 
porque estava certo de que ns tnhamos 
embarcado para a Europa. Ento ele 
decidiu mandar-me com a carta para 
provar que ela estava em poder dele.  
Elvira serviu-se de um copo de gua que 
tinha na mesa de cabeceira e depois  
prosseguiu: 
- Eles me puseram o capuz novamente. 
Entramos no carro e viajamos durante 
horas. Levaram-me a um lugar onde me 
obrigaram a descer, tiraram o capuz e fui 
presa em um quarto. Algum tempo, que 
no saberia dizer quanto, chamaram-me, 
entregaram-me a carta dizendo que 
sasse e a entregasse ao homem dentro 
do carro parado diante da casa. Nem 
acreditei quando me vi na rua. Era noite e 
sem pensar em mais nada corri para o 
carro:  
- "Por favor, ajude-me" - repeti vrias 
vezes. O rapaz parecia mais assustado do 
que eu. Finalmente abriu e eu entrei, 
pedindo que fssemos embora dali o 
quanto antes. Entreguei a carta, dizendo 
que era de Teresa e ele guardou no bolso, 
interessado em sair dali o quanto antes. 
Eu queria ir  polcia contar tudo, mas ele 
disse que isso poderia custar  vida de 
Teresa. Eu acreditei. Quando j 
estvamos bem longe, ele disse que 
estava preocupado comigo e que iria me 
levar a um mdico para uma consulta, se 
tudo estivesse bem, eu iria embora com 
ele. Mas assim que entrei no hospital, fui 
levada para um quarto e deram-me uma 
injeo. Eu perdi os sentidos. No sei o 
que aconteceu e s fui acordar aqui em 
So Paulo, neste hospital que em to boa 
hora o senhor me trouxe.  
- A senhora no teve mais nenhuma 
notcia de Teresa? 
- No, doutor. No sei o que aconteceu 
com ela. Espero que Osmar tenha pagado 
a dvida e ela tenha sido libertada.
- Ele no pagou, e ela ainda no 
apareceu.  
- Ser que aqueles bandidos a mataram 
conforme prometeram? 
- No sei.  
Elvira torceu as mos nervosamente 
- Meu Deus! O que ser que aconteceu? A 
polcia ainda no sabe nada sobre esses 
bandidos? 
- Temos algumas pistas, estamos 
investigando. Estou certo de que em 
breve chegaremos a eles. Voc teria 
condies de identific-los? 
- Sim. Farei tudo o que for preciso para 
ajudar a polcia. Depois do que fizeram 
conosco,  o que me parece mais justo.  
Elvira lanou um olhar receoso sobre 
Vitrio e disse: 
- Osmar me pareceu mais preocupado em 
escapar dos bandidos do que em salvar a 
me. Eu teria movido cus e terra para 
salv-la se pudesse.  
- Ns sabemos disso - respondeu 
Monteiro - e contamos com sua 
colaborao. Estou certo de que 
haveremos de descobrir esses assassinos 
e coloc-los atrs das grades.  
-  o que eu espero. Tenho medo de que 
eles descubram onde eu estou e queiram 
acabar comigo. Afinal, eu posso 
identific-los.  
- A senhora est neste hospital sob sigilo 
absoluto. Desde que a trouxemos do Rio 
de Janeiro, sua identidade tem sido 
preservada. Conseguimos impedir at que 
a imprensa mencionasse seu nome e seu 
envolvimento neste caso.  
- Fico aliviada. Confesso que quando me 
recordo deles sinto um frio na espinha e 
no consigo evitar o medo.  
- Fique tranqila, a senhora est sob 
minha proteo. 
Vitrio aproximou-se de Elvira e, apesar 
de frustrado, sentia-se emocionado. 
-  bom saber que minha me tem uma 
amiga corajosa e sincera como a senhora.
O mdico nos disse que em breve ter 
alta. Onde pensa ir quando deixar o 
hospital? 
- Ainda no sei. Quando Teresa me deu o 
emprego, vendi todos os meus pertences 
e entreguei a chave de minha casa. Tudo 
o que eu tinha estava naquela bagagem 
que ficou na casa dos bandidos. Sou 
sozinha no mundo e ainda no sei o que 
fazer.  
Vitrio colocou a mo sobre o brao de 
Elvira dizendo: 
- A senhora ir para a minha casa. Estou 
certo de que papai concordar.  
- Vocs moram no Rio de Janeiro, no ?  
- Sim. Mas atualmente estamos aqui em 
So Paulo. Alugamos um apartamento. 
Apenas Osmar est no Rio de Janeiro. 
Papai est comigo. Ficamos para 
acompanhar as investigaes at 
encontrarmos minha me. Mas acontea o 
que acontecer, a senhora pode contar 
com minha amizade e proteo.  
- Obrigada, meu filho. Voc  muito 
parecido com Teresa. Tem o mesmo olhar, 
o mesmo jeito de falar. Sua me foi minha 
melhor amiga, guardo delas as mais belas 
recordaes dos tempos de juventude. Eu 
tambm no vou ter paz enquanto no 
souber o que lhe aconteceu e onde ela 
est.  
- Agora vamos deix-la descansar - disse 
Monteiro. 
Depois de se despedirem, eles deixaram o 
quarto e o delegado perguntou ao 
mdico: 
- Quando ela ter alta? 
- Ela est muito bem, notei que seu 
raciocnio  rpido e em perfeito estado. 
Desta forma, penso que dentro de dois ou 
trs dias ela poder sair. S no a libero 
agora porque est muito debilitada e 
precisa se fortalecer um pouco mais.  
- Doutor - tornou Vitrio -, pretendo lev-
la para casa e cuidar do seu 
restabelecimento. Por culpa dos 
desacertos de meu irmo ela passou por 
todo esse sofrimento.
Cuidar da sua recuperao  o mnimo 
que poderemos fazer. Depois, ela  amiga 
de mame, para mim isso vale muito.  
- Sua atitude me deixa feliz. Confesso que 
estava um pouco preocupado com o 
futuro dela.  uma pessoa muito s e 
encontrar amigos far-lhe- imenso bem.  
- Minha me a contratou e eu assino 
embaixo. Sinto que se mame a 
encontrasse, faria o mesmo.  
Eles saram do hospital e depois de deixar 
Paulo na casa de Marlia, Vitrio foi para 
casa. Paulo garantiu que no iria dormir 
mais e ele estava ansioso para contar ao 
pai as novidades.  
Alberto estava lendo na sala. Vendo-o, 
indagou:  
- Por que veio to cedo? No deveria 
estar na casa de Marlia? 
- Houve um imprevisto e Paulo colocou 
Wagner em meu lugar. O delegado ligou 
para Paulo avisando que Elvira recobrou a 
conscincia e convidando-o para ir at ela 
assistir ao interrogatrio. Eu fui junto.  
Alberto levantou-se ansioso: 
- Voc a viu, falou com ela? Ela contou 
onde est sua me? 
- Calma pai. Ela tambm no sabe o 
paradeiro de mame. Mas soubemos 
parte do que lhes aconteceu.  
- Conte logo. Por que elas no 
embarcaram naquele aeroporto quando 
as levei? 
- Vou lhe contar. Quando as deixou l, 
elas saram da sala de embarque, 
transferiram as passagens para alguns 
dias depois e viajaram para So Paulo.  
- So Paulo? Por qu? 
- Elvira hesitou muito para contar o que 
foram fazer em So Paulo. Disse que 
mame tinha um segredo e no queria 
que nenhum de ns soubesse. H algum 
tempo ela estava sendo chantageada por 
um homem que exigia muito dinheiro 
para no entregar a voc alguns 
documentos que a comprometiam.
- Ento era isso! Eu notei que nos ltimos 
tempos ela estava muito nervosa, eu diria 
descontrolada mesmo. Por que ela no 
me contou tudo? 
- Ela no teve coragem. Vendeu algumas 
jias para arranjar o dinheiro e teve idia 
da viagem. Como tinha reencontrado 
Elvira depois de muitos anos, convidou-a 
para ser sua dama de companhia. Elas 
tinham planejado ir a So Paulo, entregar 
o dinheiro, apanhar os documentos 
comprometedores e viajar em seguida 
para a Europa.  
- Mas pelo visto isso no ocorreu... 
Vitrio hesitou um pouco, mas resolveu 
contar a verdade. Mais cedo ou mais 
tarde, seu pai iria saber mesmo.  
Devagar, observando a reao de Alberto, 
Vitrio foi contando as descobertas da 
polcia e o motivo pelo qual Osmar 
internara Elvira no sanatrio. 
Alberto ouvia estarrecido. Parecia-lhe 
que estavam falando de outra pessoa, 
no de seu filho predileto. Mas o fato  
que no tinha como duvidar. A polcia 
tinha provas e estava claro que ele tinha 
internado Elvira para evitar que ela 
contasse o que sabia.  
Vitrio finalizou: 
- Apesar de Elvira no saber onde mame 
se encontra, o delegado acha que est 
muito perto de descobrir toda a verdade. 
J identificaram alguns traficantes que 
tinham negcios com Otvio e Elvira vo 
cooperar, identificando os 
seqestradores.  
- Custo a crer que Osmar tenha feito isso 
tudo. Sempre lhe ensinei a ser honesto, 
no posso entender onde foi que errei em 
sua educao.  
- No se culpe, pai. Osmar sempre foi 
maldoso. Eu nunca tive iluses sobre o 
carter dele. S no pensei que ele 
chegasse a tanto.  
Alberto estava triste e abatido. Vitrio 
sentou-se ao seu lado no sof, colocou a 
mo sobre o brao dele e disse com 
carinho:
- Pai. Sempre  melhor saber do que 
ignorar. Voc confiou nele, deixou a 
empresa em suas mos. Eu tambm sou 
um pouco responsvel por ter me omitido.  
- Quando fechei um negcio excelente, 
ele ficou furioso, foi alm do natural. 
Agora sei o porqu: ele estava 
negociando drogas e pretendia desviar 
dinheiro da empresa para fazer o 
pagamento, como eu limpei as reservas, 
no pde fazer o que queria.  
- O que voc fez foi bom. Evitou que ele 
lesasse a empresa.  
- Mas pode ter sido a causa do seqestro. 
Meu Deus! Se eles mataram Teresa, 
nunca me perdoarei.  
- Pai, pare de se culpar. Tenho certeza de 
que mame est viva, escondida em 
algum lugar, com medo dos traficantes. 
Assim que eles forem presos, ela vai 
aparecer.  
- Gostaria de ter sua confiana! 
- Quando ns no podemos fazer alguma 
coisa, colocamos nas mos de Deus para 
que ele faa.  
- Quisera ter sua f! No estado em que me 
encontro, no sei se consigo acreditar em 
dias melhores.  
- Pois eu sim. So nessa hora que 
precisamos reagir, pensar que no 
estamos sozinhos, que ao nosso redor 
espritos de luz nos mandam energias de 
conforto e equilbrio. Mas elas s vo nos 
ajudar se acreditarmos no bem, se 
deixarmos de lado o medo, os 
pensamentos dramticos e fixarmos 
nossas mentes naquilo que desejam que 
acontea.  
Os olhos de Alberto estavam cheios de 
lgrimas quando ele respondeu: 
- Ajude-me a fazer isso, meu filho. 
- O que de melhor voc desejaria que 
acontecesse agora? 
- Que Teresa voltasse, viva, com sade e 
que Osmar reconhecesse seus erros e 
procurasse recuperar-se.
- Pois ento imagine que tudo isso 
aconteceu. Veja mame chegando, cheia 
de alegria e amor.  
O rosto de Alberto distendeu-se e ele 
disse: 
- Sim.  isso o que eu quero.  
- Ento, pense constantemente nisso. 
Pense em sua alegria no momento em 
que ela chegar como vai abra-la e 
sentir-se feliz.  
- Seria o dia mais feliz de minha vida. 
- Esse dia chegar. Estou certo.  
Alberto no conteve o pranto e Vitrio 
abrao-o com carinho: 
- Chore, pai, jogue fora toda sua mgoa e 
encha seu corao de esperana. 
Alberto deixou as lgrimas correrem 
livremente por alguns minutos. Quando 
elas cessaram, ele sentiu-se aliviado.  
- Tem razo, meu filho.  muito bom 
esperar o melhor e imaginar que  isso o 
que vai acontecer.  
Vitrio concordou depois eles deixaram-
se ficar abraados, calados, sentindo o 
momento de entendimento e de 
cumplicidade.                                                              
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 23                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


"Sentada em um canto do pequeno 
quarto, olhando atravs dos vidros da 
janela a tarde que caa, Teresa sentia-se 
triste. Estava difcil suportar a saudade 
que sentia dos filhos, do marido, do 
conforto de sua casa e das pessoas que 
queria bem.  
Sozinha, sem ter com quem desabafar 
seus receios, aflita por no saber o que 
estava acontecendo com os seus, 
procurava passar o tempo e conter a 
ansiedade, desenhando e pintando 
algumas pequenas telas.  
Quase no saa, com medo de que os 
seqestradores a descobrissem, e a cada 
dia ficava mais difcil suportar essa 
situao.  
Em especial naquele fim de tarde, quando 
o outono se aproximava e o cu estava 
cinzento, ela sentia a saudade mais forte. 
Relembrando os momentos que 
desfrutara no aconchego da famlia, 
percebia o quanto fora feliz sem se dar 
conta.  
A postura de Alberto, que antes ela 
pensava fosse de desinteresse, agora era 
vista com outros olhos.  
Pequenos acontecimentos, momentos em 
que ele perdera o controle, faziam-na 
pensar que o amor que Alberto sentira 
desde que a conhecera, ainda estava 
vivo, apesar da falta de interesse que ela 
demonstrara.
Sua paixo por outro homem depois de 
casada a fizera ser cruel com o marido, 
rejeitando seu amor, imersa na iluso, 
acreditando que Alberto era a causa de 
sua infelicidade, impedindo-a de viver 
para sempre ao lado de quem amava.  
Odiava-o por ele ter aparecido em sua 
vida, impedindo-a de ser feliz. Pela 
primeira vez percebeu que esse 
sentimento a impediu de retribuir o afeto 
que ele lhe dispensava e de viver uma 
vida melhor.  
Recordando-se de tudo quanto 
acontecera desde que o conhecera, 
Teresa percebeu o quanto ele tinha 
tentado vencer a barreira que ela 
colocara entre ambos, fazendo vrias 
tentativas de aproximar-se dela 
intimamente, de tornar-se um 
companheiro de verdade. 
Naquele momento, daria tudo para estar 
em casa, sem que nada tivesse 
acontecido, com os filhos e com Alberto. 
Ah! Se pudesse algum dia voltar para 
casa, agiria diferente. Trataria de 
valorizar a companhia dos filhos, 
procuraria o afeto do homem que sempre 
estivera ao seu lado, mas que ela, 
mergulhada em suas iluses, recusara.  
Alm do nome, Alberto lhe dera o respeito 
de uma vida digna, dois filhos que ela 
amava. Como pudera sentir-se frustrada 
tendo tudo isso? Ela tinha tudo, fora feliz 
e no soubera valorizar.  
Seria por esse motivo que a vida lhe havia 
tirado tudo e ela agora estava  margem, 
como uma folha morta levada pelo vento 
forte, sem comando nem destino? 
Lgrimas rolavam pelo seu rosto e 
Teresa, olhando  tarde que morria frente 
aos prenncios do anoitecer, sentiu 
vontade de se penitenciar, de rever seus 
enganos e agir diferente. Teria tempo 
ainda? 
Lembrou-se de Vitrio sempre dizendo 
que a vida fala com cada um atravs dos 
acontecimentos.
Se isso fosse verdade, o que a vida 
estaria lhe dizendo por meio dos fatos 
que lhe tinham acontecido? 
Claro que ela errara ao entregar-se 
quela paixo sendo casada. Mas tendo 
escolhido ficar com a segurana da 
famlia, reconhecia que ao continuar 
nutrindo a iluso daquela paixo causara 
a prpria infelicidade.  
Agora, via as coisas com outros olhos. 
Mais experiente, notava que se ela 
tivesse se esforado em manter um bom 
relacionamento com o marido, talvez 
houvessem se entendido e vivido melhor.  
Naquele momento sentiu vontade de 
pedir  vida que lhe desse uma nova 
oportunidade. Se ela lhe permitisse um 
dia voltar ao convvio dos seus, faria tudo 
o que pudesse para conseguir o afeto do 
marido e o carinho dos filhos.  
Vitrio era um rapaz sensvel e carinhoso. 
Muitas vezes no fora para ele uma me 
compreensiva. Estava fechada demais em 
seu mundo egosta, julgando-se infeliz, 
sem notar as coisas boas que possua.  
Osmar era mais difcil e ela tentara ser 
dura com ele, mas nunca tentara 
compreender seu temperamento e chegar 
de fato aos seus sentimentos ntimos. 
Agora se arrependia. Mas talvez fosse 
tarde. Por que ele se envolvera com os 
bandidos? Se ela tivesse se aproximado 
mais dele, talvez tivesse conseguido 
notar alguma coisa e t-lo impedido de 
seguir esse caminho.  
O que deveria fazer para ter uma nova 
oportunidade de reparar seus erros e 
tentar ser feliz? 
Pensou em Deus. Teresa no era muito 
devota. Dinda sempre lhe dizia que ela 
precisava ligar-se mais  espiritualidade, 
procurar Deus no fundo do corao e 
conversar com ele para encontrar 
respostas para suas dvidas.  
Fechou os olhos e, com toda a fora, 
procurou mergulhar no fundo do corao 
e sentiu o quanto desejava sair daquela 
situao infeliz.
Ento, comeou a conversar com Deus, 
falando dos seus sentimentos, de como 
sentia falta dos seus, de como gostaria de 
poder voltar para casa, encontrar o 
marido, os filhos. Se Deus lhe concedesse 
mais uma oportunidade de estar com 
eles, dar-lhes-ia todo o amor que agora 
gritava em seu peito, procurando 
entendimento e aconchego.  
Quando ela terminou e abriu os olhos, a 
noite j tinha cado e o quarto estava 
escuro. Acendeu o pequeno abajur ao 
lado da poltrona e respirou aliviada.  
Aqueles momentos de reflexo lhe 
fizeram enorme bem. Em seu corao 
havia um sentimento de paz. Vitrio tinha 
razo. A meditao e a reflexo interior, a 
ligao com a alma, fazia muito bem.  
Ela sentia-se mais confiante. Algo lhe 
dizia que no podia se desesperar. Que 
tudo passaria e ela voltaria novamente h 
viver um tempo melhor. S precisava ser 
paciente e esperar.  
Ela no viu, mas o esprito de Anal 
estava ao seu lado, inspirando-lhe 
pensamentos de calma. De sua testa 
saam raios de luz colorida que 
penetravam no frontal de Teresa, 
fazendo-a sentir-se mais forte e com mais 
coragem.  
Inspirada, Teresa apanhou uma tela em 
branco, disps o material e comeou a 
pintar. Anal sorriu e nesse instante o 
rosto angustiado de Vitrio apareceu em 
sua mente. Ela decidiu ir ter com ele.  
Encontrou-o sentado em seu quarto, 
cabea entre as mos, pensando em 
Teresa. Estava difcil aceitar o 
desaparecimento dela. O fato de Elvira 
no poder esclarecer seu paradeiro o 
deixara aflito. A dvida se ela estava viva 
ou morta reapareceu forte e 
desagradvel.  
A idia de que os seus seqestradores 
poderiam t-la matado o atormentava. 
Momentos antes, tentaram encorajar o 
pai, aparentando uma calma que no 
tinha. Osmar era o culpado de tudo. Por 
que ele no se abria com a polcia, 
contando tudo o que fizera e procurando 
ajud-los para que encontrassem e 
prendessem os traficantes, descobrindo o 
paradeiro de sua me?
Osmar no parecia importar-se com o 
desaparecimento dela e isso o deixava 
nervoso. No podia conceber que o irmo 
fosse to frio a ponto de deix-la 
entregue nas mos daqueles bandidos, 
sem que nada fizesse para tentar salv-
la.  
Continuava trabalhando na empresa como 
se nada houvesse acontecido, na 
costumeira pose de auto-suficiente, sem 
importar-se com mais nada, como se tudo 
estivesse bem. 
Naquela mesma tarde, tinha conversado 
com Paulo sobre esse assunto, aventando 
a hiptese de ir ao Rio conversar com o 
irmo para cham-lo a razo, dizendo que 
a polcia sabia dos negcios escusos que 
fizera com traficantes, que ele estava na 
lista dos suspeitos e tentar convenc-lo a 
ir espontaneamente procurar a polcia 
para contar a verdade e ajud-la a 
encontrar Teresa. 
Ele acreditava que s quando os bandidos 
fossem presos eles poderiam saber o que 
aconteceu. 
Mas Paulo pediu-lhe que no fizesse isso. 
O delegado Monteiro estava empenhado 
nas investigaes, havia traado um 
plano para a captura dos traficantes e 
essa sua atitude poderia pr a perder 
todo o trabalho deles.  
Para que o plano do delegado desse 
certo, Osmar precisava acreditar que 
Elvira no contara nada ainda e que a 
polcia ignorava sua ligao com os 
traficantes. 
Osmar acreditava que sua me no corria 
perigo porque o pior tinha acontecido e 
ela estava morta. A tragdia j tinha 
acontecido e no havia nada mais a fazer 
quanto a isso, o melhor era salvar a 
prpria pele.  
Como no recebeu mais nenhuma ameaa 
de morte dos traficantes, preferiu pensar 
que eles j julgavam que o tinham 
castigado o suficiente tendo matado sua 
me.
Anal entrou no quarto de Vitrio, 
aproximou-se dele, colocando a mo em 
sua testa com carinho e dizendo:  
- Calma, Vitrio. Eu estou aqui. No tema. 
A tempestade vai passar e tempos 
melhores viro. Confie e espere. No se 
deixe levar pelo pessimismo. Se desejar 
ajudar sua me, mantenha o pensamento 
positivo.  
Vitrio estremeceu, fechou os olhos e viu 
Anal na sua frente, sorrindo. Ouviu suas 
palavras.  
- Finalmente voc veio! Por que me 
abandonou no momento em que eu mais 
precisava de ajuda? 
- Eu nunca o abandonei. Mas h 
momentos em que a vida est agindo, ela 
tem seus motivos e ns no podemos 
intervir.  
- Estamos sem rumo. Sem saber se minha 
me est viva ou morta. Voc pode me 
dizer alguma coisa? 
- S posso lhe dizer que Teresa est viva. 
Espero que isso o anime e o ajude a no 
se envolver no pessimismo. Voc j 
deveria ter aprendido que a queixa, o 
pensamento ruim, no ajuda em nenhuma 
situao, s atrapalha.  
- Em uma situao como a que estamos 
enfrentando,  difcil manter os 
pensamentos otimistas. 
- Onde est sua f? Voc j sabe que no 
cai uma folha da rvore sem que Deus 
saiba. Na natureza tudo tem uma razo 
boa de ser. O que vocs precisam  
procurar entender o que vida deseja 
ensinar-lhes, quais as atitudes de vocs 
atraram todos esses acontecimentos.  
- Ns somos pessoas de bem. Nunca 
fizemos mal a ningum.  
- A vida deseja que vocs amaduream. 
Quando as pessoas presas em suas 
iluses demoram em entender essa 
realidade, ela coloca em seus caminhos 
fatos que os levem a refletir, a rever 
certos valores e a perceber coisas que 
antes no viam. Isso  amadurecer.  
tornar-se mais lcido e mais adulto.
- Entendo. Nesse caso, o que ser que ela 
deseja nos ensinar? 
- Essa pergunta cada um ter de fazer a si 
mesmo, porque a resposta  individual. 
Cada um ter de encontrar a sua. A vida 
trabalha sempre em benefcio de todos e 
dispes os fatos de maneira a que cada 
um encontre o que precisa.  
- Isso me parece sbio. 
- A vida  a inteligncia do criador em 
ao. H muito mais coisas que eu 
gostaria de poder lhe ensinar. Mas isso s 
poderei fazer quando voc estiver pronto 
para receber.  
- Eu gostaria muito de aprender todas 
essas coisas.  
- Nesse caso, ter de resistir ao mal, 
procurando ver sempre o lado melhor das 
coisas. Em todos os fatos, mesmo os que 
chocam pela tragdia, haver sempre o 
lado do benefcio que todos s 
reconhecero mais tarde. Portanto, 
aceitar os fatos com entendimento e 
tentar aprender o que eles querem nos 
ensinar  o primeiro passo para a 
conquista da sabedoria e da serenidade.  
- Voc pode me dizer se minha me est 
bem? 
- J lhe disse o mais importante e o que 
era possvel. Tenha pacincia. No levar 
muito tempo para que tudo se esclarea.  
- Temo pela sade de meu pai. Ele est 
um pouco doente e abatido.  
- Ele est aprendendo muito com esta 
situao. Quando tudo se normalizar, ter 
se transformado em um novo homem, 
mais humano, mais afetivo, mais 
verdadeiro.  
- Tenho notado que ele mudou muito. 
- Continue oferecendo seu apoio e 
carinho. Isso fortalecer os laos de 
amizade entre vocs dois, eliminando os 
desentendimentos de vidas passadas.  
- Sempre senti que ele no me aceitava. 
- Voc tambm no fazia nada para 
aproximar-se dele.
-  verdade. Eu sentia certa distncia, que 
desejava continuar mantendo.  
- Coisas de um relacionamento difcil no 
passado. Mas hoje, tocados pelos fatos 
recentes, vocs esto se modificando, 
tornando-se mais sensveis. O amor e a 
compaixo sempre levam ao melhor 
caminho.  
- De fato. Estou tocado de compaixo 
pelos sofrimentos dele. O relacionamento 
dele com a mame fizeram-me acreditar 
que ele era um homem frio, voltado 
apenas aos interesses financeiros. Mas 
hoje posso ver que estava enganado. Ele 
sente por minha me um amor imenso e 
verdadeiro que nunca imaginei existir. 
Descobrir isso provocou em mim um 
carinho muito grande por ele.  
- O amor verdadeiro comove e eleva. Voc 
est no caminho certo. Confie, seja 
positivo, d chance que esse sentimento o 
envolva e procure demonstr-lo. Isso os 
unir cada vez mais.  
Vitrio estava tocado por um sentimento 
de alegria e plenitude. Toda sua angstia 
tinha desaparecido.  
- Obrigado, Anal, por ter-me esclarecido. 
Sinto-me melhor e mais forte.  
- Isso mesmo. Continue cultivando esses 
pensamentos. Eles o fortalecero cada 
vez mais. Agora preciso ir.  
- Venha ver-me de vez em quando. Sua 
presena me ajuda e levanta.  
- Lembre-se de que o fato de eu no me 
comunicar no significa que esteja 
ausente. Estou sempre ligada com voc e 
esteja onde eu estiver,  como se 
estivesse ao seu lado. Sei de tudo quanto 
lhe acontece.  
- Gostaria que ficasse mais tempo comigo. 
Ao seu lado me sinto muito feliz.  
- Nossa ligao vem de muito tempo. O 
lao que nos une  forte e verdadeiro.  
-  por esse motivo que sua presena me 
encanta e emociona.
- Eu tambm gosto de estar com voc. 
Vou embora, mas prometo que um dia 
voltarei para contar-lhe coisas do 
passado, que antecederam os fatos de 
hoje, e por que eles aconteceram.  
- Isso tem me preocupado. Esse crime 
montou um quebra-cabea difcil de 
resolver. Por mais que eu tente no 
encontro a ligao entre as pessoas 
envolvidas.  
- Um dia voc saber. Adeus.  
Anal desapareceu e Vitrio suspirou, 
abriu os olhos pensativos. A presena 
dela tivera o dom de encher seu corao 
de esperana. Ela afirmara que Teresa 
estava viva e isso no momento era o mais 
importante.  
Na casa de Marlia tudo continuava igual. 
Paulo permanecia vigilante, mas at 
aquele momento no tinham recebido 
nenhuma ameaa e ele no tinha notado 
nada suspeito perto da casa.  
Entretanto, a amizade dele com a famlia 
crescia e era com prazer que depois do 
jantar sentava-se na cozinha enquanto 
Marlia e Dorita estavam trabalhando, 
preparando os quitutes com os quais 
estavam conseguindo sustentar as 
despesas. 
A procura de seus produtos crescia dia a 
dia e elas tinham contratado Estela, uma 
jovem que morava perto e estava 
procurando trabalho. 
Estela tinha vinte e dois anos, era rf de 
pai, sua me trabalhava em uma oficina 
de costura, mas o que ganhava no era 
suficiente para pagar os estudos da filha, 
que pretendia cursar uma faculdade. 
Tanto Dorita como Marlia simpatizaram 
com Estela  primeira vista e a 
contrataram como experincia, apenas 
com uma comisso sobre os produtos 
vendidos, prometendo rever a situao 
conforme pudessem. Cheia de vontade, 
Estela aceitou, afirmando que se 
empenharia no trabalho.  
Fazia trs dias que Estela estava 
trabalhando, Marlia e Dorita estavam 
satisfeitas com seu desempenho.
Chegava cedo, fazia tudo com boa 
vontade, sem escolher servio e 
permanecia at mais tarde quando 
tinham muitas encomendas para 
entregar.  
Alm disso, era uma moa alegre, bem-
humorada, que tornava o ambiente, que 
j era bom, ainda melhor. Elas 
trabalhavam rindo e Altair, que nas horas 
vagas gostava de cooperar no trabalho, 
divertia-se muito com suas histrias.  
Paulo sentia-se bem naquela casa. Altair, 
que a princpio o tratava com certa 
cerimnia, aos poucos tinha se 
aproximado mais dele, que procurava 
estimul-lo a estudar, conhecer as coisas, 
conversando, falando sobre a vida, suas 
experincias, suas viagens pelo mundo e 
suas descobertas.  
Altair ouvia-o com olhos brilhantes, cheio 
de interesse e curiosidade. Paulo 
estimulava-o, trazendo-lhe livros, 
mostrando-lhe gravuras, ensinando-o a 
olhar as coisas pelo lado melhor.  
Vendo os dois na sala, entretidos nessas 
conversas, Marlia sentia aumentar a cada 
dia sua admirao por Paulo. Otvio 
nunca tivera para com o filho esse 
carinho. Tratava-o com autoridade, sem 
se aproximar nem permitir que o menino 
se aproximasse.  
Ela adorava v-los juntos, rindo, 
conversando, como se fossem amigos h 
muito tempo e sentia que seu afeto por 
Paulo crescia a cada dia. Em certos 
momentos notava que ela a olhava com 
carinho, mas no sabia se era amor.  
Quando Otvio morreu, Marlia sentira 
alvio. A presena dele era pesada. 
Quando ele entrava em casa o ambiente 
ficava carregado, mesmo que ele no 
estivesse zangado. Por esse motivo, 
prometera a si mesma nunca mais 
envolver-se com ningum. Mas tinha de 
reconhecer que estava completamente 
apaixonada por Paulo.  
Dorita, quando a ss com ela, brincava 
dizendo que ela parecia uma adolescente, 
garantindo que ele tambm estava 
apaixonado.
- Prepare-se porque um dia desse ele vai 
se declarar - costumava dizer.  
- Bobagem sua. Ele est apenas querendo 
ser gentil.  um homem educado.  
Dorita ria alegre e meneava a cabea 
negativamente: 
- Parece que estou vendo vocs dois 
juntos e agora que conquistou Altair, 
penso que no vai demorar.  
O rosto de Marlia cobria-se de rubor e ela 
tentava dissimular, fazendo com que 
Dorita risse ainda mais.  
O telefone tocou, Dorita atendeu e 
procurou Paulo: 
- O Dr. Monteiro quer falar com voc. 
Paulo atendeu em seguida. Depois dos 
cumprimentos ele disse:  
- Prepare-se, Paulo. Ontem fizemos uma 
diligncia que deu timos resultados, 
Dentro de poucos dias teremos 
novidades. Estou fazendo um plano que 
me parece definitivo. No posso dar-lhe 
detalhes agora. Mas amanh passe aqui 
na delegacia no fim da tarde para 
conversar. Vou precisar de voc.  
- Pode esperar, irei. Acha mesmo que 
estamos para encerrar o caso? 
- Estou quase certo. Espero voc amanh.  
- Estarei a. 
Paulo desligou o telefone pensativo. 
Marlia que ouvira a conversa indagou:  
- Voc acha mesmo que o delegado est 
para encerrar o caso? J encontrou os 
assassinos? 
- Isso eu no sei. Mas foi o que ele quis 
dizer. Esse assunto  delicado e no se 
pode conversar pelo telefone.  
Marlia baixou os olhos, triste. Notando, 
Paulo indagou:  
- Parece que ficou triste. No quer que os 
assassinos de seu marido sejam presos?
Ela hesitou um pouco, depois o olhou nos 
olhos e respondeu:  
- Claro que eu quero que sejam presos, 
mas isso far com que voc tenha de ir 
embora. 
Ele aproximou-se dela, segurando seu 
brao: 
- Voc gostaria que eu ficasse mais? 
Os olhos dela estavam brilhantes, com 
lgrimas prestes a cair.  
- Sim - respondeu baixinho. 
Paulo abraou-a com carinho, levantou 
seu queixo e beijou seus lbios com amor. 
Foi um beijo longo, cheio de ternura e 
emoo.  
O corao batendo forte, Marlia 
correspondeu cheia de carinho e eles 
beijaram-se muitas vezes. Depois, ele 
disse:  
- Eu amo voc. Nunca senti por ningum o 
que estou sentindo agora. Quero que 
fique para sempre a meu lado.  
- Eu tambm o amo. No posso mais 
conceber minha vida sem voc.  
Eles beijaram-se de novo, esquecidos de 
tudo. Nem viram Dorita feliz, observando-
os, escondida atrs da porta da cozinha.                                                                                   
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 24                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


"Osmar chegou  empresa irritado. Na 
noite anterior fora a uma recepo e 
encontrara Aurlia ao lado do rival, no 
escondendo os sentimentos que nutriam 
um pelo outro. 
Apesar de tudo quanto Norberto tinha 
feito na tentativa de armar alguma coisa 
contra esse doutorzinho que cruzara seu 
caminho, no tinha conseguido sucesso. 
O homem tinha sorte demais. Contra ele 
nada dava certo. Norberto talvez no 
tivesse esse empenhado como deveria. 
Ele era bom em desviar as pessoas 
indesejveis do seu caminho. Tinha feito 
isso algumas vezes com sucesso. Por que 
com o mdico tudo dava errado? 
Sentou-se atrs da escrivaninha, abriu o 
jornal e l estavam os dois, sorridentes e 
felizes. Embaixo uma frase: "O casamento 
de Aurlia Saldanha com o Dr. Augusto 
Mendona est marcado para daqui a um 
ms. Depois do casamento, os noivos 
viajaro para a Itlia em lua-de-mel". 
Isso no poderia acontecer. Ele teria 
apenas um ms para separar os dois e 
talvez fosse melhor procurar outra pessoa 
para o servio. Em ltimo caso, faria o 
mdico desaparecer para sempre. O que 
ele no podia era permitir que ele 
roubasse a mulher de sua vida.
Naquele dia no conseguiu trabalhar. Sua 
cabea estava naquela foto e no futuro 
casamento dos dois. Uma onda de rancor 
o envolveu. Teve vontade de acabar com 
o rival com suas prprias mos. 
Imerso em seu dio, ele no percebeu 
que duas sombras escuras estavam ao 
seu lado, transmitindo-lhe pensamentos 
de dio e vingana. 
Apesar de desejar a morte do mdico, ele 
preferia que outro fizesse o servio sujo. 
Mas ao mesmo tempo no queria colocar 
outra pessoa a par do que planejava, com 
receio de mais tarde ser chantageado. 
Apesar de tudo, Norberto era de sua 
confiana, j lhe prestara outros servios 
e nunca desejara tirar proveito, alm do 
que recebera como pagamento.  
Uma das sombras colocou a mo na testa 
de Osmar dizendo: 
- Se voc no fizer nada, eles logo estaro 
casados e voc nunca a ter.  muito fcil 
tir-lo do caminho... basta querer. Voc  
forte, espere-o em uma esquina escura e 
acabe com esse sofrimento! 
Osmar no ouviu aquelas palavras, mas 
pelo seu pensamento se via esperando o 
mdico em uma esquina prxima de sua 
casa, com uma arma, pronto para atirar. 
Olhava em volta e no tinha ningum.  
Por que ele mesmo no fazia o servio? 
Assim, alm de no ter de pagar nada, 
no correria o perigo de ser trado.  
"Mas e se algum aparecer e me ver?", 
pensava. 
- Que nada, no vai aparecer ningum. Eu 
vou ajud-lo - continuou falando em seu 
ouvido o vulto escuro.  
O outro vulto aproximou-se: 
- Ele  covarde, nunca vai fazer o que 
voc quer. 
- Vai sim, Renata. Fique firme que vamos 
conseguir.  
- Esse desgraado tem de pagar pelo que 
nos fez. 
- Por causa dele morremos daquela 
maneira horrvel. Olhe para mim, veja 
meus ferimentos ainda sangram.
- Pois eu preferia encontrar aquela 
traidora que me mandou para a morte. 
No tenho nada a ver com ele. Por causa 
dela estou aqui. Veja minhas mos, elas 
ardem sem parar. Meus ferimentos 
ardem.  
- Eu morri inocente. Fui apenas o 
intermedirio da venda e tambm no fui 
pago. Osmar  o culpado. Quero que ele 
mate o homem e v preso. Ento ficarei 
ao lado dele me sentindo vingado, vendo-
o sofrer em uma cadeia imunda.  
- Pois eu preferia ficar onde Teresa est. 
- Ns tentamos, mas no conseguimos 
entrar. Ela deve ser protegida dos 
maiorais.  
- Eu no me conformo! Depois de tudo 
quanto ela nos fez! 
- Voc aceitou fazer o que ela pediu 
pensando no dinheiro que iria ganhar.  
- Claro. Nunca poderia imaginar que 
aqueles homens iriam aparecer para nos 
matar.  
- Nem Teresa sabia disso. Ela no pensou 
que voc poderia ser morta.  
- Pensou sim. Por que no quis ir ela 
mesma? Porque estava com medo. 
Pressentia que tudo aquilo poderia 
acontecer.  
Enquanto os dois conversavam, Osmar 
sentia a raiva aumentar. No conseguia 
trabalhar. Decidiu sair e procurar 
Norberto. O que no podia era ficar 
parado esperando o pior acontecer.  
Saiu e foi  procura dele. Era cedo e o 
escritrio dele ainda estava fechado. 
Osmar voltou para a empresa pensando 
em retornar mais tarde.  
 tarde, na casa de Marlia, o ambiente 
estava alegre e descontrado. Assim que 
Vitrio chegou, encontrou Marlia e Paulo 
conversando de mos dadas e pela 
fisionomia deles compreendeu que 
tinham se entendido.  
Depois dos cumprimentos disse contente: 
- Parece que o inevitvel aconteceu.
- O qu? - indagou Marlia, acanhada.  
- Aconteceu, sim - concordou Paulo, 
sorrindo e apanhando novamente a mo 
que Marlia retirara quando Vitrio 
entrou. - Ns nos amamos e pretendemos 
nos casar.  
- Parabns! - tornou Vitrio, rindo. - 
Olhando o rosto radiante de vocs sinto 
uma ponta de inveja. Gostaria tambm de 
encontrar algum para alegrar minha 
solido.  
- Voc no tem porque no quer - disse 
Marlia, que tinha ficado mais  vontade. 
- No  bem assim... 
-  jovem, tem boa aparncia e um 
grande corao. Estou certa de que logo 
vai aparecer algum para iluminar sua 
vida.  
Estela apareceu na porta e convidou-os 
para testar um bolo que ela mesma fizera, 
receita de sua av alem. 
- Acabei de tirar do forno. Quero que 
experimentem e dem uma opinio.  
muito gostoso, faz vista e no fica caro. 
D para ter um bom lucro.  
Paulo olhou para Marlia e disse: 
- Alm de tudo, Estela  uma tima 
negociante. Gostei de ver! 
- Ela  das nossas! Parece at que sempre 
estivemos trabalhando juntas.  
Conversando alegres foram  cozinha, 
onde Estela, rosto enrubescido pela 
emoo, serviu-lhes uma generosa fatia 
do bolo, cujo aspecto e odor eram 
convidativos. 
Eles saborearam satisfeitos e Dorita 
comentou: 
- Vamos coloc-lo em nossa lista de 
produtos. Ser o Bolo da Estela.  
- Isso mesmo - aduziu Marlia -, est 
muito bom. Leve, gostoso, uma delcia.  
Paulo olhou no relgio, depois comentou: 
- Est na hora de falar com o Monteiro na 
delegacia. 
Ele preparou-se para sair e Marlia 
acompanhou-o at a porta:
- Volte logo - pediu.  
Ele beijou-a levemente nos lbios e 
respondeu: 
- Talvez eu me demore. Vamos fazer uma 
reunio com Monteiro. Ele vai expor seus 
planos para o xeque-mate. Pode levar 
tempo. Mas voltarei o mais rpido que 
puder.  
- Estou rezando para que ele prenda logo 
todos esses bandidos. 
- Eu tambm. 
Enquanto isso, na cozinha, Vitrio 
aproximou-se de Estela e perguntou: 
- Ns no nos conhecemos de algum 
lugar? 
- No. Por qu? 
- Desde que a vi tenho a impresso de 
que j nos encontramos antes.  
Ela sorriu, fez um ar malicioso e 
respondeu: 
- Eu tambm me pergunto de onde o 
conheo. Estou certa de que no foi aqui. 
Ter sido em outras vidas? 
Vitrio fixou-a admirado. No esperava 
essa resposta.  
- Voc acredita que tenhamos tido outras 
vidas alm desta? 
- Eu sinto que j vivi muitas vidas antes 
desta. Sei de coisas que no aprendi 
nesta vida, que j faziam parte de mim 
quando nasci.  
- Eu tambm sinto isso. Sonho com 
minhas vidas passadas.  
- Eu sei como  isso. Nesses sonhos nos 
encontramos com pessoas conhecidas 
daqueles tempos, mas que no esto 
aqui.  
Vitrio estava admirado. Ele evitava falar 
nesse assunto por saber que muitos tm 
preconceito por ignorar essa realidade. 
Mas Estela falara com naturalidade e ele 
ficou encantado.  
Quando Marlia voltou  cozinha, os dois 
continuavam conversando e ela admirou-
se de ver Vitrio to falante. Ele sempre 
se mantinha discreto, s falando o 
essencial.
Elas voltaram ao trabalho e Vitrio 
continuou saboreando o bolo com prazer. 
Era-lhe muito agradvel ficar naquela 
casa com aquelas mulheres. Sentia-se 
muito  vontade e bem-disposto. O 
encontro com Anal proporcionara-lhe 
imenso bem. Acalmara sua ansiedade e o 
fizera notar outros lados da vida que ele 
esquecera, preocupado com a ausncia de 
Teresa.  
Agora que Anal lhe garantira que ela 
estava viva e que em breve tudo se 
resolveria, sentia-se alegre e com 
vontade de conversar. 
Observando-a notou o quanto Estela era 
graciosa e semicerrando os olhos ficou 
surpreendido com o brilho de sua aura, 
que refletia pensamentos nobres e 
bondosos. 
Reconheceu que aquelas trs mulheres 
eram muito especiais e decidiu fazer tudo 
para continuar mantendo com elas um 
relacionamento verdadeiro. 
Estela surpreendeu os olhos de Vitrio 
fixos nela, e fixou os dela nele tambm, 
momentaneamente, esquecida do que 
estava fazendo. 
Dorita cutucou Marlia e deu uma piscada 
maliciosa, chamando a ateno dela sobre 
os dois. Marlia notou e sorriu. Ela estava 
feliz com o amor de Paulo, de bem com a 
vida e desejava que todos fossem felizes 
como ela.  
- Est na hora de voc tambm, Dorita, 
arranjar um amor. 
A outra se assustou: 
- Eu?! 
- Do que se admira? Voc  muito moa 
para ficar sozinha.  
Ela riu bem-humorada e respondeu: 
- No outro dia o filho do seu Mrio, dono 
da lanchonete que fez aquela encomenda 
grande, queria sair comigo. Mas eu no 
quis.  
- Por qu? No gostou dele? 
- Sou uma pessoa ocupada. No posso 
perder tempo com namoricos.
Depois, ele era muito novo para mim. 
Estou escaldada. Minha f nos homens 
est abalada.  
Vitrio, que ouvira tudo, interveio: 
- Quero s ver a hora em que aparecer 
um homem simptico, bem-
intencionado... 
- Assim, quem sabe... - brincou ela.  
O momento era de alegria e descontrao 
e eles continuaram conversando, 
enquanto elas continuavam a tarefa. 
Paulo chegou na delegacia e foi falar com 
Monteiro. Assim que entrou, o delegado 
recebeu-o bem-disposto. Depois dos 
cumprimentos Paulo brincou:  
- Estamos prontos para o xeque-mate? 
- Tudo faz crer que sim. E o peixe que 
vamos prender  dos maiores.  
- Gil Duarte? O empresrio de fachada? 
- Esse mesmo, e seus comandados. 
Estamos preparados para acabar com 
toda a quadrilha. Mobilizamos policiais de 
trs Estados, mas a rede est pronta. 
Nenhum vai escapar.  
- E Osmar? 
- Est acuado. Apertei o Nelsinho, prometi 
ajud-lo se nos dissesse toda a verdade e 
ele cooperou. Contou-nos tudo.  
- Ele sabe o que aconteceu com Teresa? 
- No. Mas saberemos tudo assim que Gil 
estiver em nossas mos. H anos temos 
tentado prend-lo, mas ele nunca se 
deixou apanhar. Agora temos provas. 
Elvira e Nelsinho esto dispostos a 
testemunhar. Osmar tambm ser uma 
testemunha valiosa.  
- Ter de convenc-lo a falar. Ele no me 
parece fcil.  astucioso e esperto. Vai 
querer negar tudo.  
- Ele pode fazer o que quiser. Ns temos 
provas. Eu at acho que quando ele 
perceber que no lhe resta mais nada, 
tratar de tentar salvar a prpria pele. 
Abrir o jogo.
- Por que tem tanta certeza? 
- Esta manh, depois que eu falei com 
voc, tive uma visita inesperada que 
esclareceu muita coisa sobre aquele 
crime.  mais uma testemunha do caso.  
- Por esse motivo voc est to alegre? 
Quem  essa testemunha? 
- Um motorista de txi. Naquela noite ele 
levou Teresa na casa do crime.  
- No diga! Ento aquele corpo  mesmo 
dela? 
Monteiro sorriu, fez um ar de mistrio e 
respondeu:  
- No. Quem morreu foi a outra muito 
parecida com ela. Vou contar-lhe tudo. 
Hoje de manh, quando cheguei aqui, 
soube que tinha um motorista de txi a 
minha espera. Ele me disse que tinha uma 
revelao a fazer sobre o crime que 
estamos investigando, mas que s falaria 
comigo.  
Intrigado, mandei-o entrar. Quando ele 
entrou, notei que estava com muito medo 
e procurei conversar com ele para que 
ficasse mais  vontade. Perguntei seus 
dados, quando o vi mais calmo indaguei o 
que tinha a dizer e ele comeou:  
- Devo contar-lhe que estou com muito 
medo. Trabalho com txi h mais de 
quinze anos e nunca me envolveu em 
nada perigoso. Sou um homem de bem, 
pai de famlia, cumpridor de minhas 
obrigaes de cidado.  
- Sei disso. Continue por favor.  
- Desde o momento em que li as notcias 
daquele crime nos jornais tive vontade de 
procurar a polcia, mas tive muito medo 
de ser envolvido. Afinal, era um crime 
misterioso e muito cruel.  
- O que o fez vir agora? 
- O remorso. Tenho acompanhado o caso 
pelos jornais, li a entrevista do filho de 
Teresa desesperado por no saber o que 
lhe aconteceu. Minha mulher me 
convenceu a vir aqui, dizendo que eu 
poderia pelo menos dizer que Teresa 
estava viva depois daquele crime.
- Voc esteve com ela naquela noite? 
- Vou contar-lhe tudo.  
Emocionado, ele contou que naquela noite 
ele apanhou duas passageiras. Eram to 
parecidas que ele imaginou que fossem 
irms gmeas. Levou-as ao endereo 
pedido, lembrava-se da conversa delas. 
Uma chamava Teresa e a outra, Renata. 
Teresa dava as instrues para ela entrar 
na casa, entregar o dinheiro, que ele 
presumia estar em uma frasqueira, e 
voltar em seguida. Ele notou que as duas 
estavam com muito medo. Renata foi, 
entrou na casa e pouco depois chegou 
outro carro do qual desceram quatro 
homens que tambm entraram ali. Teresa 
ficou assustada e pediu que ele sasse 
dali e dobrasse a esquina. Ela desceu do 
carro e ficou espiando o que acontecia na 
casa. Assim, ele continuava seu relato:  
- Eu notei logo que tinha alguma coisa 
errada, queria ir embora e aconselhei-a a 
isso, mas ela no queria deixar a outra l. 
Vendo que os homens saram e foram 
embora, esperamos, mas a Renata no 
voltou. Ento, Teresa foi at a casa 
procur-la, mas voltou logo, dizendo que 
ela j tinha ido embora e que podamos ir 
tambm. Deixei-a em um hotel. Quando li 
o crime no jornal, imaginei que a outra 
mulher tinha sido morta. Pensei em vir 
aqui, mas o medo foi maior. Se aqueles 
homens soubessem que eu os tinha visto, 
minha vida no valeria mais nada.  
- De fato. Trata-se de traficantes muito 
perigosos. Mas ns temos condies de 
defend-lo. No precisa temer. Peo-lhe 
que no fale a ningum que esteve aqui e 
que sabe quem so os assassinos.  
- S minha mulher  que sabe do caso. 
Ningum mais. Ela tambm no vai abrir 
a boca.  
O delegado finalizou: 
- Esse taxista est  disposio. Deu o 
endereo do hotel onde deixou Teresa 
naquela noite. Mandei investigar e soube 
que ela esteve l, mas se mudou para 
outro lugar.
No sabemos onde.  
- Est se escondendo com medo dos 
traficantes. Pelo menos sabemos que ela 
est viva. Assim que souber que os 
bandidos esto presos, ela vai aparecer.  
- Se no fosse pelo Vitrio e pela Dinda, 
ns teramos enterrado essa Renata como 
se fosse Teresa, o que teria sido um 
tremendo engano. 
- Ainda resta uma pergunta: Quem ser 
essa Renata que morreu no lugar de 
Teresa, sem que ningum da famlia 
tenha ainda ouvido falar? 
- Isso a prpria Teresa poder esclarecer. 
O fato  que temos mais uma testemunha 
contra Gil Duarte e desta vez ele no 
poder se safar.  
- Qual ser o prximo passo? 
- Eu tenho um plano para prend-lo com 
todos os seus asseclas e faremos isso. 
Com base no inqurito que ontem, vamos 
conseguir uma ordem de priso para 
todos os envolvidos, inclusive Osmar. 
Depois, faremos vrias diligncias ao 
mesmo tempo. Quero apanh-los de 
surpresa.  
- Quando pensa fazer isso? 
- Se possvel esta noite mesmo. J enviei 
os documentos para o delegado do Rio de 
Janeiro e ele cumprir o mandato de 
priso contra Osmar e enviar preso para 
So Paulo.  
- Vai ser um choque para Vitrio e o pai. 
- A verdade sempre di. Infelizmente, 
nada posso fazer. O moo escolheu esse 
caminho.  
- O pai o tinha como seu melhor filho. Era 
nele que depositara todos os seus anseios 
para o futuro.  
- Quem se ilude candidata-se  desiluso. 
Paulo sorriu e respondeu: 
- Voc disse uma grande verdade. Ele se 
iludiu, acreditando que o filho fosse como 
ele gostaria, criou expectativas fora da 
realidade e, no fim, s poderia se 
desiludir.
- Os pais nunca querem enxergar os 
pontos fracos dos filhos.  
- Isso impede que eles os ajudem a 
escolher um caminho melhor. 
- Estou contente porque acredito que 
resolvemos mais um crime misterioso. 
Mas como voc sabe, s podemos "cantar 
vitria" quando todos estiverem presos. 
Vou reunir meus homens e planejar toda 
a ao. Conto com voc.  
- Claro. Estou  disposio.  
Monteiro reuniu os homens em uma sala e 
comearam a planejar cuidadosamente 
como iriam agir."
                                                                                                                      
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO

CAPTULO 25                                                                                                
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


Paulo ligou para a casa de Marlia e 
quando ela entendeu disse-lhe que 
aquela deveria ser a grande noite. Ele no 
sabia a que horas poderia voltar para l.  
_ Monteiro pediu que eu fosse com eles e 
eu aceitei. Se tudo sair como esperamos, 
dentro de algumas horas teremos 
chegado  soluo do caso.  
Marlia ficou apreensiva:  
_ Tome cuidado.  
_ Fique tranqila. No vai nos acontecer 
nada.  
_ Ficarei esperando ansiosa. S 
sossegarei quando voc estiver de volta.  
_ No tenha medo de ficar s. Vou pedir 
para o Wagner ficar no meu lugar.  
_ No quero que nada lhe acontea.  
_  bom saber que se preocupa com o 
meu bem-estar. Mas no h perigo. 
Sabemos nos defender.  
_ No me deixe sem notcias.  
_ Ligarei assim que puder. O Vitrio ainda 
est a?  
_ Sim. Ele disse que s iria embora depois 
que voc chegasse. Est ansioso para 
saber como vocs vo fazer.
_ Ele no vai gostar de saber que Osmar 
vai ser preso.  melhor eu falar com ele e 
lhe explicar tudo.  
Marlia chamou Vitrio, que atendeu 
prontamente. Paulo foi direto ao assunto:  
_ Monteiro conseguiu um mandato de 
priso para todos os envolvidos e Osmar 
est entre eles.  
Vitrio estremeceu: 
_ Ele vai ser preso? 
_ vai. No podemos evitar. Ficou provado 
que ele est metido com os assassinos e 
at que pode ter sido a causa indireta do 
crime.  
Vitrio ficou calado por alguns instantes, 
depois disse: 
_ Era isso o que eu temia. Meu pai vai 
ficar arrasado.  
_ Vou pedir ao Wagner para ficar a, em 
meu lugar, e assim que ele chegar voc 
pode ir para a casa ficar com seu pai e 
tentar preparar o esprito dele para o que 
vai acontecer. 
_ No sei como fazer isso. Ele vai sofrer 
muito.  
_ V para sua casa, ligue-se com os 
espritos amigos, pea-lhes inspirao e 
fora para superar o que vir e estou 
certo de que vai encontrar a maneira 
melhor de dar essa notcia a seu pai. 
Vitrio suspirou triste: 
_  o que vou fazer. Mas estou muito 
triste, nunca pensei que Osmar fosse 
acabar assim.  
_ Ele procurou esse caminho. Pense que 
talvez essa seja a maneira que a vida 
encontrou para faz-lo refletir sobre seus 
atos e, quem sabe, mudar o rumo da sua 
vida. Ele  moo, depois de resolver seu 
caso com a justia, mais amadurecido, 
ter chance de recomear e seguir um 
caminho melhor.  
_ Tem razo. Assim que Wagner chegar 
irei para a casa. Sei que voc vai estar 
ocupado, mas, por favor, assim que puder 
me telefone.  
_ Pode deixar. 
Paulo desligou o telefone e juntou-se  
equipe que estava se preparando para 
entrar em ao.  
Vitrio. Chegou, em casa e encontrou o 
pai na sala, lendo. Vendo-o entrar. 
Alberto fechou o livro:  
_ Eu j jantei. No o esperei porque no 
posso comer muito tarde. No me faz 
bem. Voc j jantou? 
_ No, mas estou sem fome. Na casa de 
Marlia estamos sempre comendo uma 
coisa ou outra. Tudo o que fazem  uma 
delcia.  
_ Voc no pode ficar beliscando dessa 
forma. Tem de alimentar-se melhor.  
_ Na verdade eu me alimentei muito bem. 
No se preocupe. Vou para o quarto, mas 
voltarei em seguida. Quero conversar com 
voc.  
Alberto fixou-o srio. Desde que soubera 
das atividades de Osmar ele temia ouvir 
as notcias. Sentia que chegaria uma hora 
em que seu filho teria de ser 
responsabilizado pelo que estava fazendo 
e temia esse momento. Mas como Vitrio 
no disse mais nada ele guardou silncio, 
olhando-o com ar de preocupao! 
Vitrio foi para o quarto, sentou-se na 
cama, fechou os olhos, colocou a mo 
direita na testa, procurando concentrar-
se. Pensou em Anal, pedindo-lhe que o 
ajudasse nessa hora.  
A idia de que Osmar seria preso o 
deixava triste. Naquele momento, sentiu 
que, apesar dos desentendimentos que 
sempre houve entre eles, nunca lhe 
desejara mal.  
A idia de v-lo preso, humilhado, sendo 
tratado como um bandido o fazia sofrer. 
No era s o sofrimento dos pais que o 
incomodava, mas tambm o de Osmar. 
Como ele enfrentaria a priso? 
Ele sempre fora arrogante, vaidoso, 
julgava-se superior em inteligncia e em 
tudo o mais. Como ele reagiria? 
Temia que se descontrolasse, no 
quisesse aceitar a priso, tentar fugir ou 
cometesse alguma besteira. 
Vitrio tentou reagir. Ele precisava 
controlar esses pensamentos e tentar o 
contato com os espritos iluminados. 
Sabia que s conseguiria isso se 
conseguisse entrar em uma energia 
melhor.  
Procurou entrar em seu corao, ficar no 
bem e manter um sentimento amoroso. 
Mentalizou Osmar e ento brotou uma 
ternura em seu interior, um sentimento 
de amizade por ele como nunca sentira 
antes e uma vontade muito grande de 
ajud-lo, de faz-lo compreender que 
precisava assumir seus erros, enfrentar 
os resultados de seus atos para poder se 
recuperar.  
Teve vontade de empenhar-se para 
conseguir que Osmar entendesse isso. 
Conseguiria que ele o ouvisse? 
Nesse instante, Vitrio viu o esprito de 
Anal na sua frente, olhando-o com 
carinho. No se conteve:  
_ Anal. Voc veio! 
_ Eu estava aqui mesmo antes de voc 
chegar, mas s agora voc melhorou suas 
energias e pde me ver.  
_ Quero pedir-lhe que me ajude a 
conversar com meu pai sobre Osmar. 
_ Voc colocou seu amor sobre Osmar. 
Faa isso com seu pai. Essa  sua maior 
fora. Com ela voc vencer todos os 
problemas.  
_ Eu no sabia que gostava de meu irmo. 
Ns nunca nos entendemos bem.  
_Os laos que os unem so antigos. Antes 
dos acontecimentos que provocaram seus 
desentendimentos vocs se estimavam.  
_ O afeto que estou sentindo por ele me 
surpreendeu muito. 
_ Quantos segredos ainda esto 
guardados em seu corao? Quantas 
passagens de outras vidas continuam 
influenciando vocs at hoje? 
_  verdade. Por que no me conta tudo o 
que aconteceu naquele tempo? 
_ Prometo que voltarei para contar-lhe. 
Mas ainda no  o momento. A 
tempestade continua em andamento. 
Quando ela passar, prometo esclarecer 
todas as dvidas.  
_ Ajude-me a dar a notcia a meu pai. 
Receio por sua sade.  
_ Pense nele com carinho e deixe seu 
corao falar. Estou certa de que saber 
fazer isso muito bem. V! E, no tema 
saiba que estarei ao seu lado.  
Ela desapareceu, Vitrio respirou fundo e 
pensou no pai. Uma onda de carinho o 
acometeu e ele levantou-se indo  sua 
procura.  
Uma vez na sala, sentou-se no sof, ao 
lado dele, dizendo: 
_ Precisamos conversar. 
Alberto olhou-o preocupado: 
_  sobre o Osmar? 
_. Como voc sabe, ele sempre foi 
ambicioso, desejou ter muito dinheiro, 
poder por causa disso se iludiu. No teve 
a sua pacincia. Acreditou que poderia 
conseguir rapidamente o que desejava e 
entrou em um caminho perigoso.  
Alberto suspirou triste: 
_ Foi por causa da insensata paixo que 
ele tem por Aurlia. Ela nunca o amou, 
mas ele pensou que se fosse um homem 
importante, tivesse muito dinheiro e 
poder, a conquistaria. Ele mesmo me 
disse isso.  
_ Essa iluso o arrastou para a desgraa. 
_ Traficar drogas  o que se pode chamar 
de pior. Ele no pensou na desgraa que 
estava espalhando, na dor das famlias 
que tm um viciado em casa. Passou por 
cima de tudo, alimentando sua ambio, 
esquecendo-se de todos os ensinamentos 
com os quais foi educado. Pensando 
nisso, sinto-me derrotado, fracassado 
como pai. Eu no fui capaz de perceber 
nada nem de inspirar-lhe um 
comportamento melhor. 
_ Voc no tem culpa de nada. Ele fez isso 
sozinho.  
_ Mas di muito saber que ele vai ter de 
pagar elevado preo pelo seu erro. 
Vitrio colocou a mo no brao do pai 
dizendo com voz suave: 
_ A vida vai responder a ele de acordo 
com suas atitudes. Ns que amamos no 
desejamos que ele sofra. Mas, pai, de que 
outra forma ele poderia aprender, seno 
respondendo pelo que fez? O remdio 
pode ser amargo, mas lhe dar chance de 
curar-se.  
_ Pressinto que algo ruim vai acontecer 
com ele. Voc sabe como vo as coisas? 
_ H essa hora, Paulo est com o 
delegado participando de uma diligncia 
para prender os traficantes envolvidos 
naquele crime.  
_ E Osmar est envolvido? 
_ Est. O nome dele figura com os 
traficantes e o delegado acredita at que 
Osmar involuntariamente tenha sido o 
causador dessa desgraa! 
Alberto levou a mo  cabea:  
_ Meu Deus! Ser possvel? 
_ Ele colocou Elvira naquele sanatrio 
com medo que ela contasse o que sabia 
sobre o envolvimento dele com os 
assassinos.  
_ O que vai acontecer agora? 
_ Bem, o delegado expediu uma ordem de 
priso para Osmar e nesta noite mesmo 
ele vai ser preso.  
Alberto levantou-se nervoso: 
_ Era isso que eu temia! 
Vitrio puxou-o pelo brao, forando-o a 
sentar-se novamente.  
_ No podemos perder o controle. Agora 
temos mais do que nunca enfrentar essa 
situao com coragem.  
_ Meu filho preso! Que vergonha. Ele que 
sempre foi o meu orgulho, vai ser 
humilhado, escarnecido, olhado como um 
bandido! 
As lgrimas rolavam de seus olhos e ele 
deixou-as cair, sentindo-se impotente.  
Vitrio colocou o brao sobre os ombros 
dele, dizendo: 
_ Reaja, pai. No se deixe levar pelo 
desespero. Ns temos de ser firmes, 
corajosos, olhar o que aconteceu de 
maneira realista.  
_ Nada pode ser mais real do que isso! A 
desgraa chegou e no podemos fazer 
nada contra ela.  
_ Voc est sendo pessimista. Vamos 
olhar os fatos de outra forma.  
_ Como no ser pessimista diante de uma 
situao como essa? 
_ Eu no vejo assim. Eu no estou 
contente com o que est acontecendo, 
mas prefiro olhar de forma diferente. 
Quem nos garante que a humilhao da 
priso, o sofrimento a que Osmar dever 
passar, enfrentando essa vergonha, no o 
levar a refletir melhor sobre seus atos? 
Vendo revelado um lado seu que ele quis 
ocultar, descobrir que no  to 
esperto como se julgava e chegar  
concluso de que  muito perigoso 
enveredar por esse caminho. Esse poder 
ser o comeo da sua recuperao.  
_ Ser muito doloroso. 
_ O que mais ele poderia esperar depois 
do que fez? Temos que apoi-lo com 
carinho, mas com firmeza, porque  
fundamental que ele assuma o que fez. 
Sinta o alcance de seus atos e isso no 
seremos ns que vamos fazer, mas a vida 
que j est fazendo. Faremos tudo para 
ajud-lo, porm no vamos intervir nos 
fatos que esto acontecendo, tentando 
camufla-los, torcendo-os de forma a que 
Osmar continue se iludindo.  hora da 
verdade chegou e vamos aceita-la com 
dignidade e vontade de daqui para frente 
fazer nosso melhor. 
_ Eu penso como voc. Nunca imaginei 
que me daria tanto apoio nesta hora 
difcil.  que eu no sabia que voc era 
to lcido e bondoso. No sei o que faria 
neste momento sem seu apoio.  
_ Eu estarei sempre ao seu lado. Os 
traficantes sero presos. Tenho certeza 
de que mame logo estar de volta.  
_ Como estar ela? Como reagir ao saber 
que Osmar vai ser preso? 
_ Ela foi a primeira saber sobre ele. Elvira 
contou. Mas estou certo de que ela 
tambm se juntar a ns para ajudar 
Osmar e faze-lo entender como retomar o 
caminho do bem.  
_  verdade. Isso!  bem dela. Dedicada, 
mas digna.  
_ Ns estamos sentindo muita falta dela e 
eu imagino que ela tambm sente 
saudades de ns. 
_ De vocs talvez, mas de mim... 
_ Por que duvida do amor dela? 
_ Porque eu, muitas vezes, revoltado com 
a indiferena dela, envolvi-me com outras 
mulheres, mais para provoc-la do que 
por desejo, e ela sempre soube. H muito 
tempo ela deixou de me amar, se  que 
algum dia sentiu amor por mim.  
Vitrio olhou-o srio e respondeu: 
_ Voc pode estar muito enganado. Mas 
mesmo que seja verdade o que diz! Voc 
poder tentar reconquist-la, reacender a 
chama que lhe parece extinta.  
Alberto meneou a cabea negativamente: 
_ No creio... 
_ Acredite, quando ela voltar, no perca 
tempo. Jogue seu charme sobre ela, com 
o amor que tem no corao. Estou certo 
de que ela no vai resistir.  
Alberto sorriu: 
_ Em uma hora dessas!Voc consegue me 
fazer sorrir.  
_ O que estou dizendo  verdade. Sinto 
que depois de tudo quanto estamos 
passando, merecemos um pouco de 
felicidade. 
Alberto suspirou e disse:  
- Felicidade! H quanto tempo no sei o 
que  isso.  
_ Sinto que depois do que estamos 
passando, nenhum de ns ser o mesmo. 
Todos ns estamos aprendendo e 
refletindo, percebendo emoes e 
necessidades que antes no vamos e 
jogando fora crenas inteis que 
colecionamos durante toda a vida e que 
agora sabemos que no so verdadeiras.  
_ Por que diz isso? 
_ Porque estamos amadurecendo e 
abrindo a mente, revendo nossos 
conceitos de felicidade. Voc teme que 
mame no o ame mais, porm eu penso 
o contrrio. Vocs viveram mais de trinta 
anos juntos, trocando experincias, 
vivendo momentos que hoje, diante da 
situao atual, revestem-se de outra 
conotao e so mais valorizados. Eu 
testemunhei desde que nasci o respeito 
que demonstram um pelo outro, a 
ateno, a amizade com que se tratam. 
Para mim, isso  uma forma de amor 
verdadeiro e sincero.  
Alberto cerrou os olhos, pensativo. De 
fato, se Teresa no tivera para com ele 
arroubos apaixonados como ele gostaria, 
sempre fora atenciosa, cuidando do seu 
bem-estar, tratando-o com deferncia. 
No seria essa uma forma de amor? Mas 
no era apenas isso que ele desejava. 
Queria mais.  
Durante aqueles anos sonhara em t-la 
em seus braos ardente, apaixonada, 
oferecendo-lhe todo o amor de que ele a 
imaginara capaz. Ele sentia que Teresa 
era uma mulher ardente. Por que ele no 
tinha conseguido despertar nela essa 
emoo? 
_ Eu casei com Teresa por amor. Amizade 
 um belo sentimento, mas no  o que eu 
desejava que ela me oferecesse. Nunca 
notei nela o fogo da paixo. 
Vitrio colocou a mo no brao do pai e 
respondeu:  
_ Uma intimidade de tantos anos deve 
ter-lhe dado inmeras oportunidades de 
acender nela o fogo da paixo. Alguma 
vez tentou ir por esse caminho? 
Alberto olhou-o surpreendido, pensou em 
pouco e depois tentou justificar-se:  
_ Teresa sempre foi uma mulher discreta, 
nunca conversamos sobre nossos 
sentimentos ntimos.  
_ Ser que ela no pensou o mesmo de 
voc? Ser que ela no imaginou que 
voc no a amasse o bastante e guardou 
seus sentimentos, respeitando sua 
maneira de ser? 
_ Voc acha mesmo isso? 
_ No amor  preciso ousar, falar o que vai 
do corao. No d para ficar imaginando 
coisas no comportamento do parceiro, 
sem saber se so verdadeiras, criando 
barreiras que distanciam um do outro.  
Alberto olhou Vitrio surpreendido: 
_ Como pode saber dessas coisas? Voc 
nunca se apaixonou! 
_ Para valer mesmo, no. Mas tive 
algumas paixes que logo passaram, 
mostrando que no eram para ser levadas 
a srio. Mas quando eu de fato amar 
algum, ousarei demonstrar todo o meu 
amor. O amor  contagiante. Estou certo 
de que vai atar esse fogo que voc diz.  
_ Gostaria de ver isso. Osmar no 
conseguiu nada com Aurlia. Por que 
pensar que com voc ser diferente? 
_ O que Osmar sente por Aurlia  paixo, 
no amor. So sentimentos diferentes.  
_ Como assim? 
_ Osmar gosta de Aurlia por seu porte 
altivo, o carisma e a posio social que 
ela ocupa.  o que ele deseja ter para si, e 
como no consegue, projeta seus 
sentimentos sobre ela, acreditando que 
se conquista-la ter tudo isso. Deseja 
apossar-se dela, isso  apego. O amor  
um sentimento diferente, no faz sofre. 
Se for correspondido  maravilhoso, mas 
se no for, satisfaz-se com a felicidade de 
ser amado, contentando-se em cultivar 
esse amor no corao. 
_ Acho que eu nunca senti esse tipo de 
amor.  
_ Ser que no? Depois que mame 
desapareceu; voc tem sofrido muito e eu 
notei que h em seu corao um amor 
sincero muito verdadeiro e talvez voc 
ainda no tenha se dado conta disso.  
_ De fato. Sinto muitas saudades de 
Teresa. A vida para mim tornou-se sem 
sentido com sua ausncia.  
_ O que far quando ela voltar? Vai 
continuar escondendo seus sentimentos 
ou vai mostrar-lhe o quanto  ama? 
_ Tenho medo de que ela me despreze.  
uma mulher altiva e eu sempre procurei 
mostrar-me a sua altura.  
_ Voc est enganado. Mostrar um 
sentimento sincero jamais vai provocar 
desprezo. Ao contrrio, vai tocar as fibras 
mais ntimas do corao dela. E quem 
sabe o que poder vir  tona depois? 
Os dois continuaram conversando como 
nunca tinham feito. Naquele momento 
no eram apenas pai e filho, eram dois 
homens, discutindo sentimentos de igual 
para igual, estabelecendo laos de 
intimidade indestrutveis de esprito para 
esprito.                                                     
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 26                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


Osmar chegou a casa, incomodado por 
um sentimento depressivo e angustiante. 
Ao comparecer em um restaurante 
elegante para almoar com um cliente 
importante, tivera o desprazer de 
encontrar Aurlia naquele local, 
acompanhada pelo seu rival.  
Ela estava to entretida com ele, que nem 
notou sua presena, apesar de Osmar t-
la olhado com insistncia, tentando ser 
visto.  
Ele marcara esse encontro para resolver 
um negcio importante, mas foi-lhe difcil 
concentrar a ateno no assunto, 
porquanto no conseguia desviar o olhar 
dos namorados e quanto mais olhava 
mais nervoso ficava.  
Indiferente ao que acontecia, o jovem 
casal se entretinha em demonstraes de 
carinho, sem perceber que Osmar estava 
ao lado, sofrendo, tentando conter a 
raiva, desejando prestar ateno ao que 
seu parceiro dizia, sem nenhum interesse.  
Esqueceu-se de tudo o que tinha 
planejado para fechar aquele negcio e, 
por fim, o cliente despediu-se sem 
efetivar o projeto.  
Osmar foi para a empresa, irritado. 
Durante toda  tarde. 
Continuou sentindo uma desagradvel 
sensao de fracasso que o deixou 
deprimido e inquieto.  
Ele no estava habituado a perder. No 
podia aceitar que Aurlia no lhe desse, 
ateno. Precisava fazer alguma coisa 
para acabar com aquele namoro.  
Norberto no tinha conseguido nada 
contra o mdico. Tentara de vrias 
formas, envolv-lo, armando ciladas, mas 
o rapaz era esperto e saia-se bem de 
todas elas, conservando-se neutro, no 
entrando em situaes novas.  
O Dr.Augusto Mendona sabia o que 
queria e agia de maneira firme, clara, no 
deixando um ponto fraco que Norberto 
pudesse explorar. 
Osmar no continha a impacincia. No 
era possvel existir algum que no 
tivesse um ponto fraco, ao que Norberto 
respondia:  
_ Pois ele  assim. Escorrega de todas as 
situaes com classe, sem se envolver. 
Nunca vi um cara igual a esse.  
Essa superioridade do rival deixava 
Osmar mais nervoso, levando-o a ter 
vontade de cometer uma loucura. 
Imaginava procura-lo pessoalmente na 
calada da noite e dar-lhe um tiro. H 
custo conseguia conter esse impulso.  
Nora, vendo-o entrar em casa, perguntou 
se podia servir o jantar. Ele no estava 
com fome e preferiu servir-se de uma 
bebida, depois, sentou na sala, pensativo.  
No podia tirar da sua mente as cenas 
que presenciara no restaurante: Aurlia 
amvel, acariciando o rosto do rival, 
segurando sua mo com os olhos 
brilhantes, e os beijos, que o mdico dava 
na mo dela, enquanto seus olhos se 
encontravam com amor. 
Osmar levantou-se e comeou a andar 
nervoso pela sala. Pela primeira vez 
questionou sua paixo por Aurlia. Por 
que no podia tir-la de sua cabea? Por 
que se apegara a ela que nunca lhe dera 
valor? 
Quanto mais se questionava, mais 
aumentava o medo de perd-la. Era uma 
loucura. Por causa desse amor envolvera-
se em coisas perigosas que custara a vida 
de sua me. 
No se sentia culpado pelo 
desaparecimento ou pela morte dela. 
Afinal, por que ela fora fazer aquela 
malfadada viagem sem o marido? 
Estava to entretido em seus 
pensamentos que no ouviu a campainha 
tocar. Pouco depois, Nora, toda 
assustada, introduziu na sala dois 
homens desconhecidos e s ento Osmar 
se deu conta e perguntou:  
_ Quem so os senhores, o que querem 
aqui? 
Um deles exibiu as credenciais de policial 
e perguntou:  
_ O senhor  o Dr. Osmar Borges de 
Azevedo? 
_ Sim. O que desejam? 
_ O senhor est preso e deve nos 
acompanhar at a delegacia.  
Osmar estremeceu: 
_ Preso?! Eu? Sob que acusao? 
_ Trfico de drogas.  
_ Os senhores esto enganados. No pode 
ser. Sou um empresrio, um homem de 
bem.  
_ No h nenhum engano  respondeu o 
outro. _ Temos aqui a ordem de priso. O 
senhor tem o direito de ficar calado, mas 
 obrigado a nos acompanhar.  
Osmar pensou em resistir, mas depois 
achou melhor contemporizar: 
_ Est bem. Eu os acompanho. Estou certo 
de que logo tudo ser esclarecido.  
Osmar vestiu o palet e o policial 
estendeu as algemas. Ele protestou 
assustado:  
_ No  preciso fazer isso comigo. No 
sou um bandido. Vou de boa vontade.  
_ Sinto muito, mas terei de algem-lo.  
de praxe.  
Osmar ainda tentou resistir, mas foi 
intil. Diante dos olhos apavorados de 
Nora, os policiais algemaram Osmar e o 
levaram para a viatura. 
Assustada, Nora imediatamente ligou 
para Alberto em So Paulo. Vitrio 
atendeu e ela contou o que tinha 
acontecido e finalizou chorando:  
_ O Dr. Osmar saiu daqui algemado. Estou 
com medo. Vocs precisam voltar.  
_ Acalme-se. Vou ligar para nosso 
advogado tratar do caso. Vou falar com 
papai e voltarei a ligar para voc.  
Vitrio desligou o telefone preocupado. 
Apesar de saber que isso iria acontecer, a 
notcia o abalou. Alberto, que estava ao 
lado, indagou:  
_ Aconteceu o que temamos? 
_ Sim. Osmar foi preso. Nora pediu que 
fssemos para l, ajud-lo. O que acha? 
_ Ligue para o Dr. Nunes e lhe conte o 
que aconteceu. Pea-lhe para ir 
imediatamente ver o que pode ser feito.  
melhor voltarmos para o rio hoje mesmo.  
_ Est bem. Enquanto voc e Dinda 
arrumam  bagagem, vou ligar e 
conversar com Paulo.  
Ele ligou, mas Paulo no estava. Ento se 
lembrou de que ele tinha acompanhado o 
delegado para surpreender e prende os 
traficantes.  
Desistiu de falar com ele. Tentou 
conseguir passagens de avio, mas no 
conseguiu. Apesar da vontade de Alberto 
de viajar o quanto antes, eles foram 
forados a esperar pela manh seguinte.  
Monteiro tinha feito todo um plano para 
efetuar a priso de Gil Duarte. H tempos 
seus colegas que trabalhavam na rea de 
drogas conheciam no s a periculosidade 
dessa quadrilha como o mal que eles 
causavam, distribuindo drogas no Brasil 
inteiro e no exterior.  
Mas no conseguiam provas para prend-
lo. Gil Duarte mantinha uma empresa de 
cosmticos, intitulava-se importador e 
exportador de mercadorias e sua 
documentao era legal. Contudo, a 
polcia sabia que ele era um dos maiores 
traficantes do pas. 
Monteiro unira-se aos companheiros 
dessa rea, e analisando as provas que 
possuam, conseguiram o mandato de 
priso.  
Gil freqentava um clube de futebol 
famoso onde era muito popular, e 
adorava teatro. Era figura constante na 
vida noturna de So Paulo onde 
comparecia ao lado da mulher e de dois 
seguranas.  
Ele morava em uma linda casa no bairro 
do Morumbi, cercada de muros altos, com 
uma guarita na frente da entrada, onde 
sempre ficava um dos seus homens. 
A polcia sabia que na casa de Gil todos os 
seus empregados eram homens da sua 
quadrilha e por esse motivo programaram 
prende-lo fora dali, quando sasse. 
Eles armaram o cerco sem despertar 
suspeitas no homem que vigiava a casa. 
Alguns policiais estavam  paisana e 
colocaram seus carros bem situados de 
modo a observarem tudo. Ficaram se 
comunicando pelo rdio.  
Monteiro, ao lado de outros policiais, 
esperava escondido dentro do carro com 
as luzes apagadas. Paulo estava com eles.  
A polcia queria evitar confronto, 
porquanto sabia que estavam armados e 
eram homens perigosos que no 
hesitariam em atirar para matar. 
Em silncio eles esperavam. A noite 
estava escura e a iluminao das ruas era 
fraca em razo das rvores que 
bloqueavam a luz. Passava das vinte 
horas quando o porto principal abriu e o 
carro de Gil saiu. Dois homens sentados 
na frente e o casal atrs.  
Procurando no despertar suspeitas, os 
carros saram atrs, fazendo o mesmo 
trajeto. Quando chegaram ao local que 
tinham programado, eles bloquearam o 
carro de Gil, que foi forado a parar.  
Monteiro apanhou o megafone e gritou: 
_ Polcia! Desam do carro.  
Gil abriu o vidro da janela e disse: 
_ O que est acontecendo? 
Monteiro desceu acompanhado de dois 
policiais de uniforme e aproximou-se de 
Gil, enquanto mais dois desceram do 
carro do outro lado armados, abordando o 
motorista e seu acompanhante para que 
entregassem suas armas.  
Antes que Gil pudesse reagir, Monteiro 
abriu a porta do carro e deu voz de 
priso. A operao foi muito rpida, 
apanhou o traficante de surpresa e ele 
no reagiu.  
A operao fora um sucesso, 
principalmente porque Gil no acreditava 
que pudesse ser preso e contava sair 
rapidamente daquela situao. 
A certeza de sua impunidade o impediu 
de reagir. O fator surpresa foi importante 
para que a operao policial obtivesse 
xito.  
Em vo, Gil tentou explicar a Monteiro 
que ele era um cidado honesto, um 
empresrio respeitado. Quando percebeu 
que no conseguiria convence-lo, 
comeou a exigir a presena dos seus 
advogados. Monteiro, porm, determinou 
que s, permitiria cham-los no dia 
seguinte.  
Gil queria saber qual era o motivo de sua 
priso e Monteiro lhe disse: 
_ Voc est preso por trfico de drogas e 
pelo assassinato de Otvio de Oliveira e 
uma mulher cujo nome, ainda no pode 
ser revelado. 
Gil empalideceu e a partir da decidiu no 
dizer mais nada e s falar depois de 
conversar com seus advogados. 
Monteiro comeou os interrogatrios, mas 
todos eles se fecharam e recusavam-se a 
falar. 
Era madrugada quando Paulo, cansado, 
mas satisfeito, voltou para a casa de 
Marlia. Wagner abriu a porta, Paulo 
entrou.  
_ E ento?  indagou Wagner. _ Como foi? 
_ Tudo bem. A operao foi um sucesso. 
Gil Duarte e parte de sua quadrilha est 
presa. Os outros, a polcia est 
procurando para prender. 
_ Quero saber todos os detalhes. Gostaria 
de ter ido junto.  
_ A tenso foi grande, mas no foi preciso 
dar nenhum tiro. 
_ Vamos para a cozinha. Dorita deixou 
algumas coisas para comer.  
_ Estou com fome, mas contente. Deu 
tudo certo. Osmar foi preso no Rio e j 
est a caminho de So Paulo.  
Os dois foram para a cozinha, estavam 
comendo quando Marilda apareceu: 
_ Acordamos voc!  tomou Paulo. _ 
Falamos alto demais.  
_ No foi isso. Eu estava nervosa e no 
consegui dormir.  
Paulo sorriu e abraou-a feliz: 
_ Ficou pensando em mim? 
_ Sim. Estava com medo que lhe 
acontecesse alguma coisa. A cena 
daquele crime ainda no saiu da minha 
mente.  
_ No se deixe envolver por ela. No vale 
a pena.  
_ Est difcil. Sempre que estou com 
medo ela reaparece em minha mente.  
_ Quando acontecer, procure no dar 
importncia e lembrar-se de alguma coisa 
boa para que ela v embora. As 
impresses foram muito fortes, mas 
agindo assim voc acabar por apag-las 
de sua lembrana.  
_ Eu gostaria muito. Mas, me conte como 
foi? Conseguiram prende-los? 
Paulo ia falar, mas Dorita apareceu, 
dizendo contente:  
_ Eu no consegui dormir. Ouvi que voc 
chegou e desci. Que bom que esto aqui. 
Parece que deu tudo certo! 
_ Deu mesmo. Paulo vai nos contar como 
foi  respondeu Marlia. 
Paulo contou tudo nos mnimos detalhes. 
Sentia-se feliz por terem efetuado as 
prises sem maiores problemas. E 
finalizou:  
_ Penso que at agora Gil Duarte, o chefe 
da quadrilha, no acreditou que ficaria 
preso. No esboou nenhuma reao. 
Preferiu continuar representando o papel 
de empresrio honesto, boa gente, 
personagem com o qual ele tem 
ludibriado as autoridades at hoje.  
_ Mas ele tem dinheiro, bons advogados e 
as leis oferecem muita chance de 
recursos que acabam levando  
impunidade. No h o risco de ele livrar-
se da priso?  indagou Marlia 
preocupada.  
_ Desta vez, no. Antes ns no tnhamos 
provas concretas contra ele. Agora temos. 
O testemunho de Elvira ser muito 
convincente. Depois, espero que Teresa 
aparea. Se como eu penso ela est 
escondida com medo deles, quando 
souber da priso vai sentir-se segura e 
voltar para casa. Ela tambm poder 
testemunhar contra eles. H tambm o 
motorista do txi que as levou at a casa 
do crime.  
_ Voc acha mesmo que ela est viva?  
perguntou Dorita. _ Ser que eles no a 
mataram tambm? 
_  uma possibilidade. Eles mataram 
aquela mulher pensando que fosse 
Teresa. O mais provvel  que ela esteja 
escondida com medo deles. Esta noite 
mesmo Monteiro comeou os 
interrogatrios, ele vai apertar e algum 
vai acabar falando.  
_ Quem ser a mulher que foi morta no 
lugar de Teresa?  desta vez foi Wagner 
quem fez a pergunta.  
_ Ainda no sabemos. Talvez Teresa 
tenha a resposta. Por enquanto 
precisamos esperar. Mas o pior j passou. 
Eu sinto quando um caso est sendo 
concludo. Para mim, dentro de mais 
alguns dias tudo estar resolvido.  
Eles continuaram conversando at o dia 
clarear. Depois, Paulo ligou para Vitrio 
conforme tinha prometido. 
Ele atendeu ao primeiro toque, o que 
mostrou que ele tambm no tinha 
conseguido dormir.  
_ Est tudo bem, Vitrio  disse Paulo. _ 
Deu tudo certo, esto todos presos.  
_ Como voc nos avisou, eles prenderam 
Osmar no Rio de Janeiro. Eu e papai 
queremos ir para l e saber o que est 
acontecendo. S no fomos ontem porque 
no consegui as passagens.  
_ Vocs no devem ir. Osmar est sendo 
trazido para So Paulo.  aqui que ele vai 
ter que ficar.  
_ Vou informar o nosso advogado. Voc 
compreende. Apesar do que ele fez, ns 
no podemos deixar de ajud-lo nessa 
hora.  
_ Ele vai precisar mesmo de um bom 
advogado. Eu conheo um timo 
criminalista aqui. Se desejarem, posso 
indic-lo.  
Vitrio suspirou triste e respondeu: 
_ Obrigado. Falarei com papai. Ele est 
arrasado. Mas apesar de tudo, nosso 
dever  ajudar Osmar e desejar que a 
dura lio tenha lhe ensinado alguma 
coisa melhor.  
_ Fao votos que seja assim. Saiba que 
pode contar comigo para tudo o que 
precisar.  
_ Papai vai querer ir  delegacia e falar 
com Osmar. Acha que vai ser possvel? 
_ No sei se eles j chegaram. Monteiro 
foi para casa de madrugada e deve ter 
deixado todos incomunicveis. Vocs no 
vo conseguir conversar com Osmar. Vou 
descansar um pouco e logo depois do 
almoo, se quiserem, poderei ir at l 
com vocs. Monteiro j estar na 
delegacia e tudo ser mais fcil.  
_ Est bem. Explicarei tudo a papai e 
ficaremos esperando que voc ligue para 
irmos juntos. O nosso advogado  da rea 
trabalhista e acho melhor chamar esse 
que voc disse que  bom.  
_  o mais sensato. Anote o telefone. 
Paulo deu as indicaes e desligou, 
prometendo encontrar-se com eles no 
comeo da tarde para irem juntos  
delegacia. Depois de colocar Marlia a par 
do que pretendia fazer, Paulo finalmente 
foi para o quarto de Altair dormir.  
Assim que Osmar foi levado  delegacia, 
no Rio de Janeiro, ficou sabendo que 
deveria viajar imediatamente para So 
Paulo. A fisionomia indiferente dos 
policiais, os olhares maliciosos das 
pessoas presentes na delegacia,  
insistncia de dois reprteres em 
fotograf-lo, embora ele tentasse abaixar 
a cabea, irritaram-no muito.  
Era humilhante ser tratado dessa forma, 
estar algemado, ser conduzido por dois 
policiais um de cada lado segurando seu 
brao, indiferentes aos seus sentimentos, 
como se tudo aquilo fosse normal. Aquilo 
no podia estar acontecendo com ele. 
Alguma coisa estava errada. Eles no 
podiam ter feito isso, dessa forma.  
Ao pensar que no dia seguinte suas fotos 
poderiam estar no jornal como um 
bandido, serem vistas por seus amigos e 
conhecidos, inclusive por Aurlia, ficava 
apavorado. Isso no era justo. Ele no 
matara ningum. Querer ganhar dinheiro, 
ser rico, no era crime.  
O mundo estava cheio de gente que 
enganava a justia, enriquecia e vivia 
muito bem. A culpa do que estava lhe 
acontecendo era do pai que tinha feito  
loucura de gastar o dinheiro com o qual 
ele contava para pagar aquela dvida.  
Sentado no banco traseiro, algemado, no 
meio de dois policiais, que conversavam 
entre si alegremente como se ele no 
estivesse ali, Osmar tentava encontrar 
uma forma de reverter  situao. 
Tinha esperana de que quando chegasse 
a So Paulo, o pai j o estivesse 
esperando com um bom advogado. Ele 
no pudera comunicar-se com ele para 
contar o que estava acontecendo, mais 
imaginava que Nora tivesse ligado 
relatando que ele foi preso! 
Certamente, o pai no o deixaria passar 
por esse vexame e faria tudo para libert-
lo. Ao mesmo tempo, tentava encontrar 
uma explicao para fazer o pai acreditar 
que ele era inocente. Apesar de saber que 
Alberto era muito exigente em questes 
de honestidade, contava em poder 
ludibri-lo com facilidade. Afinal, era seu 
pai, sempre o apoiara e o amava. Isso 
seria suficiente para desejar que ele no 
ficasse preso.  
O maior receio era que Nelsinho, que fora 
preso no sanatrio quando levaram 
Elvira, desse com a lngua nos dentes. Ele 
era covarde. Se o apertassem um pouco, 
no resistiria. Se ele revelasse alguma 
coisa que o incriminasse, poderia negar e 
seria sua palavra contra a dele. Claro que 
a sua teria maior credibilidade. Nelsinho 
sempre vivera  margem da Lei, enquanto 
ele era empresrio respeitado, 
conceituado.  
Quando a viatura chegou a delegacia de 
So Paulo, eles desceram e entraram. 
Osmar olhou em volta, esperando ver o 
pai, mas no o encontrou. O dia estava 
amanhecendo e s dois policiais, com cara 
de sono, os receberam.  
Eles conversaram e Osmar pediu: 
_ Tirem as algemas. Preciso telefonar.  
Um deles olhou-o como se ele estivesse 
pedindo alguma coisa impossvel e 
respondeu: 
_ Telefonar s quando o Dr. Monteiro 
chegar. 
_ Eu preciso avisar meu pai e falar com o 
advogado. 
_ No posso fazer nada. Fale com o 
delegado quando ele chegar.  
Por mais que Osmar insistisse, no 
conseguiu ser atendido. Foi levado por 
um corredor, passaram por uma porta 
onde havia dois policiais armados 
montando guarda e o levaram para uma 
cela que estava vazia. Em frente tinha 
outra onde estavam algumas pessoas 
deitadas em colchonetes e duas nas 
camas. 
O cheiro era muito desagradvel e Osmar 
conteve a respirao, tentando evitar 
senti-lo. Quando abriram  porta e o 
empurraram para dentro da cela, Osmar 
revoltou-se e gritou:  
_ vocs no podem fazer isso comigo! Eu 
sou um empresrio. Um homem de bem. 
Quero falar com meu advogado. No 
quero ficar aqui! 
Os dois policiais no responderam. 
Limitaram-se, a sorrir e a trancar a porta. 
Depois, foram embora.  
Osmar olhou a cama estreita que estava 
coberta por um cobertor pequeno e 
escuro e tinha um travesseiro, cuja 
fronha desbotada de cor indefinvel 
inspirou-lhe averso. Decidiu permanecer 
em p. Ele no se deitaria naquela cama 
grosseira e mal cheirosa.  
Os outros presos o olhavam com 
curiosidade, e Osmar encolheu-se em um 
canto, procurando ignorar aquele lugar 
horrvel. Por mais que tentasse, essa era 
a sua realidade naquele momento.  
Ele sentia-se impotente naquela hora, 
mas ainda esperava que o pai aparecesse 
e tirasse-o dali.
                                                                                                                        
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 27                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



Teresa acordou cedo e saiu para comprar 
po. Ao passar na banca de jornal 
deparou com a manchete:  
Presa quadrilha de traficantes. A polcia 
suspeita, que dois deles foram 
responsveis pelo assassinato de Otvio 
de Oliveira, e, da misteriosa, mulher, cuja 
identidade at agora no foi comprovada. 
Parabns ao delegado Monteiro e seus 
homens que com inteligncia prenderam 
essa perigosa quadrilha sem um tiro 
sequer. Pg. 3.  
Imediatamente ele comprou o jornal e at 
se esqueceu de comprar o po; voltou 
para a casa, sentou-se, e procurou a 
reportagem.  
Numa das fotos ela reconheceu Gil 
Durante e um ele seus homens; mais 
abaixo uma foto de Osmar algemado fez 
seu corao bater mais forte.  
Seu filho estava preso! Logo ele, sempre 
to altivo e orgulhoso, ali, de cabea 
baixa, envergonhado, querendo esconder 
o rosto. Apesar disso, ela o teria 
reconhecido de qualquer jeito. Leu que 
Osmar fora preso no Rio de Janeiro e 
trazido para So Paulo.  
Estava na hora de ela voltar. Procurou um 
telefone e ligou para sua casa. Nora 
atendeu e ela disse logo:  
_Nora, sou eu, Teresa. 
_ Deus seja louvado! Dona Teresa, que 
bom, a senhora est viva! 
_ Estou. Quero falar com Alberto.  
_ Aqui no tem ningum, o Dr.Alberto e o 
Vitrio esto morando em So Paulo 
desde que tudo isso comeou. Disseram 
que s voltariam para casa quando 
soubessem o que aconteceu. Todos ns 
ficamos muito preocupados com o seu 
desaparecimento e ainda essa mulher que 
apareceu, igualzinha a senhora. Foi o 
Vitrio e a Dinda que descobriram a 
verdade. Onde a senhora est? 
_ Em So Paulo. D-me o endereo e o 
telefone de onde Alberto est.  
Nora obedeceu, ela agradeceu e desligou. 
Depois ficou pensando no que fazer. 
Talvez fosse melhor preveni-los, ligar 
antes de ir at o apartamento.  
Ligou e Dinda atendeu. Teresa disse logo:  
_ Dinda, sou eu. Estou bem.  
_ Teresa! Voc nos matou de susto. 
Ningum nesta casa tem conseguido 
dormir depois daquele crime horrvel.  
_ Eu no podia voltar. Depois eu lhe conto 
tudo. Agora quero falar com Alberto. 
Osmar est preso.  
_ Foi ontem  noite. Hoje, o Sr.Alberto 
saiu cedo com Vitrio para falar com um 
advogado. Depois iria para delegacia ver 
se conseguiam falar com Osmar.  
_ Nesse caso, no tenho alternativa, irei 
agora mesmo a essa delegacia. 
_ No tem perigo aparecer l? 
_ No. Eu no fiz nada de errado. Fiquei 
escondida porque esses assassinos 
queriam me pegar. Agora que foram 
presos, no h perigo.  
_ No vejo  hora de t-la de volta!  
_ Eu tambm gostaria de estar em casa e 
que nada 
Disso tivesse acontecido. Mas ainda no  
hora de ficarmos em paz.  
_ Voc consegui, aqueles papis que 
desejava? 
_ No. Isso tambm est me 
preocupando. Mas agora no d para 
voltar atrs. Seja o que Deus quiser.  
Teresa desligou o telefone, arrumou-se o 
melhor que pde, colocou os documentos 
de Renata na bolsa e foi para a delegacia. 
O txi deixou-a na porta. Ela desceu e 
logo dois jornalistas a reconheceram. 
Aproximaram-se tirando fotos e fazendo 
perguntas.  
Sem lhes dar ateno. Teresa entrou 
rapidamente e foi falar com um policial:  
_ Sou Teresa Borges de Azevedo. Vim 
falar com o delegado.  
Um burburinho correu logo pela 
delegacia. H custo os policiais 
conseguiram afastar os reprteres, 
prometendo-lhes conseguir o que eles 
queriam mais tarde.  
Doutor Jlio, o advogado, insistia para 
falar com Osmar, mas Monteiro preferia 
que ele esperasse um pouco, porquanto 
havia trs famosos criminalistas 
insistindo para ver Gil Duarte, alegando 
que ele era inocente; Monteiro queria 
fazer um bom interrogatrio antes de os 
advogados conversarem com os presos. 
H custo conseguira tirar os trs da sua 
sala, afirmando que permitiria que eles 
vissem os presos depois de tomar as 
declaraes de todos. 
Os advogados protestavam. Queriam 
assistir a esses depoimentos e se 
recusaram a esperar. Os trs tinham 
sado para almoar e voltaram em 
seguida.  
Monteiro concordou em falar com Alberto 
e seu advogado. Estavam comeando a 
conversar quando o policial bateu na 
porta da sala do delegado, que atendeu 
com m vontade. 
_ O que voc quer? No v que estou 
ocupado? 
_ Tem uma mulher l fora que diz se 
chamar Teresa Borges de Azevedo. No  
aquela que est desaparecida? 
Antes que o delegado respondesse, 
Vitrio e Alberto saram correndo  
procura de Teresa. O delegado e o 
Dr.Jlio foram atrs.  
Alberto ia, na frente, e a viu primeiro. 
Correu para ela dizendo emocionado:  
_ Teresa, voc est viva! 
Abraou-a, e, Vitrio, cuja emoo o 
impediu de falar, juntou-se a eles no 
mesmo abrao.  
Os trs tentaram segurar as lgrimas, 
contudo no conseguiam. Abraados, eles 
no encontravam palavras para expressar 
o que sentiam, recordando o que tinham 
sofrido, temendo que nunca mais fossem 
se encontrar.  
Aquele era o momento to desejado. Eles 
sentiam a fora do sentimento que os 
unia.  
Monteiro esperou que eles se 
acalmassem. Alberto, abraado a Teresa, 
indagou preocupado:  
_ Como voc est? 
_ Muito feliz por poder voltar para a casa, 
mas ao mesmo tempo preocupada com o 
Osmar e tudo quanto nos aconteceu.  
Monteiro aproximou-se: 
_ Sei que esto muito emocionados, mas 
eu preciso conversar com a senhora. H 
muitos pontos obscuros que pretendo 
esclarecer. Sei que s a senhora vai poder 
fazer isso.  
Teresa tentou controlar a emoo. Ela no 
queria mais ficar guardando coisas do 
passado que s lhe trouxeram 
infelicidade. Tinha refletido muito e 
chegara  concluso de que se ela tivesse 
sido sincera, contado tudo a Alberto, teria 
evitado aquele crime e, pelo menos, 
Renata no teria morrido daquela 
maneira cruel. 
Sua omisso custava uma vida e isso lhe 
pesava na conscincia, embora nunca 
tenha imaginado esse desfecho to triste.  
_ Estou a sua disposio, doutor_ 
respondeu _ Vou contar-lhe tudo o que 
sei. Desejo colaborar para que esses 
assassinos fiquem presos durante muito 
tempo. Quero ver Osmar, espero que o 
senhor permita.  
_ Ele juntou-se a perigosos traficantes. 
_ Eu sei. E desejo que ele arque com as 
conseqncias, dentro da Lei. Vai doer 
muito, mas pretendo convenc-lo a deixar 
esse triste caminho.  
Pelos olhos de Monteiro passou um brilho 
emotivo que ele procurou esconder ao 
responder: 
_ Estou certo de que a senhora ter fora 
bastante para reconduzi-lo  dignidade. 
Vamos para a minha sala, tomar o seu 
depoimento.  
Todos acompanharam Monteiro que, na 
porta de sua sala, disse: 
_ A senhora pode entrar com o advogado. 
Os outros ficaro esperando do lado de 
fora.  
Alberto protestou, mas foi forado a 
obedecer. Tanto ele quanto Vitrio! 
Desejavam ouvir o que Teresa tinha para 
contar. Mas o delegado foi categrico:  
_ S ela e o advogado.  
Eles entraram e a porta se fechou. Dois 
policiais ficaram do lado de fora! Vitrio 
foi telefonar para a casa de Marlia para 
dar a boa notcia. Paulo ficou satisfeito 
com a novidade e prometeu que logo mais 
passaria na delegacia. No era mais 
preciso vigiar a casa. O perigo tinha 
acabado.  
Monteiro pediu a Teresa que se sentasse 
diante dele, o escrivo estava  direita e 
o Dr.Jlio  esquerda. Tudo pronto, 
Monteiro comeou a fazer as perguntas.  
Teresa comeou a falar, procurando no 
se esquecer 
De nenhum detalhe. Durante aqueles dias 
de reflexo, ela tinha decidido que se 
conseguisse voltar para casa, dali para 
frente sua vida seria um livro aberto.  
No queria nenhum segredo. Ela tinha 
agido errado e era justo que arcasse com 
as conseqncias. No teria moral para 
exigir do filho o mesmo comportamento 
se ocultasse seus erros.  
Teresa desejava ser verdadeira, sentindo 
que esse era o caminho para recuperar 
sua dignidade. Se sua famlia a 
condenasse ela teria de conforma-se e 
seguir seu caminho. O mais importante 
era sentir-se bem diante da prpria 
conscincia.  
Por esse motivo, comeou seu relato 
contando a paixo que tivera depois do 
casamento. No se poupou, foi o mais 
verdadeira que pde, emocionando os 
presentes com sua sinceridade.  
Depois, contou sobre a chantagem; a 
venda das jias; seu encontro com Elvira; 
a idia da viagem, passando antes por 
So Paulo para entregar o dinheiro a 
Otvio em troca dos papis e das fotos 
que a comprometia; a surpresa do 
seqestro; a descoberta de que Osmar 
mantinha negcios com traficantes; a 
carta que ela foi forada a escrever para o 
filho e por que Elvira foi levada com a 
carta. 
Falou sobre o medo de ser morta por ter 
visto o rosto deles e poder identific-los, 
a vontade de fugir e como conseguiu 
escapar. 
Monteiro ouvia atentamente, admirando a 
coragem dela, que falava com voz firme, 
expondo os fatos com clareza. Teresa 
prosseguiu, contando como chegou ao 
centro da cidade, hospedou-se em um 
hotel para pensar no que fazer. Como 
ficou sabendo que l havia uma hspede 
muito parecida com ela a ponto de as 
pessoas, confundirem as duas.  
A essa altura, Monteiro no se conteve: 
_ A senhora nunca tinha visto essa 
mulher? 
_ No, nunca. Para mim era uma 
desconhecida, mas o fato chamou minha 
ateno e quando fui ao refeitrio 
almoar, eu a vi e me aproximei. Ela ficou 
surpresa, disse-me que eu era igualzinha 
sua me. Ficamos trocando informaes 
sobre nossa descendncia e descobrimos 
que no tnhamos nenhum lao de 
parentesco. Ela pediu que eu sentasse em 
sua mesa para almoar, ficamos 
conversando.  
_ Quem era essa mulher? 
_ Renata contou que era brasileira e foi 
morar na Espanha, onde se casou. Viveu 
l durante vinte anos. Divorciou-se e 
desiludida com o casamento voltou ao 
Brasil. Havia chegado no dia anterior, 
com pouco dinheiro e precisava trabalhar.  
Teresa continuou contando que no sabia 
do paradeiro de Elvira, mas supunha que 
ela estivesse livre dos traficantes. Por ter 
fugido dos seqestradores estava com 
medo de ir entregar o dinheiro ao 
chantagista. Ofereceu dinheiro a Renata 
para ir em seu lugar, certa de que no iria 
desconfiar, uma vez que se pareciam! 
Isto resolvido, elas iriam para a Europa e 
depois que voltassem, ela conseguiria um 
emprego na empresa do marido. Renata 
aceitou.  
A voz de Teresa s tremeu quando ela 
comeou a contar que ambas tomaram 
um txi, ela, envolta em um xale que 
usava sempre quando saa a rua para no 
ser reconhecida, Renata, segurando a 
frasqueira, onde ela colocara o dinheiro. 
Quando chegaram ao endereo indicado, 
Renata entrou na casa e ela ficou 
esperando no txi. Pouco depois ela viu 
chegar outro carro e os seus 
seqestradores desceram e tambm 
entraram na casa. Teresa ficou com muito 
medo, pediu para o txi afastar-se e 
parar na esquina. O motorista do txi 
queria ir embora, porm ela insistiu que 
no podia deixar a amiga sozinha. Eles 
viram quando os homens foram embora. 
Ela esperou um pouco e, como Renata 
no. 
Voltava, caminhou at a casa ver o que 
havia acontecido.  
Teresa fez uma pausa. Sua voz morreu na 
garganta e ela estava muito plida. O 
delegado deu-lhe um copo de gua, 
esperou que ela tomasse alguns goles, e 
pediu:  
_ Continue.  
_ Bem, eu entrei e a sala estava escura. 
Eu vi uma luz na outra sala e fui at l. 
Queria ver se encontrava Renata, mas o 
que vi quase me fez desmaiar. Ela estava 
na cama, morta, ao lado de um homem. 
Minhas pernas tremeram e voltei  sala. 
Apesar de muito nervosa, lembrei-me dos 
papis que me comprometiam. Tentei 
encontra-los. Abri algumas gavetas, mas 
no os achei. Eu estava muito nervosa.  
possvel que eles estivessem l, uma vez 
que iam ser entregues aps o pagamento. 
Mas eu no estava em condies de ver 
nada. Tremia, sentia que estava perdendo 
as foras. Sa de l correndo, deixei a 
porta encostada. Cheguei no, txi e disse 
ao motorista que minha amiga j havia 
ido embora. No sei se ele acreditou.  
_ Ele nos procurou e j fez seu 
depoimento. Quando ele leu nos jornais a 
notcia do crime, desconfiou da verdade.  
_ Depois disso, tive mais medo ainda que 
eles me encontrassem. Eles tinham 
levado meus documentos para provar a 
Osmar que eu estava em poder deles. Eu 
fiquei sem documentos. Para o hotel eu 
tinha usado meu passaporte. Ento tive a 
idia de usar a identidade de Renata. Eu 
estava sem roupa, minha bagagem e a de 
Elvira tinham ficado com os traficantes. 
Eu comprei dois vestidos, mas era pouco. 
Eu sabia que Renata no voltaria. Assumi 
a identidade dela, tentei igualar meus 
cabelos com os dela e usando seus 
documentos, instalei-me primeiro em 
outro hotel, perto do aeroporto. Naquele 
momento eu estava muito aflita sem 
saber o que estava acontecendo com 
minha famlia.  
_ Porque no os procurou? Eles estavam 
angustiados. Seu marido adoeceu. 
_ Eu tinha medo de que se os traficantes 
soubessem que tinham matado a mulher 
errada, eles se voltassem contra Osmar e 
o matassem. Eu queria que eles 
pensassem que aquele corpo era o meu.  
Teresa contou como alugara a pequena 
casa e que quando lera os jornais, 
relatando a priso dos traficantes, 
entendeu que era hora de voltar. E 
finalizou:  
_ Foi um tempo em que no vivi. Todos os 
minutos eu questionei meu passado, 
meus enganos, os problemas que minhas 
atitudes trouxeram a mim e a minha 
famlia. Sinto culpa pela morte de Renata. 
Ao pedir-lhe que fosse em meu lugar 
estava longe de imaginar que aqueles 
homens iriam fazer o que fizeram. J 
refleti muito sobre isso e cheguei  
concluso de que foi o destino quem 
colocou aqueles homens perversos 
naquela casa naquela hora. Penso que 
eles no tinham nada a ver com meu 
envolvimento com o chantagista. Nem 
sabia que se conheciam. No sei o que se 
passou l. O que sei  que Renata no 
conhecia nenhum deles, nunca foi amante 
do homem que morreu a seu lado. No 
consigo entender por que aqueles 
homens apareceram l exatamente 
naquela hora. Se tivessem chegado 
alguns minutos depois, ela teria 
entregado o dinheiro, apanhado os 
documentos e sado. Nada disso teria 
acontecido.  
Teresa se calou, tomou mais alguns goles 
de gua e Monteiro ficou pensativo, 
alisando o queixo, tentando imaginar por 
que eles teriam praticado aquele crime 
to cruel. 
Depois de alguns minutos ele disse 
- Eles mataram Renata acreditando que 
fosse a senhora que os desfiou tendo 
fugido. Eles no perdoam uma coisa 
dessas.  demais para o orgulho deles.  
_ Como eles poderiam saber que eu 
estaria l naquela hora? 
_ Isso eles vo ter de nos dizer. O que 
sei,  que Otvio, era o homem que a 
chantageava era intermedirio dos 
negcios de droga. Ele agenciava 
compradores para as partidas de droga 
de Gil Duarte. Pode ser que ele tenha 
aparecido naquela hora por outro motivo, 
sem saber que a senhora ou sua ssia 
estariam l. Mas por alguma razo eles 
estavam com muita raiva de Otvio. A 
forma como o agrediram foi feroz.  
O escrevente apresentou o depoimento, o 
advogado leu e Teresa assinou. Depois, o 
delegado disse:  
_ A senhora pode ir, mas ter de depor 
como testemunha contra os traficantes.  
_ Pode contar comigo, doutor. Gostaria de 
ver meu filho.  
_ A senhora vai v-lo, o Dr. Jlio tambm. 
Gostaria que lhe dissessem que ele pode 
melhorar suas condies diante da Justia 
se contar tudo o que sabe. Lamento dizer 
que localizamos um depsito de drogas 
do Dr. Osmar. Seu cmplice, Nelsinho, 
levou-nos at l. Havia muita cocana e 
essa mercadoria foi comprada do Gil 
Duarte e no est totalmente paga. Essa 
foi  causa de eles irem  procura de 
Otvio e terem seqestrado a senhora.  
Nos olhos de Teresa apareceu o brilho de 
algumas lgrimas, mas ela controlou-se e 
respondeu com uma voz que procurou 
tornar firme: 
_ A Justia vai cobrar de Osmar o que ele 
deve.  justo. Mas meu  inteligente. 
Espero que ele reflita e perceba todo o 
mal que fez a si mesmo quando escolheu 
esse caminho.  
Monteiro deu por terminado o 
interrogatrio e Teresa saiu, 
acompanhada pelo advogado. Alberto e 
Vitrio a rodearam ansiosos.  
_ E ento?_ indagou Alberto 
Foi o Dr. Jlio quem respondeu:  
_ O depoimento de D.Teresa foi claro e 
contundente. 
Ela contou tudo de maneira muito 
coerente. Eu no teria aconselhado 
melhor senti que o delegado ficou bem 
impressionado com a forma que ela se 
comportou.  
_ Eu disse o que sabia.  tornou Teresa, 
com naturalidade, continuando: _ Ns 
vamos ver Osmar agora? 
_  isso o que todos queremos. Ele deve 
estar nervoso, sem saber que estamos 
aqui  tornou Alberto.  
_ Ele est preso desde ontem  noite  
esclareceu Dr. Jlio. _ Monteiro no tem 
como nos impedir de v-lo. J teve tempo 
de sobra para interrog-lo sozinho. Vou 
pedir que nos levem a ele agora.  
O advogado afastou-se e Vitrio disse, 
alisando o brao da me: 
_ Ainda bem que voc voltou. Est mais 
magra, deve ter sofrido muito, mas agora 
estamos juntos e vamos vencer os 
obstculos.  
_ O maior obstculo ser enfrentarmos 
nossos medos  disse Teresa, pensativa. 
_ Quem confia na vida sabe que todos os 
acontecimentos, mesmo os ruins, so 
para nos ensinar a achar um caminho 
melhor  respondeu Vitrio. 
_ Tem razo, meu filho. Eu sofri, mas 
amadureci. Aprendi muito durante esse 
tempo.  
Alberto a olhava com ternura, mas em 
seus olhos havia certo receio. Percebia 
que Teresa estava mudada. Estava mais 
humana, perdera o ar distante dos 
ltimos tempos. Em que essa mudana 
influenciaria suas vidas? Teria ela 
refletido e chegado  concluso de que 
no valia mais a pena levar adiante um 
casamento sem amor? 
A esse pensamento Alberto sentia um 
aperto no peito e uma vontade muito 
grande de lhe perguntar, mas ao mesmo 
tempo temia ouvir a resposta.  
No momento, eles estavam preocupados 
com Osmar, esse assunto ficaria para 
mais tarde, quando pudessem pensar nos 
dois, sem o peso da condenao de Osmar 
que certamente viria.  
Doutor Jlio voltou, acompanhado por um 
policial, e informou: 
_ O Dr. Monteiro pediu para irmos a uma 
sala onde encontraremos o Dr. Osmar. 
Com o corao aos saltos, eles 
acompanharam o policial at a sala 
indicada. 
Teresa, emocionada, no via a hora de 
abraar o filho. Alberto procurava conter 
a emoo. Ele, que sempre condenara as 
manifestaes emocionais, temia no 
poder conter o pranto diante do filho. 
Vitrio era o mais sereno e lcido. Ele 
pretendia fazer o irmo sentir o carinho 
que nutria por ele, apesar dos 
desentendimentos que tiveram e dos 
erros que ele cometera.
                                                                                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



CAPTULO 28                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO



Eles entraram na sala. Osmar estava em 
p, olhando impacientemente para a 
porta. Assim que os viu entrar, disse 
nervoso.  
_ Ainda bem que vieram. Pensei que 
tivessem me esquecido. Eu quero sair 
daqui o quanto antes.  
Teresa aproximou-se dele dizendo:  
_ No est surpreso em me ver?  
_ No. A pouco quando me disseram que 
voc tinha voltado no acreditei. Estou 
vendo que era verdade.  
Teresa abraou-o com carinho:  
- Eu fiquei muito preocupada por voc 
desde que soube que tipo de negcios 
voc havia feito. 
Osmar no correspondeu ao abrao. 
Estava nervoso e impaciente demais: 
_ Trouxeram um advogado para tirar-me 
daqui? 
_ Este  o Dr.Jlio Alcntara. Ele vai 
cuidar da sua defesa  esclareceu 
Alberto. 
_ Ainda bem. O Dr.Nunes no fez nada.  
um incompetente.  Voltando-se para o 
Dr.Jlio ele continuou: _ O senhor precisa 
me tirar daqui hoje mesmo. Passei uma 
noite horrvel, quero voltar para casa. 
Teresa deixou os braos cair e olhou para 
o advogado. 
Alberto e Vitrio fizeram o mesmo. Eles 
sabiam que seria impossvel tirar Osmar 
da cadeia.  
Doutor Jlio olhou firmemente nos olhos 
de Osmar e respondeu: 
_ Antes de tudo voc precisa se acalmar. 
Sei como se sente. Mas acontece que voc 
cometeu um crime grave, inafianvel. 
No h como conseguir libert-lo por 
enquanto.  
_ No posso acreditar! No consigo ficar 
aqui. O lugar  horrvel. O senhor deve 
poder me tirar daqui.  
_ Infelizmente, no momento no posso. 
Portanto, trate de se acalmar, e aceitar 
que vai precisar ficar aqui certo tempo. 
Enquanto isso! Vou ver o que posso fazer.  
_ Meu pai vai pagar o que for preciso. No 
acredito que vai deixar-me ficar preso no 
meio de marginais.  
Desta vez foi Alberto quem respondeu: 
_ Foi voc quem se marginalizou, 
comercializando drogas. No foi isso que 
eu lhe ensinei. Voc veio pra c sozinho, 
com os prprios ps.  
_ Voc  meu pai! Deve me ajudar a sair 
daqui.  
_ Voc  meu filho, muito amado. Sabe o 
quanto eu o estimo. Estou aqui para 
ajud-lo. Contratei um dos melhores 
advogados do pas. Mas somos obrigados 
a obedecer s leis. E para voc sair daqui 
ter de prestar contas a elas.  
Osmar passou a mo nos cabelos, 
inconformado: 
_ No acredito que no tenha um jeito de 
me libertar. Aquele delegado 
incompetente est exorbitando. Trouxe-
me para c algemado, como um 
criminoso.  
Doutor Jlio olhou-o srio e disse, 
frisando bem as palavras: 
_ Voc cometeu um crime. Perante a Lei  
um criminoso. Renda-se a essa verdade. 
De nada vale tentar fugir  
responsabilidade.  
Osmar olhou-os resignado. Depois, 
voltou-se para Alberto dizendo com raiva: 
_ Trate de arranjar outro advogado que 
tenha interesse em defender-me. Este 
mais parece um acusador.  
_ Voc  que ainda no entendeu o 
tamanho do problema em que se meteu. 
Aconselho-o a ouvir o que o Dr.Jlio tem a 
dizer e seguir sua orientao. Ele sabe o 
que est dizendo e eu confio nele.  
_ Osmar, pense bem. - disse Teresa -, 
todos ns estamos aqui para ajud-lo. 
Mas se voc no aceitar que errou vai 
agravar sua situao.  
_ Eu errei sim, mas o mundo est cheio de 
pessoas que fazem o que eu fiz e esto 
livres, usufruindo o dinheiro que 
conquistaram. Eu tive a infelicidade de ter 
sido descoberto. O culpado  Vitrio que 
arranjou aquele advogado metido a 
policial para complicar tudo. Foi ele quem 
mandou me seguir e descobriu tudo.  
Vitrio, que estivera em silncio at 
ento, disse: 
_ Quando contratei o Dr.Paulo nunca 
imaginei que voc estivesse metido com 
os traficantes. Foi uma triste surpresa, 
mas no me arrependo. Graas a ele 
esses criminosos foram presos e 
impedimos de cometer outros crimes.  
_ Voc deve estar feliz por eu estar aqui, 
preso. Sempre me invejou e no se 
conforma em saber que eu sou mais 
inteligente e mais esperto do que voc.  
Vitrio olhou firme nos olhos de Osmar e 
respondeu: 
_ Voc est enganado. No estou feliz por 
voc estar preso, gostaria que nunca 
tivesse se envolvido com esses bandidos.  
_ Pare com isso, Osmar. Estamos 
perdendo um tempo precioso  interveio 
Alberto com voz firme. _ No vejo em que 
voc  mais inteligente e esperto do que 
todos ns que sempre escolhemos o 
caminho da honestidade.  bom que se 
conscientize de uma vez por todas do que 
fez, assuma sua responsabilidade e se 
disponha a cooperar com a polcia para 
que este caso seja definitivamente 
esclarecido.
_ Seu pai tem razo  tornou Dr.Jlio. _ 
Voc  ru primrio, se cooperar com a 
polcia, contar tudo o que sabe, ter 
pontos a seu favor, o que abrandar sua 
pena.  
_ O senhor no entendeu. Eu no quero 
ficar preso.  
_ Essa sua atitude pode prejudic-lo 
muito. Revoltar-se s vai piorar a 
situao. Se continuar assim, eu desistirei 
do caso. No posso defender um cidado 
culpado que teima em negar esse fato.  
Teresa olhou-os preocupada e sugeriu: 
_ Penso que Osmar precisa de mais 
tempo para refletir sobre o que fez. Ainda 
no percebeu o tamanho do problema em 
que se meteu. Todos ns estamos 
cansados, nervosos. Vamos embora, 
descansar, enquanto ele reflete melhor. 
Amanh voltaremos para tentar 
conversar.  
_ No podem fazer isso! No quero passar 
nem mais uma noite aqui.  
_ Teresa tem razo. Vamos para casa e 
amanh voltaremos. Espero que voc 
esteja calmo  aduziu Alberto.  
Embora Osmar protestasse, eles deixaram 
 sala e foram conversar com Monteiro. 
_ No pensei que Osmar reagisse dessa 
forma  queixou-se Alberto. _ Ele no 
est arrependido e sequer percebe o 
tamanho da bobagem que fez.  
_ Assim fica difcil ajud-lo  disse 
Teresa, triste. 
_ A senhora teve uma boa idia. At 
ento ele estava escorado na idia de que 
quando o pai chegasse, ele seria libertado 
 declarou Dr.Jlio.  
_ Nesses casos alguns dias de priso 
podem ser um bom remdio  disse 
Monteiro. _ Ele ainda pensa que o 
dinheiro pode tudo e que vai dar um jeito 
de ludibriar a Lei. Mas houve o crime, 
duas pessoas foram barbaramente 
assassinadas. Embora ele no seja 
diretamente culpado pelo crime, de certa 
forma envolveu-se, envolvendo tambm a 
famlia. Alm disso, ele mantinha um 
depsito com drogas que consta do 
inqurito, com as devidas provas! 
_ Sei que ele deve ficar preso, mas eu 
gostaria que ele pudesse ficar em um 
lugar melhor. Tem formao universitria 
o que lhe d esse direito  pediu Alberto.  
_ Por esse motivo o colocamos em uma 
cela individual. Infelizmente, nesta 
delegacia no temos como fazer 
diferente. Dentro de alguns dias ele ser 
transferido para um presdio, enquanto 
aguarda julgamento, ento talvez fique 
um pouco melhor.  
_ No estou pedindo isso para poup-lo. 
Reconheo que ele deve responder pelo 
que fez  disse Alberto, triste.  
Ao que Monteiro respondeu: 
_ Compreendo. Ele  um moo fino que 
sempre viveu com conforto. Mas garanto 
que alguns dias em uma cela vo faz-lo 
pensar melhor no que perdeu quando 
escolheu esse caminho. Tambm fico 
penalizado em ver um jovem que tem 
tudo para ser livre e feliz, entrar no 
mercado das drogas. Se posso ajudar de 
alguma forma, aconselho-os a no 
amolecer. No voltar a v-lo at que ele 
mude de idia e peo que vocs voltem! 
Inclusive o advogado.  
_ Vai ser difcil, mas penso que o senhor 
est certo. Por mais que estejamos 
sofrendo, a melhor forma de ajud-lo  
fazer com que ele finalmente perceba o 
alcance dos seus atos  disse Teresa.  
_ Vamos para casa  decidiu Alberto. 
Depois, dirigindo-se ao Dr.Jlio pediu: _ 
Espero que o senhor no desista de 
defend-lo.  
O advogado sorriu e respondeu: 
_ No penso em fazer isso. Um pouco de 
teatro s vezes ajuda a chegar onde 
queremos.  
Depois de se despedirem, Teresa Alberto 
e Vitrio deixaram  delegacia. Alberto 
queria ir para casa, mas Teresa lembrou-
se de que suas coisas estavam em outra 
casa.  
_ Voc pode fazer isso amanh  disse 
Alberto. 
_ Est bem. Ns temos muito que 
conversar antes de eu ir.  
Alberto sentiu um aperto no peito. Teresa 
teria vontade de separar-se dele? Era isso 
que ela estava pensando? Que, segredo, 
ela guardava que a fizera aceitar a 
chantagem e quase perder a vida? Ele 
sentia que o momento da verdade tinha 
chegado e temia que lhe trouxesse a 
separao.  
Assim que entraram no apartamento, 
Dinda correu para abraar Teresa e notou 
logo que ela estava diferente. Tinha 
emagrecido, mas, apesar da situao 
complicada, seus olhos brilhavam de 
prazer por estar de volta.  
Vitrio sentia-se feliz. Teresa estava em 
casa e para ele era o mais importante.  
_ Temos de conversar  disse Teresa. _ 
Durante os dias em que estive 
impossibilitada de voltar para casa, 
pensei muito a respeito de nossas vidas.  
_ No precisa falar nada agora  interveio 
Alberto. _ Estamos cansados, 
preocupados com Osmar.  
Ela no lhe deu ateno e continuou: 
_ Nos ltimos tempos ns no ramos 
felizes. Voc, Alberto, estava nervoso, eu, 
depressiva. Vitrio fechado no quarto, 
Osmar entrando pelo caminho do erro 
sem que cada um de ns, perdidos em 
nossas divagaes ntimas, 
percebssemos. Nossa famlia estava 
dispersiva, sem rumo, cada um dentro do 
prprio egosmo. Foi preciso que a vida 
nos sacudisse para que pudssemos 
perceber isso.  
Eles ouviram calados, sentindo que cada 
palavra dela era verdade. Teresa 
continuou:  
_ Vamos nos sentar e conversar agora.  
Eles se acomodaram e Dinda fez meno 
de retirar-se, porm Teresa pediu: 
_ Fique, Dinda. Voc faz parte de nossa 
famlia.  
Eles se acomodaram. Teresa no sof 
tendo de um lado o marido e do outro o 
filho. Dinda sentou-se na poltrona ao 
lado. Teresa comeou a falar, os olhos 
perdidos no tempo, relembrando seu 
casamento, como apesar de no amar 
ardentemente o marido ela acreditava 
que com o tempo, eles se entenderiam e 
poderiam ser felizes.  
Alberto ouvindo-a, se sentia ansioso. Por 
um lado estava curioso para saber por 
que ela mentira e que segredo era esse 
to terrvel que a famlia no podia saber, 
mas por outro temia ouvir essa verdade 
que talvez o separasse. Ele no queria a 
separao. Aqueles dias em que ela 
estivera desaparecida tinham lhe 
revelado o quanto ele ainda a amava e 
desejava estar com ela.  
Teresa continuava: 
_ Refleti muito e percebi que a felicidade 
 uma conquista renovada a cada dia. 
Descobri o quanto eu amava meu marido, 
meus filhos, nossa casa, nossa vida e o 
quanto eu havia contribudo para nossa 
infelicidade. Eu era inexperiente, cheia de 
iluses. So elas que nos cegam e nos 
impedem de enxergar o que realmente 
tem valor nessa vida.  
_ No  verdade  disse Alberto -, voc 
sempre foi uma boa esposa, uma 
excelente me. Eu  que fui cego, deixei-
me envolver pelo cime, pelo orgulho e 
fiz o que no devia.  
Teresa colocou a mo sobre o brao de 
Alberto e respondeu: 
_ No  assim que eu vejo e peo-lhe que 
me escute sem tentar culpar-se pelos 
nossos desentendimentos. 
Quando em relacionamento no vai bem, 
cada um tem sua parcela de 
responsabilidade. 
Vitrio remexeu-se no sof e tornou: 
_ Vocs esto falando de seus 
sentimentos ntimos. 
Talvez seja melhor eu me retirar.  
Teresa segurou a mo do filho e 
respondeu:  
_ Quero que voc fique e escute tudo. 
No haver mais nenhum segredo entre 
ns. Quero que vocs me conheam por 
dentro, como eu realmente sou. Uma 
mulher comum, com muitas qualidades, 
mas tambm muitos pontos fracos. Todos 
estes anos ns representamos papis 
convencionais, sufocando os anseios de 
nossa alma que, presa em iluses 
superficiais, no soube separar os 
sentimentos verdadeiros dos falsos. S 
quando acreditei que tinha perdido tudo 
consegui esse entendimento.  
Teresa se calou por alguns instantes, 
enquanto os outros trs, tocados pelo seu 
tom de sinceridade, permaneceram 
silenciosos. 
Ela respirou fundo! E continuou:  
_ Peo-lhes que no me interrompam. O 
que vou lhes contar no vai ser fcil para 
mim. Ouam e depois que eu terminar, 
coloquem seus pensamentos.  
Teresa relatou como conhecera Antero e 
como se apaixonara por ele, salientando 
que foi algo irresistvel e como ela lutou 
para no se envolver. Alberto e Vitrio 
ouviam de cabea baixa e Dinda rezava, 
com medo do que aquela confisso 
poderia trazer. Olhava receosa para 
Alberto, mas ele estava parado, plido, 
sem reagir. Dentro dele havia a 
impresso de que sempre desconfiara de 
algo assim.  
Teresa continuava contando: 
_ Ele era solteiro e queria que eu fosse 
embora com ele. Apesar de tentada, 
recusei. No podia deixar meus filhos a 
quem sempre amei e no queria enfrentar 
a ira de meu marido nem o desprezo da 
sociedade. Decidi isso e acabamos nosso 
relacionamento. Ele se casou com a moa 
que sua me queria e eu procurei me 
dedicar  famlia.  
Contudo, pressionada pela paixo, 
cheguei a pensar que voc, Alberto, fosse 
o culpado da minha infelicidade. 
Alberto levantou os olhos e fixou-a, mas 
no disse nada. Teresa viu tanta dor em 
seu rosto que sua voz sumiu na garganta. 
Contudo, ela tinha decidido dizer a 
verdade. Fez um esforo grande e 
continuou: 
_S quando pensei que o tivesse perdido, 
dei-me conta de que eu fui  nica 
culpada. Eu fiquei dividida, tive coragem 
para desistir de Antero, mas no tive 
coragem de jogar fora aquela iluso, 
aquele sonho de amor impossvel que s 
me fez sofrer. E foi isso que fez com que 
eu no enxergasse suas qualidades e a 
distncia entre ns permanecesse. 
Olhando para trs, notei que a vida nos 
deu tudo para que fssemos felizes, mas 
eu no soube valorizar.  
Teresa fez uma pausa, depois como todos 
permanecessem silenciosos ela contou 
tudo quanto tinha acontecido, a 
chantagem, o encontro com Elvira, o 
plano da viagem, o seqestro, a fuga, o 
encontro com Renata, e a idia de faz-la 
entregar o dinheiro em seu lugar. 
A voz de Teresa se firmara de novo e 
havia um tom de tristeza que ela no 
conseguia dissimular. 
_Eu sabia que eu no tinha sido uma boa 
esposa para voc. Quando soube o que 
Osmar fizera, questionei minha postura 
de me.  
_ Voc sempre foi uma boa me!_ tornou 
Vitrio.  
_Uma me s e boa quando consegue com 
os filhos uma ligao de alma, uma 
intimidade que fortalece os laos de 
unio.  esse tipo de amor que faz com 
que os filhos se preservem, respeitem-se. 
Para isso eu precisaria me conhecer 
melhor, expressar meus verdadeiros 
sentimentos, o que na poca eu no sabia 
fazer.  
Teresa calou-se por alguns instantes. 
Ningum teve coragem de dizer nada. 
Alberto estava por, demais tocado. 
Descobriu que fora trado e a dor ainda 
estava viva dentro dele, principalmente 
por saber que Teresa sentira por outro 
que ele sempre sonhara que ela sentisse 
por ele. Sentia-se arrasado, sem coragem 
de dizer nada.  
Teresa pensou um pouco e disse: 
_ Apesar de tudo, sento-me aliviada. Sei 
que depois do que fiz no mereo a 
considerao de vocs. Eu pensei muito 
antes de decidir lhe contar. Mas estando 
longe, pude avaliar tudo quanto tinha 
perdido e prometi a mim mesma que se a 
vida me permitisse voltar a v-los eu 
abriria meu corao para que vocs me 
vissem como eu realmente sou. S assim 
terei o direito de esperar por uma vida 
melhor. Antero foi meu nico e terrvel 
pecado e reconheo que paguei muito 
caro por essa fraqueza.  
Teresa levantou-se e disse com voz firme: 
_O que eu mais quero na vida  que vocs 
me perdoem pelo que fiz e me aceitem de 
volta. Sou uma mulher que sofreu, mas 
que ainda acredita que podemos ser 
felizes juntos. Reconheo que vocs 
representam para mim tudo o que vale a 
pena neste mundo. Contudo, se no 
quiserem de volta, se voc, Alberto, no 
puder me perdoar, esquecer tudo e tentar 
um recomeo a meu lado, saberei 
compreender. Mas eu no podia voltar e 
continuar mentindo.  
Alberto, de cabea baixa, no conseguia 
articular palavra. Estava comovido, 
tocado, sentia que precisava ficar s, 
pensar em tudo e no tinha como 
responder.  
_Vou embora. Volto para a minha casa. 
L, vou ficar esperando o que vocs 
decidirem.  
_Eu quero que voc fique  disse Vitrio! 
__ Para mim voc continua sendo a mais 
digna das mulheres.  
 preciso ter muita grandeza de alma 
para fazer o que voc fez. Eu continuo 
amando-a, ainda mais tendo podido 
contemplar a sua beleza interior.  
_ Agora no, meu filho. Agradeo sua 
prova de carinho. Mas hoje eu vou para a 
minha casa.  
_ Eu acompanho voc. 
_Prefiro ir s. Fique com seu pai.  
Teresa foi saindo, Dinda e Vitrio foram 
com ela at a porta. Por mais que Vitrio 
insistisse, Teresa convenceu-o a ficar. 
Pediu-lhe que chamasse um txi e foi 
embora.  
Vitrio entrou na sala e encontrou Alberto 
no mesmo lugar. Aproximou-se dele, 
abraou-o e no encontrou nada para 
dizer. 
Permaneceram abraados durante alguns 
minutos, depois Alberto disse.  
_ Estou muito cansado. Vou para o meu 
quarto.  
Ele foi e Vitrio olhou para Dinda, que 
ficara na porta da sala sem saber o que 
dizer. 
_ Teresa no podia ter feito isso. 
Ciumento como  o Sr.Alberto nunca vai 
perdo-la.  
Vitrio olhou-a pensativo e disse: 
_ Uma atitude verdadeira nunca d 
errado. Se meu pai no entender isso, 
ser intil mame tentar reconstruir sua 
vida ao lado dele.  
Dinda ficou tentando entender onde 
Vitrio queria chegar. Ele foi para o 
quarto. A tempestade ainda no tinha 
passado. Alm dos pais havia o caso de 
Osmar. Ele se recolheu para meditar e 
pedir ajuda aos seus amigos espirituais.                                                                              
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO       


CAPTULO 29                                                                                                  
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


Vitrio sentou-se na cama, fechou os 
olhos e agradeceu a Deus a volta de 
Teresa. Quanto mais pensava no que ela 
dissera, mais desejava que o pai a 
perdoasse. Sentia que se ele fizesse isso, 
haveria uma tima chance para que eles 
fossem felizes, dali para frente.  
Com sono, ele estendeu-se na cama, 
pensativo. Pouco depois adormeceu. 
Sonhou que caminhava por um jardim 
florido e Anal estava a seu lado.  
_ Que bom estar com voc neste lugar to 
lindo!  disse ele, alegre.  
_ Chegou  hora de cumprir o que 
prometi! Hoje voc vai conhecer parte do 
passado.  
Vitrio sentiu uma onda de prazer e 
perguntou:  
_ para onde estamos indo?  
_ Em um lugar que voc conheceu h 
muitos anos.  
Eles chegaram a uma praa onde havia 
um prdio de trs andares, rodeado por 
jardins.  
_ Este lugar me  muito familiar.  
Anal parou diante de um banco e 
convidou:  
_ vamos nos sentar.  
Eles se acomodaram e Anal continuou:  
_ Chegou  hora de voc saber a verdade. 
Vitrio emocionou-se. Anal segurou sua 
mo delicadamente e comeou:  
- Vou comear falando dobre a bela casa 
onde moravam Elisa, o marido e suas 
filhas gmeas. As duas irms eram to 
iguais que eram confundidas pelas 
pessoas. Apesar da semelhana, talvez 
por causa do temperamento alegre, Olga 
era a preferida de todos. Vendo que a 
irm chamava ateno por onde passava, 
Flora sentia muita inveja dela.  
_ Espere, estou vendo essa casa. Eu 
conheo as irms gmeas.  
_ Sim, voc est se recordado. 
_ Estou e sei que Olga apaixonou-se, foi 
correspondida e ficou noiva, mas no se 
casou com o rapaz. 
_  verdade. Ele morreu antes do 
casamento, vtima de uma emboscada.  
_ Agora me recordo de algum ter falado 
sobre isso. Nunca descobriram seus 
assassinos? 
_ Ns sabemos que foram dois. A polcia 
prendeu um deles, que confessou o crime, 
dizendo que Flora fora a mandante, mas a 
polcia no acreditou e concluiu que ele 
matou para roubar. Na verdade, Flora 
pagou uma boa soma ao preso para se 
retratar e no delatar o companheiro. Ela 
tinha um bom motivo para isso.  
_ Flora apaixonou-se pelo noivo da irm, 
assediou-o, porm ele amava Olga e 
recusou seu amor. Ento, quando 
faltavam poucos dias para o casamento, 
ela mandou mata-lo. Nesse tempo eu 
ainda no tinha reencarnado, mas conheci 
toda a histria. A famlia dela no 
desconfiou? 
_ Flora era dissimulada. Ningum 
desconfiou, nem Olga. Mas um dos 
assassinos, aquele que no foi descoberto 
pela polcia, era apaixonado por Flora e 
ela convenceu-o a praticar o crime. Foram 
cmplices. Mais tarde, quando ele 
descobriu que ela o usara, ameaou 
contar tudo  polcia e, para impedi-lo, 
ela concordou em casar-se com ele. 
_Olga sofreu muito com a perda, mas o 
tempo passou e ela acabou se casando 
com outro.  
_ Sim. Mas nunca foi feliz, sempre 
chorando pelo noivo assassinado. O 
marido a amava muito, mas no se 
conformava com a indiferena dela. Foi 
ento que a histria se repetiu:  
_ Como assim? 
_ Flora teve um filho e Olga, anos depois, 
tambm. Os dois primos brincavam juntos 
todo o tempo, mas Osvaldo filho de Flora 
tinha muita inveja de Vinicius, filho de 
Olga.  
_ Estou sentindo que vivi essa histria, 
Recordo-me que meu nome era Vinicius. 
_ Sim. Voc foi o filho de Olga. Osvaldo 
dissimulava o que sentia. Ento surgiu 
Oflia, uma moa linda, que se apaixonou 
por voc e foi correspondida. Quando 
Osvaldo o viu com ela, apaixonou-se 
perdidamente e desejou tirar de voc.  
_ Eu notei, mas nem liguei. Subestimei o 
interesse dele por ela.  
_ Voc no percebeu que o Osvaldo tinha 
muita inveja de voc. A inveja  a 
admirao transformada em raiva e a 
raiva, a manifestao do orgulho. Ele 
desejava possuir o que voc possua, por 
esse motivo fez tudo para atrapalhar o 
seu namoro. Armou uma cilada para ela e 
voc acreditou que ela o tivesse trado.  
_ Eu sei do que voc est falando! Eu me 
recordo de Oflia, ela era minha 
namorada e eu a amava. Sofri muito com 
o que aconteceu.  
_ Ela era inocente. Voc foi enganado.  
_ Eu me arrependi de no acreditar no 
que ela me disse e tentei encontra-la. Ela, 
porm, desapareceu. Nunca mais a vi. S 
a encontrei novamente depois que 
retornamos  ptria espiritual.  
_ Eu sei. Vocs se encontraram e 
desfizeram o mal-entendido. 
_ Lembro-me de tudo. Ela me perdoou e 
nos unimos aqui. Vivemos juntos at eu 
ter de voltar a nascer. Estou entendendo 
o que nos aconteceu. Olga era Teresa e 
Flora, Renata. Ela e Otvio assassinaram 
o noivo de Olga. Por esse motivo, 
atraram os assassinos naquela casa.  
_  verdade. Ontem conseguimos 
convence-los a aceitar um tratamento 
espiritual. Estavam cansados e sofridos. 
Foram encaminhados a um lugar de 
refazimento.  
_ Eles me pareceram muito rebeldes. 
Acha que conseguiro melhorar? 
_ Eles precisam aprender que maldade 
atrai maldade e que, se desejarem viver 
melhor,  preciso melhorar sua forma de 
enxergar a vida.  
_ E Elvira, por que entrou nesta histria? 
_ Elvira foi Elisa, me das gmeas. 
Quando ela veio para c soube de tudo e, 
avisada do que poderia acontecer no 
futuro, quis reencarnar para poder ajudar 
as filhas.  
_ Vocs sabiam que esse crime iria 
acontecer? 
_ Claro que no. Ns sabamos que essas 
pessoas eram maldosas e iam atrair a 
maldade. Mas no sabamos de que forma 
isso se daria. A vida programa as lies 
de cada pessoa de acordo com o que elas 
precisam aprender.  bom lembrar que 
seja o que for que atraiam, elas possuem 
livre-arbtrio e se mudarem sua maneira 
de pensar, escolhendo ficar no melhor, 
tudo vai se modificar.  
_ Seria muito bom que as pessoas 
soubessem disso. Mudar o padro de 
pensamento para melhor  a chave do 
progresso em todas as reas de nossa 
vida. Alberto foi o marido de Olga e duas 
vezes meu pai.  
_. Voc agora j lembrou do passado. 
_ Aqui  fcil, mas receio que quando 
voltar ao corpo esquea tudo novamente. 
Anal sorriu alegre: 
_  preciso deixar o passado passar. Sua 
vida anterior 
No foi do jeito que voc desejava. Mas 
esta ser muito melhor.  
_ Recordo-me que Osvaldo tambm no 
foi muito feliz. 
_ De fato. Oflia nunca quis nada com ele. 
Quando vocs se desentenderam ela foi 
para longe assim como voc, ele nunca 
mais a viu. Ele apaixonou-se por outra, 
que o rejeitou. Ento ele desejou ter 
dinheiro e poder. Ingressou na poltica, 
onde conseguiu algum sucesso. 
Novamente, ele se deixou arrastar pela 
vaidade. Sempre quis ser maior do que 
era. No teve pacincia para construir a 
felicidade da maneira adequada. Depois 
da morte, Osvaldo disse estar 
arrependido dos seus erros e pediu nova 
oportunidade. Teresa e Alberto 
acreditaram em sua sinceridade. 
Comovidos, concordaram em receb-lo 
como filho para que vocs dois, 
convivendo como irmos, pudessem 
esquecer os desentendimentos.  
_ Isso foi no astral, antes de nascermos. 
Aqui, quando ele esqueceu o passado, 
mostrou que ainda no gostava de mim. 
Mas eu tambm no me mostrei amigo. 
Pelo contrrio. Retomei a averso que 
sentia por ele. S quando ele foi preso e 
humilhado, notei que minha averso tinha 
ido embora, eu tinha mudado. Os anos de 
convivncia como irmos tinham criado 
um lao positivo entre ns. Descobri que 
gosto dele e fiquei muito triste por v-lo 
nessa situao.  
_ Voc est certo. Eu confio que com o 
tempo, a amizade que nasceu em seu 
corao, tambm tocar o dele. Um dia, 
Osmar descobrir o quanto voc o estima 
e isso o far mudar.  
_  o que eu mais desejo nessa vida. 
_ Nosso tempo acabou. Est na hora de 
voltar.  
_ J? Ah, uma ltima pergunta que 
preciso lhe fazer. Oflia est encarnada? 
_ Voc ainda no tem a resposta? 
_ Eu desconfio, mas no tenho certeza. 
_ Voc j sabe que sim e onde ela est 
Vitrio levantou-se entusiasmado:  
_  Estela? 
_ Eu preciso responder? Vamos embora.  
Na volta, deslizando de mos dadas 
Abalo, olhando a cidade l embaixo, 
Vitrio sentia uma sensao de alegria e 
prazer que ele no conseguiria descrever 
com palavras. 
Chegaram ao quarto dele e, antes que 
Anal fosse embora, ele indagou: 
_ E meus pais, ainda tm chance de 
viverem bem? 
_ Tm, mas tudo vai depender de como 
eles vo lidar com o orgulho ferido e 
conseguir se perdoar.  
Ela se afastou, atirando um beijo com a 
ponta dos dedos. Vitrio acomodou-se no 
corpo, mergulhando em um gostoso sono.  
Anal no foi embora, porquanto um 
jovem a chamou dizendo aflito: 
_ Ajude-nos, Anal. Ele est sofrendo 
muito.  
Ela viu o rosto de Alberto, angustiado, e 
respondeu: 
_ Vamos at ele. 
Quando Vitrio foi descansar, Alberto 
entrou no quarto e sentou-se na cama 
pensativo. Teresa amava outro homem! 
Esse pensamento o martirizava e ele no 
conseguia pensar em outra coisa.  
Sua cabea doa e ele no conseguia 
refletir com clareza. Ele fora enganado! 
Como no percebera que Teresa tivera 
um amante? A esse pensamento sentia 
aumentar sua dor. Em sua imaginao a 
via nos braos de outro homem, trocando 
carcias. Essa imagem era-lhe 
insuportvel.  
Ele nunca poderia esquecer esse fato. 
Ficou ruminando esse pensamento 
durante muito tempo. Atormentando-se, 
criando imagens de como teriam sido os 
encontros de Teresa com seu rival.  
Em alguns momentos, decidia que jamais 
a perdoaria. 
Em outros, sentia que no podia viver 
longe dela. Sem ela tudo perderia o 
sentido. No valia a pena viver.  
Ento, um pensamento louco surgiu em 
sua mente. O melhor seria acabar com a 
vida, deixar esse mundo onde no havia 
lugar para ele.  
Nessa hora alguns vultos escuros o 
assediaram e ele comeou a visualizar o 
revlver que estava guardado no armrio. 
Seria fcil ir at l, apanhar a arma e se 
libertar.  
Exatamente naquele instante, Anal, 
entrou acompanhada pelo jovem que se 
aproximou de Alberto e o abraou. As 
sombras escuras deixaram o quarto, 
assustadas.  
Anal comeou a orar e de seu peito 
saram raios de luz azul, que envolveram 
Alberto, enquanto o rapaz, abraado a 
ele, falava em seu ouvido: 
_ Alberto, pense melhor. No se deixe 
levar pela vaidade. No d foras para o 
seu orgulho ferido. Eu estou aqui, 
torcendo por voc.  
Alberto no ouviu suas palavras, mas, aos 
poucos, foi se acalmando. O rapaz 
continuou:  
_ Teresa  mulher sincera.  
Desta vez ele pensou: Apesar do que fez, 
ela foi sincera. Arrependeu-se de no ter 
me contado. 
_ Ela fez mais, descobriu que gosta de 
voc e deseja faze-lo feliz. Quer 
recuperar o tempo perdido.  
_ Ela disse que descobriu que gosta de 
mim, de nossos filhos e deseja viver o 
resto da vida ao nosso lado. Mas eu terei 
condies de ser feliz depois do que ela 
confessou? 
_ Voc quer jogar fora essa chance de 
felicidade que a vida est lhe oferecendo? 
No percebe que ela o traiu uma vez, mas 
voc a traiu vrias vezes com muitas 
mulheres? Por que se julga melhor do que 
ela? Sua vaidade no o deixa enxergar o 
quanto est sendo parcial. Se analisar 
melhor, ver que ela foi mais sincera do 
que voc, uma vez que o perdoou e 
deseja ser feliz ao seu lado. Vai perder 
essa chance? 
Alberto passou a mo nos cabelos, 
pensativo. Ele reconhecia que nunca fora 
fiel. Reconhecer isso naquela hora era 
arrasador. Mas por outro lado, fazia 
desaparecer de sua mente a raiva por ter 
sido trado. Admitia que, a vida, tinha 
sido justa. Ele fizera e recebera de acordo 
com o que havia feito.  
A esse pensamento, Alberto sentiu-se 
aliviado. O jovem olhou para Anal, que 
disse:  
_ Conseguimos. Agora vamos faz-lo 
descansar. Ele precisa recuperar as 
foras.  
O rapaz passou as mos em volta de 
Alberto, emitindo pensamentos de calma. 
Ele comeou a bocejar. Um sono 
invencvel tomou conta dele, que se 
estendeu na cama.  
_ Estou muito cansado. Preciso dormir.  
O jovem repetiu, alisando sua testa: 
_ Sim. Voc precisa descansar. E quando 
acordar, vai se sentir muito melhor.  
Os dois viram quando o duplo de Alberto 
saiu do corpo e, vendo-os, assustou-se 
com os raios de luz que ambos emitiam: 
_ Vocs so anjos!  exclamou meio 
inconsciente.  
_ Ns somos amigos. Vamos lev-lo a um 
lugar onde vai recuperar suas foras.  
Os dois postaram-se um de cada lado e o 
abraaram. Depois, levaram-no volitando 
e quanto mais se distanciavam, mais 
Alberto se tornava lcido. Em 
determinado ponto, olhou para o jovem e 
disse emocionado:  
_ Ronaldo  voc? 
_ Sim.  
_ Estou sonhando ou eu morri? Voc 
morreu quando eu ainda era adolescente! 
_ No, meu irmo. Eu continuo vivo. A 
morte no existe.  apenas uma viagem 
para o outro mundo.  
_ Voc est vivo! Mame ficou 
inconformada quando voc morreu! 
_ Hoje ela j sabe de tudo. Estamos 
juntos no mesmo plano.  
_ H anos eu no me sentia to bem. 
_  hora de esquecer o passado e 
recomear. Vocs ainda tm tempo para 
desfrutar uma vida melhor.  
_ Isto s pode ser um sonho! No pode 
ser verdade. Eu pensava em morrer e 
voc me chama para a vida! 
_ No existe morte, s existe vida. S 
vida, sempre vida! Respire, aproveite 
estes momentos para revigorar seu 
corpo. Olhe as belezas  sua volta e 
agradea ao Criador por ter nos dado esta 
oportunidade.  
Alberto olhou em volta, estavam em um 
bosque belssimo. Aspirou o perfume das 
flores que coloriam os canteiros e se 
comoveu. Ele, que h muito tinha se 
esquecido de rezar, diante de tanta 
beleza, orou fervorosamente, abenoando 
a vida, a natureza.  
Vitrio acordou, j era incio da noite. 
Levantou-se pensando no pai. Como 
estaria? Lavou o rosto, penteou os 
cabelos e foi procurar o pai. Ele no 
estava na sala. Dinda, vendo-o, 
aproximou-se e, antes que ele falasse, 
disse:  
_ Estou preocupada com o Sr. Alberto. Ele 
nunca dorme de dia. Deitou-se naquela 
hora em que voc foi para o quarto e est 
dormindo at agora! So sete horas, o 
jantar est pronto. Fui at o quarto 
chama-lo, mas ele ainda est dormindo. 
Nem me ouviu entrar. Ele tem um sono 
leve, isso no  normal.  
_ Vou v-lo. 
Vitrio entrou no quarto e aproximou-se 
da cama. Alberto dormia, mas seu rosto 
estava calmo e ele respirava 
normalmente.  
Vitrio voltou  sala. 
_ E ento?  indagou Dinda.  
_ Ele dorme como um beb. Mas parece 
bem. A volta de mame s e salva o fez 
relaxar. Vamos deix-lo descansar, 
jantaremos mais tarde. 
Uma hora depois, quando Alberto acordou 
e apareceu na sala, Vitrio tornou:  
_ Finalmente voc conseguiu adormecer. 
Entrei em seu quarto e voc estava em 
um sono to profundo que nem me ouviu 
entrar.  
Alberto olhou-o, calmo, e respondeu: 
_ Estou me sentindo melhor. Dormi como 
h muitos anos no dormia.  
_  que a tenso acabou com a volta de 
mame. 
_ No foi apenas isso, meu filho. Hoje foi 
um dia diferente. Fui para o quarto 
arrasado, sentindo que precisava pensar 
em tudo que sua me disse. Confesso que 
estava inconformado, sem querer aceitar 
a verdade. A traio dela doa e eu 
cheguei a pensar at em acabar com a 
vida.  
Ele fez uma pausa e Vitrio levantou-se, 
abraando-o: 
_ Por que no me chamou para 
conversarmos? 
_ nem pensei nisso. Eu precisava me 
confrontar refletir sofre os fatos, e s eu 
poderia fazer isso. Mas enquanto eu 
pensava em acabar com a vida, parecia 
que eu ouvia uma voz que me respondia. 
Quando eu pensava na traio de Teresa, 
a voz me dizia que ela me traiu uma vez, 
enquanto eu a tra inmeras vezes, com 
muitas mulheres. Penso que era minha 
prpria conscincia, repreendendo-me 
pelo meu orgulho de achar que eu sou 
mais digno. No fim, cheguei  concluso 
de que sou mais culpado do que ela. Senti 
que eu no tenho moral para exigir 
contas do comportamento de ningum.  
_ O orgulho  sempre um mal conselheiro. 
_ Eu mereci essa lio. Quando cheguei a 
essa concluso, senti que toda a minha 
revolta tinha ido embora. Minha raiva 
havia passado. Toda tenso desapareceu. 
Comecei a sentir um calor agradvel, um 
sono invencvel, deitei-me e adormeci.  
Alberto respirou fundo e, vendo que o 
filho o ouvia atentamente, continuou: 
_ Ento tive o sonho mais maravilhoso da 
minha vida. Vi-me em um jardim florido 
com uma mulher maravilhosa e um rapaz 
jovem que falou comigo e, para meu 
espanto, reconheci o Ronaldo, meu irmo 
que morreu quando eu ainda era 
adolescente. Voc acha isso possvel? 
_ Claro que  possvel. Eu mesmo tenho 
me encontrado com pessoas que vivem 
em outros mundos. Voc estava 
precisando de ajuda e o esprito de 
Ronaldo veio ajud-lo.  
_ Nunca pensei que os mortos pudessem 
voltar. Ele me disse que a morte no 
existe e que s existe a vida. Tudo  vida! 
Vitrio abraou o pai comovido:  
_ Finalmente pai, voc conseguiu 
perceber a verdade. O que mais ele lhe 
disse? 
_ Que  hora de esquecer o passado e 
desfrutar da felicidade. O que voc acha? 
_ Ele sabe o que est dizendo. Ns 
amadurecemos e j podemos viver 
melhor.  
_  isso o que mais quero. Amanh vamos 
ter com Teresa para lhe pedir que volte 
para a casa.  
Vitrio abraou o pai com carinho: 
_ Finalmente, pai! Estou certo de que 
escolheu o melhor caminho. Agora 
seremos felizes.  
_ Mas h o problema do Osmar... 
_  verdade. Mas vamos confiar. Uma 
hora ele vai entender que est errado e 
mudar. Vamos pensar que ele se 
arrependeu e nunca mais vai repetir o 
erro.  
_ Na delegacia ele no parecia nem um 
pouco arrependido. 
_ Sinto que  uma questo de tempo. 
Osmar sempre foi inteligente. Uma hora 
vai entender que quiser viver bem ter de 
mudar, e ns vamos todos os dias 
mandar-lhe pensamentos de luz e de 
amor para que ele se recupere logo.  
_ Voc me surpreende, meu filho. Ele 
nunca o tratou bem. Sempre fez pouco 
caso de voc. 
_ Eu tambm no o tratava como a um 
irmo. Mas eu mudei. Entendi que quando 
a vida nos uniu na mesma famlia queria 
que eu aprendesse a am-lo e esquecesse 
o passado.  
_ Estou orgulhoso de voc. Comeo a 
acreditar que tudo o que voc diz  
possvel.  
_ Claro que . 
Os espritos de Anal e Ronaldo, que 
estavam l, sorriram satisfeitos. 
 
*** 
 
Teresa chegou  casa triste, mas aliviada! 
No sabia como Alberto ia enfrentar a 
verdade. Era possvel que seu cime o 
impedisse de perdo-la. Mas ela estava 
disposta a aceitar sua deciso com 
coragem e retomar sua vida assim 
mesmo. Era o preo que teria de pagar 
pelo seu erro. No se deixaria abater.  
A campainha tocou e ela se surpreendeu. 
Alberto j teria decidido? Com o corao 
aos saltos, foi abrir: o delegado Monteiro 
estava na sua frente.  
_ O senhor? 
_ Desculpe vir sem avisar, eu liguei para 
Vitrio e ele informou-me que a senhora 
estava aqui.  
_ Entre, por favor. 
Ele entrou e sentaram-se na sala. Em 
silncio, o delegado retirou um pacote do 
bolso e entregou-o a ela, que 
imediatamente o abriu. Sua foto e de 
Antero estava logo em cima. Ainda no 
refeita da surpresa, Teresa viu que ali 
estavam todos os documentos que 
tentara obter.  
_ Este pacote foi encontrado na casa do 
crime. Guardei-os, deduzindo por que a 
mulher morta tinha ido l. Guardei sigilo 
para no atrapalhar as investigaes.  
Ele fez ligeira pausa e, vendo que ela 
ouvia atentamente, continuou: 
_ Quando a senhora fez seu depoimento, 
decidi no colocar essas provas no 
inqurito. Admirei sua franqueza e 
cheguei  concluso de que deveria 
devolv-los.  
Teresa ouvia! Olhos brilhantes de 
emoo. O delegado a aconselhou:  
_ Destrua-os. A senhora e sua famlia j 
sofreram muito e merecem ficar em paz.  
_ Mas h meu depoimento e quando for 
depor na justia terei de voltar ao 
assunto.  
_ Certo. Mas, apesar disso, esse material 
no aparecer nos jornais e pouparemos 
vocs.  
Monteiro levantou-se e Teresa disse: 
_ Obrigada, doutor. O senhor  um 
homem de bem.  
Os olhos de Monteiro brilhavam emotivos 
e ele respondeu: 
_ A senhora  uma grande mulher. 
Ele foi embora e Teresa olhou as fotos e 
os bilhetes que tinha nas mos. Foi  
cozinha, pegou uma panela colocou-os 
dento, jogou lcool e ps fogo.  
Ficou olhando as chamas, lambendo as 
fotos e os bilhetes que, em poucos 
segundos, transformaram-se em um 
punhado de cinzas. 
O passado definitivamente estava morto e 
ela, livre. Naquele momento teve a 
certeza de que estava pronta para 
recomear uma nova vida.                                                    
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


CAPTULO 30                                                                                                 
ONDE EST TEREZA?  ZIBIA GASPARETTO


Na manh seguinte, Alberto acordou 
cedo. Ele custara a dormir na noite 
anterior, fazendo planos para o futuro. 
Imaginando retomar seu trabalho na 
empresa ao lado de Teresa e Vitrio.  
Levantou-se, arrumou-se e foi tomar caf. 
Pouco depois, Vitrio chegou. Ele tambm 
acordou cedo querendo ir logo  procura 
da me.  
Depois do caf, eles informaram Dinda 
que iam buscar Teresa. Vendo-os sair 
apressados, ela sorriu alegre e elevou seu 
pensamento a Deus, agradecendo por 
tudo ter terminado bem.  
Quanto ao caso de Osmar, ela acreditava 
que quando ele desse-se conta do 
tamanho do erro que cometera, do quanto 
isso o prejudicara, arrancando-o de uma 
situao privilegiada e atirando-o em uma 
cela de priso, sem saber quando ficaria 
livre, pensaria melhor, e quando 
ganhasse a liberdade novamente, nunca 
mais teria coragem de voltar a fazer 
negcios ilcitos.  
Teresa tambm acordou cedo naquela 
manh. Refletindo sobre como seria sua 
vida dali para frente. A atitude do 
delegado a fizera sentir-se valorizada e 
com a certeza de que agira corretamente 
ao enfrentar seus medos. Apesar de 
temer que Alberto no a perdoasse, 
estava disposta a enfrentar os 
acontecimentos como uma conseqncia 
de seus erros. Sentia-se forte, apesar da 
insegurana do seu futuro.  
A campainha tocou e Teresa foi abrir. 
Emocionada, olhou Alberto e Vitrio, que 
imediatamente a abraaram.  
_ Me, viemos busc-la. Vamos para a 
casa.  
Teresa olhou para Alberto que a abraou, 
dizendo:  
_ Quero que voc volte para a nossa casa.  
As lgrimas desciam pelo rosto de Teresa, 
que os abraou, sem encontrar palavras 
para responder.  
Eles entraram e ela fechou a porta.  
_ Vamos arrumar suas coisas agora  
disse Vitrio.  
Ela fixou os olhos em Alberto e 
perguntou:  
_ Tem certeza de que  isso que voc 
quer?  
Ele no desviou o olhar e disse:  
_ Absoluta. Sinto que ns ainda temos 
tempo de nos conhecermos melhor e 
recomearmos nossa vida.  
_ Vamos nos sentar e conversar sobre 
nosso futuro  tornou Teresa, 
convidando-os a. entrarem na sala. 
Alberto sentiu que ela temia os arroubos 
de cimes que ele sempre tivera e 
respondeu: 
_ Ontem, depois que voc saiu, recolhi-
me para pensar. Sentia dor, revolta, no 
entendia direito as emoes que me 
atormentavam. No incio pensei at em 
acabar com a vida porque eu no 
conseguia perdoa-la, mas sabia que no 
poderia viver sem voc. O amor que sinto 
est mais vivo do que nunca.  
Ele fez ligeira pausa, depois continuou: 
_ Recordei-me dos meus erros, das 
traies que cometi me relacionando com 
outras mulheres e cheguei  concluso de 
que eu no tenho moral para lhe cobrar 
nada. Voc abriu seu corao e eu quero 
fazer o mesmo. Desejo que nosso 
relacionamento daqui para frente seja 
Limpo, claro e verdadeiro. Devo dizer-lhe 
que nunca amei outra mulher. Voc me 
desprezava e eu corria atrs das outras 
para provar-lhe que era apreciado como 
homem. Talvez esse tenha sido o maior 
dos meus erros. Fazia isso por vaidade, s 
alimentando meu orgulho. No fim, ficava 
mais infeliz do que antes.  
_ Eu sabia de tudo e imaginava que voc 
se comportava assim para humilhar-me 
por eu no ser uma mulher carinhosa. 
Os dois se calaram e Vitrio interveio: 
_ O orgulho continua sendo nosso maior 
inimigo. Enquanto lhe dermos fora, no 
encontraremos a felicidade.  
Teresa concordou com a cabea e Alberto 
continuou: 
_ Reconheo que se eu tivesse deixado a 
vaidade de lado e sido carinhoso, dando 
provas do imenso amor que sentia talvez 
voc tivesse correspondido. 
_ Penso que sim. 
_ Quero que me perdoe por no ter tido 
essa sensibilidade. Mas agora ser 
diferente. Ns mudamos, aprendemos.  
Teresa sorriu e levantou-se? 
_ Ajudem-me a arrumar as coisas. Vamos 
para a casa.  
Contentes, eles arrumaram tudo e 
colocaram no carro. Ela levou as coisas de 
Renata e pretendia manda-las para uma 
casa de caridade.  
Foi com alegria que chegaram ao 
apartamento, onde Dinda, radiante, 
esperava-os para o almoo. Vitrio, 
porm, no quis esperar. Tinha urgncia 
de ver os amigos.  
Foi  casa de Marlia, tocou a campainha, 
e Estela abriu a porta. Vendo-o, sorriu 
alegre:  
_ Estava pensando em voc! 
_ Eu tambm.  
Ele entrou e eles logo foram cercados por 
Marlia, Altair e Dorita. Depois dos 
cumprimentos ele falou da volta de 
Teresa e da alegria de t-la em casa. 
_ Ainda no vi Paulo. Pensei encontra-lo 
aqui.  
_ Agora ele s vem a passeio  informou 
Marlia. 
_ Para namorar a dona da casa  brincou 
Dorita. 
_ Vou ligar e dizer-lhe que voc est aqui. 
Marlia ligou e Paulo disse que iria at l 
para v-lo. 
_ Que rpido que ele resolveu me ver!  
brincou Vitrio.  
_ Tem mais algum que andava chorando 
pelos cantos  disse Altair. 
_ Cale a boca, menino  pediu Estela. 
_ Por que no diz a verdade? Estela est 
morrendo de medo que voc v embora 
para o Rio de Janeiro e no venha mais 
aqui.  
Vitrio olhou-a srio e respondeu: 
_ Ns nos reencontramos depois de tanto 
tempo e no quero perder essa 
oportunidade. 
Vendo que Estela estava emocionada, 
Dorita convidou-os a irem  cozinha, onde 
ela havia coado um caf fresquinho. 
Pouco depois, Paulo chegou, abraou 
Vitrio, interou-se dos ltimos 
acontecimentos e disse: 
_ Finalmente esse drama est tendo um 
final feliz! 
_ Estive na delegacia e Monteiro contou-
me que depois que vocs foram embora, 
Osmar no falou mais com ningum. 
Fechou-se num mutismo total, no 
responde quando falam com ele e nega-se 
a dormir na cama da cela. Monteiro 
contou que esse fato retarda a 
transferncia dele para um presdio, onde 
ficaria mais bem instalado. Monteiro 
precisa encerrar o inqurito e deseja que 
ele fale, testemunhe contra o Gil.  
_ Ns pensamos em ir visit-lo mais 
tarde. 
_ Apesar do comportamento dele, 
Monteiro pensa que  melhor ele no ver 
ningum da famlia por perto. Se pensar 
que est abandonado, talvez resolva se 
abrir. 
Vitrio suspirou e respondeu triste:  
_ vou me concentrar e pedir a Anal que 
nos ajude.  
_  uma boa idia. 
Vitrio conversou mais um pouco, depois 
se despediu. Estela acompanhou-o at a 
porta, enquanto os outros continuaram na 
cozinha, tomando caf.  
Vitrio segurou a mo dela, dizendo com 
carinho: 
_ No tenha medo. Agora que nos 
encontramos de novo, nunca mais nos 
separaremos. Ns temos um caminho a 
percorrer juntos.  
Ela sorriu e seus olhos brilhavam alegres. 
_ Eu preciso ir por causa de meu irmo, 
mas logo voltarei. 
Vitrio voltou ao apartamento e 
encontrou Alberto no telefone, falando 
com o advogado. 
_ E ento?  perguntou Teresa, quando 
ele desligou.  
_ O Dr. Jlio nos aconselhou a no ir hoje 
ver Osmar. 
Disse-nos que ser muito bom que ele 
fique sozinho com seus pensamentos. 
_ No sei se ele est certo. Tenho vontade 
de v-lo  reclamou Teresa.  
_ O Dr. Jlio tem muita experincia. Pode 
estar certo.  
Vitrio interveio:  
_ Quando no sabemos o que fazer 
podermos recorrer aos nossos amigos 
espirituais.  
Eles os olharam admirados, e Vitrio 
prosseguiu: 
_ Vamos nos sentar, elevarmos nosso 
pensamento e pedirmos aos espritos de 
luz que nos ajudem a encontrar o melhor 
caminho. 
Os dois concordaram, acomodaram-se. 
Vitrio pediu:  
_ Vamos fechar os olhos e nos concentrar, 
imaginando que esta sala est cheia de 
luz azul.  
Eles obedeceram e Vitrio continuou:  
_ Vamos mentalizar Osmar e imaginar 
que essa luz azul o que est envolvendo, 
levando-lhe energias de amor e paz. 
Vamos sentir todo o amor que temos por 
ele no corao e o abraarmos com 
carinho.  
Nesse instante, Vitrio viu o esprito de 
Anal e do jovem que estava ao lado dela. 
Imaginou que fosse Ronaldo que tinha 
auxiliado Alberto.  
Ronaldo envolveu-o e Vitrio comeou a 
falar: 
_ Sou Ronaldo. Acalmem-se e entreguem 
o caso de Osmar nas mos de Deus. 
Continuem envolvendo-o com amor, mas 
saibam que esta  uma grande 
oportunidade para que ele tenha 
sucumbido s tentaes do orgulho, mas 
agora j est maduro para perceber seus 
erros. Seu esprito j pode construir uma 
vida melhor. Alegrem-se por saber que a 
vida est agindo, mostrando-lhe seus 
pontos fracos e quando ele os reconhecer, 
aceitar que no  to grande como 
imagina nem to pequeno como se sente, 
encontrar o equilbrio do seu nvel 
espiritual e desfrutar de momentos mais 
felizes.  
Alberto sensibilizado, disse: 
_ Voc  o anjo que me ajudou. Sei que 
est ajudando Osmar.  
_ Sou um esprito que lhes quer muito 
bem e deseja que aprendam a valorizar 
as conquistas que fizeram. O orgulho 
excessivo de Osmar o tem infelicitado, 
mas quem de ns j ter vencido esse 
mal? A inveja  fruto do orgulho e da 
vaidade. E s a venceremos quando 
aceitarmos a nossa realidade e a vida 
como ela . Portanto, vamos assumir 
nossa responsabilidade como pessoa, 
cuidar bem do nosso progresso e confiar 
no futuro. Nenhum de ns pode julgar 
ningum. Mas  vlido esperar pelo 
melhor, porquanto a vida trabalha com 
segurana para nos conduzir  conquista 
da felicidade.  
_ Voc acha que Osmar um dia vai 
entender isso?  indagou Teresa, 
comovida. 
_ Esqueam o erro que ele cometeu, 
mentalizem as qualidades que ele tem e 
tratem de trazer para fora seu lado 
melhor. Se fizerem isso, o que desejam 
acontecer mais rpido do que vocs 
pensam.  
_ Voc vai continuar nos ajudando? 
- EU e Anal estaremos sempre tentando 
inspirar-lhes pensamentos elevados. 
Saindo daqui, iremos ter com Osmar, 
onde procuraremos ajuda-lo para que 
encontre o melhor caminho.  
Vitrio estendeu as mos sobre os pais e 
delas saram jatos de luz que os 
envolveu, fazendo-os se sentirem 
confiantes e fortalecidos. 
Depois, Ronaldo afastou-se de Vitrio, 
que, emocionado, continuava vendo-os. 
Ele abraou os pais, sentindo vibrar o 
amor que tinha no peito. Nesse instante, 
uma luz branca e brilhante desceu do alto 
sobre a cabea de todos.  
Anal e Ronaldo, abraados, 
contemplavam a cena radiantes. Depois 
tudo se apagou e Anal deu a mo a 
Ronaldo dizendo:  
_ Hoje conseguimos mais uma vitria. 
Sinto que Osmar desta vez vai se 
recuperar e esta famlia poder viver em 
paz. Vitrio vai se casar com Estela, 
Marlia com Paulo e entre todos vai existir 
uma grande amizade.  
_ E eu, o que acontecer comigo? 
_ Voc voltar nos braos de Estela e 
Vitrio. Desta vez para uma vida longa e 
proveitosa.  
A noite j havia descido sobre a terra e as 
luzes da cidade brilhavam l embaixo, 
enquanto as estrelas faiscavam no cu. 
De mos dadas. Anal e Ronaldo 
deslizavam no espao, sentindo o corao 
inundado de luz e muita confiana no 
futuro.

FIM.

SEMPRE-LENDO O MELHOR GRUPO DE TROCA DE LIVROS DA 
INTERNET
